INICIAR SESIÓNAcordei assustada, o coração disparado e a respiração pesada.
Tinha acabado de sonhar que o senhor Leopoldo havia morrido. Levei alguns segundos para perceber que estava segura no meu quarto, mas a sensação ruim continuava ali, agarrada ao meu peito como um aviso. — Que sonho horrível... — murmurei, passando a mão pelo rosto. O senhor Leopoldo era mais do que um patrão. Durante anos, ele havia me tratado com respeito, me ensinado tudo o que eu sabia sobre trabalho e negócios. Não queria nem imaginar uma vida sem ele. Levantei da cama e me preparei para mais um dia de luta. Minha vida era uma eterna corrida contra as contas. Economizava cada centavo do salário para ajudar em casa. Às vezes, me perguntava por que algumas pessoas pareciam nascer com tudo enquanto outras precisavam lutar até para respirar. Mas eu não podia desistir. A esperança sempre foi a única coisa que ninguém conseguiu tirar de mim. Quando desci as escadas, encontrei meu irmão sentado no sofá, com as mãos na cabeça. Ele chorava. Meu coração gelou imediatamente. — O que aconteceu? — perguntei, correndo até ele. — A mamãe... — Sua voz falhou. — Ela passou mal durante a madrugada. Estava sangrando. O pai a levou para o hospital. Senti minhas pernas enfraquecerem. — O quê? — Ele não quis te acordar. Peguei o celular com as mãos tremendo. — Por que ele não me chamou? Eu poderia ajudar! — Você chegou tarde do trabalho ontem. O pai não quis te preocupar. As lágrimas já queimavam meus olhos. — Espero que não seja nada grave... Liguei para meu pai. Uma vez. Duas. Três. Nenhuma resposta. A angústia começou a me sufocar. Durante todo o caminho até a empresa continuei ligando sem parar, mas ele simplesmente não atendia. Quando finalmente cheguei ao escritório, algo parecia estranho. Silencioso demais. Pesado demais. Assim que saí do elevador, o segurança veio ao meu encontro. Seu rosto abatido me deixou ainda mais nervosa. — Lira... Meu coração afundou. — O que houve? Ele baixou a cabeça. — O senhor Leopoldo sofreu um infarto esta manhã. Por um instante, o mundo parou. As vozes desapareceram. O chão pareceu sumir sob meus pés. Sentei na primeira cadeira que encontrei antes que minhas pernas cedessem completamente. — Não... — sussurrei. As lágrimas começaram a cair. — Não pode ser. Ontem ele estava sorrindo. Ontem estava trabalhando. Ontem estava vivo. — Você sabe que ele já estava com uma idade avançada — o segurança falou com gentileza. Balancei a cabeça em negativa. Não queria ouvir. Não queria aceitar. — E agora? — murmurei. — O que será de todos nós? O que seria de mim? Do meu emprego? Da minha família? Tudo estava desmoronando rápido demais. Meu patrão havia morrido. Minha mãe estava internada. E eu não conseguia fazer nada para impedir nenhuma das duas tragédias. Tentei participar do funeral, mas a cerimônia foi restrita à família. Voltei para casa carregando uma tristeza difícil de explicar. Mas o pior ainda estava por vir. Quando entrei, encontrei meu pai sentado à mesa. Seu olhar estava destruído. Meu coração apertou. — Pai... Ele demorou para falar. Como se as palavras fossem pesadas demais. — Sua mãe está com suspeita de câncer. O chão desapareceu novamente. Dessa vez de verdade. Levei a mão à boca. O ar faltou. Meu irmão me segurou antes que eu caísse. E então eu chorei. Chorei como nunca havia chorado. Porque naquele momento tive medo. Muito medo. Medo de perder a pessoa mais importante da minha vida. --- No fim da tarde, meu celular tocou. Era Will. Advogado do senhor Leopoldo. Ele pediu que eu comparecesse urgentemente ao escritório. Meu estômago afundou. — Pronto — murmurei. — Agora vou ser demitida. Vesti meu velho vestido florido e fui. Cada passo dentro daquela empresa parecia uma despedida. Passei pela minha mesa e senti os olhos encherem de lágrimas. Anos da minha vida estavam ali. Quando Will apareceu, me conduziu até uma sala de reuniões. — Venha comigo, Lira. Assim que entrei, encontrei dois homens. Um deles me observava como se eu fosse uma criminosa. Seu olhar era frio. Duro. Intimidador. Senti um arrepio percorrer minha espinha. Aproximei-me de Will. — O que está acontecendo? — Sente-se. Obedeci. E então ouvi algo que jamais imaginei