FAZER LOGIN✦✦POV: Lorraine ✦✦
A mansão Valenti era menos uma casa e mais uma fortaleza.
Muros altos. Câmeras em cada ângulo. Homens de preto circulando pelos jardins com uma precisão militar que beirava o sobrenatural.
A limusine atravessou dois portões eletrônicos antes de estacionar diante de uma escadaria de mármore branco. O prédio em si era antigo — séculos de história em cada pedra — mas a tecnologia que o protegia era de ponta.
— Bem-vinda ao seu novo lar — disse Angelo, abrindo a própria porta antes que o motorista pudesse fazê-lo.
Lar.
A palavra ecoou estranha em minha mente. Eu nunca tivera um lar. Tivera quartos. Tivera espaços alugados dentro de casas de outras pessoas. Mas nunca um lugar onde eu fosse mais do que uma intrusa tolerada.
— Acomode-se — continuou Angelo, subindo os degraus sem olhar para trás. — Amanhã discutiremos os termos do contrato.
Contrato.
Certo. Era isso que éramos. Um contrato. Um acordo de negócios entre um homem poderoso e uma mulher desesperada.
Por que, então, meu coração apertou ao ouvir aquela palavra?
Uma empregada — morena, olhos castanhos, aproximadamente quarenta anos — me aguardava no topo da escada. Ela curvou a cabeça em uma reverência que parecia mais respeito do que obrigação.
— Senhora Valenti, vou levá-la aos seus aposentos.
Senhora Valenti.
Outro nome que não me pertencia.
— Por favor, me chame de Lorraine — pedi, com um sorriso cansado.
A mulher hesitou. Seus olhos deslizaram na direção em que Angelo havia desaparecido.
— O Don prefere que a tratemos pelo título adequado.
Claro que prefere.
Não insisti. Já aprendera que naquele mundo, escolhas eram luxos que pessoas como eu não podiam pagar.
Os aposentos ficavam no terceiro andar. Uma suíte enorme, mobiliada com móveis antigos e tecidos caros. Uma cama de dossel. Uma lareira acesa. Flores frescas em um vaso de cristal.
Minhas malas — poucas, humildes — já estavam arrumadas no guarda-roupa aberto.
— Há um banheiro privativo à esquerda — informou a empregada, mantendo os olhos no chão. — Se precisar de algo, basta tocar o sino ao lado da cama.
Ela saiu antes que eu pudesse agradecer.
Fiquei sozinha.
O silêncio da suíte era ensurdecedor. Nenhum som de carros, de vizinhos discutindo, de crianças correndo. Apenas o crepitar da lareira e o bater distante do meu próprio coração.
Sentei-me na beirada da cama.
O relicário de prata ainda estava em minha mão. Abri o fecho. Tirei a rosa vermelha, agora murcha, as pétalas manchadas de sangue seco.
— O que você fez, Lorraine? — sussurrei para a flor. — O que você aceitou?
Não havia resposta.
Claro que não.
Havia apenas o silêncio e a vastidão daquele quarto e o peso de um contrato que eu ainda não havia lido.
Bati na porta do escritório de Angelo às onze da noite.
Não porque quisesse. Porque não conseguia dormir. A cama era macia demais, o quarto silencioso demais, a solidão familiar demais para ser suportável.
— Entre.
A voz dele atravessou a madeira grossa como se fosse papel.
Empurrei a porta.
O escritório era uma biblioteca particular. Paredes cobertas por livros antigos, capas de couro, páginas amareladas. Uma lareira maior do que a minha aquecia o ambiente. Angelo estava atrás de uma escrivaninha de mogno, óculos de leitura no nariz, examinando um documento.
Ele não usava o paletó. Apenas a camisa branca, mangas arregaçadas até os cotovelos, revelando antebraços musculosos e veias salientes.
— Não consegue dormir. — Não era uma pergunta.
— Não.
Ele tirou os óculos. Guardou-os em um estojo de couro.
— Sente-se.
Apontei a cadeira diante da escrivaninha. Angelo balançou a cabeça.
— Não ali. Aqui.
Ele apontou para o sofá de couro próximo à lareira.
