Mag-log in"Não entre no seu carro. Daniel mandou cortar os freios." A mensagem chega ao celular de Cecília quando ela está no estacionamento, segundos antes de ela dar partida no veículo. O número é desconhecido. E, depois daquela noite, Cecília já não sabe no que acreditar. Durante dez anos de casamento, Cecília transformou a pequena rede de hotéis herdada da mãe em um império. Deu a Daniel um lugar na direção, confiou a ele as operações da empresa e tentou manter os dois unidos mesmo após a perda do bebê que esperavam. Na noite em que deveriam celebrar tudo o que construíram, Cecília encontra o marido beijando Evelyn Brooks, uma funcionária que ela mesma contratou. Ao confrontar os dois, descobre que o caso dura meses e que Evelyn está grávida. Cecília sai antes que eles a vejam chorar. E então recebe o aviso sobre os freios. Ao descobrir que o remetente da mensagem é justamente a amante de seu marido, uma nova dúvida surge: Ela está tentando ajudá-la ou atraí-la para uma armadilha ainda pior?
view moreCECÍLIA ELLIS WHITMORE
O salão do Ellis Grand estava cheio, mas eu só conseguia pensar no discurso que faria dali a cinco minutos. Segurava o microfone desligado em uma mão e um cartão amassado na outra. Nele, entre agradecimentos à equipe e aos convidados da festa de aniversário do hotel, eu escrevi uma frase em especial para o meu marido Daniel. "Obrigada por estar comigo em cada passo, eu te amo." Ensaiei minhas palavras mais uma vez. Minha mãe teria gostado de ver o salão iluminado, as mesas ocupadas e o nome Ellis acima da entrada. Ela fundou aquele hotel muito antes de eu me casar. Depois de sua morte, herdei sua participação e continuei a expandir o negócio. O Ellis Grand era a origem de tudo o que hoje levava nossa marca. Um garçom passou oferecendo champanhe. Recusei com um sorriso e procurei meu marido entre os convidados. Daniel sabia que eu queria subir ao palco com ele. Dez anos de casamento mereciam, no mínimo, aquela foto juntos. Encontrei alguns diretores e vi a cadeira dele vazia perto da mesa principal. — Quatro minutos, senhora Whitmore — avisou o responsável pelo som, apontando para o relógio. Assenti e escondi o cartão atrás do microfone. Sério, por que Daniel tinha o hábito de desaparecer para atender ligações bem na hora em que eu precisava dele? Esse mentiroso me prometeu que hoje ficaria por perto! Enquanto atravessava o salão, avistei um cabelo louro muito familiar e o vi sair por uma porta lateral, com a mão no celular e o rosto sério. Sorri e fui atrás dele. Queria trazê-lo de volta antes que começassem a anunciar meu nome. Passei por dois carrinhos de serviço, desviei de uma funcionária apressada e segui pelo corredor, quando me deparei com uma cena que parecia absurda demais para ser real. Daniel não estava no telefone. Ele tinha uma mulher encostada na parede e a beijava com uma intimidade que não deixava espaço para nenhuma outra interpretação além da traição. Uma das mãos dele segurava a cintura dela. A outra estava em seu cabelo ruivo. Ela correspondia ao beijo, agarrada ao paletó que eu escolhi naquela manhã. Parei tão de repente que bati o ombro no batente. O microfone escorregou na minha mão, e precisei apertá-lo para não deixar que caísse. O som fez os dois se separarem. Daniel virou primeiro. A expressão dele mudou quando me reconheceu. A mulher levou os dedos à boca. Eu conhecia aquele rosto muito bem. Evelyn Brooks trabalhava na Ellis Living. Eu a entrevistei, aprovei sua contratação e a apresentei à equipe de pagamentos. Ela sabia que Daniel era meu marido. Quase todo mundo naquela cidade sabia. Olhei de Evelyn para Daniel. A música chegava abafada pelo corredor, uma melodia alegre demais para o que acabei de ver. Nenhum dos três se mexeu. Eu esperava que