登入Doze anos atrás, ele apostou que conseguiria conquistá-la. Agora, terá de convencê-la a continuar casada com ele. Beatriz Lacerda tinha um plano simples: voltar ao Brasil, surpreender o namorado e começar uma nova fase da vida. O problema é que a surpresa foi dela. Depois de encontrar Daniel com outra, Beatriz descobre que sua vida amorosa não é a única coisa prestes a desmoronar. Seu pai está doente, a empresa da família corre o risco de desaparecer e a única saída apresentada é um casamento de conveniência com um herdeiro que ela sequer conhece. Beatriz aceita por um único motivo: salvar o legado de sua mãe. Mas, quando finalmente conhece o futuro marido, descobre que o destino tem um senso de humor particularmente cruel. Arthur. Arrogante. Insuportável. Irritantemente bonito. E o mesmo homem que, doze anos antes, transformou o primeiro grande amor de Beatriz em uma aposta entre amigos. Arthur também não esperava reencontrar a única mulher que conseguiu partir seu coração. Muito menos descobrir que precisaria dividir uma casa, um sobrenome e uma cama — ainda que apenas nas aparências — com ela. Determinada a sobreviver aos doze meses de casamento sem cometer o mesmo erro duas vezes, Beatriz estabelece sete cláusulas. Quartos separados. Limites bem definidos. Nenhuma conversa sobre Paris. E a mais importante de todas: Nada de sentimentos. Parece simples. Até que as discussões começam a terminar perto demais, os ciúmes ficam difíceis de disfarçar e os beijos de mentira passam a parecer perigosamente reais. Entre provocações, segredos, uma herança ameaçada e verdades que nunca foram contadas, Beatriz e Arthur descobrirão que talvez o maior problema não seja continuar se odiando. Mas perceber que nunca deixaram de se amar. Porque casar com seu pior inimigo pode ser um desastre. Apaixonar-se por ele novamente pode ser muito pior.
查看更多1. O croissant
Beatriz Às 5h42 da manhã, o voo noturno de Londres pousou em Guarulhos, e eu tomei a decisão menos racional da minha carreira inteira: não ir direto para a casa do meu pai. Meu pai havia convocado uma reunião de família para sábado, usando aquele tom de quem não estava propriamente convidando. Não explicou o motivo. Apenas disse que minha presença era indispensável, uma palavra que, na boca dele, costumava significar problemas caros ou decisões tomadas sem me consultar. Eu tinha reservado um hotel até lá. O plano era dormir, tomar banho, recuperar alguma dignidade depois de onze horas de viagem e só então enfrentar a família. Mas havia Daniel. E havia três semanas de mensagens cada vez mais curtas. Bom dia, linda. Reunião. Depois falo. O depois já durava três semanas. Eu não sou uma mulher insegura. Sou consultora de reestruturação de empresas e passo os dias lendo balanços para descobrir onde algo grande começou a apodrecer em silêncio. Reconheço sinais. Também sei que uma analista que enxerga problemas em tudo é uma péssima analista, e que gente apaixonada tem obrigação de conceder o benefício da dúvida. Concedi. Com juros. Daniel se mudou para São Paulo seis meses antes, por causa de uma promoção no banco. Era a vida, ele disse, e eu concordei, porque era mesmo. Dois anos de namoro em Londres, uma chave de apartamento entregue numa noite de vinho — para quando você voltar — e uma convicção silenciosa, que eu não confessaria nem sob tortura, de que ali estava um homem estável. Atencioso. Adequado. Daniel não era um homem de grandes gestos. Nunca apareceu debaixo da minha janela com flores, nunca fez declarações cinematográficas e, graças a Deus, jamais tentou compor uma música para mim. Mas certa vez, em Londres, quando passei três dias com febre e me recusei a admitir que precisava de ajuda, ele apareceu com sopa, remédios e um termômetro. Ficou até eu melhorar. Não fez discursos. Não pediu agradecimentos. Gostei daquilo. De alguém que ficava. Talvez