INICIAR SESIÓNVIOLA
— Eu... — Engoli a bile, tentando reorganizar a voz que ameaçava falhar. — Só fiz uma pergunta. Por que aceitar o casamento?
Ele se encostou na poltrona. Cruzou os braços lentos sobre o peito, os olhos pretos cravados no meu rosto, me desnudando, me julgando, exercendo uma dominação tão esmagadora sem pronunciar uma única palavra que meus ombros encolheram involuntariamente. A autoridade dele sufocava.
O suor frio desceu pela minha nuca. A sensação de estar minúscula diante de um predador me fez dar meio passo involuntário para trás.
— Me desculpe por atrapalhar.
Apertei a barra da camisa e girei para sair antes que minhas pernas cedessem de vez.
— Esperava o quê? — A voz dele cortou o ar, pausada e cortante.
Parei. Olhei por cima do ombro.
William continuava na mesma posição, a cabeça levemente inclinada, o olhar calculista preso em mim.
— Esperava que eu dissesse que aceitei essa palhaçada porque fiquei fascinado por você? — Soltou um riso seco, desprovido de qualquer humor. — Ou que caí de amores no primeiro segundo?
A raiva venceu o pavor na mesma hora. Virei o corpo de frente para ele, o queixo erguido.
— Não seja ridículo. Não tenho o menor interesse romântico em você. E nunca vou ter.
— "Nunca" é uma palavra muito forte para alguém que vai carregar meu sobrenome até o dia em que morrer. — Levantou-se devagar. O porte alto e largo parecia engolir a luz do sol. Parou a poucos centímetros do meu corpo, o cheiro de perfume amadeirado e perigo me envolvendo. — Você é atraente, Viola. Eu seria um idiota se não admitisse isso. Mas tire qualquer ilusão de romance da sua cabeça. O que nós temos é um contrato.
A audácia daquele homem fazia meu sangue ferver.
— E você acha que eu quero romance de um sujeito frio como você? — Recompus a postura, encarando-o de baixo para cima. — Se você só me acha atraente, ótimo. Não crie expectativas de que vai ter qualquer coisa além do meu silêncio.
— Expectativas? — deu mais um passo. A proximidade era uma ameaça física. — Seria um inferno absoluto se eu não sentisse tesão pela minha própria esposa.
O rosto queimou na hora. As bochechas esquentaram tanto que cheguei a dar uma piscada mais rápida, totalmente pega de surpresa pela grosseria.
Um canto da boca dele subiu num sorriso mínimo, sombrio e vitorioso ao ver meu embaraço.
— Devo aceitar essa baixaria como um elogio? — A voz saiu entre dentes.
— É a única coisa que eu tenho para te oferecer.
A arrogância pura cobrindo cada sílaba. Bati o pé no chão, o punho fechado com tanta força que as unhas cortaram a palma da minha mão.
— Você é desprezível. Continuar conversando com você só me dá dor de cabeça.
Girei sobre os calcanhares e saí pisando fundo pelo mármore, as passadas rápidas ecoando pelo corredor enquanto minhas mãos tremiam de puro ódio. Aquele desgraçado não precisava de armas para me desarmar; bastavam dois minutos da sua boca suja e daquela presença sufocante para me fazer querer colocar o mundo inteiro em chamas.
***
WILLIAM
O sorriso no meu rosto era inevitável. Nenhuma mulher jamais tinha ousado fechar a tampa da minha máquina, muito menos rosnar no meu rosto e sair pisando fundo. O sangue quente de Viola era uma tempestade e vida de casado seria um inferno, com certeza. Mas passa longe de ser entediante.
Puxei o notebook de volta, tentando focar nos números de Nova York, quando uma risada escrachada cortou o ar.
— A garota acabou de te chamar de idiota arrogante na frente do nonno dela — Raiden entrou pela porta de vidro, jogando uma maçã para cima e pegando no ar. — Não consegue controlar a própria noiva antes mesmo de assinar o papel, William. Que vergonha.
Nem ergui os olhos da tela.
— Fala mais alto, Raiden. Queria ter certeza de que todo mundo entendeu o tamanho do seu machismo.
A voz veio da entrada. Viola surgiu no arco de madeira, o queixo erguido, os olhos castanhos queimando na direção do meu irmão.
— "Controlar"? — deu dois passos lentos para dentro, a postura ereta como uma rainha prestes a mandar decepar uma cabeça. — Ninguém me controla. Nem o seu irmão, nem você, nem nenhum Cunningham que ache que ter dinheiro compra o direito de me tratar como propriedade.
Raiden travou a maçã na boca, pego no pulo.
Antes que ele abrisse a boca para rebater, Viola caminhou direto na minha direção. Sem pedir licença, sem hesitar, ela se sentou no braço da minha poltrona. O calor do corpo dela me atingiu como uma descarga elétrica. Ela passou o braço direito por trás dos meus ombros, um meio abraço falso, a pele negra e macia da coxa dela roçando na minha calça de terno.
