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Capítulo 4 — O que me custaria

last update Data de publicação: 2026-07-20 22:41:30

POV: Henrique

Quando entrei no carro, ainda podia sentir meu rosto arder.

Nunca imaginei levar um tapa.

Muito menos de uma mulher como essa.

Passei em casa apenas o tempo suficiente para trocar de roupa.

Depois segui direto para o lançamento da nova tecnologia da Montes Corporation.

O projeto era meu.

A negociação tinha sido minha.

Cada detalhe daquele lançamento carregava minha assinatura.

Era mais uma prova de que ninguém conhecia aquela empresa melhor do que eu.

O trânsito me fez chegar alguns minutos depois do horário previsto.

O que detestava.

Assim que desci do carro, os flashes começaram.

Respondi algumas perguntas rápidas da imprensa.

Cumprimentei investidores.

Sorri para fotógrafos.

Tudo no automático.

Quando entrei no salão principal, uma cena chamou minha atenção.

Meu avô.

Adrian.

E alguns dos principais acionistas da empresa.

Conversando como velhos conhecidos.

Franzi a testa.

— O que ele está fazendo aqui?

Murmurei para mim mesmo.

Caminhei na direção deles.

Assim que me aproximei, Adrian sorriu.

— Irmão… chegou atrasado.

Ignorei a provocação.

Cumprimentei rapidamente os acionistas.

Aos poucos, eles se afastaram.

Restando apenas nós três.

Adrian colocou as mãos nos bolsos.

Completamente à vontade.

— O vovô já me contou a novidade.

O sorriso dele aumentou.

— Acho que consigo me acostumar com a sala da presidência.

Soltei uma risada curta.

— Você está muito confiante.

Olhei para Raul.

— Ainda não tem nada decidido.

Meu avô permaneceu em silêncio.

Foi Adrian quem respondeu.

— Tem mais do que você imagina.

Ele passou ao meu lado.

Parando apenas o suficiente para falar em voz baixa:

— Você nunca vai se casar com outra mulher.

Lara jamais permitiria.

Ela tem você na palma da mão.

Meu olhar endureceu.

Adrian apenas sorriu.

Sabia exatamente onde estava atingindo.

— Nos vemos em breve.

Ele se afastou.

Observei meu avô.

— O senhor sabe que eu mereço esse cargo.

Raul continuou observando o movimento do evento.

— Talvez.

Franzi a testa.

— Talvez, não.

Fui eu quem recuperou filiais.

Fui eu quem fechou os maiores contratos desta empresa.

Esse lançamento é apenas uma pequena parte do que construí aqui.

Não existe ninguém mais preparado para assumir a presidência.

Raul finalmente voltou os olhos para mim.

— Se acredita tanto nisso…

Fez uma breve pausa.

— Então sabe exatamente o que precisa fazer.

— Assine.

Sustentei seu olhar.

Ele não desviou.

Nem tentou negociar.

Apenas esperou.

Enquanto observava a tranquilidade estampada no rosto do meu avô…

Uma ideia começou a me incomodar.

Talvez ele realmente estivesse disposto a entregar tudo para Adrian.

A noite seguiu e eu observei de longes.

Meu avô conversar com os acionistas como se nada tivesse acontecendo.

Adrian se aproximar do grupo.

Raul sempre aceitava na conversa.

Apresentava aos investidores e grandes empresários que estava presente.

Observei alguns apertos de mão.

Sorrisos.

Conversas.

Meu estômago revirou.

Aquele lugar deveria ser meu.

Aquelas pessoas deveriam estar falando comigo.

Aquela sempre foi a minha posição.

Não a dele.

Virei as costas antes que alguém tentasse puxar conversa.

Deixei o salão em passos rápidos.

Atravessei o saguão principal e segui direto para os elevadores.

Enquanto os andares iam ficando para trás, uma única imagem insistia em voltar à minha cabeça.

Adrian.

Sorrindo ao lado do meu avô.

Como se a presidência já fosse dele.

Assim que entrei no escritório, fechei a porta com força.

Afrouxei a gravata.

Caminhei até a enorme janela de vidro.

Lá embaixo, Boston seguia seu ritmo.

