INICIAR SESIÓN
Quando cheguei ao casarão da famosa família Sampaio, uma palavra enorme piscava em minha mente: RECOMEÇO.
Eu estava recém-formada pela USP, no curso de medicina veterinária. Quando vi pela internet a vaga para trabalhar em Mato Grosso, pensei: por que não? Havia acabado de sair de um relacionamento falido, que sugou todas as minhas energias e, por pouco, não levou também minha alma. Talvez mudar de estado fosse exatamente o que eu precisava. A entrevista de emprego estava marcada, e um dos funcionários me conduziu para dentro da casa, que mais parecia uma mansão de novela. O caminho até a entrada principal era longo, cercado por jardins impecavelmente cuidados e árvores altas que projetavam sombras elegantes sobre o gramado. O casarão se erguia imponente diante de mim, com varandas amplas, janelas enormes e uma fachada que misturava tradição e riqueza sem fazer o menor esforço para esconder isso. Era impossível não perceber que aquela família tinha poder. Enquanto caminhávamos, senti o coração bater mais forte dentro do peito. Parte de mim estava ansiosa pela oportunidade. A outra parte ainda carregava o peso dos últimos meses — das discussões, das promessas quebradas e da sensação constante de estar presa em algo que, no fundo, já sabia que não tinha mais futuro. Respirei fundo. Recomeço, repeti mentalmente, como se aquela palavra tivesse força suficiente para reorganizar minha vida inteira. Assim que atravessamos a porta principal, fui recebida por um interior ainda mais impressionante. O piso de mármore refletia a luz que entrava pelas janelas enormes, e os móveis antigos, cuidadosamente posicionados, davam à casa um ar de elegância que parecia atravessar gerações. O funcionário pediu que eu aguardasse por alguns minutos. Enquanto me sentava, não pude evitar pensar que, de todas as decisões impulsivas que já tinha tomado na vida, aceitar uma entrevista de emprego no meio do Mato Grosso talvez fosse a maior delas. Ainda assim, alguma coisa dentro de mim dizia que eu estava exatamente onde deveria estar. Não demorou muito para o funcionário voltar e me mostrar onde era o escritório. — A dona Lilian pediu que entrasse — ele disse, com um gesto educado em direção à porta. Agradeci com um pequeno sorriso e caminhei até lá, tentando manter a calma, embora meu coração estivesse acelerado outra vez. Assim que abri a porta do escritório, encontrei uma mulher sentada atrás de uma mesa ampla de madeira escura. Ela levantou o olhar imediatamente, e um sorriso simpático surgiu em seu rosto, como se já me conhecesse há anos. — Pode entrar, você deve ser a Ana Júlia. Como foi a viagem? Vi que veio de São Paulo. Ela disse aquilo enquanto se levantava da cadeira e caminhava até mim, me pegando completamente desprevenida ao me envolver em um abraço caloroso. Por um segundo, fiquei surpresa demais para reagir. Não era exatamente o tipo de recepção que eu esperava em uma entrevista de emprego. — Estou bem — respondi, meio desconcertada, correspondendo ao abraço. Ela se afastou com naturalidade, ainda sorrindo. — Ah, querida, me desculpe, nem me apresentei. Sou Lilian Sampaio, responsável pelas contratações da fazenda. Assenti, tentando organizar os pensamentos. Lilian era uma mulher jovem. Não devia ser muito mais velha que eu. Era bonita de um jeito elegante e natural, e seu cabelo loiro reluzente quase brilhava de tão bem cuidado. Havia nela uma leveza inesperada para alguém que trabalhava em um lugar tão imponente quanto aquela propriedade. Por um instante, senti um pequeno alívio. Talvez aquela entrevista não fosse tão assustadora quanto eu havia imaginado. Lilian voltou para trás da mesa e fez um gesto para que eu me sentasse na cadeira à sua frente. Assim que me acomodei, ela entrelaçou as mãos sobre a mesa e me observou por alguns segundos, com um olhar curioso, quase analítico. — Me conte, o que te traz de tão longe? — perguntou com um leve sorriso. — Além da entrevista de emprego, claro. A pergunta veio de forma tranquila, mas carregava um interesse genuíno. Não parecia apenas uma formalidade de entrevista. Respirei fundo antes de responder. — Trabalhar em uma fazenda de grande porte seria uma excelente experiência para mim. Ela assentiu devagar, como se considerasse minhas palavras. — Sem dúvidas, Júlia. Mas me diga uma coisa. Lilian se inclinou um pouco