ouvir. Testamento. Herança. Casamento. Bilhões. Meu cérebro simplesmente travou. Quando percebi, aquele homem arrogante chamado Rangel já estava me acusando de ter sido amante do senhor Leopoldo. As palavras dele me atingiram como t***s. Cada acusação machucava. Cada olhar de desprezo me humilhava. — Você é nojento! — explodi. — E você é uma interesseira! — Nunca precisei me vender para ninguém! — Então explique por que meu avô deixou metade da fortuna para você! Eu mesma queria saber. Mas ele não me deu oportunidade. Já havia me julgado. Condenado. Humilhado. Saí daquela sala chorando. Ferida. Indignada. Destruída. --- Minha primeira parada foi o hospital. Quando entrei no quarto, meu coração se partiu. Minha mãe parecia tão frágil. Tão pequena naquela cama. Tão diferente da mulher forte que sempre conheci. — Filha... — ela sorriu ao me ver. Um sorriso cansado. Dolorido. Sentei ao seu lado imediatamente. — Eu te amo, mãe. Minha voz falhou. — Amo tanto que dói. Ela segurou minha mão. — Também te amo. As lágrimas escorreram sem controle. — Aquela casa não é nada sem você. Ela sorriu. Mas seus olhos estavam cheios de medo. — Quero que cuide dos seus irmãos por mim. — Não! Balancei a cabeça imediatamente. — Não fale isso. — Lira... — Não fale! Minha voz saiu quebrada. — Você vai sair daqui. Eu vou fazer de tudo para isso acontecer. Tudo. Até mesmo aceitar aquele casamento absurdo e entregar também a minha liberdade. Até mesmo viver ao lado do homem mais arrogante que já conheci. Porque nenhuma escolha era mais importante do que salvar minha mãe. Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Naquela noite dormi na poltrona do hospital. Mas o sono não trouxe descanso. Trouxe medo. Quando amanheceu e os exames ficaram prontos, veio a confirmação. Câncer. A palavra caiu sobre mim como uma sentença. Minha mãe chorou. Meu pai chorou. Meus irmãos choraram. E eu também. Mas escondida. Porque alguém precisava ser forte. Mesmo que por dentro eu estivesse completamente quebrada. Nos dias seguintes procurei emprego. Procurei empréstimos. Procurei soluções. Bati em portas. Recebi recusas. Bati em mais portas. Recebi mais recusas. Era como se o mundo inteiro estivesse fechando as portas na minha cara. E, quanto mais o tempo passava, mais as palavras de Will voltavam para minha mente. "Cartão sem limite." "Fortuna." "Casamento." Fechei os olhos. Talvez eu não estivesse lutando apenas contra uma doença. Talvez estivesse lutando contra o destino. E, pela primeira vez na vida, eu não sabia se conseguiria vencer.A nossa vida havia se tornado um verdadeiro inferno desde que Clice reapareceu. Eu já não conseguia sair de casa para passear com os meus filhos sem sentir medo. Muitas vezes chorei escondida, cansada de viver sem paz. Chegamos a discutir algumas vezes por causa dela, mas Rangel sempre acabava se desculpando. — Me perdoa, meu amor. — Ele segurou minhas mãos com carinho. — Eu só quero proteger você e as crianças. Com o passar dos dias, a segurança ao nosso redor aumentou ainda mais. Havia seguranças em todos os lugares, e confesso que aquilo me incomodava profundamente. Precisamos redobrar os cuidados quando fomos informados pela direção da escola que uma mulher desconhecida havia tentado falar com Nina. Meu coração quase parou. Ainda bem que Rangel e eu já havíamos alertado a diretora sobre tudo o que estava acontecendo. A polícia foi acionada imediatamente, mas Clice conseguiu fugir antes de ser encontrada. Desde então, Rangel passou a cercar todos os caminhos possívei
Não tenho palavras para descrever a emoção de assistir a outro parto. Corri contra o tempo para chegar ao hospital, mas consegui chegar na hora certa. Mais uma vez me tornei um pai completamente babão. Segurar outro filho nos braços era algo surreal. A magia da vida nunca deixava de me emocionar. Lira amamentava o bebê com os olhos marejados de felicidade. Eu observava aquela cena encantado, impressionado com a força daquela mulher. Ela havia acabado de trazer mais uma vida ao mundo. Os médicos examinaram Henry cuidadosamente e nos deram a notícia que tanto esperávamos. Nosso pequeno nasceu saudável e forte. Pouco depois, Lira foi levada para o quarto. Henry dormia tranquilamente ao seu lado. Já havia ligado para as crianças e elas estavam enlouquecidas para conhecer o novo irmãozinho. O motorista trouxe todos ao hospital, e meus sogros também chegaram assim que receberam a notícia. Minha sogra foi a primeira a me abraçar. — Rangel, viemos assim que soubemos
