FAZER LOGINLívia não dormiu naquela noite.
Não de verdade.
O corpo até tentou descansar, afundando contra o colchão macio, buscando algum tipo de trégua física depois de um dia que parecia ter durado muito mais do que deveria, mas a mente… a mente não desligava, não desacelerava, não permitia silêncio suficiente para que o sono viesse, porque sempre que fechava os olhos, a imagem da foto voltava, insistente, perturbadora, impossível de ignorar.
Ela.
Arthur.
Juntos.
E aquilo não era apenas uma coincidência visual.
Era mais profundo.
Mais incômodo.
Porque não era só o rosto.
Era a sensação.
Uma familiaridade que ela não conseguia explicar.
E era isso que mais a assustava.
Não a possibilidade de ele estar mentindo.
Mas a possibilidade de ele não estar.
Quando finalmente desistiu de tentar dormir, levantou-se ainda antes do amanhecer, caminhando pelo quarto em silêncio, como se qualquer som pudesse quebrar algo frágil dentro dela, algo que ainda estava tentando se organizar.
Precisava de respostas.
E precisava rápido.
Desceu as escadas com cuidado, encontrando a casa ainda silenciosa, vazia, quase irreconhecível sem a presença dominante de Arthur, e por um momento, aquilo lhe deu uma falsa sensação de controle, como se tivesse um pequeno espaço para pensar sem ser observada, sem ser pressionada, sem ser conduzida.
Mas essa sensação durou pouco.
Porque ao chegar à sala principal, encontrou algo que não deveria estar ali.
Um envelope.
Sobre a mesa.
Com o nome dela.
O coração acelerou imediatamente.
Ela se aproximou devagar, como se aquele objeto simples pudesse explodir ao menor toque, e por um instante, hesitou.
Mas então…
pegou.
Abriu.
E o mundo inclinou.
Dentro havia documentos.
Antigos.
Desgastados.
E uma ficha.
Com uma foto.
Dela.
Mas não era recente.
Muito mais jovem.
E no topo, um nome que fez o sangue gelar:
Lívia Albuquerque — Paciente nº 417
As mãos começaram a tremer.
Paciente?
Ela folheou os papéis rapidamente, o coração batendo forte demais, rápido demais, enquanto palavras desconexas começavam a formar algo muito pior do que qualquer hipótese anterior.
Tratamento.
Internação.
Memória.
Bloqueio.
Ela parou.
Respirou.
Tentou negar.
Mas não conseguiu.
Porque, no fundo…
algo dentro dela já sabia.
Já sentia.
— Você encontrou rápido — a voz de Arthur veio atrás dela, quebrando o silêncio como um corte limpo.
Lívia virou-se lentamente.
Os papéis ainda nas mãos.
O olhar dele fixo nela.
Intenso.
Esperando.
— O que é isso? — ela perguntou, a voz falhando pela primeira vez.
Ele não respondeu de imediato.
Apenas caminhou até ela.
Parou perto.
Perto demais.
— A verdade — disse.
Simples.
Cru.
Irreversível.
— Eu nunca estive com você — ela insistiu, mesmo sem ter mais certeza disso.
Arthur inclinou levemente a cabeça.
Observando.
Como sempre.
— Você não lembra — disse — mas esteve.
O chão pareceu desaparecer por um segundo.
— Isso é impossível.
— Não para você.
Silêncio.
Pesado.
Brutal.
— O que eu fiz? — a pergunta saiu mais baixa agora.
Mais real.
Mais perigosa.
E dessa vez…
Arthur não desviou.
Não adiou.
Não suavizou.
— Você destruiu a única pessoa que eu amei.
O ar sumiu.
Completamente.
E naquele instante…
Lívia soube.
Aquilo não era apenas um casamento.
Não era apenas vingança.
Era algo muito mais profundo.
Muito mais antigo.
Muito mais devastador.
Arthur deu mais um passo, os olhos fixos nos dela, e completou, sem hesitar:
— E o pior?
Uma pausa.
E então:
— Você implorou para esquecer.