Indiferente ao caos que tomava conta da minha cabeça.

Passei anos construindo meu nome dentro daquela empresa.

Enquanto outros aproveitavam a juventude, eu passava madrugadas analisando contratos.

Viajava quando fosse necessário.

Dormia poucas horas.

Aceitava toda a pressão que meu avô colocava sobre mim.

Tudo por um único objetivo.

A presidência.

Sempre foi o meu destino.

Nunca existiu um plano diferente.

Fechei os olhos por alguns instantes.

Então outro rosto surgiu na minha mente.

Lara.

Como eu explicaria aquilo?

Ela não merecia descobrir daquela forma que eu me casaria com outra mulher.

Durante anos carreguei a certeza de que devia minha vida a ela.

Era impossível ignorar esse peso.

Mas também existia outra verdade.

Eu não podia abrir mão da presidência.

Adrian dizia que Lara me tinha na palma da mão.

Soltei uma risada baixa.

Ele não fazia ideia do que estava dizendo.

Ninguém decidia meu futuro além de mim.

Meu olhar encontrou o contrato sobre a mesa.

Caminhei lentamente até ele.

A assinatura de Aurora continuava ali.

Firme.

Sem hesitação.

Abri a última página.

Peguei a caneta.

Permaneci alguns segundos observando o espaço reservado ao meu nome.

Depois assinei.

Era apenas um negócio.

Fechei a pasta.

A assinatura estava feita.

Não havia mais volta.

Durante alguns segundos permaneci encarando meu nome no final daquele contrato.

Parecia estranho.

Irônico.

Passei a vida inteira negociando contratos milionários.

Mas nenhum deles tinha custado tanto.

Soltei um longo suspiro.

A presidência agora estava ao meu alcance.

O preço era outro assunto.

Uma batida suave interrompeu meus pensamentos.

— Entre.

A porta se abriu.

Lara entrou sorrindo.

O vestido branco contrastava com os cabelos preto presos em um coque elegante.

— Eu estava te procurando.

Meu olhar encontrou o dela.

Sorri de forma discreta.

Mais por educação do que por vontade.

— Precisei resolver algumas coisas.

Ela caminhou até minha mesa.

Mas bastou me observar por alguns segundos para o sorriso desaparecer.

— O que aconteceu?

Balancei a cabeça.

— Nada.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Você mente muito mal.

Permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Depois olhou para a pasta fechada sobre a mesa.

— Seu avô passou a noite toda apresentando Adrian para os investidores.

Voltou a me encarar.

— O que está acontecendo, Henrique?

Respirei fundo.

Não existia uma maneira fácil de dizer aquilo.

— Eu assinei um contrato.

Ela sorriu, sem entender.

— Que contrato?

Desviei o olhar.

— Um contrato de casamento.

O sorriso desapareceu.

— Como é?

Minha garganta ficou seca.

— Eu vou me casar.

Ela riu.

Uma risada curta.

Nervosa.

— Para de brincar.

Continuei em silêncio.

Os olhos dela começaram a perder o brilho.

— Você está falando sério…

Assenti lentamente.

— É um casamento por contrato.

Dura apenas um ano.

Ela balançou a cabeça várias vezes.

Como se recusasse acreditar.

— Não…

— Lara…

— Não!

A voz dela ecoou pela sala.

— Isso não faz sentido.

Por quê?

Passei a mão pelo rosto.

— É uma condição do meu avô.

Ela deu um passo à frente.

— Então recusa.

Minha resposta saiu imediata.

— Não posso.

— Claro que pode.

— Se eu recusar…

Perco a presidência.

Ela permaneceu me encarando.

Os olhos marejados.

— Então é isso?

A presidência vale mais do que nós?

Fechei os olhos por um instante.

— Você sabe que não é tão simples.

Ela sorriu.

Um sorriso triste.

— Para mim parece bem simples.

Silêncio.

— Eu estive ao seu lado todos esses anos.

A voz começou a falhar.

— Fiz tudo por você.

Quando todos desapareceram…

Eu fiquei.

Continuei em silêncio.

Porque ela tinha razão.

Eu devia minha vida àquela mulher.

Machucá-la era a última coisa que eu queria.

