Compartir

CAPÍTULO 6 - DESAPARECIDA

last update Fecha de publicación: 2023-04-01 10:39:47

***André Burck***

A sustentação oral durou apenas 20 minutos. Meu olhar encontra nos olhos de cada um dos jurados a resposta que eu quero, a resposta que a família da vítima merece.

— Diante de todo o exposto, senhores, acredito verdadeiramente que aqui, hoje, será feita justiça à vítima. E não só a ela, mas a toda sua família, principalmente a filhinha de apenas 5 anos, obrigada a assistir a sua mãe ser agredida física e emocionalmente pelo homem que deveria protegê-la.

Após mais algumas palavras, finalizo o meu discurso confiante de que mais um assassino será retirado das ruas.

A defesa ainda tenta reverter a opinião do júri, mas depois de aproximadamente uma hora, quando o juiz lê a sentença, saio do tribunal com a certeza do dever cumprido, pois o monte de estrume que matou a esposa diante da própria filha pegou pena máxima, 30 anos de reclusão, o que para mim ainda é pouco.

“Fui educado por uma mulher, que criou a mim e aos meus irmãos, sozinha. Sei de todas as dificuldades que ela passou e sei também que muitas mulheres se submetem a esses crápulas por não enxergarem outra saída, ainda mais ao ter filhos. A maioria deles abusa desse “poder” para ameaçá-las e coagi-las, pois sabem que elas, na maioria das vezes, colocam os interesses dos filhos antes de si mesmas. O problema nisso é que muitas não conseguem sair do ciclo de violência e, infelizmente, acabam sendo mortas pelos respetivos agressores”.

Os meus pensamentos me tornam alheio ao resto do mundo e só saio do modo silencioso quando o meu caminho é interceptado por Helena, uma brilhante advogada com quem saí logo que cheguei na cidade.

— Parabéns, doutor Burck! Mais um excelente trabalho da promotoria.

— Obrigada, Helena! Mas como você mesma mencionou, esse é o meu trabalho. — falo e desvio dela, seguindo pelo corredor até o meu gabinete, mas ela acompanha.

— Credo, estou apenas sendo gentil. Poderia sorrir e agradecer, sem ser grosseiro? — reclama, fazendo um bico que só ficaria bem numa criança menor de 4 anos.

Contenho-me para não revirar os olhos. Não tenho paciência para imaturidade.

Deixei claro a ela, na única vez em que saímos juntos, que não me envolvo emocionalmente com ninguém, nem me relaciono amorosamente. Ainda assim, depois de quase 2 anos, Helena não perde uma oportunidade de me bajular, sempre encontra motivos para forçar uma aproximação.

Paro e olho para ela, esperando que se flagre da sua inconveniência.

— Já agradeci, Helena. Agora, se me der licença, tenho trabalho a fazer.

Entro no gabinete com ela no meu encalço. Passo pela minha assistente que se levanta e vem atrás de nós, aflita.

— Doutor Burck, o seu… — Melinda tenta falar, mas Helena a corta.

— Dá um tempo, mocinha… estou terminando um assunto com seu chefe, já vou liberar ele pra você.

Melinda baixa a cabeça constrangida e faz menção de se retirar, mas eu a impeço.

— Fique, Melinda. Já terminamos aqui. Helena já está de saída, não é mesmo? — olho para minha colega de forma enfática, mas ela não parece compreender ou apenas se faz de desentendida.

— Bom, André, estive pensando… — ela fala com o corpo junto ao meu, puxando pela minha gravata. — E se a gente saísse para jantar um dia desses? Sabe o quanto aprecio a sua companhia, não sabe?

A sua insinuação é explicita, Melinda nos encara perplexa, com as bochechas coradas, o que eu chamo de vergonha alheia.

Sem me preocupar em ser indelicado, afasto Helena e dou alguns passos para longe dela.

— Me desculpe, Helena, isso não vai acontecer, não sou o tipo de pessoa que goste de socializar.

— Você é um grosseirão convencido, isso que você é, Doutor Burck. — ela diz, demonstrando o quanto está desapontada — passar bem.

Acompanho Helena sair pisando duro e bater a porta com força. Tamanha infantilidade me deixa ainda mais irritado.

— Essa mulher perdeu totalmente a compostura.

— Acho que o senhor magoou os sentimentos dela. — Melinda fala e a vejo segurar o riso.

— Fui apenas sincero. Não tenho tempo nem disposição para chatear pessoas apenas pelo prazer de fazê-lo. Segundo o meu irmão, irritar as pessoas,  é meu dom natural.