tenha sido naquele dia que comecei a acreditar que nós dois tínhamos futuro. Adequado é uma das minhas palavras favoritas. Também é a que melhor me define: adequada nas reuniões, adequada nos jantares, adequada nas despedidas de aeroporto. Em trinta e seis anos, ninguém jamais me chamou de imprevisível, e eu cuido da reputação. A surpresa daquela manhã era, portanto, o ato mais impulsivo que eu cometia desde... Tentei lembrar. Preferi não completar a frase. O motorista do táxi, um senhor chamado Jorge, explicou o trânsito da Marginal por quarenta minutos, como quem narra uma guerra. Ao descobrir que eu pretendia surpreender meu namorado, concluiu que quem chega de surpresa só pode amar. Agradeci, olhei pela janela e preferi não dizer que amar é um verbo que guardo para ocasiões de maior comprovação. Pedi que parasse numa padaria de esquina, em Moema, e comprei seis croissants de amêndoas, os preferidos de Daniel. Seis, porque eu não sei contar quando estou ansiosa e porque, sendo honesta, pretendia comer pelo menos dois. — Estou adequada — disse ao espelho do elevador do prédio dele, às 7h31. — É diferente de estar linda. O espelho, que não tinha obrigação nenhuma de concordar, mostrou uma mulher de olheiras fundas e camisa social amassada, com o cabelo preso num coque que sobrevivera a uma noite de avião por pura teimosia. Na mão esquerda, o saco de papel pardo, ainda morno, exalava o cheiro de manteiga mais honesto da cidade. O porteiro, um senhor de bigode e crachá torto, me olhou com desconfiança profissional. — Bom dia. Para qual apartamento? — Noventa e um. Daniel Moreira. Sou a namorada, estou na lista de visitantes. Ele conferiu uma prancheta e franziu a testa um milímetro, o tipo de franzida que as pessoas dão quando sabem de alguma coisa que não é da conta delas. — Está, sim, dona Beatriz. Quer que eu interfone? — Não. — Sorri pela primeira vez em doze horas. — É surpresa. Ele olhou para o telefone, depois para mim. — Ah. Certo. Ficou um segundo parado antes de liberar minha entrada. Na hora, achei que fosse excesso de zelo. Mais tarde, entenderia que certas pessoas tentam nos avisar de uma tragédia sem dizer absolutamente nada. O elevador subiu devagar. Ensaiei, em silêncio, a primeira frase. Bom dia, dorminhoco. Animada demais. Trouxe café da manhã. Óbvia demais. Eu voltei. Dramática demais. E, além disso, o que eu sentia não cabia em três palavras. Era uma mistura de saudade, cansaço e uma vontade rara, quase infantil, de ser recebida. Fui mandada para um internato na Suíça aos doze anos. Passei a adolescência chegando a lugares onde ninguém me esperava, e a vida adulta me ensinou a dispensar recepções e a fingir que isso era estilo. Naquela manhã, no nono andar, com um saco de croissants na mão, decidi, com a coragem dos cansados, que eu merecia ser esperada. Cantarolei Piaf, baixinho, sem perceber. Era um vício antigo, que aparecia sempre que eu ficava nervosa. Girei o anel no polegar. Respirei. O corredor do nono andar tinha carpete cinza e cheiro de produto de limpeza. A porta do 91 ficava no fundo, ao lado de uma planta de plástico que Daniel, na última visita a Londres, jurara detestar. Tirei do bolso a chave entregue numa noite de vinho. Não precisei usá-la. A porta estava encostada, mas não fechada. Ao lado, no chão, havia uma pequena sacola de entrega vazia e um guardanapo amassado. Imaginei que Daniel tivesse acabado de receber o café da manhã. Quase sorri. Pela primeira vez na vida, nós dois tínhamos tido a mesma ideia romântica. Então vi as sandálias douradas. Salto fino. Tiras delicadas. Um número que eu, com meus pés 38 e meu respeito pela circulação sanguínea, jamais conseguiria usar. Uma gargalhada feminina atravessou a cozinha. Depois, a voz de Daniel. Baixa. Divertida. Íntima. Tenho uma regra profissional: nunca tirar conclusões sem dados suficientes. Naquele