INICIAR SESIÓNO silêncio que se instalou depois daquelas palavras não foi apenas a ausência de som — foi como se algo dentro de Lívia tivesse sido deslocado do próprio lugar, como se uma peça essencial tivesse sido retirada de uma estrutura que ainda permanecia de pé, mas instável, prestes a ceder a qualquer movimento mais brusco, e o pior de tudo não era o que Arthur dizia, mas a forma como dizia, com uma convicção absoluta, fria, incontestável, como alguém que não estava levantando uma hipótese, mas apenas apontando para uma verdade que ele já conhecia há muito tempo.
Ela tentou respirar fundo, mas o ar parecia não preencher completamente os pulmões, como se o corpo estivesse resistindo a aceitar o que a mente ainda não conseguia processar, e por um instante, tudo o que ela queria era negar, rejeitar, empurrar aquilo para longe como algo absurdo demais para ser real, mas havia algo — um detalhe invisível, um desconforto sutil — que a impedia de descartar completamente a possibilidade.
— Isso não faz sentido — disse, finalmente, a voz mais baixa do que gostaria, traindo uma insegurança que ela não costumava demonstrar.
Arthur não respondeu de imediato, e aquele pequeno intervalo foi suficiente para que o silêncio se tornasse mais pesado, mais denso, como se estivesse sendo preenchido por tudo aquilo que ainda não havia sido dito, por todas as respostas que ele claramente possuía, mas que escolhia não entregar.
— Memória é uma coisa extremamente instável — ele disse, caminhando lentamente ao redor dela, como se estivesse construindo cada palavra com precisão — as pessoas acreditam que ela é sólida, que define quem elas são, mas na verdade… ela é maleável, fragmentada, fácil de distorcer.
Lívia apertou os papéis entre os dedos, sentindo o leve tremor que começava a se instalar nas mãos, não por fraqueza, mas por uma sensação crescente de que estava perdendo algo que nem sequer lembrava ter tido, e aquilo era profundamente perturbador, porque não se tratava de esquecer onde deixou as chaves ou o que comeu no dia anterior — era algo muito maior, algo que parecia envolver identidade, passado, decisões.
— Eu não esqueceria algo assim — disse, mais firme agora, tentando se ancorar naquela certeza, tentando recuperar algum controle.
Arthur parou diante dela, observando com atenção, e por um instante, houve algo diferente no olhar dele, algo que não era apenas julgamento ou raiva, mas uma espécie de avaliação mais profunda, como se estivesse tentando determinar se ela realmente acreditava no que dizia.
— Você não esqueceu — ele respondeu, finalmente — você apagou.
O impacto da palavra foi imediato.
Apagou.
Não perdido.
Não esquecido.
Apagado.
— Isso é impossível — ela retrucou, mas dessa vez havia menos convicção na voz.
— Não para você.
A resposta veio simples, direta, como se não houvesse necessidade de justificar.
E talvez não houvesse.
Lívia desviou o olhar por um segundo, tentando organizar os pensamentos, tentando encontrar uma linha lógica que conectasse tudo aquilo, mas quanto mais tentava, mais a sensação de vazio se ampliava, como se estivesse tentando acessar uma sala dentro da própria mente cuja porta estava trancada por dentro.
— Por que eu faria isso? — perguntou, voltando a encará-lo.
Arthur não respondeu imediatamente, e dessa vez o silêncio não pareceu apenas calculado — pareceu… pesado.
Carregado.
Como se a resposta fosse algo que ele carregava com dificuldade.
— Porque você não conseguiu lidar com as consequências — disse, por fim.
O coração dela apertou com força.
— E quais foram essas consequências?
Ele sustentou o olhar por alguns segundos, e então desviou, caminhando até a janela como se precisasse daquele pequeno afastamento para continuar.
— Você destruiu alguém — disse, olhando para fora — alguém que não merecia.
O ar pareceu ficar mais frio.
— Você está falando de você?
Arthur soltou uma respiração baixa, quase um riso sem humor.
— Não — respondeu — eu estou falando dela.
A mulher da foto.
A peça que faltava.
Lívia sentiu o estômago revirar.
— Quem era ela?
Ele virou-se lentamente, e dessa vez não houve qualquer tentativa de suavizar a resposta.
— Tudo.
A palavra ficou suspensa entre eles.
Pesada.
Definitiva.
E foi nesse momento que algo dentro de Lívia vacilou de verdade, porque não era apenas o conteúdo da resposta — era a forma como ele disse, com uma intensidade que não parecia encenada, que não parecia construída, que não parecia manipulada.
Parecia real.
Perigosamente real.
— Eu não lembro disso — disse, mais baixo agora.
Arthur se aproximou novamente, diminuindo a distância entre eles de forma quase imperceptível, mas suficiente para que ela sentisse a mudança no ar, a tensão que parecia crescer a cada passo.
— Eu sei.
Duas palavras.
Simples.
Mas carregadas de algo que ela não conseguiu identificar completamente.
— Então como você pode ter certeza?
Ele parou a poucos passos dela.
Olhou diretamente nos olhos dela.
E por um instante, o tempo pareceu desacelerar.
