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last update Data de publicação: 2025-09-07 23:41:10

A Casa do Capataz

A estrada que levava à fazenda parecia interminável. O vento entrava pela janela parcialmente aberta, trazendo o cheiro da terra úmida, dos campos e do mato que cercava a propriedade. 

Para Letícia, aquele era um mundo completamente diferente do burburinho de Dallas, do barulho de motores e luzes de neon. 

Para mim, Henry Walker, cada quilômetro percorrido me aproximava do lugar que eu chamava de lar, mas que agora estava prestes a se tornar palco de uma nova batalha: conquistar o coração de uma mulher que não conhecia minha verdadeira identidade.

— Uau…

Murmurou Letícia, inclinando-se na poltrona para observar a paisagem.

 Seus olhos castanhos arregalados refletiam tanto surpresa quanto fascínio. 

— Isso é enorme e verde! Nunca vi nada assim de perto.

Sorri de leve, tentando disfarçar o orgulho e a ansiedade.

— Sim, é a fazenda que trabalho, como digamos o capataz. 

—O dono está viajando, e eu estou cuidando das coisas.

— Capataz? Letícia repetiu, arqueando as sobrancelhas, claramente incrédula. 

— Você parece importante demais para isso.

— É só uma máscara.  Respondi, desviando o olhar da estrada, mas não dela. 

— Algumas vezes, para nos proteger, precisamos mentir.

O silêncio caiu por alguns minutos. 

Eu podia sentir a tensão entre nós, aquela mistura de curiosidade, atração e desconfiança que parecia crescer a cada quilômetro.

 Letícia olhou para a bebê nos braços, e pude ver a preocupação em seu rosto, a responsabilidade que carregava como cuidadora da irmã pequena. 

Aquilo despertou algo protetor em mim, um instinto que eu não esperava sentir por uma criança que não era minha.

Quando finalmente chegamos à fazenda, o sol começava a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e rosa. 

O casarão branco, com varanda ampla e janelas de madeira, parecia maior e mais imponente do que qualquer construção urbana que Letícia tivesse visto. 

—Essa é a casa do patrão, nós vamos pra minha casa ela é mais humilde.

—É lá que vai morar comigo 

Deixamos o casarão branco para trás, sua imponência refletindo no olhar curioso de Letícia, e seguimos por uma trilha de terra batida ladeada por árvores antigas.

 A estrada curta nos levou a um espaço mais reservado da fazenda, onde a verdadeira vida acontecia, longe das grandes janelas enfeitadas e da varanda ornamentada da casa principal.

— Aqui… 

Murmurei, apontando para a construção simples à frente. 

— É a minha casa. Nosso lar, pelo menos por enquanto.

A casa do capataz surgia diante de nós: 

Paredes de madeira pintadas de branco, um telhado inclinado de telhas vermelhas já gastas pelo tempo e uma varanda pequena, com duas cadeiras de balanço de madeira que rangiam quando o vento as tocava. 

Não havia ostentação, mas havia calor. O tipo de lugar que abraçava o visitante em silêncio, sem necessidade de luxo.

Letícia desceu do carro devagar, apertando a bebê contra o peito.

 Seus olhos percorriam cada detalhe com uma mistura de surpresa e cautela.

— É aconchegante. Disse, após um longo suspiro. 

Sua voz carregava um tom de análise, como se estivesse medindo cada pedaço daquele novo mundo.

Sorri de leve, orgulhoso, mas contido.

— Não é Dallas, nem um apartamento de vidro com vista para os prédios, mas é um lugar onde se respira paz.

Ela não respondeu de imediato. 

Caminhou até os degraus da varanda e passou a mão pela madeira gasta, como se quisesse sentir a história gravada ali.

Quando entramos, o cheiro de madeira encerada e café impregnado nas paredes tomou conta. 

A sala era modesta, com sofá de couro marrom já marcado pelo tempo, uma pequena estante com alguns livros antigos e uma lareira de pedra que, embora simples, dava um ar acolhedor ao ambiente.

— É melhor do que eu pensei disse Letícia, olhando ao redor. 

— Mas tem algo aqui, algo que parece verdadeiro.

Não consegui evitar um sorriso discreto.

— Essa é a palavra certa. Verdadeiro. Aqui nada é fachada. 

—O que vê é o que tem.

Conduzi-a até o quarto de hóspedes: 

Paredes claras, móveis de madeira simples, uma cama arrumada com lençóis de algodão e uma colcha azul desbotada, feita à mão. 

Não havia luxo, mas havia cuidado. Sobre a cômoda, um pequeno vaso com flores do campo,  numa tentativa de dar vida ao espaço.

 Agora, parecia ter sido colocado ali para recebê-la.

Letícia pousou a bebê sobre a cama, ajeitando os travesseiros para formar uma barreira protetora. 

Ficou em silêncio por alguns instantes, apenas observando a pequena dormir. 

Seus olhos marejaram, e percebi a vulnerabilidade escondida sob sua força.