A minha assistente deixa escapar um riso baixo, mas engole em seco quando não me vê achando graça.

— Vamos ao trabalho, Melinda. O que você ia me dizer quando Helena interrompeu?

— Ah! Eu ia lhe avisar que o seu irmão ligou. Ele parecia bastante aflito e pediu que o senhor retornasse a ligação assim que possível.

— Ele não disse do que se trata?

— Não, apenas que era urgente.

Daniel não costuma ligar durante o horário de trabalho, então presumo que seja algo realmente importante. Por isso, pego o telefone e imediatamente completo a ligação para ele.

📲Mano, ainda bem que ligou. — a voz dele soa realmente preocupada e isso acende um alerta em mim — Estou quase entrando numa cirurgia, mas preciso falar sobre a Gaya.

📲 Gaya, o que tem ela?

📲 Aí é que tá o problema, eu não sei direito, mas algo está acontecendo. Recebi uma ligação estranha da Beta, governanta dos Matarazzo.

📲 Hum! Fala logo, o que ela queria?

📲 Eu não sei, brother. Quase não dava pra escutar o que ela dizia, parece que estava falando baixo, como se não quisesse que outras pessoas escutassem. Só entendi ser sobre Gaya estar em perigo.

Daniel fala num fôlego só, ele nem deveria estar tão nervoso assim, pois em poucos minutos estará no centro cirúrgico.

📲 Fica calmo, Dani, eu vou resolver.

Digo mais para convencer a mim mesmo do que a ele. Afinal, prometi ao pai de Gaya a protegeria com a minha vida, não posso falhar com ela nem quebrar a minha promessa.

Nãna Nascimento

Curte e comente. Isso incentiva o autor a continuar escrevendo e a melhorar sua escrita.

| 19
Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • CONFIAR - Série Recomeços - Livro I   CAPÍTULO  56 - EPÍLOGO 2 - FINAL

    ***GAYA MATARAZZO***— Festa! — Luca exclama, lançando um balão para o alto.— Sim, filho. Por isso tem que ficar quietinho pro papai terminar de arrumar seu cabelo. Só assim podemos ir curtir sua festa de aniversário. — André pede com carinho.— Nivelsário bebê! — Luca comemora, ainda atropelando as letras.— Isso mesmo, meu pequeno experto!Paro na porta, meu coração derretendo com a visão do momento pai e filho, sempre tão cúmplices e parceiros.André, mesmo com alguns fios de cabelo prateados, que surgiram no último ano, continua com sua forma física impecável. Ele mantém sempre a postura séria e imponente quando está no modo trabalho, mas se transforma em um bobo quando está comigo e com o filho.Luca, com seus dois aninhos, é uma cópia em miniatura do pai, mesmo tendo herdado meus cabelos escuros e encaracolados. Além disso, apesar de estar apenas começando a desenvolver sua fala, ele já mostra um talento incrível na arte da comunicação, se expressando com uma habilidade impressi

  • CONFIAR - Série Recomeços - Livro I   CAPÍTULO  55 - EPÍLOGO 1

    ***GAYA MATARAZZO***Dois anos depois…Faltando uma semana para o aniversário de dois anos de Luca, nos reunimos com a família para verificar como ficou a conclusão das obras na área de lazer da fazenda, que agora é propriedade da dona Vilma e dos filhos.— Ficou muito boa essa área, Gaya. Agora meu netinho vai poder se divertir ainda mais quando passa os dias aqui. — minha sogra fala entusiasmada.— Netinhos, no plural né, dona Vilma… — falo para provar Kiara, que me olha de cara feia. Ela ainda não confirmou, mas eu desconfio que minha cunhada esteja grávida.— Netinhos… você está grávida, Gaya? — o rosto da minha sogra se ilumina.— Não, sogra. Ainda não, talvez daqui a um ano pensemos em uma irmãzinha pro Luca. Mas o que eu quero dizer é que a fazenda agora é oficialmente sua, vai poder ver todos os netinhos que venha a ter, correndo por esse pátio.— É verdade, sou muito grata a você e seu irmão por isso.— Não tem o que agradecer, a senhora merece. — digo e recebo um sorriso agr