— Porque eu estava lá — disse.
O coração dela disparou.
— Isso não prova nada.
— Prova o suficiente.
O silêncio que se seguiu foi pesado, e pela primeira vez desde que tudo começou, Lívia sentiu algo além de confusão e irritação.
Sentiu medo.
Não dele.
Mas da possibilidade de ele estar dizendo a verdade.
— O que exatamente eu fiz com ela? — perguntou, a voz quase um sussurro.
Arthur não respondeu.
Não imediatamente.
Ele apenas a observou, como se estivesse avaliando algo que ia além da pergunta, como se estivesse decidindo até onde poderia ir sem quebrar completamente aquilo que ainda estava sendo construído ali.
— Se eu te contar agora — disse, por fim — você vai negar.
— E se eu não negar?
Um pequeno silêncio.
E então:
— Então você vai desejar ter negado.
A resposta foi tão direta que fez algo dentro dela se retrair.
— Para de falar como se isso fosse algum tipo de punição planejada.
— Mas é.
A confirmação veio sem hesitação.
— Você me trouxe para cá para se vingar.
— Não só isso.
Ela franziu o cenho.
— Então o que mais?
Arthur inclinou levemente a cabeça, observando-a com mais atenção, como se aquela pergunta tivesse um peso diferente, como se abrisse espaço para algo que ele ainda não tinha decidido se queria revelar.
— Para ver até onde você vai quando não tem mais para onde fugir.
O corpo dela enrijeceu.
— Eu não estou fugindo de nada.
— Está — ele respondeu, aproximando-se mais um passo — só não lembra do quê.
A proximidade agora era suficiente para que ela sentisse a presença dele de forma mais intensa, e por um segundo, algo estranho aconteceu — não medo, não exatamente — mas uma sensação desconfortável de familiaridade, como se aquele tipo de tensão já tivesse existido antes, como se aquele tipo de proximidade já tivesse sido vivida, mesmo que ela não tivesse acesso à memória disso.
E aquilo…
aquilo foi pior do que qualquer ameaça.
Ela deu um passo para trás.
Instintivo.
E viu algo passar pelo olhar dele.
Rápido.
Quase imperceptível.
Mas ali.
— Não chega mais perto — disse, firme.
Arthur parou.
E por um segundo, pareceu considerar ignorar.
Mas não ignorou.
Apenas sustentou o olhar.
— Você não faz ideia do que está pedindo.
— Então me explica.
O silêncio voltou.
Mais pesado do que antes.
Mais carregado.
E dessa vez, ele não respondeu com palavras.
Apenas a observou por mais alguns segundos.
E então se afastou.
Como se tivesse decidido algo.
Como se tivesse mudado de estratégia.
— Você vai descobrir — disse, caminhando em direção à porta — porque algumas verdades não podem ser entregues.
Ela sentiu a frustração subir, misturada com algo mais profundo, algo que começava a parecer com desespero.
— Para de me tratar como se eu fosse culpada de algo que nem sei o que é!
Ele parou.
Sem se virar.
E quando falou, a voz veio mais baixa.
Mais controlada.
Mais perigosa.
— Você é culpada.
O ar ficou preso no peito dela.
— E o pior?
Uma pausa.
Curta.
Pesada.
— Você implorou para esquecer.
O corpo dela gelou.
Completamente.
E naquele instante…
algo dentro dela tremeu.
Não como um pensamento.
Mas como um reflexo.
Como um eco.
Uma sensação vaga.
Distante.
Mas real.
Como se, por um segundo…
uma parte esquecida da sua própria história tivesse tentado voltar.
Naquele exato momento, a cabeça de Lívia latejou com força — e uma imagem surgiu, rápida, fragmentada…
Ela chorando.
Desesperada.
Dizendo algo para alguém.