corredor, com seis croissants quentes na mão e o coração começando a se comportar como um equipamento defeituoso, fiz o que sempre faço diante de uma situação suspeita. Contei os dados. Uma porta aberta. Um par de sandálias. Uma mulher rindo na cozinha do meu namorado. Empurrei a porta com o pé.12. Ressaca moral Arthur Acordei no sábado com uma dor de cabeça que não tinha absolutamente nada a ver com álcool. Bebi duas taças de vinho na noite anterior. Quantidade insuficiente para justificar o estado deplorável do meu humor. A verdadeira responsável tinha cabelos castanhos, olhos claros e uma habilidade extraordinária para transformar qualquer conversa numa disputa. Beatriz Lacerda. Passei doze anos sem vê-la. Em menos de três horas, ela conseguiu pisar no meu pé, questionar minha capacidade de tomar decisões e me lembrar de uma palavra que eu preferia ter eliminado do vocabulário. Aposta. O café estava pronto quando entrei na cozinha. Peguei uma xícara e consultei o celular. Sete mensagens do meu pai. Três de Otávio. Uma de Rafael, perguntando por que eu havia ligado às onze e quar
11. O corredor Arthur A sobremesa ainda estava sobre a mesa quando Beatriz decidiu que já tinha suportado aquele jantar por tempo suficiente. Henrique discutia com Augusto a possibilidade de realizar a cerimônia em três semanas. Vera parecia especialmente interessada na lista de convidados, embora ninguém tivesse confirmado que haveria um casamento. Eu, por minha vez, tentava descobrir por que o brinde de Beatriz à liberdade de escolha continuava me incomodando. Ela pousou a colher, limpou os lábios com o guardanapo e se levantou. — Com licença. Preciso ir ao toalete. Antes de sair, lançou um olhar na minha direção e inclinou discretamente a cabeça para o corredor. Não era um convite. Era uma convocação. Esperei alguns segundos
10. Brinde de cristal Beatriz Existem situações em que uma mulher precisa manter a compostura. Uma reunião com investidores hostis. Uma apresentação diante de um conselho de administração. Um jantar com a família depois de descobrir que seu namorado a traía. E existe uma categoria especial de sofrimento: descobrir que o homem escolhido para ser seu marido é o mesmo que você passou doze anos tentando esquecer e odiar. Arthur Vasconcellos estava sentado ao meu lado. Pior: estava confortável. Eu reconhecia aquela postura. Ombros relaxados, expressão tranquila, uma das mãos apoiada perto da taça. Como se encontrar uma antiga namorada numa negociação matrimonial fosse apenas mais um compromisso na agenda. Eu, por outro lado, considerava seriamente a possibilidade de me esconder debaixo da mesa. Não seria elegante. Mas seria terapêutico. — Beatriz, querida, você está tão calada — comentou Vera. Ergui os olhos. — Estou ouvindo. — Desde quando? Arthur tossiu discretamente. Olh
9. O noivo Arthur Eu tinha ensaiado a indiferença durante a semana. Não por insegurança. Por método. Quando se entra numa negociação às cegas, a primeira regra é nunca deixar o outro lado perceber que você também não sabe onde está pisando. Aceitei conhecer a filha de Augusto Lacerda porque minha cadeira na presidência executiva dependia daquela operação. Uma esposa seria uma complicação administrável, desde que viesse sem história, sem expectativas românticas e, preferencialmente, sem interesse em reorganizar minha vida. Meu pai dissera apenas que ela morava em Londres e trabalhava com consultoria. Não perguntei mais. Foi um erro. Às oito e dez da noite, eu estava junto à janela da sala privativa, girando uma abotoadura enquanto meu pai conversava sobre investimentos. Ouvi os saltos primeiro. Passos firmes, sem hesitação. Depois, uma voz feminina respondeu a alguma gentileza de Henrique com uma ironia perfeitamente educada. Meu corpo reconheceu aquela voz an












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