Travei a respiração por um segundo. A proximidade espontânea me pegou de surpresa, mas não mudei um único músculo do rosto. Curioso, decidi ver até onde aquela encenação ousada iria. Se ela queria brincar de poder, eu seria o trono.
— Aliás, cunhadinho... — Viola se inclinou na minha direção, o perfume doce impregnando meus pulmões enquanto encarava Raiden de cima. — Já que eu vou ser a nova senhora desta família, sugiro que limpe a sua boca antes de falar comigo. Se quiser manter as suas bolas no lugar, é claro.
O canto da minha boca subiu, a satisfação crua atingiu meu peito.
Raiden olhou de mim para ela, piscando duas vezes, totalmente sem reação.
— Puta que pariu — ele soltou a maçã na mesa, dando dois passos para trás com um sorriso amarelo. — Vocês dois vão ser um casal de terror. Boa sorte para não se matarem antes do altar.
Ele girou e sumiu pelo corredor.
No segundo em que os passos dele se distanciaram, o corpo de Viola ao meu lado travou. O peso do abraço falso virou uma pedra. A respiração dela ficou curta, rasa.
Ela estava perfeitamente confortável, peitando meu irmão, mas a minha presença a deixava à beira de um colapso de tensão. E isso começou a me irritar de um jeito estúpido.
Estendi a mão esquerda, espalmando-a na base das costas dela. Os dedos subiram devagar, alisando a coluna por cima do tecido fino do vestido até alcançar a nuca.
Viola estremeceu da cabeça aos pés. Um arrepio nítido tomou os pelos do braço dela, a pele esquentando sob o meu toque. A rigidez do corpo dela era medo, mas a reação física era desejo puro e não disfarçado.
O corpo dela não me rejeitava. Ponto para mim.
— Nós temos oito dias para aprender a conviver — murmurei, a voz baixa, rente à cintura dela. — No dia do casamento, o mundo inteiro vai estar olhando. Vão precisar acreditar que somos o casal mais feliz da ilha.
— Não se preocupe — a voz dela saiu um pouco mais aguda do que o normal, mas ela sustentou o olhar. — Eu sei ser uma excelente atriz. Vou performar a noiva apaixonada com perfeição.
— Performar? — Deslizei os dedos da nuca dela para o queixo, inclinando o rosto dela para baixo. Colei meus olhos na boca desenhada e carnuda dela, aproximando-me milímetro a milímetro, deixando o hálito quente roçar seus lábios. — Quero ver até onde vai essa performance quando a porta do quarto se fechar.
Viola deu um pulo para trás tão violento que o pé enganchou no pé da cadeira. Ela tropeçou, recuperando o equilíbrio no último segundo, os olhos arregalados de choque.
— Nunca — gritou, o peito subindo e descendo descontrolado. — Eu nunca vou pra sua cama, William!
— Já disse que "nunca" é uma palavra muito forte — o olhar frio tinha a calma de quem domina o terreno. — Mas não se preocupe. Não vou te forçar a nada. Eu vou te respeitar, Viola. Porque, quando você vier para a minha cama... vai ser porque pediu.
As bochechas dela queimaram em um tom escuro de raiva cega. A boca abriu e fechou sem emitir som.
Sem conseguir rebater a provocação, ela deu meia-volta, quase tropeçando nos próprios pés antes de disparar pelo salão, a porta batendo novamente com um estrondo.
Fiquei sozinho, o eco dos passos dela ainda ressoando no mármore. Puxei o ar, sentindo o rastro do perfume dela impregnado nas minhas mãos.
Cesario não deu tempo para o choque assentar. Girou sobre os calcanhares no centro da brita, os olhos cravados nos seguranças da entrada.— Desarmem todo mundo. Ninguém fica com ferro na cintura além dos meus homens. Peguem os registros das guaritas, as gravações das câmeras e o histórico de ligações da antena local das últimas quatro horas. Quem pisou nesta terra hoje vai ter o nome checado na lista.Um dos veteranos deu um passo à frente, as mãos abertas num protesto trêmulo, buscando o olhar de Ruggero.— Ruggero, você vai deixar esse garoto confiscar as nossas armas? Viemos como convidados de honra!Ruggero nem piscou. O maxilar gélido mal se moveu sob a barba gasta.— O Don deu uma ordem. Precisa que eu repita?O homem engoliu em seco. Baixou a cabeça e puxou a pistola do coldre sob o paletó, entregando a arma ao primeiro guarda sem dizer mais uma palavra.Observei o jogo de sombras. Cesario tinha o sangue, o título e a audácia de cuspir na cara do patriarca, mas a cúpula ainda e
