FAZER LOGINWILLIAM
O uísque queimava no fundo da minha garganta, mas não aliviava o peso no peito.
A cadeira vazia onde Viola esteve sentada minutos atrás parecia encarar cada um de nós. O estalo do garfo caindo na porcelana ainda ressoava nas minhas têmporas. Oito dias. A notícia caiu sobre ela como uma sentença de morte, e ver a pele escura dela empalidecer sob a luz do candelabro fez algo estranho arranhar meu estômago.
Não planejava essa porra. Casamento nunca esteve nos meus planos, muito menos ter que dobrar meu estilo de vida às exigências do velho. A raiva dela era justa. Não estava me rejeitando; estava reagindo à gaiola que meu pai e o dela construíram ao redor do seu pescoço.
— Ficou surdo, William?
Cameron bateu a base do copo no braço da poltrona de couro. Olhei pra ele.
— Você passou a refeição inteira encarando a garota como se fosse um alvo. — O velho estreitou os olhos pretos. — Chega dessa postura. Pare de ignorá-la e faça um esforço para conhecê-la.
— Ele tem razão — Ruggero interveio, a voz calma do velho Vaccaro tentando amenizar o ar pesado. — Viola é orgulhosa, mas tem um coração enorme. Converse com ela antes do altar, William. Facilite as coisas.
Apenas inclinei a cabeça, engolindo o resto do uísque de uma vez. Não dei a eles a satisfação de uma resposta longa.
Deixei a sala no segundo em que a etiqueta permitiu. Passos rápidos me seguiram pelo corredor de mármore.
— A coitada parecia que ia vomitar só de respirar o mesmo ar que você.
Não mudei o ritmo dos meus passos. Raiden emparelhou ao meu lado, um sorriso sarcástico no rosto.
— A reação dela é natural — cortei, sem olhar para ele. — Conforme a poeira baixar e ela entender as regras, se acostuma.
— Se acostuma? — Raiden riu, jogando as mãos para trás da cabeça. — Você não sabe nada sobre mulheres, cara. Do jeito que você encara, parece que tá pronto pra mandar ela pro paredão de execução. Vai precisar de aulas se quiser dobrar aquela lá.
Travei o passo na porta do meu quarto, girando o corpo devagar.
— Não enfie o seu nariz onde não foi chamado, Raiden. Não preciso da sua ajuda para lidar com a minha esposa.
— Não preciso fazer nada. — Ele ergueu as mãos em rendição debochada. — A cunhada é uma fera. Você vai ter que ralar para domar aquela mulher. Quer dizer... se conseguir.
Ajeitei os punhos da camisa, os olhos fixos nele.
— Ela enfrentou o pai na frente de duas famílias mafiosas sem piscar — Raiden continuou, a voz perdendo um pouco do deboche e ganhando uma nota de fascínio genuíno. — Nenhuma mulher do nosso meio reagiria assim. Qualquer outra teria chorado no canto. A garota tem culhões.
— Vá dormir, Raiden.
Ele deu de ombros e seguiu pelo corredor, assobiando baixo.
Bati a porta do quarto e encostei a cabeça na madeira fria, a escuridão do cômodo me engolindo.
As palavras do meu irmão ficaram flutuando no ar. O queixo erguido de Viola. Os olhos castanhos queimando de ódio puro enquanto peitava Virgílio. A espinha reta, mesmo quando o mundo dela desmoronava em oito dias.
Ela não era fraca. Não era uma boneca de porcelana para ser decorada.
Apertei os punhos. Para ocupar o lugar de senhora Cunningham ao meu lado, para aguentar o inferno que meu sobrenome carregava, uma mulher comum não duraria um mês. Viola tinha fogo. Tinha força.
Ela não precisava ser domada. Só precisava entender que, agora, o trono era dela. E eu seria o único homem a quem ela responderia.
***
VIOLA
Quatro noites sem pregar os olhos. Cada minuto no escuro era um martírio, o relógio regressivo dos oito dias estalando na minha mente até eu surtar. Se estava condenada a me acorrentar a um monstro, precisava olhar nos olhos dele antes do altar.
Desci as escadas no meio da manhã, o peito pesado.
Encontrei William sozinho na mesa do salão aberto para o jardim. Nada de praia, nada de mar. O terno escuro e alinhado destoava de tudo ao redor, o brilho da tela do notebook refletindo nas lentes dos óculos de armação fina que ele usava. Os dedos voavam pelo teclado numa velocidade quase desumana.
