LOGINValentina
A sombra do lado de fora não se moveu.
Pelo menos, não no primeiro instante.
Fiquei parada no corredor, com a mão de Aoife presa à minha e o coração batendo num ritmo que parecia alto demais para o silêncio da mansão. A chuva escorria pelo vidro comprido da janela, distorcendo a forma escura entre as árvores, mas não o bastante para me convencer de que era apenas um tronco, uma pedra ou uma ilusão causada pelo cansaço.
Havia algo ali.
Algo grande.
Algo que observava.
Aoife apertou meus dedos com uma força surpreendente para uma criança tão pequena.
— Não olha muito — ela sussurrou.
A voz dela não tinha o pânico comum de uma menina assustada. Tinha cuidado. Um cuidado aprendido, antigo demais, como se alguém a tivesse ensinado a temer certas coisas sem explicar todas elas.
Engoli o medo e me abaixei diante dela, tentando colocar meu corpo entre a menina e a janela, mesmo sabendo que vidro, distância e chuva tornavam aquele gesto quase inútil.
— Aoife, o que é aquilo?
Ela desviou os olhos.
— Não sei.
Mentira.
Eu reconheci porque fui criada por uma mulher que mentia do mesmo jeito quando falava da Irlanda. Não era uma mentira inteira, fria, planejada. Era uma verdade escondida por medo, por amor, por alguma coisa que doía demais para caber em palavras simples.
Atrás da porta entreaberta, as vozes masculinas cessaram.
O corredor ficou completamente silencioso.
Não tive tempo de decidir se devia chamar Fiona, bater na porta ou pegar Aoife no colo e sair dali. A porta se abriu de uma vez, e Cillian apareceu.
Ele ocupou o espaço como se já soubesse que algo estava errado.
Os olhos verdes passaram por mim, pela mão de Aoife na minha, pela janela ao fundo. A expressão dele não se alterou de forma óbvia, mas o ar mudou, pesado e quente, como se a raiva dele tivesse preenchido o corredor antes mesmo da voz.
— Aoife — ele disse, baixo.
A menina não correu até ele.
Continuou agarrada a mim.
Esse pequeno detalhe pareceu atingir todos que surgiram atrás de Cillian. Um homem grisalho de olhar duro, outro mais velho com rosto fechado, Niall, que eu havia visto entrar na mansão, e Fiona, que veio do corredor oposto com os lábios comprimidos.
Todos pararam.
Todos olharam para a mão de Aoife na minha.
Não era surpresa comum.
Era choque.
Cillian percebeu, claro. O homem parecia perceber tudo, até o que ninguém queria mostrar. A mandíbula dele se contraiu por um segundo, e depois seu olhar voltou para a janela.
Quando me virei, a sombra já não estava lá.
Só a floresta, a chuva e a névoa engolindo o mundo.
O alívio não veio.
A ausência daquela coisa me assustou mais do que sua presença.
— Havia alguém lá fora — falei.
Cillian se aproximou da janela, mas não olhou como uma pessoa procurando algo. Ele olhou como alguém confirmando uma suspeita.
— Não há ninguém agora.
A resposta me irritou pela forma controlada, quase ensaiada.
— Eu não disse que havia alguém agora. Eu disse que havia.
O homem grisalho, que eu supus ser o pai de Cillian pelo peso autoritário no rosto e pela semelhança cruel dos olhos, me examinou como se minha existência fosse uma inconveniência.
— A propriedade é cercada por floresta, senhorita Moretti. Sombras são comuns.
Olhei para ele, sentindo meu cansaço virar coragem de um jeito perigoso.
— Crianças descalças no corredor dizendo para não olhar muito também são comuns?
A boca de Fiona se abriu de leve.
Niall desviou o rosto como se escondesse alguma reação.
Cillian me encarou.
Não com reprovação.
Com algo mais denso.
Talvez interesse.
Talvez advertência.
Aoife puxou minha manga.
— Não briga.
A frase dela me desmontou.
Abaixei os olhos para a menina, e todo o incômodo com aqueles adultos misteriosos ficou menor diante daquela voz pequena, como se o mundo dela tivesse sido construído com medo de ruídos altos, portas fechadas e pessoas indo embora.
— Eu não estou brigando com você — respondi, suavizando o tom.
— Mas eles ficam bravos.
Eles.
Não ele.
Não meu tio.
Eles.
Meu peito apertou.
— Então nós duas vamos respirar um pouco, tudo bem?
Aoife assentiu devagar.
Cillian observava a cena com uma intensidade quase dolorosa. Havia algo em seus olhos sempre que eu falava com a menina, algo que parecia desejo e sofrimento dividindo o mesmo espaço. Eu não sabia o que fazer com aquilo. Um homem como ele não deveria parecer vulnerável por causa de uma criança segurando minha mão.
Fiona se aproximou com cautela.
— Aoife, querida, vamos voltar para o seu quarto.
A menina se encolheu um pouco atrás de mim.
O movimento foi pequeno, mas todos viram.
Todos.
O silêncio que caiu depois disso foi diferente. Menos tenso, mais incrédulo. Fiona parou como se tivesse sido empurrada por algo invisível. O homem grisalho estreitou os olhos. Niall olhou diretamente para Cillian.
Eu não entendi.
— Ela não quer ir — falei, porque aparentemente alguém precisava dizer o óbvio.
Fiona parecia pálida.
— Ela sempre volta comigo.
— Hoje não.
Minha resposta saiu antes que eu medisse a autoridade que não tinha naquela casa.
Cillian deu um passo em minha direção. Meu corpo reagiu ao movimento com aquela mistura irritante de alerta e atração que eu me recusava a nomear. Ele parou perto o suficiente para que eu sentisse o calor dele, mas não tão perto que alguém pudesse acusá-lo de intimidação.