na cadeira, mantendo os olhos fixos em mim. — Você tem um currículo invejável só de ter o nome USP na frente da sua formação. Poderia abrir um consultório em São Paulo e faria sucesso trabalhando com animais pequenos. Cães, gatos… esse tipo de coisa. Ela fez uma pequena pausa antes de continuar. — Você sabe que o trabalho aqui é com animais grandes, não sabe? Cavalos, bois, vacas… — acrescentou, apoiando o cotovelo na mesa. — Não é exatamente o caminho mais comum para alguém com a sua formação. Por um instante, tive a impressão de que aquela pergunta ia além de avaliar minhas habilidades. Era quase como se ela estivesse tentando entender quem eu era — ou o que, exatamente, me havia trazido até ali. — Eu sei, sim — disse. — Durante a graduação eu tive contato com clínica de pequenos animais, mas sempre gostei mais da parte de campo. Animais grandes… o trabalho é mais desafiador. Fiz uma pequena pausa. — E eu gosto de desafios. Lilian continuou me observando com atenção, como se estivesse tentando ler algo nas entrelinhas. — Entendo — ela disse por fim. — Mas imagino que não tenha sido só isso que te fez atravessar o país. Eu soltei um pequeno suspiro, apoiando as mãos no colo. Talvez não adiantasse fingir que aquela decisão tinha sido puramente profissional. — Eu precisava mudar de ares — admiti. Ela arqueou levemente as sobrancelhas, mas não disse nada, apenas aguardou que eu continuasse. — Terminei um relacionamento há alguns meses — expliquei. — E… bom, às vezes a gente precisa se afastar de tudo que lembra uma fase ruim para conseguir seguir em frente. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Lilian assentiu devagar, como se compreendesse perfeitamente o que eu estava dizendo. — Recomeços podem ser necessários — ela disse, com um tom mais suave. — Às vezes, são exatamente o que a gente precisa. Ela abriu uma pasta sobre a mesa, provavelmente com meus documentos. — Bem, Ana Júlia, a fazenda Sampaio é uma das maiores da região. Temos centenas de cabeças de gado, além dos cavalos de criação. O veterinário que trabalhava conosco precisou se afastar, então estamos procurando alguém que possa assumir essa responsabilidade. Ela levantou o olhar novamente. — O trabalho exige dedicação. Às vezes os dias começam antes do sol nascer. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios. — E raramente terminam no horário que a gente gostaria. Inclinei a cabeça, sentindo algo dentro de mim se acender. Aquilo não me assustava. Na verdade, parecia exatamente o tipo de vida que eu estava procurando. — Eu não tenho problema com isso — respondi. Lilian pareceu satisfeita com a resposta. Mas antes que ela dissesse qualquer outra coisa, um som de passos firmes ecoou no corredor do lado de fora. Passos decididos. Segundos depois, a maçaneta da porta girou. E alguém entrou no escritório.Depois de Sofia, vieram as minhas cunhadas. Lilian me abraçou primeiro, apertando meu corpo contra o dela com uma força que me fez rir. — Eu senti tanta falta de você. — Eu também senti. Júlia veio logo depois, e aquele abraço demorou ainda mais. Eu fechei os olhos por alguns segundos, sentindo aquela familiaridade que eu nem sabia o quanto precisava. — Você não sabe o quanto essa casa ficou sem graça sem você — ela brincou. — Mentira. — Um pouco. Rimos, e por alguns minutos foi como se eu nunca tivesse ido embora. Subimos para o meu antigo quarto depois que meus irmãos começaram a discutir alguma coisa lá embaixo. Lilian e Júlia entraram comigo, e foi estranho encontrar algumas das minhas coisas ainda guardadas ali. A cama, a janela, alguns livros que eu havia deixado para trás. Tudo parecia menor. Sentamos juntas, conversando sobre tudo e sobre nada. Elas queriam saber das missões, eu contei algumas histórias mais leves e escondi outras. Falamos de Sofia, das mud
Um ano e dez meses. Foi esse o tempo que passou desde o dia em que deixei o Brasil sem saber exatamente o que estava procurando. No começo, eu achava que queria apenas trabalhar. Queria voltar a ser médica. Queria recuperar uma parte de mim que tinha desaparecido depois de tudo o que acontecera em Londres. E, se fosse completamente honesta, também queria descobrir quem eu era quando não estava sendo esposa de alguém, namorada de alguém ou a mulher que precisava se encaixar na vida de outra pessoa. O Sudão do Sul me ensinou que eu não fazia ideia do que significava dizer que queria descobrir o mundo. Passei dez meses ali. Dez meses que pareciam, às vezes, dez anos. Aprendi rapidamente que a medicina em uma região marcada pela pobreza e pela falta de recursos não tinha absolutamente nada a ver com aquilo que eu conhecia. Faltavam medicamentos, equipamentos, profissionais, leitos. Faltava quase tudo. E, ainda assim, as pessoas chegavam até nós carregando crianças nos braços, trazen