— Henry… 

Ela começou, virando-se para mim. 

— Você tem ideia do que está fazendo? 

—Trazer duas estranhas para dentro da sua vida assim…

Dei um passo à frente, encarando-a de perto.

— Talvez eu não saiba exatamente o que estou fazendo, Letícia. 

—Mas sei de uma coisa: 

—Aqui vocês estarão seguras. 

—E não esqueça que você é minha esposa.

O silêncio pairou no ar, pesado e intenso. 

O olhar dela buscava respostas no meu rosto, e eu sabia que cada palavra precisava carregar verdade.

Depois de alguns segundos, ela respirou fundo e desviou os olhos, como se aceitasse temporariamente a situação.

— Seguras… 

Repetiu, num sussurro, mais para si mesma do que para mim. 

— Eu quero acreditar nisso.

Guiando-a até a cozinha, mostrei a simplicidade do espaço: 

Mesa de madeira grande, marcada pelo uso, cadeiras firmes mas antigas, armários brancos com puxadores enferrujados. 

Sobre a mesa, uma jarra de vidro com água fresca e algumas maçãs recém-colhidas. 

A janela aberta deixava entrar a brisa da noite e o som distante dos grilos.

— Aqui não falta o necessário. Expliquei. 

— É confortável o bastante para viver bem, mas não espere luxo.

Letícia sentou-se, apoiando os cotovelos na mesa, e me olhou com aquele mesmo ar provocador de Dallas.

— Luxo não me importa. Mas será que eu consigo me adaptar?

Cruzei os braços, sustentando seu olhar.

— Isso depende de você. A vida no campo exige força, paciência e coragem. 

—E eu já vi que dessas três coisas você tem de sobra.

Ela arqueou a sobrancelha, abrindo um meio sorriso que escondia algo mais profundo.

— Cuidado, Henry. Se continuar me provocando, vou acabar provando que você está certo.

O clima entre nós se tornou denso de novo, como se cada palavra fosse um convite velado para algo que nenhum de nós ousava nomear.

A bebê chorou suavemente, quebrando o momento. 

Letícia se levantou de imediato, pegando-a no colo com delicadeza. 

A cena me atingiu como um soco invisível: 

Aquela mulher forte, desafiadora, segurando uma criança com tanto cuidado, dentro da minha casa. 

Um retrato de algo que eu  imaginei e desejei com outra mulher… 

—Mas que agora parecia inevitável viver com Letícia.

— Vou precisar de ajuda com ela também. Disse Letícia, balançando a pequena nos braços. 

— Não sei se consigo lidar com tudo sozinha.

Dei um passo em sua direção, baixando o tom da voz.

— Não vai estar sozinha. Nunca mais.

Nossos olhares se encontraram, e por um instante, o mundo inteiro desapareceu. 

A vingança, a dor, o passado tudo parecia distante. 

O que restava era apenas a tensão que crescia entre nós, inevitável, incendiária.

A casa do capataz, simples e despretensiosa, tornou-se o cenário de uma nova promessa: 

Não apenas de proteção, mas de algo muito maior que nem eu, nem Letícia, estávamos prontos para admitir.

Naquele lar sem luxo, mas cheio de verdades e mentiras, uma batalha silenciosa começava e eu sabia que não seria fácil vencê-la.

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Último capítulo

  • Casado? EU?   EPÍLOGO

    Epílogo O Recomeço com o BebêO sol ainda nascia sobre a fazenda, espalhando uma luz dourada que iluminava o quintal, as árvores e o celeiro. Um perfume suave de terra molhada e flores preenchia o ar, misturando-se ao calor das primeiras horas da manhã. Mas nada se comparava à sensação que preenchia meu coração: Nosso bebê estava finalmente conosco.Laura, agora com três anos, corria animada pelo quarto, seus passos pequenos e apressados ecoando no piso de madeira. Seus olhinhos brilhavam com curiosidade e alegria, mas ela parou ao ouvir o choro suave vindo do berço ao lado da cama. — Bebê… bebê! — Exclamou, correndo para ver o irmãozinho ou irmãzinha.Henry, exausto, mas radiante, segurava nosso recém-nascido nos braços com cuidado e reverência. O toque dele era tão terno que fazia meu coração se apertar de emoção. Eu me sentei ao lado da cama, olhando cada gesto dele: O jeito com que ele apoiava a cabecinha do bebê, o sorriso que surgia involuntário em seu rosto e a forma