Ainda assim, ele intimidava simplesmente existindo.
— Aoife escolhe com quem quer ficar — ele disse.
A frase parecia dirigida aos outros, não a mim.
O homem grisalho ficou rígido.
— Cillian.
— Não agora.
Duas palavras.
O bastante para calar um homem que parecia não aceitar silêncio de ninguém.
Aoife respirou contra minha manga, e eu senti que ela relaxava um pouco.
— Você gostaria de me mostrar seu quarto melhor? — perguntei, ignorando os olhares ao redor. — Sem pressa. Sem todo mundo olhando como se nós tivéssemos quebrado uma janela.
A menina ergueu o rosto.
Pela primeira vez, um traço real de sorriso apareceu.
Pequeno.
Quase tímido.
Devastador.
— Posso mostrar meus livros?
— Eu gosto de livros.
— De histórias com final triste?
Pisquei devagar.
— Prefiro histórias que doem no meio, mas terminam com alguém ficando.
O sorriso dela cresceu um pouco.
Atrás de mim, ouvi Fiona prender a respiração.
Cillian não disse nada.
Mesmo sem olhar, senti nele uma reação. Senti como quem sente mudança no clima antes da chuva. Algo na frase tocou um lugar errado naquela casa.
Aoife puxou minha mão.
— Vem.
Subimos juntas.
Desta vez, ninguém tentou impedir.
Ainda senti os olhos de todos nas minhas costas.
Principalmente os dele.
A palavra continuou comigo enquanto descíamos.Reivindicação.De mim.Eu tinha passado semanas tentando entender o que significava ser reconhecida pelo lobo de Cillian, depois tentando compreender o que o Conselho queria quando falava em me marcar como Luna. Agora existia outro grupo, uma Matilha que minha mãe temera o suficiente para abandonar o próprio nome, atravessar o mar e construir uma vida inteira sobre documentos falsos, dizendo que eu pertencia a eles.E, em algum ponto entre uma ameaça e outra, percebi que estava cansada de ser tratada como alguma coisa que podia ser reivindicada.Cillian caminhava um pouco à minha frente. Não tinha voltado a discutir minha decisão de acompanhá-lo, embora eu soubesse que não gostava dela. Seus movimentos estavam tensos, os sentidos atentos a cada som da casa, e de vez em quando ele levava a mão à lateral do corpo onde
A mensagem tremia entre meus dedos.A italiana será devolvida quando Valentina Byrne vier buscá-las sozinha.Li outra vez, embora não houvesse nada para compreender melhor. As palavras eram simples. A ameaça também.Giulia tinha atravessado a Europa porque eu pedi ajuda.Tinha deixado a vida dela na Itália, comprado uma passagem só de ida e entrado numa casa cheia de pessoas que podiam se transformar em lobos porque eu dissera que precisava dela. Poucas horas depois, alguém a arrancara do quarto ao lado do meu.Por minha causa.— Não.Amassei o papel.Cillian segurou meu pulso antes que eu pudesse me virar.Não apertou. Apenas impediu que eu avançasse para a janela.— Valentina.— Solta.— Você não vai atrás dela sozinha.— Foi exatamente o que eles pediram.— Por isso mesmo.Puxei o braço.Ele soltou imediatamente, mas se colocou entre mim e a janela.Os olhos ainda tinham aquele dourado sobrenatural ao redor das pupilas. As mãos haviam voltado ao normal, embora pequenas manchas de s
O uivo do lado de fora atravessou a casa, mas eu mal consegui ouvi-lo.Meus olhos estavam presos nas mãos de Cillian.Nas garras.Eu já tinha visto coisas que deveriam ter me preparado para aquilo. Tinha visto Cillian como lobo, enorme e negro, avançando pela floresta para me proteger. Tinha descoberto que homens e mulheres ao meu redor eram capazes de mudar de forma. Tinha visto pessoas se transformarem no círculo de pedras sob a lua cheia e, apenas na noite anterior, ouvira Cillian explicar que o lobo dentro dele não era simplesmente um animal.Mesmo assim, nada havia me preparado para vê-lo daquele jeito.Talvez porque o lobo completo fosse mais fácil de aceitar.Quando ele estava transformado, meu cérebro conseguia separar as coisas. Cillian era o homem. Aquela criatura enorme era o lobo. Eu sabia que ambos ocupavam a mesma existência, que ele continuava consciente dentro daquele corpo, mas visualmente existia uma fronteira. Uma forma terminava para que a outra começasse.Agora nã
Eu tinha dormido menos de três horas quando desisti de fingir.O diário de minha mãe continuava aberto sobre a mesa, exatamente na página em que Giulia e eu havíamos parado. A luz da manhã atravessava as cortinas e alcançava parte da cama, onde cartas, fotografias e documentos ainda estavam espalhados. Giulia dormia no quarto ao lado depois de eu praticamente obrigá-la a descansar, mas eu não conseguira fazer o mesmo. Toda vez que fechava os olhos, uma frase diferente voltava.A Matilha não caça lobos. Ela caça aquilo que existia antes deles.Depois outra.
A caixa continuava aberta sobre a cama quando ouvimos a batida na porta.Giulia e eu nos entreolhamos no mesmo instante. Eu ainda segurava a fotografia encontrada dentro da lombada do diário, enquanto a pequena marca no meu pulso finalmente havia parado de brilhar. O que quer que tivesse respondido dentro da caixa permanecia escondido entre cartas, documentos e objetos que ainda não tínhamos examinado, mas nenhuma de nós tivera coragem de continuar procurando depois daquilo. Precisávamos de alguns minutos para simplesmente absorver o que já tínhamos descoberto.A batida veio novamente, discreta.— Valentina?