Daniel dissesse alguma coisa capaz de mudar a cena diante de mim. — Ceci... — chamou, dando um passo na minha direção. — Vamos conversar em outro lugar. — Quero uma explicação. — Minha voz saiu mais tranquila do que eu me sentia. Ergui a mão que segurava o microfone. — Agora. Seus olhos desceram até o aparelho. Daniel olhou para a câmera presa no teto, perto da porta da cozinha, e voltou a me encarar. — Abaixe isso, querida... — pediu, estendendo a mão. — Há funcionários passando por aqui. — Está desligado. — Mostrei a chave na base do microfone sem entregá-lo. — É só isso que preocupa você? Uma porta se abriu atrás de nós. Dois garçons saíram com bandejas e reduziram o passo ao reconhecer meu marido. Daniel segurou meu cotovelo e tentou me conduzir para uma pequena sala sem câmera, mais adiante. Soltei o braço com um puxão. Os garçons passaram entre nós depressa, e ouvi as rodas do carrinho se afastarem. — Não toque em mim! — Exigi, recuando. Ele baixou a mão. Perto da parede, Evelyn alisava a frente do vestido com os dedos trêmulos. Meses antes, ela me agradeceu pela oportunidade na empresa. Eu lhe disse que esperava vê-la crescer ali. Agora, mal conseguia suportar seu olhar. — Você sabia que ele era casado — eu disse a ela. — Trabalha comigo! Olha para mim todos os dias! Isso... Isso é...! Meu Deus... Evelyn abriu a boca, mas demorou a responder. Seus olhos passaram de mim para Daniel antes de pararem no chão. — Cecília, eu... — Ela apertou os lábios e apertou o vestido envergonhada. — Sinto muito. O que as pessoas fazem em uma situação como essa? Eu não sei o que fazer. Não sei como agir ou o que dizer... Aquelas palavras pareciam pior do que uma desculpa inventada. Ela não tentou negar nada. Daniel também não. O cartão do discurso estava molhado de suor entre meus dedos, e agora parecia piada querer agradecer especialmente a ele por ficar do meu lado. Pensei nas noites em que dormi sobre contratos para manter a empresa de pé, enquanto ele dizia que faria qualquer coisa por mim. Pensei em como se sentou ao meu lado no hospital, dois anos antes, quando perdemos nosso bebê. Eu devo parecer uma idiota para eles, já que nem sequer desconfiava que aquilo acontecia. Só o que estava claro era que aquela não era a primeira vez. — Cecília, vamos subir — Daniel insistiu, aproximando-se outra vez. — Você vai fazer seu discurso. Depois conversamos com calma. Encarei o homem que dividia minha casa, minha cama e a direção da empresa. Ele alisou a manga do paletó, preparando-se para voltar ao salão como se bastasse fechar aquela porta. Atrás dela, nossos convidados esperavam por mim e pelas palavras que eu nunca mais conseguiria dizer. — Você ainda acha que vou subir naquele palco com você? — perguntei, deixando o cartão cair no chão. Daniel olhou para o papel, depois para mim. Não respondeu. Sua falta de resposta rompeu o pouco controle que me restava. Dei um passo e o estapeei. Daniel virou o rosto e quando voltou a me encarar, a marca dos meus dedos já aparecia em sua face. Minha mão ardia. Virei para Evelyn, tomada pela mesma raiva. Ela recuou contra a parede. Eu já erguia o braço quando vi seus olhos se arregalarem. — Não machuque meu bebê! — gritou Evelyn, levando as duas mãos à barriga. Fiquei imóvel. Meus ouvidos pareciam zumbir agora. Novamente me deixaram atordoada. — O quê? — perguntei, olhando para a barriga dela. Olhei para o meu marido. Ele me encarou, com a mão sobre o rosto atingido, e finalmente respondeu: — Ela está grávida, Ceci. O filho é meu.EVELYN BROOKSAntes de ir à sede, passei pelo retorno na clínica. Tudo estava normal com meu bebê e nada de estranho foi detectado no meu sangue. Saí aliviada, mas não menos assustada em voltar para a mansão.Na Ellis Living, encontrei Vincent ao lado da minha mesa. Ele tinha o paletó aberto e batia a ponta de uma caneta no relatório dos fornecedores.