Um ano depois.Lívia costumava pensar que finais felizes eram feitos de grandes momentos.Declarações em lugares perfeitos.Promessas diante de centenas de pessoas.A sensação de que, depois de uma grande batalha, tudo finalmente ficaria exatamente como deveria ser.Ela estava errada.O verdadeiro final feliz não parecia uma cena de filme.Parecia uma manhã comum.Parecia acordar com Arthur reclamando porque ela havia roubado metade do cobertor durante a noite.Parecia café derramado na mesa.Parecia livros abertos em todos os cantos da casa.Parecia uma vida que não precisava ser extraordinária para ser preciosa.— Você está escrevendo sobre mim?Arthur perguntou.Lívia levantou os olhos do caderno.Ele estava encostado na porta do escritório, segurando duas xícaras de café.Ela sorriu.— Talvez.Arthur colocou uma das xícaras ao lado dela.— Essa resposta significa sim.— Você ficou muito convencido.Ele sentou ao lado dela.— Depois de tudo que aconteceu, acho que tenho direito a u
Seis meses depois.A vida voltou a ter sons simples.E, depois de tudo que haviam vivido, Arthur descobriu que eram justamente esses sons que mais significavam.O barulho de uma xícara sendo colocada sobre a mesa.O riso de alguém na cozinha.A chuva batendo na janela durante uma tarde tranquila.O silêncio confortável entre duas pessoas que não precisavam mais preencher todos os espaços com explicações.Durante muito tempo, ele acreditou que a paz seria algo grandioso.Uma vitória.Uma conquista.Um momento em que finalmente sentiria que havia vencido.Mas a paz não chegou como uma explosão.Ela chegou em pequenas coisas.Como acordar ao lado de Lívia e saber que ela estava ali porque escolheu estar.A casa havia mudado.Não por causa de reformas.Mas porque agora tinha vida.Livros espalhados pela sala.Flores na mesa.Desenhos de Caio emoldurados nas paredes.Fotografias de momentos que antes pareciam impossíveis.Era diferente da antiga mansão dos Vasconcelos.Lá tudo era perfeito
O último dia em Aurora chegou sem cerimônia.Sem câmeras.Sem jornalistas.Sem pessoas esperando uma grande revelação.Apenas um pequeno grupo caminhando pelos corredores que um dia pareceram intermináveis.Arthur segurava a mão de Lívia.Dessa vez, não para guiá-la.Não para protegê-la.Apenas porque queria.E essa diferença significava tudo.O complexo estava quase vazio.As paredes que antes carregavam centenas de telas agora tinham apenas marcas do tempo.Os corredores onde pessoas haviam perdido anos de suas vidas estavam iluminados pela luz natural que entrava pelas janelas abertas.Pela primeira vez, Aurora parecia um lugar comum.Talvez esse fosse o maior sinal de que tinha acabado.Gabriel caminhava à frente com alguns documentos.— O processo de encerramento foi aprovado.Todos os servidores restantes serão desmontados.Os arquivos históricos ficarão no memorial.Nada relacionado aos experimentos continuará ativo.Clara olhou ao redor.— É estranho.Gabriel concordou.— O qu
Durante alguns segundos, Lívia não conseguiu responder.Não porque tivesse dúvidas.Mas porque, pela primeira vez em toda a sua história com Arthur, ela queria guardar aquele instante.Não havia contratos.Não havia ameaças.Não havia famílias decidindo por eles.Não havia um passado empurrando os dois para uma direção que não escolheram.Havia apenas Arthur.Ajoelhado diante dela.Esperando.Escolhendo.Ela olhou ao redor.A antiga Aurora estava diferente.O lugar que um dia representou medo agora carregava flores, luz e lembranças.Caio estaria feliz.Helena teria orgulho.E talvez aquela fosse a maior vitória de todas.Transformar um lugar criado para controlar vidas em um lugar onde duas pessoas podiam escolher uma.Arthur ainda segurava sua mão.— Lívia...A voz dele estava baixa.— Se você precisar de tempo...Ela balançou a cabeça imediatamente.— Não.Ele se surpreendeu.Ela sorriu através das lágrimas.— Eu passei tempo demais esperando respostas.Esperando descobrir quem eu
Capítulo 116 — A Segunda Vez Que Eu Escolhi VocêTrês semanas se passaram.Pela primeira vez em muitos meses, Arthur acordou sem o som de alarmes, mensagens urgentes ou o peso constante de estar sendo perseguido.A casa era silenciosa.Silenciosa de um jeito bom.O aroma de café recém-passado vinha da cozinha.Lívia cantarolava baixinho enquanto preparava o café da manhã.Arthur permaneceu alguns segundos parado na porta.Apenas observando.Ela usava um moletom largo dele.Os cabelos estavam presos de qualquer jeito.Havia farinha em uma das bochechas.E ela parecia completamente feliz.Nenhuma maquiagem.Nenhuma preocupação.Nenhuma sombra do passado.Naquele instante, Arthur compreendeu que era daquela mulher comum que havia se apaixonado.Não da mulher cercada por mistérios.Nem da vítima.Nem da heroína.Apenas de Lívia.Ela percebeu sua presença.— Vai ficar me olhando até o café esfriar?Arthur sorriu.— Talvez.Ela riu.— Então venha me ajudar.Ele aproximou-se e, sem dizer nad
O cemitério estava vazio.Era uma manhã tranquila, dessas em que o vento parecia caminhar devagar entre as árvores, sem pressa de chegar a lugar algum.Arthur estacionou o carro e permaneceu alguns instantes com as mãos apoiadas sobre o volante.Respirou fundo.Durante anos, imaginara aquele momento de formas diferentes.Em algumas delas, chegava tomado pela raiva.Em outras, fazia perguntas que jamais seriam respondidas.Também houve um tempo em que acreditou que pisaria ali apenas para dizer ao pai tudo o que havia destruído.Agora, nenhuma dessas palavras fazia sentido.Lívia segurou sua mão.— Não precisa entrar sozinho.Ele olhou para ela e sorriu.— Eu sei.Mas acho que essa conversa é minha.Ela assentiu.— Estarei aqui.Sempre.Arthur acariciou seu rosto com delicadeza antes de descer do carro.Os passos sobre o cascalho pareciam mais pesados do que realmente eram.Cada metro percorrido carregava lembranças de uma infância confusa, de uma juventude marcada pelo ressentimento e







