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CEO e a Secretária
CEO e a Secretária
Autor: Karine Oliveira

O Peso da Linha de Frente

last update Data de publicação: 2026-06-14 21:55:06

O reflexo no vidro duplo da janela enorme da minha sala não mentia: o cansaço estava impresso nas linhas ao redor dos meus olhos, contrastando com a linha escura da barba por fazer. Olhar para Manhattan lá embaixo, com o formigueiro de táxis amarelos e pessoas apressadas cortando a Quinta Avenida, costumava me dar uma descarga de adrenalina. Hoje, só me trazia uma dor de cabeça latente.

A arquitetura imponente da Construtora Vance não era apenas concreto e vidro. Era o resultado de três gerações de suor, noites em claro e negociações implacáveis. Meu avô começou com uma pequena empreiteira no Queens, erguendo galpões e reformando sobrados. Meu pai expandiu o negócio para os arranha-céus comerciais, fincando nossa bandeira no coração de Nova York. Quando o bastão passou para mim, a responsabilidade não veio embrulhada em presente; veio como uma bigorna no peito. Eu precisava manter o império de pé e provar que o sangue novo era tão forte quanto o antigo.

Mas o problema nunca foi a engenharia, os prazos ou os orçamentos bilionários. O problema era o que vinha junto com o sobrenome.

Afastei-me da janela e me joguei na cadeira de couro, girando uma caneta pesada entre os dedos enquanto minha mente teimava em voltar para o jantar de sábado na mansão dos meus pais em Long Island.

A mesa estava impecável, o vinho era caro, mas o gosto na minha boca era de cinzas. Meu pai limpou os lábios com o guardanapo de linho, fixando os olhos claros em mim com aquela seriedade que desarmava qualquer um.

— Um homem sem uma família sólida é como um prédio sem fundação, Ethan — disse ele, a voz grave ecoando pela sala de jantar. — Você tem o talento, tem a garra, mas o conselho da empresa quer ver estabilidade. Um herdeiro precisa demonstrar que fincou raízes.

Minha mãe tocou no dorso da mão dele, concordando com um aceno suave antes de olhar para mim.

— Nós queremos o seu bem, querido. Mas você sabe como as engrenagens funcionam. Se você continuar focado apenas no trabalho, sem uma esposa, sem um plano de sucessão claro e tradicional, a pressão vai aumentar.

— Eu sou o CEO, mãe. O faturamento triplicou desde que assumi — rebati, tentando manter o tom de voz calmo, embora meu estômago estivesse revirando.

— E o conselho respeita isso — meu pai interrompeu, inclinando-se para a frente. — Mas o estatuto da família é claro sobre a liderança da holding principal. Se você se recusar a seguir o caminho natural, se continuar se esquivando de assumir um compromisso real, o conselho vai abrir espaço para o seu primo. E você sabe que o Richard está apenas esperando uma brecha para tentar ocupar a sua cadeira.

Aquela frase ficou ecoando na minha mente durante todo o domingo e persistia agora, na segunda-feira de manhã. Richard era um parasita que mal sabia a diferença entre uma viga de sustentação e uma parede de drywall, mas sabia bajular os acionistas antigos como ninguém. Eu não ia entregar o trabalho da minha vida de bandeja para ele. Nem fodend*.

Peguei o celular sobre a mesa de mogno. Meus dedos digitaram rapidamente na tela, enviando uma mensagem direta para Eduardo, meu advogado-chefe e o único cara nessa cidade em quem eu realmente confiava.

*Preciso de você na minha sala agora. Traga papel e caneta. Vamos redigir um contrato de casamento.*

Não demorou nem cinco minutos para a porta de jacarandá ser aberta sem que houvesse uma batida prévia. Eduardo entrou ostentando seu terno sob medida, mas a expressão em seu rosto era uma mistura de diversão e pura incredulidade. Ele fechou a porta atrás de si, caminhou até as poltronas diante da minha mesa e se largou ali, cruzando as pernas.

— Que p0rra de ideia maluca é essa, Ethan? — Eduardo perguntou, soltando uma risada anasalada enquanto jogava um bloco de notas em cima da mesa. — Você me manda uma mensagem dessas no meio de uma segunda-feira de manhã. Quem é a noiva? Porque, até onde eu sei, a sua agenda das últimas semanas se resume a canteiros de obras, reuniões com investidores e jantares de negócios. Você arrumou uma namorada secreta e decidiu casar por impulso?

— Não tem noiva — respondi seco, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos.

Eduardo piscou, a risada sumindo do rosto aos poucos. Ele se inclinou para a frente, me encarando seriamente.

— Como assim não tem noiva? Você quer que eu redija um contrato de transação de bens e união civil com um fantasma?

— Meus pais me deram um ultimato no sábado — expliquei, sentindo a mandíbula travar. — É o casamento ou o Richard assume a holding principal. O conselho está usando a falta de uma vida familiar estável para me pressionar. Eu não vou perder a empresa por causa de uma exigência arcaica de matrimônio. Então, nós vamos criar a solução.

— Criar a solução? — Eduardo repetiu, franzindo o cenho. — Ethan, um contrato precisa de duas partes. Duas assinaturas.

— E eu vou conseguir a outra parte. Só preciso que os termos estejam prontos primeiro. Quero um acordo estritamente confidencial, com prazo de validade de dois anos. Divisão total de bens, uma compensação financeira pesada para quem aceitar e cláusulas de convivência pública impecáveis. Sem traições, sem escândalos na mídia. Para o mundo e para a minha família, vai ser a história de amor perfeita que terminou em um casamento rápido.

Eduardo passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro pesado que denunciava sua preocupação professional.

— Cara, isso é loucura. É um tiro no escuro. Você está colocando o seu futuro nas mãos de uma desconhecida que você ainda nem encontrou. E se ela resolver abrir a boca? E se o acordo vazar para a imprensa? O Richard faria a sua caveira em dois segundos se descobrisse que o seu casamento é uma farsa corporativa.

— É por isso que o contrato tem que ser blindado, Eduardo. E é por isso que eu estou pedindo para você fazer isso — encarei-o firmemente, sem dar margem para contestação. — A multa por quebra de sigilo tem que ser alta o suficiente para arruinar a vida de qualquer um que pense em falar. Eu pago o que for preciso. Só preciso do documento pronto na minha mesa até o final do dia.

Ele me observou por alguns instantes, tentando encontrar qualquer sinal de hesitação no meu rosto. Não encontrou nenhum. Quando eu colocava uma meta na cabeça, não havia força na terra que me fizesse recuar.

— Tudo bem — Eduardo cedeu, pegando o bloco de notas de volta e destampando a caneta. — Vamos desenhar essa insanidade. Mas já vou avisando: encontrar alguém que aceite entrar nesse teatro e que seja convincente o bastante para enganar os seus pais vai ser a parte mais difícil de toda a sua vida.

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