Cesario e Ruggero alcançaram os dois em passadas rápidas.— Tomou algum tiro? — Cesario agarrou o queixo da irmã com a mão esquerda, virando o rosto dela em busca de ferimentos. — Responde, Angela. Onde você foi atingida?— Eu estou bem! — Sacudiu o braço dele, desvencilhando-se no ódio. Cravou as pupilas verdes em Cesario, as lágrimas abrindo trilhas claras na fuligem da pele. — Salva ele, Cesario! Pelo amor de Deus, manda os médicos arrancarem o Matteo de lá! Ele se jogou na minha frente... O ferro atravessou a barriga dele pra aquele velho nojento não me arrastar!Cesario enrijeceu. A postura dele perdeu qualquer resquício de hesitação, os ombros subindo numa linha dura.— Foi o Moretti?— Ele tentou me enfiar numa caminhonete na marra! — Angela puxou o ar aos soluços, o peito convulsionando. — Disse que eu ia embora com ele por bem ou em coma, que o contrato já estava fechado! O Matteo viu e quebrou o segurança no meio, mas o outro empalou ele na cerca! Eu atirei... Atirei até o t
— Estamos em varredura, garota — Liam tentou acalmá-la ao fundo. — O Bertoldo deve estar na cobertura dele.Apertei a lateral da têmpora, o cérebro girando em marcha acelerada. A conta não fechava.Moretti traiu a cúpula dos Vaccaro para forçar um casamento e tentou eliminar Cesario para não ter oposição na sucessão. Isso explicava o sangue entre eles. Mas não explicava o chumbo na minha direção.Sandro pulou na minha frente, dizendo com todas as letras que a mira estava na minha testa. Os atiradores que cruzaram o caminho de Viola olharam na cara dela e ignoraram a neta de Ruggero para caçar o Don de Las Vegas.Aqueles mercenários não estavam a serviço da obsessão de um velho italiano por uma garota.Eles vieram terminar o trabalho de Nevada.— Dá para confiar no Conti, William? — o rádio sibilou no meu ouvido. — O cara brotou do nada.Ajustei o aparelho contra a gola, o olho cravado na janela.— Não confio em uma vírgula que sai da boca dele. Mas dois atacantes com a mesma tatuagem
Virei o pescoço devagar.— Por que diz isso?— Só um palpite — ele deu de ombros, as pupilas claras vazias de deboche. — Muito barulho, muito erro de perímetro e tiro disperso demais para gente daquele calibre.Tiziano soltou um bufo ríspido pelo nariz.— Não é fácil furar a cerca do Ruggero Vaccaro. Os piores inimigos da nossa família precisariam de um batalhão inteiro pra cruzar aquela linha sem disparar o primeiro alarme.Dei meio passo à frente, estreitando as pálpebras na direção dele.— Está dizendo que o ataque veio de dentro?— Um dos maiores patrocinadores acabou de aparecer estirado no mato — Tiziano sustentou meu olhar sem pestanejar. — Não precisa ser gênio para farejar traição no próprio quintal.— Cala essa boca, Tiziano! — Luca avançou um passo, apontando o dedo na cara do primo. — Se quiser continuar com a língua dentro da boca na frente do Ruggero, segura essa merda!Sandro ergueu uma sobrancelha, o deboche voltando aos poucos.— O que foi que o defunto fez para merec
Franzi o cenho, o ar congelando na minha garganta.— Eles viram você e não atiraram?— Nada. Simplesmente correram na direção do vinhedo onde você estava.Um arrepio frio subiu pela minha espinha. Aquele ataque não tinha nada a ver com guerra de clãs locais ou sequestro de herdeiros Vaccaro.— Onde está o seu avô?— Trancado na sala do fundo com a segurança — ela limpou o rosto com as costas da mão, a voz ainda embargada. — Ele mandou fechar tudo.Puxei o queixo dela para cima, colando meus lábios na testa dela por dois segundos:— Me leva até ele.Viola assentiu, segurando a minha mão com força enquanto me guiava pela galeria estreita até a última porta de madeira. Eu ia esticar o braço para girar a maçaneta de bronze, mas a tranca estalou por dentro antes que os meus dedos tocassem o metal.A porta abriu num puxão rápido.Ruggero deu um passo para o corredor, apoiando a bengala com força contra o chão. O terno escuro estava impecável, sem uma gota de poeira do tiroteio.O velho patr
Outro zunido rasgou o ar a vinte centímetros do meu ombro, estourando a terra úmida contra o meu pescoço.Sandro ergueu a pistola com as duas mãos, apoiou os cotovelos no chão e puxou o gatilho duas vezes. O estalo seco da nove milímetros perfurou os meus tímpanos. Um corpo despencou das copas baixas com um baque surdo, quebrando gravetos secos na queda.Fiquei de pé num tranco. A carne da coxa gritou sob o tecido, o músculo repuxando como se os pontos fossem arrebentar de vez. Engoli a bile.— De onde saiu essa arma?— Dei de cara com um deles contornando a vala — Sandro rolou de joelhos, cuspindo terra. — Dei uma coronhada com o marcador falso, quebrei o pescoço do infeliz e peguei o ferro dele. Pura sorte.Dei dois passos mancados na direção do atirador abatido para arrancar o fuzil das mãos dele, mas os dedos de Sandro cravaram no meu colarinho, me puxando para trás com violência.— Não perde tempo, caralho! Quer virar peneira de graça? A vala de drenagem está coberta. Move essa b