— A correção da reforma ficou pronta? — perguntou, levantando a folha assim que me sentei.— Ainda não. — Coloquei minha bolsa na gaveta. — O comprovante mostra um pagamento para Northbridge Services. Antes de trocar o nome no cadastro, preciso confirmar com o banco quem recebeu o dinheiro.Vincent parou de bater a caneta. Seus olhos foram para o relatório e depois para mim.— Daniel não disse que Northbridge participou da obra como intermediária? Não há motivo para atrasar uma atualização simples.— Se é simples, a confirmação virá rápido. — Abri a tela dos pagamentos e procurei manter a voz tranquila. Por que ele mesmo não fazia essa
CECÍLIA ELLIS WHITMORE— Essa data foi um dia antes de perder meu filho.Evelyn olhou outra vez para a foto no celular. O rosto dela perdeu a cor, mas não tirou o telefone da minha frente. Mantive o dedo sobre a data, como se pudesse ter lido errado.Não tinha lido. Eu sabia de cor o dia em que entrei no hospital grávida e saí sem o meu bebê.— O que Daniel comprou? — perguntei. Minha voz saiu tão baixa que precisei repetir: — Está escrito o nome do produto?Evelyn aproximou a imagem com dois dedos. A foto mostrava um comprovante preso à lista de despesas, mas outra folha cobria a descrição da compra.— Não aparece — respondeu, erguendo os olhos. — Eu devia ter fotografado o resto. Tirei fotos às pressas, não sabia que te interessaria.— Você não tinha como saber. — Soltei o telefone sobre a mesa e esfreguei as mãos. Até poucos minutos antes, estávamos falando de uma reforma do hotel. Quarenta mil dólares enviados a uma empresa desconhecida. Aquilo continuava grave, mas a data no pap
EVELYN BROOKS Daniel chegou à mansão um pouco mais tarde. Encontrei-o no escritório, separando folhas em duas pilhas. — Pensei que fosse me avisar quando chegasse — falei da porta. Ele ergueu os olhos e sorriu. — Eu ia, amor. Vincent me pediu ajuda com umas contas antigas do Grand. Já estou acabando. — Você trouxe trabalho para casa? — perguntei, me aproximando da mesa. — Quer que eu confira alguma coisa amanhã? — Hoje seria melhor. — Daniel puxou uma cadeira para mim. — Você conhece os registros de pagamentos. Vincent quer limpar alguns erros. Sentei. Daniel colocou diante de mim uma folha intitulada “Correção de fornecedor”. Dois pagamentos de quarenta mil dólares se referiam à mesma reforma. Meu trabalho seria colocar no sistema o nome de quem recebeu o segundo valor. — Colocar o nome do empreiteiro nos dois? — perguntei, acompanhando as linhas com o dedo. — É o que consta no projeto. — Daniel pousou a mão em meu ombro. — O cadastro antigo ficou incompleto e não
CECÍLIA ELLIS WHITMORE— A partir de amanhã, vão barrar você na entrada do Ellis Grand.Olhei para Daniel por um instante, ele manteve a expressão séria, então comecei a rir. Ele pareceu ainda mais ofendido com minha risada.— Você está falando sério? — perguntei, ajeitando o casaco. — Quero ver você me impedir de entrar no hotel que minha mãe fundou.— Não teste minha paciência, Cecília. — Ele se aproximou da porta antes que eu a abrisse. — Nesse momento sou eu quem dou as ordens sobre a operação do Grand.— E eu dirijo a empresa à qual o Grand pertence. Passar bem. — Passei por ele e abri a porta.Atravessei a entrada do hotel sem olhar para trás. Naquela semana, ele estava trabalhando diretamente no Grand e agia como se isso lhe desse o poder de me expulsar. Não vou deixar essa ameaça sem resposta. Pela manhã, vou passar no hotel antes de ir à sede da Ellis.Dormir na casa de Maya já não era confortável, minhas roupas se misturavam às dela na área de serviço e eu raramente tinha um












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