Parei a alguns metros. Na madrugada anterior, passei horas na frente do celular buscando qualquer rastro do sobrenome dele. As poucas fotos em portais de finanças mostravam um herdeiro implacável, um homem obcecado pelo império, sem escândalos, sem mulheres, sem vida pública. Um fantasma vestido de bilionário que destruía concorrentes antes do almoço.
Dando dois passos à frente, encostei na borda da mesa.
— Você trabalha até quando deveria estar de férias?
Nenhum movimento. Nem o piscar de olhos. Os dedos continuaram estalando contra as teclas, o olhar fixo nos gráficos na tela.
A indiferença me deu um tapa na cara. A raiva borbulhou no meu sangue.
— Ou você dorme digitando?
— O que você quer, Viola? — A voz veio baixa, ríspida, sem que ele desviasse a atenção por um segundo. — Tenho uma empresa para rodar.
— Esperei que você tivesse pelo menos o mínimo de curiosidade. — Cruzei os braços, sustentando a postura. — A gente vai se casar na semana que vem.
— E?
— E eu quero saber por que você aceitou isso.
Zero resposta. O estalo das teclas pareceu aumentar de volume. A risadinha debochada da praia, a pose de dono... nada daquilo estava ali. Só um bloco de gelo ignorando a minha presença, como se eu fosse um inseto incômodo.
O sangue subiu quente para a minha cabeça. Puxei o ar e, num impulso cego, estendi a mão e bati a tampa do notebook com força. O baque seco ecoou pelo salão deserto.
O silêncio que se seguiu fez meus pulmões travarem.
William não se mexeu por três segundos intermináveis. Então, devagar, tirou os óculos e os pousou sobre a mesa de alumínio. Quando ergueu o rosto, a escuridão naqueles olhos me atingiu como um soco no estômago.
Não havia raiva passageira ali. Era a frieza absoluta de um homem que decidia a vida e a morte das pessoas sem mudar o tom de voz. O ar ao redor da mesa simplesmente desapareceu. Pela primeira vez desde que cheguei àquele inferno, um arrepio de pavor genuíno subiu pela minha espinha. Aquele homem não era só o noivo arrogante; ele era um carrasco. E podia me destruir sem levantar da cadeira.
Daria tudo para dar um passo para trás, mas minhas pernas congelaram.
Descemos para o escritório do subsolo num silêncio pesado de chumbo.William manteve a mão pesada na base das minhas costas o tempo todo, sentindo cada centímetro da minha tensão residual. Bertoldo desceu colado ao meu outro lado; William lançou um olhar gélido para o meu primo por causa da proximidade, mas Bertoldo sustentou o peso sem vacilar um milímetro.Virgílio caminhava mais à frente, escoltado de perto pelos canos de dois fuzis dos seguranças da casa. Benjamin fechava o grupo, observando a dança das peças com um sorriso irônico nos lábios, deliciando-se com o espetáculo da família Vaccaro rachada ao meio.Entramos na sala forrada de carvalho escuro.— Deixe uma coisa bem clara, Virgílio — a voz de Bertoldo cortou o ar antes mesmo de nos sentarmos, o sotaque italiano carregado de desdém. — Eu não atravessei o oceano para salvar a sua pele arruinada. Estou aqui pelos interesses da família e para limpar o estrago que a sua incompetência causou em Veneza.Bertoldo jogou uma pasta
Virgílio assistia a cada segundo da nossa proximidade.O espanto nas feições dele se transformou em puro desconforto ao constatar o óbvio: eu não era mais uma moeda de troca isolada e indefesa nas mãos dos Cunningham. Havia uma aliança ali, um escudo que ele não conseguia romper.Dois seguranças seguraram o homem pelos braços.— Esquece essa história, Viola — ele tentou uma última cartada antes de ser arrastado, a voz vacilando em desespero. — Deixa a memória da sua mãe em paz antes que você destrua o pouco que sobrou!— Tirem esse homem da minha frente — William cortou sem elevar o tom, mas a autoridade na voz fez os guardas puxarem Virgílio em direção ao corredor do subsolo. — Agora.Três pancadas secas e pesadas estremeceram a porta principal. Virgílio estancou o passo, virando o pescoço com uma expressão contrariada.— O Bertoldo veio comigo para Las Vegas. Ele tinha que me encontrar aqui.Franzi a testa, o choque me puxando do transe. Bertoldo? Meu primo era o braço direito de Ce