  • CONFIAR - Série Recomeços - Livro I   CAPÍTULO  54 - AINDA EXISTE ROMANCE

    Abro os olhos e a escuridão do quarto me envolve. O relógio do despertador marca três horas no instante em que a quietude da noite é quebrada pelo suave murmúrio de Luca, através da babá eletrônica.Me levanto e percebo Gaya se remexer para acender o abajur.— Tá na hora? — pergunta sonolenta enquanto senta na cama.— Parece que Luca precisa de fralda limpa e delivery de leite. — brinco e ela ri.— Já vou.Do outro lado do corredor, a luz suave revela nosso pequeno pacote de alegria se agitando no berço.— Olá, pequenino! Papai vai te deixar mais confortável, ok?Com suas bochechas rosadas e olhos curiosos, Luca sorri quando me vê. Com cuidado, troco a fralda, enquanto Gaya se prepara para amamentar.Muitos insistem que devíamos contratar babás para as noites, mas preferimos ser os pais que cuidam do filho. Não por economia, já que temos recursos de sobra. A verdade é que queremos vivenciar todas as etapas e momentos do nosso Luca, aproveitando não apenas os momentos agradáveis, mas ta

  • CONFIAR - Série Recomeços - Livro I   CAPÍTULO  53 - FELICIDADE TRANSCENDENTAL

    ***GAYA MATARAZZO *** — Respira! — André segura firme em minha mão enquanto Dani dirige para o hospital.— Tô respirando… AhhhhAs contrações fortes começaram quando estávamos descendo para a garagem, até então eram apenas fisgadas leves.Mesmo com o rompimento da bolsa, ainda consegui tomar um banho enquanto Beta terminava de preparar o Kit maternidade, que eu já havia deixado quase pronto, e Déco ligava para o doutor Ricardo Aires**, meu obstetra.Sob as orientações do meu médico, partimos para a maternidade, mas a cada contração a dor parece mais intensa, nem mesmo o carinho e apoio de André tem o poder de me distrair.— Calma, eu tô com você, meu amor. Vai ficar tudo bem. Logo estaremos com nosso Luca nos braços. — meu marido diz, tentando respirar na mesma frequência que eu.O trajeto até o hospital parece infinito, ou talvez seja apenas a dor distorcendo a noção de tempo. Ao chegarmos, a equipe já está nos aguardando, sou levada imediatamente para a maternidade, onde meu médico

  • CONFIAR - Série Recomeços - Livro I   CAPÍTULO  52 - ALÍVIO E ESPERANÇA

    ***GAYA MATARAZZO *** Olho para a roupinha tão pequena nas mãos de Daniel, bordadas com as letras MB e não consigo esconder o sorriso bobo. — Ouw, Dani, que amor! MB, de Matarazzo Burck, adorei. Muito, linda. Obrigada! Luca já vai sair da maternidade estilizado. Abraço meu cunhado com carinho. Escolhemos ele e Ceci para serem os padrinhos do nosso pequeno e agora eles não param de trazer presentes. Luca nem nasceu e está sendo muito mimado. Com trinta e oito semanas de gestação, já temos o quartinho dele pronto, à espera do nosso principezinho. — Você e Ceci estão tão empolgados, poderiam providenciar logo um primo ou prima pro Luca, né? — falo rindo, mas ele não me acompanha. — Confesso que dá vontade, mas não é tão simples. — ele dá um sorriso desanimado e suspira — Minha vida e a da Ceci são muito agitadas, um dia ela tá aqui no outro, tá do outro lado do mundo. Que tempo teríamos para um bebê? — Tenho certeza que quando for a hora vocês vão dar um jeito. — pisco um olho e ap

  • CONFIAR - Série Recomeços - Livro I   CAPÍTULO 51 - PENSAMENTOS SOMBRIOS (CAPÍTULO BÔNUS - NARRADO PELO EX MARIDO DE GAYA)

    ***CLÁUDIO SAMPAIO ***Chego à clínica psiquiátrica, disfarçado como enfermeiro. Desde que voltei para a cidade, há alguns meses, não tinha conseguido vir ver minha mãe. Finalmente consegui subornar um dos funcionários para que me ajudasse a entrar sem que ninguém suspeitasse de nada. Minha mãe vive aqui há anos. Ela sofre de um tipo de demência, passa o tempo todo em estado catatônico, sob efeito da medicação pesada.Entro pela porta de vidro que range levemente e o enfermeiro, um sujeito com olhos cansados, me olha com desconfiança.— Só alguns minutos, senhor Sampaio. Não faça nada que possa perturbar os pacientes. — Ele parece prestes a acrescentar algo, mas desiste, deixando suas palavras suspensas no ar.Atravesso o corredor em silêncio. As paredes amareladas parecem sugar a luz do ambiente, como se a própria clínica estivesse mergulhada na melancolia que atormenta seus pacientes. Finalmente, alcanço o quarto de minha mãe, o enfermeiro desliza uma chave na fechadura e empurra a

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status