Uma única frase, repetida várias vezes:
“Eu não posso lembrar disso… eu não posso…”
Um ano depois.Lívia costumava pensar que finais felizes eram feitos de grandes momentos.Declarações em lugares perfeitos.Promessas diante de centenas de pessoas.A sensação de que, depois de uma grande batalha, tudo finalmente ficaria exatamente como deveria ser.Ela estava errada.O verdadeiro final feliz não parecia uma cena de filme.Parecia uma manhã comum.Parecia acordar com Arthur reclamando porque ela havia roubado metade do cobertor durante a noite.Parecia café derramado na mesa.Parecia livros abertos em todos os cantos da casa.Parecia uma vida que não precisava ser extraordinária para ser preciosa.— Você está escrevendo sobre mim?Arthur perguntou.Lívia levantou os olhos do caderno.Ele estava encostado na porta do escritório, segurando duas xícaras de café.Ela sorriu.— Talvez.Arthur colocou uma das xícaras ao lado dela.— Essa resposta significa sim.— Você ficou muito convencido.Ele sentou ao lado dela.— Depois de tudo que aconteceu, acho que tenho direito a u
Seis meses depois.A vida voltou a ter sons simples.E, depois de tudo que haviam vivido, Arthur descobriu que eram justamente esses sons que mais significavam.O barulho de uma xícara sendo colocada sobre a mesa.O riso de alguém na cozinha.A chuva batendo na janela durante uma tarde tranquila.O silêncio confortável entre duas pessoas que não precisavam mais preencher todos os espaços com explicações.Durante muito tempo, ele acreditou que a paz seria algo grandioso.Uma vitória.Uma conquista.Um momento em que finalmente sentiria que havia vencido.Mas a paz não chegou como uma explosão.Ela chegou em pequenas coisas.Como acordar ao lado de Lívia e saber que ela estava ali porque escolheu estar.A casa havia mudado.Não por causa de reformas.Mas porque agora tinha vida.Livros espalhados pela sala.Flores na mesa.Desenhos de Caio emoldurados nas paredes.Fotografias de momentos que antes pareciam impossíveis.Era diferente da antiga mansão dos Vasconcelos.Lá tudo era perfeito
O último dia em Aurora chegou sem cerimônia.Sem câmeras.Sem jornalistas.Sem pessoas esperando uma grande revelação.Apenas um pequeno grupo caminhando pelos corredores que um dia pareceram intermináveis.Arthur segurava a mão de Lívia.Dessa vez, não para guiá-la.Não para protegê-la.Apenas porque queria.E essa diferença significava tudo.O complexo estava quase vazio.As paredes que antes carregavam centenas de telas agora tinham apenas marcas do tempo.Os corredores onde pessoas haviam perdido anos de suas vidas estavam iluminados pela luz natural que entrava pelas janelas abertas.Pela primeira vez, Aurora parecia um lugar comum.Talvez esse fosse o maior sinal de que tinha acabado.Gabriel caminhava à frente com alguns documentos.— O processo de encerramento foi aprovado.Todos os servidores restantes serão desmontados.Os arquivos históricos ficarão no memorial.Nada relacionado aos experimentos continuará ativo.Clara olhou ao redor.— É estranho.Gabriel concordou.— O qu
Durante alguns segundos, Lívia não conseguiu responder.Não porque tivesse dúvidas.Mas porque, pela primeira vez em toda a sua história com Arthur, ela queria guardar aquele instante.Não havia contratos.Não havia ameaças.Não havia famílias decidindo por eles.Não havia um passado empurrando os dois para uma direção que não escolheram.Havia apenas Arthur.Ajoelhado diante dela.Esperando.Escolhendo.Ela olhou ao redor.A antiga Aurora estava diferente.O lugar que um dia representou medo agora carregava flores, luz e lembranças.Caio estaria feliz.Helena teria orgulho.E talvez aquela fosse a maior vitória de todas.Transformar um lugar criado para controlar vidas em um lugar onde duas pessoas podiam escolher uma.Arthur ainda segurava sua mão.— Lívia...A voz dele estava baixa.— Se você precisar de tempo...Ela balançou a cabeça imediatamente.— Não.Ele se surpreendeu.Ela sorriu através das lágrimas.— Eu passei tempo demais esperando respostas.Esperando descobrir quem eu
Capítulo 116 — A Segunda Vez Que Eu Escolhi VocêTrês semanas se passaram.Pela primeira vez em muitos meses, Arthur acordou sem o som de alarmes, mensagens urgentes ou o peso constante de estar sendo perseguido.A casa era silenciosa.Silenciosa de um jeito bom.O aroma de café recém-passado vinha da cozinha.Lívia cantarolava baixinho enquanto preparava o café da manhã.Arthur permaneceu alguns segundos parado na porta.Apenas observando.Ela usava um moletom largo dele.Os cabelos estavam presos de qualquer jeito.Havia farinha em uma das bochechas.E ela parecia completamente feliz.Nenhuma maquiagem.Nenhuma preocupação.Nenhuma sombra do passado.Naquele instante, Arthur compreendeu que era daquela mulher comum que havia se apaixonado.Não da mulher cercada por mistérios.Nem da vítima.Nem da heroína.Apenas de Lívia.Ela percebeu sua presença.— Vai ficar me olhando até o café esfriar?Arthur sorriu.— Talvez.Ela riu.— Então venha me ajudar.Ele aproximou-se e, sem dizer nad
O cemitério estava vazio.Era uma manhã tranquila, dessas em que o vento parecia caminhar devagar entre as árvores, sem pressa de chegar a lugar algum.Arthur estacionou o carro e permaneceu alguns instantes com as mãos apoiadas sobre o volante.Respirou fundo.Durante anos, imaginara aquele momento de formas diferentes.Em algumas delas, chegava tomado pela raiva.Em outras, fazia perguntas que jamais seriam respondidas.Também houve um tempo em que acreditou que pisaria ali apenas para dizer ao pai tudo o que havia destruído.Agora, nenhuma dessas palavras fazia sentido.Lívia segurou sua mão.— Não precisa entrar sozinho.Ele olhou para ela e sorriu.— Eu sei.Mas acho que essa conversa é minha.Ela assentiu.— Estarei aqui.Sempre.Arthur acariciou seu rosto com delicadeza antes de descer do carro.Os passos sobre o cascalho pareciam mais pesados do que realmente eram.Cada metro percorrido carregava lembranças de uma infância confusa, de uma juventude marcada pelo ressentimento e