Era justamente isso que tornava tudo mais difícil.

— Me diz que existe outra solução.

Abaixei a cabeça.

— Não existe.

Ela limpou uma lágrima.

Depois caminhou lentamente até o pequeno bar no canto da sala.

Pensei que apenas fosse pegar um copo d’água.

Até vê-la abrir a gaveta.

Meu corpo inteiro ficou alerta.

Ela retirou a pequena faca usada para quebrar gelo.

— Lara…

Antes que eu pudesse reagir, ela encostou a lâmina no próprio pulso.

— Para com isso.

Ela começou a chorar.

— Eu não consigo viver sem você.

Em dois passos alcancei seu braço.

Segurei seu pulso com firmeza.

— Me solta!

Ela tentou se desvencilhar.

Arranquei a faca de sua mão.

O objeto caiu sobre o tapete.

Ela perdeu as forças.

Acabou sentada no chão.

Chorando.

Passei a mão pelos cabelos.

Respirei fundo.

Peguei o celular.

— Roberto.

A resposta veio imediatamente.

— Venha até minha sala.

Agora.

Desliguei.

Os minutos seguintes foram tomados apenas pelo som do choro de Lara.

Nenhum de nós disse uma palavra.

Quando bateram na porta, ela já estava sentada no sofá.

Tentando controlar a respiração.

— Pode entrar.

Roberto entrou discretamente.

Olhou para mim.

Depois para Lara.

Percebeu que alguma coisa havia acontecido.

— Leve a Lara para casa.

Ele apenas assentiu.

Aproximou-se dela.

Ajudou-a a levantar.

Ela caminhou alguns passos.

Parou diante da porta.

Virou-se lentamente.

Os olhos ainda estavam vermelhos.

— Você tem certeza disso?

Permaneci em silêncio.

Ela sorriu entre as lágrimas.

Um sorriso vazio.

— Se eu passar por essa porta sem você…

Nunca mais me procure.

Meu peito apertou.

Mas as palavras saíram antes que eu pudesse impedir.

— Eu não posso abrir mão da presidência.

Ela fechou os olhos.

Assentiu devagar.

Como se finalmente tivesse entendido minha resposta.

Então saiu.

A porta se fechou lentamente.

Fiquei sozinho.

Observando a cidade através da enorme janela de vidro.

Eu tinha acabado de conquistar tudo o que sempre quis.

Mesmo assim…

A sensação de vitória parecia estranhamente distante.

A noite passou sem que eu percebesse.

Em algum momento, Boston adormeceu.

Depois voltou a acordar.

E eu continuava sentado na mesma cadeira.

O silêncio do escritório era quase sufocante.

Quando os primeiros funcionários começaram a chegar, levantei-me.

Passei a mão pelo rosto.

A gravata já estava afrouxada.

A camisa amassada.

Mas pouco me importava.

Peguei a pasta.

Saí da sala.

Assim que me viu, minha secretária arregalou os olhos.

— Senhor Henrique…

Parei por um instante.

— Cancele todos os meus compromissos da manhã.

Ela apenas assentiu.

Continuei andando.

Cada passo parecia mais pesado que o anterior.

Ao passar diante da sala da presidência, empurrei a porta sem bater.

Raul já me esperava.

Sentado atrás da enorme mesa.

Como se soubesse exatamente a hora em que eu chegaria.

Sem dizer uma única palavra, joguei a pasta sobre a mesa.

Ela deslizou alguns centímetros até parar diante dele.

— Está assinado.

Raul abriu a pasta.

Observou rapidamente a última página.

Um discreto sorriso apareceu em seu rosto.

Pegou o telefone.

— Marta.

Fez uma breve pausa.

— Organize uma coletiva de imprensa para amanhã de manhã.

Olhou rapidamente para mim antes de completar:

— A família Montes tem uma grande notícia para anunciar.

Desligou como se tivesse acabado de resolver um assunto qualquer.

Enquanto eu sentia que acabava de entregar minha liberdade.

Não esperei que ele dissesse mais nada.

Dei as costas.

Porque permanecer naquela sala significava admitir que aquela decisão tinha sido minha.

E, naquele momento…

Eu ainda não estava preparado para isso.

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