— O Cameron Cunningham teve alguma coisa a ver com o assassinato da minha mãe?Virgílio recuou meio centímetro, tropeçando no próprio pé. Os lábios tremeram, desprovidos de cor, o terror evidente estampado na testa suada.O chão sob os meus pés simplesmente desapareceu. Minha visão embaçou por um segundo.— Ela... então ela foi assassinada? — a pergunta escapou num fio de voz rouco e estraçalhado.— Cala essa boca! — ele deu um passo para a frente, gesticulando no ar, a voz saindo aos solavancos. — Esse assunto está enterrado! Tudo o que foi feito ou escondido foi para te proteger!— Me proteger? — o grito rasgou a minha garganta, a revolta queimando como ácido. — Você passou vinte e um anos fingindo que me protegia do passado dos Cunningham para no final me vender em um contrato de casamento para a mesma família que destruiu a minha mãe?— Para de agir como uma pirralha mimada! — ele avançou mais, o rosto a poucos centímetros do meu, cuspindo as palavras. — Não tenho tempo para os se
William afastava a cadeira de veludo da mesinha encostada na janela. Uma bandeja de prata ocupava quase todo o espaço, transbordando com frutas cortadas, pães artesanais, ovos, sucos e uma jarra de café fumegante.O grande Don de Las Vegas, de calça social preta e camisa desabotoada no peito, servindo o café da manhã.— Eu não sabia o que você gostava de comer de manhã. — Os olhos me varreram dos pés à cabeça, parando um segundo a mais no meu pescoço antes de voltar para as xícaras. — Então mandei fazer um pouco de tudo.Cruzei os braços, tentando manter a postura defensiva enquanto meu estômago dava um salto traiçoeiro.— É fisicamente impossível eu comer tudo isso sozinha.— Posso te ajudar com essa parte.Um calor esquisito subiu pelo meu peito. Mordi a parte interna da bochecha, travando os lábios com força para impedir que o sorriso aliviado escapasse. Ele não tinha levantado daquela cama e voltado a ser a muralha de gelo intocável. Não tratou a noite passada como uma transação c
WILLIAMGirei o registro da água quente. O vapor espesso começou a embaçar o espelho e os azulejos escuros no mesmo segundo em que minhas mãos desceram pelo zíper do vestido terracota. O tecido deslizou pelo corpo dela, caindo aos seus pés num sussurro de seda. Arranquei paletó, camisa e calça sem desviar os olhos das curvas da minha mulher.A pele negra brilhava sob a penumbra úmida. O calor represado desde as praias das Bahamas colidiu como dinamite no centro do meu peito.Puxei Viola para debaixo da ducha. A água quente escorreu pelos nossos ombros, colando os cabelos castanhos às costas dela enquanto minhas palmas mapeavam a linha da sua cintura, subindo pelas costelas até a base dos seios firmes.Não era apenas tesão cru. Era uma possessividade doentia, uma necessidade visceral de gravar a minha presença em cada centímetro daquela carne indomável.Viola arqueou as costas contra o meu peito molhado, a respiração arfante, mas a língua continuava afiada:— Vai ficar só me encarando
A porta blindada do sedã bateu, isolando as luzes frenéticas da Strip.O carro arrancou suave pelo asfalto. Viola não se afastou para o canto do vidro; permaneceu encostada em mim, o calor da pele dela queimando através do tecido do meu terno. Estendi a mão e envolvi os dedos dela, passando o polegar com calma pela pele negra macia do dorso.Ela não recuou. Deixou a mão repousar na minha, os dedos relaxando aos poucos.A pergunta dela ainda ardia no fundo do meu crânio: você me soltaria?Se ela pensava em fuga, se via a nossa união como uma sentença de morte inevitável, era porque aquela mansão ainda não passava de uma cela dourada. E eu era o carcereiro.Exigi que ela vestisse a armadura dos Cunningham, exigi postura de senhora da máfia, quando a porra do nosso casamento sequer havia sido consumada. Eu não perdi nada ao assinar aquele papel; ela perdeu a própria casa em Veneza, a rotina, a família, o trabalho e a liberdade num estalar de dedos.O peso suave da cabeça de Viola cedeu c