O almoço continuou agradável, sem que ninguém parecesse perceber a pequena tensão que havia se instalado dentro de mim. Clara conversava comigo sobre a UBS, o pai de Henrique comentava algumas coisas sobre a fazenda e, vez ou outra, Henrique entrava na conversa, fazendo algum comentário ou brincando comigo. Em determinado momento, Clara comentou que precisava ir a Cuiabá durante a semana para resolver algumas coisas. — Eu também estava pensando em ir — Beatriz disse. — Preciso passar em alguns lugares antes de voltar para casa. Clara olhou para ela. — Então vamos juntas. — Podemos. Beatriz virou-se para mim com um sorriso. — Helena, se você quiser, podemos ir juntas também. Você já está indo para a UBS mesmo. Pisquei, um pouco surpresa. — É verdade. Ela continuou sorrindo. — A gente pode almoçar por lá ou tomar um café depois. — Quem sabe? — respondi. — Tenho andado bastante ocupada com o trabalho na UBS, mas talvez dê certo. — Então combinamos mais perto do
O sábado chegou depois de quase três semanas sem vê-lo. Eu poderia dizer que fui até a Fazenda Albuquerque por qualquer outro motivo. Poderia inventar que queria conversar com Clara, mas a verdade era muito mais simples. Eu queria ver Henrique. E, depois de passar quase vinte dias tentando convencer a mim mesma de que aquela distância era exatamente o que eu precisava, finalmente parei de lutar contra a vontade. Cheguei à fazenda no fim da manhã. Clara foi quem abriu a porta e me recebeu com um sorriso enorme. — Helena! Que surpresa maravilhosa. — Oi, Clara. Ela me abraçou com carinho. — Entre. Você sumiu. — Andei trabalhando bastante. — Eu sei. Henrique comentou. Meu coração deu um pequeno salto ao ouvir o nome dele. — Ele está aqui? — Está no escritório. Desde cedo. Disse que precisava terminar algumas coisas. Assenti. Foi então que percebi Beatriz na sala. Ela se levantou assim que me viu. — Helena. — Beatriz. Cumprimentamo-nos com educação. Na
Quando cheguei ao casarão naquela noite, já estava cansada. Depois de sair da UBS, ainda precisei resolver algumas coisas em Cuiabá, entre documentos, pequenas compras e algumas pendências que eu vinha adiando desde que tinha chegado ao Brasil. Só quando entrei na propriedade percebi o quanto estava ansiosa para chegar em casa. Estacionei e respirei fundo antes de descer. Meu celular estava silencioso. Olhei para a tela por impulso. Nenhuma mensagem de Henrique. Senti uma pontada pequena no peito, mas logo tratei de afastá-la. Eu não tinha direito de esperar que ele fizesse aquilo. Naquela manhã, tinha sido bastante clara. Eu mesma havia dito que não queria um relacionamento, que precisava de espaço, que precisava descobrir quem eu era sem estar presa a alguém. Então era natural que ele estivesse me dando exatamente aquilo. Espaço. Mesmo assim, era estranho. Eu estava acostumada com as mensagens dele. Com as provocações, com alguma pergunta boba durante o dia, com aq
Victor ainda estava perto da porta quando voltei a falar. — Eu acho que vou me afastar dela. Ele parou com a mão na maçaneta e olhou para trás. — Como assim? — Não vou desaparecer. Não é isso. Só… vou parar de estar em cima o tempo inteiro. Victor voltou para a cadeira. — Você acha mesmo que isso é uma boa ideia? — Acho que é a mais certa. Ele cruzou os braços. — Henrique, eu conheço minha irmã. Ela vai sofrer se você fizer isso. — Talvez. — Não é “talvez”. Ela gosta de você. Aquilo me fez sorrir de leve, apesar da situação. — Eu sei. — Então por que você quer se afastar? Respirei fundo. — Porque ela precisa descobrir quem é sem estar o tempo inteiro presa a alguém. Victor ficou em silêncio. — Pensa comigo — continuei. — Ela começou a namorar muito nova. Ficou sete anos com o mesmo homem. Terminou e, duas semanas depois, começou a ficar comigo. — Eu sei. — Ela praticamente saiu de uma relação e entrou em outra sem respirar. Passei a mão pelos