  • Casado? EU?   REENCONTRO DEFINITIVO

    Reencontro definitivo.O sol se punha no horizonte da fazenda, tingindo o céu de tons dourados, laranjas e violetas, e refletindo sobre os campos de milho que balançavam suavemente com a brisa da tarde. Havia um silêncio confortável, interrompido apenas pelo riso distante de Laura, que corria pelos corredores da varanda, com seus pequenos pés descalços fazendo cócegas na madeira quente. Ela havia aprendido a falar ainda mais desde que completou três anos, e agora sua linguagem infantil cheia de gaguejos e invenções encantava a todos: — Papá… mamãe… bebê… brincar… — E Henry corria atrás dela, pegando-a nos braços e girando-a com cuidado.Eu me sentei na cadeira de balanço da varanda, sentindo o calor do entardecer no rosto e a mão de Henry repousando suavemente sobre minha barriga. O bebê se mexia dentro de mim, lembrando-nos de que nossa família estava prestes a crescer, e Henry sorria, os olhos brilhando de emoção. Havia sido uma jornada intensa, cheia de descobertas, tensões

  • Casado? EU?   SE DECLARANDO

    se declarando O sol da manhã entrava pelas janelas amplas da casa principal da fazenda, refletindo nas tábuas de madeira polida e criando uma luz dourada que parecia envolver tudo em calor e segurança. Eu estava na cozinha, preparando o café, sentindo o bebê se mexer com força dentro de mim, um lembrete constante de que nossas vidas estavam mudando de forma irrevogável. Laura corria pelo corredor, agora com quase três anos e meio, tagarelando palavras ainda tortas, mas cheias de personalidade: — Mamãe, papá, eu corri! E Henry a seguia, o olhar atento e protetor, pronto para intervir se necessário.Mas naquele dia, o clima na casa era diferente. Havia uma tensão que não vinha de ameaças externas, mas de algo mais profundo: A necessidade de palavras claras, de verdades expostas. Henry me chamou com aquele jeito firme, mas suave ao mesmo tempo, um equilíbrio que sempre me deixava sem fôlego.— Letícia. Disse ele, a voz baixa, mas carregada de intensidade — precisamos conversar.Se

  • Casado? EU?   RECONQUISTAR A CONFIANÇA

    reconquistar a confiançaA manhã amanheceu clara, com o sol espargindo raios suaves sobre o quintal da fazenda. O cheiro da terra úmida e do feno recém-organizado carregava uma sensação de paz que contrastava com a turbulência emocional que ainda nos cercava. Laura já estava acordada, correndo com os pés descalços pela grama, a risadinha infantil ecoando e preenchendo cada canto da propriedade.Eu estava sentada na varanda, acariciando minha barriga, sentindo os leves pontapés do bebê que se agitava em resposta à movimentação da irmã. Cada toque e cada movimento me lembravam da responsabilidade que carregava, mas também do vínculo que crescia a cada dia. Minha mente, porém, não podia evitar revisitar os últimos acontecimentos, a revelação de Mara, a mentira de Henry, o sentimento de humilhação e dor que ainda queimava dentro de mim.Henry apareceu carregando duas xícaras de chá, caminhando com cuidado para não tropeçar nas tábuas da varanda. Seu olhar, embora carregado de preocu

  • Casado? EU?   A EXPLOSÃO EMOCIONAL

    A explosão emocionalO dia começou com uma névoa suave que se espalhava pelos campos, misturando o cheiro da terra úmida ao perfume das flores silvestres que cercavam a varanda da casa principal. Laura corria entre os arbustos, tentando alcançar uma borboleta que parecia dançar apenas para ela. Mas eu não conseguia me concentrar na beleza do campo, cada pensamento era atravessado pela visita de Mara e pelas palavras que ainda ecoavam na minha mente: “Ele é dono de tudo. Milionário. E nunca te contou.”Henry entrou na cozinha com a suavidade habitual, trazendo café fresco e frutas para o nosso pequeno-almoço. Mas havia uma tensão visível em seu olhar, um esforço para permanecer calmo diante da minha presença, do medo e da raiva que eu mal conseguia esconder. Ele colocou o prato à minha frente, cuidadosamente, como se cada gesto pudesse restaurar algum equilíbrio perdido.— Letícia… Começou ele, a voz baixa, quase sussurrada — precisamos conversar.— Conversar? Minha voz tremia,

  • Casado? EU?   A REVELAÇÃO VENENOSA

    A revelação venenosaO silêncio que se seguiu à chegada de Iara parecia quase sólido, pesado, comprimindo o ar entre nós. Laura, inconsciente da gravidade do momento, caminhava descalça pelo piso de madeira da varanda, pegando pequenas folhas caídas do vento e colocando-as no bolso como se fossem tesouros. Eu a observava com um sorriso terno, tentando absorver a normalidade da rotina em meio ao caos que a presença da mulher elegante e imponente havia trazido.Henry permanecia firme à minha frente, os braços cruzados, os olhos atentos a cada gesto da intrusa. Mas, por dentro, eu sabia que o coração dele batia acelerado. Era o mesmo Henry que segurava Laura com carinho, que me apoiava a cada passo da gravidez, que me embalava à noite para aliviar as dores e os desconfortos. Agora, porém, ele precisava conter algo mais profundo: A raiva, a surpresa, o medo de que Iara pudesse, de alguma forma, colocar em risco a nossa família.— Então… Começou Mara, os olhos cintilando como lâmin

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