■■ RANGEL Convidei Lira para viajarmos a sós após o nascimento do bebê Henry, mas fazer o quê? Ela é uma mãezona. Cabe a mim respeitar sua decisão. Nossa família cresceu e, com ela, o amor que nos une. Com o passar dos meses, acompanhei minha esposa em todas as consultas. Lira estava com um barrigão enorme, e eu não tinha metade da força que ela demonstrava todos os dias cuidando dos nossos filhos. — Rangel, por que está me olhando assim? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha e sorrindo. — Estou admirando você. A força que tem para carregar essa barriga. — respondi, acariciando sua mão. Lira soltou uma risadinha. — Está pesada, confesso. Não vejo a hora de tê-lo em meus braços, cuidar dele e niná-lo. Sorri ao vê-la tão feliz. — Agora vá se arrumar. Vamos jantar fora. Os olhos dela brilharam imediatamente. — Tá bom, Rangel. Aceito o seu convite. Meia hora depois, Lira desceu as escadas deslumbrante em um vestido vermelho. Fiquei sem palavras por alguns segundo
Após a prisão de Clice, um período de paz finalmente se fez presente em nossas vidas. Mesmo estando de repouso absoluto, continuo trabalhando de casa. Todas as manhãs tomo um pouco de sol no jardim, aproveitando a tranquilidade que há muito tempo não sentia. Numa dessas manhãs, Rangel se aproximou de mim com aquele sorriso que sempre faz meu coração disparar. — Bom dia, meu amor. — Abri os braços, querendo abraçá-lo. Ele se inclinou para me beijar na testa. — Bom dia. Posso beijar essa barriguinha e conversar com meu filho? — perguntou, com os olhos brilhando de emoção. Sorri. — Claro que pode. Rangel ajoelhou-se diante de mim e depositou vários beijos carinhosos sobre minha barriga. — Meu pequeno, sei que você ainda é bem pequenino, mas quero que saiba que seu pai já te ama mais do que tudo. Estou ansioso demais... pareço um pai de primeira viagem. Meus olhos se encheram de lágrimas. — Estou tão feliz por não ter perdido nosso bebê. Eu estava preparando uma surpres
●● BÔNUS — CLICE Sinto que o cerco está se fechando ao meu redor. Posso até acabar presa, mas antes vou destruir a mulher que roubou o amor que Rangel sentia por mim. Com o pouco dinheiro que me restava, aluguei um carro. Usei uma peruca, óculos escuros e roupas discretas. Preparei um disfarce perfeito. Passei dias observando cada passo de Lira. Naquela manhã, segui-a até uma clínica. Permaneci dentro do carro por alguns minutos, mas a curiosidade falou mais alto. Desci e entrei logo atrás dela. Observei quando foi chamada para uma consulta com uma ginecologista. — Então é isso... — murmurei, cerrando os punhos. — Exames de rotina ou talvez uma gravidez. Mas aquilo pouco me importava. Eu só queria que o meu plano desse certo. Voltei para o carro e fiquei esperando. O coração batia acelerado dentro do peito. Quando vi Lira saindo da clínica distraída, liguei o motor. Segurei firme o volante. Acelerei. E a atropelei. O impacto foi tão forte que ouvi o som do
LIRA Como está sendo difícil ficar longe dos meus filhos. Rangel fez uma chamada de vídeo para mim com Nina e Harry, e meu coração quase saiu do peito ao vê-los. Ouvir Harry me chamar de mamãe me encheu de felicidade. Amo meus filhos acima de tudo. Acho que nasci para ser mãe, porque me emociono com cada gesto, cada palavra e cada demonstração de carinho deles. Minha mãe permanece o tempo todo ao meu lado. Quando contei sobre a nova gravidez, nós duas choramos de felicidade. Ela me acompanhou durante o ultrassom para verificar como estava o bebê. Porém, a consulta trouxe uma notícia preocupante. — Você está com um descolamento de placenta, Lira. Precisará de repouso absoluto para que a gestação continue saudável — explicou o médico. Senti um frio percorrer meu corpo. Minha mãe apertou minha mão e sorriu com ternura. — Filha, o importante é que o bebê está bem. Enquanto houver vida, haverá esperança. Apegue-se a isso. Respirei fundo e acariciei minha barriga. — Eu acre