Obedeci. Não porque era submissa — eu nunca fora —, mas porque naquele momento, exausta e desorientada, obedecer parecia mais fácil do que pensar.
Angelo se levantou. Caminhou até o sofá. Sentou-se na ponta oposta, deixando espaço entre nós.
Distância.
Sempre distância.
— Quer saber o que está escrito no contrato? — perguntou.
— Quero saber o que espera de mim.
Ele me estudou por um longo momento.
— Proteção. Discrição. Lealdade.
— E em troca?
— Meu nome. Meu império. Minha proteção.
— Nada mais?
— Nada mais.
A frase ecoou entre nós. Nada mais. Sem amor. Sem toque. Sem a expectativa de que algo entre nós fosse além do comercial.
— E se eu quiser mais? — testei.
Os olhos de Angelo escureceram. Por um momento, jurei ter visto algo selvagem brilhar em suas íris.
— Não queira, Lorraine.
A advertência foi suave. Quase gentil.
Mas por baixo da gentileza, havia algo duro. Algo que me dizia que aquele homem guardava segredos. Segredos que poderiam me destruir.
— Amanhã — continuou ele, retomando o controle —, você vai se encontrar com meu advogado. Vai assinar os documentos. E depois, vamos nos casar.
— Tão rápido?
— Não há motivo para esperar.
Não havia mesmo.
O que eu esperaria? Um pedido de namoro? Flores? Declarações?
Aquilo não era um romance. Era um acordo comercial.
E eu, Lorraine, filha de ninguém, nunca tivera o luxo de escolher.
Rafael falou por uma hora.Sobre o passado. Sobre o presente. Sobre o futuro. Sobre como a máfia precisava mudar. Sobre como as famílias precisavam se unir. Sobre como os Valenti estavam fracos.— O Don está doente — disse ele, com um sorriso. — Todos sabem. Ele não aparece. Não fala. Não lidera.— O Don está vivo — respondi, com a voz calma. — E está liderando. Através de mim.— Através de você? — Rafael riu. — Uma mulher? Uma humana?— Uma mulher que construiu um império. — Ergui o queixo. — Uma mulher que destruiu o próprio pai. Uma mulher que transformou a família Valenti em um conglomerado legítimo.— Legítimo? — Rafael olhou para os outros capos. — Vocês ouvem isso? Ela está transformando a máfia em... empresa.— Estou transformando a máfia em algo melhor. — Levantei-me. — Algo que pode sobreviver. Algo que pode dar futuro aos nossos filhos.— Nossos filhos? — Rafael riu. — Você não tem filhos.— Ainda não.— E nunca terá. — Ele caminhou até mim. — Porque o Alfa não pode te marc
POV LORRAINEAs três semanas passaram devagar.Angelo começou a se preparar de uma forma que eu nunca tinha visto.Ele se trancava no escritório por horas. Não para trabalhar. Para meditar. Para controlar o lobo. Para garantir que, quando chegasse a hora, ele não perderia o controle.— Ele está mais calmo — observou Vittorio, uma tarde, enquanto caminhávamos pelos jardins. — Mais centrado.— Ele está com medo.— Medo é bom. Medo mantém o lobo na coleira.— E se a coleira quebrar?— Aí a senhora vai precisar ser mais forte do que ele. — Vittorio me olhou. — A senhora é forte o suficiente?— Vou ser.Ele assentiu.— A senhora sabe que pode morrer.— Sei.— E mesmo assim quer?— Quero.— Por quê?— Porque eu amo ele. — Olhei para as rosas vermelhas. — E porque eu prefiro morrer ao lado dele do que viver sem ele.Vittorio ficou em silêncio por um longo momento.— A senhora é mais corajosa do que qualquer um de nós.— Não é coragem. É amor.Ele saiu.Fiquei sozinha com as rosas e o vento e
✦✦ POV: Lorraine✦✦Na manhã seguinte, Angelo não estava na cama.Acordei com o sol entrando pelas cortinas e o espaço ao meu lado vazio. O travesseiro ainda tinha o formato da cabeça dele. As cobertas ainda estavam mornas.Mas ele não estava ali.Por um momento, o pânico me tomou. Será que ele havia fugido? Será que, depois da noite que passamos juntos, ele havia decidido que era demais? Será que eu havia me entregado demais e perdido tudo?Levantei-me. Vista o roupão.Desci as escadas.Encontrei-o no escritório.Estava sentado atrás da escrivaninha. Não estava lendo. Não estava trabalhando. Estava olhando para o vazio. As mãos cruzadas sobre a mesa. Os olhos vermelhos como se não tivesse dormido.— Angelo?Ele ergueu os olhos.— Bom dia.— O que aconteceu? — Caminhei até ele. — Por que não está na cama?— Eu não consegui dormir.— Por quê?— Por você. — Ele estendeu a mão. Pegou a minha. — Por nós. Pelo que aconteceu ontem à noite.— Foi ruim?— Foi a melhor noite da minha vida. — El
POV: Lorraine✦✦O beijo foi diferente.Não era o beijo contido dos últimos anos. Não era o beijo educado de quem tem medo de se perder.Era um beijo de fome. De desejo. De alguém que finalmente decidiu parar de lutar.— Lorraine... — sussurrou ele contra meus lábios.— Shhh.— Eu quero...— Eu sei.— Não posso.— Pode.— Vou me perder.— Então se perca.Ele parou.Recuou.Os olhos estavam dourados. Brilhando.— Não — disse ele, a voz rouca. — Ainda não.— Angelo...— Você não sabe o que está pedindo. — Ele tocou meu rosto. — A marca. A ligação. A possessão. É permanente.— Eu sei.— Você pode morrer.— Eu sei.— Lorraine...— Escute. — Segurei o rosto dele. — Eu não quero viver para sempre, Angelo. Eu quero viver agora. Com você. Seja por um ano. Seja por um dia. Seja por uma hora. Eu quero viver.Ele me olhou por um longo momento.— Você está falando sério.— Estou.— Você quer a marca?— Quero você.O silêncio foi ensurdecedor.— Amanhã — disse ele, finalmente. — Amanhã à noite. Se
POV: Lorraine✦✦Três anos.Foi quanto tempo levei para construir um império.Não exagero. Não estou sendo poética. É um fato.Em três anos, a família Valenti deixou de ser uma organização criminosa para se tornar um conglomerado empresarial legítimo. Hotéis de luxo em Palermo, Catânia e Siracusa. Cassinos legalizados na costa amalfitana. Uma rede de transporte que operava em toda a Sicília. Participações em vinícolas, olivais, imobiliárias.Tudo limpo.Tudo legal.Tudo meu.Não porque Angelo tivesse me dado. Porque eu conquistei.Trabalhei dezoito horas por dia. Negociei com banqueiros que me subestimavam. Enfrentei capos que se recusavam a obedecer a uma mulher. Destruí concorrentes que tentaram me sabotar.E, a cada vitória, a cada contrato assinado, a cada inimigo derrotado, eu me tornava mais forte.Mais fria.Mais sozinha.— A senhora está diferente — observou Vittorio, uma manhã, enquanto eu revisava relatórios no escritório.— Estou a mesma.— Não está. — Ele sentou-se na poltr
POV LORRAINEOs dias seguintes foram diferentes.Angelo passou a me tratar não como aliada, mas como parceira. Não como esposa, mas como igual. Levava-me às reuniões, ouvia minhas opiniões até o fim e, quando eu apontava um risco que os outros haviam deixado passar, assentia devagar e mudava o plano sem discutir. Numa delas, um capo tentou me interromper; Angelo apenas o encarou até o homem calar e me devolveu a palavra com um aceno.E, a cada dia, eu me sentia mais forte.Numa tarde de chuva fina, Vittorio me encontrou na biblioteca. Eu fingia ler, mas fazia vinte minutos que não virava a página.— A senhora está mudando o Don — observou ele, sentando-se na poltrona diante da minha.— Estou?— Está. Ele anda mais leve. Menos carrancudo. Menos sozinho.— Ele sempre foi sozinho.— Foi. Mas agora tem a senhora.— Isso muda alguma coisa?— Muda tudo. — Ele se inclinou, apoiando os antebraços nos joelhos. — A senhora é a primeira pessoa que ele deixou entrar. A primeira que ele deixou ver.







