INICIAR SESIÓNEu não poderia mais intervir por ela; qualquer coisa que eu dissesse seria vista com olhos ameaçadores por Domenico. Então busquei com os olhos sua mãe, Valentina.
Como se fosse atraída por mim, olhou em minha direção e acredito que meus olhos disseram o suficiente, pois assim que seu marido se sentou à mesa ela se prontificou em ajudar a filha. - Querido, permita ao menos que Alessia se recomponha antes de retornar à mesa. Domenico olhou para a esposa com desdém e voltou sua atenção para o prato à sua frente. - Alessia, sentará à mesa. Se não queria isso, simplesmente deveria ter saído da frente como mandei. - O tom de voz era frio e Valentina se encolheu, sentando-se em sua cadeira. - Não concedo benevolência a quem me desobedece! Senti que suas palavras eram direcionadas a mim. No entanto, caminhei até a mesa e me sentei, ouvindo os passos delicados do salto de Alessia logo atrás de mim, mais lentos e hesitantes do que antes. O sangue provavelmente já estava começando a incomodar de verdade. Reparei que ela parecia meio pálida, o rosto mais branco do que o normal, os lábios entreabertos como se respirasse pela boca para evitar engolir o que se acumulava. Mesmo sabendo que era uma atitude idiota e impensada, segurei seu pulso quando passou por mim, impedindo-a de seguir até seu assento. Seus olhos encontraram os meus e, sem desviar do oceano que fluía em suas pupilas dilatadas, retirei o lenço do meu terno com a outra mão e ofereci a ela, ciente do pulso rápido em meus dedos e do tremor em sua mão. Alessia me encarou com olhos surpresos e com um brilho a mais. Seria... admiração? Gratidão? Eu não saberia dizer. Mas ela aceitou, pegando o tecido com a outra mão enquanto eu relutantemente a soltava. Voltei minha atenção ao meu prato e, sabendo que Domenico me observava, falei, antes que ela retomasse seu caminho: - Espero que futuramente não tenhamos problemas conjugais como este, senhorita Bianchi. Não a encarei para ver a raiva, a decepção, o medo ou a relutância em estar próxima de mim. Não queria encará-la, não queria vê-la com medo de mim ou o que quer que estivesse sentindo naquele momento. Vi pela minha visão periférica que ela assentiu antes de voltar à sua cadeira. Não podia responder, é claro. O sangue em sua boca deveria estar quase obrigando-a a engoli-lo, e eu acreditava que, se fosse forçada a isso, ela vomitaria pela expressão de agonia em seu rosto - a náusea evidente no tremor sutil dos lábios e na forma como engolia em seco, tentando não deixar transparecer. Enfim encarei Domenico do outro lado da mesa e meu sangue ferveu com o que vi: um pequeno e cínico sorriso junto a uma expressão de aprovação. Ignorei, voltando minha atenção ao jantar. Pouco tempo depois, Valentina nos envolveu no assunto do casamento, ávida para aliviar a tensão, e perguntou-me se eu tinha alguma preferência para o sabor do bolo. É claro que isso tudo quem definia era a esposa, mas estava confortável com o novo assunto e Domenico pareceu aceitar a distração também. Logo após, ele iniciou conversas sobre os negócios e novidades de expansão. Segui a conversa, fingindo não notar quando Alessia disfarçadamente usou o lenço para finalmente limpar a boca de sangue. Vi um pequeno vislumbre do vermelho no tecido branco e em seguida ela tomou um gole do vinho, fazendo uma leve careta provavelmente pela ardência intensa que o álcool causava no corte interno dos lábios e na bochecha inchada. Aproveitava os momentos em que os outros dois estavam focados em suas comidas ou bebidas para olhá-la de esguelha, mais preocupado com sua situação do que deveria me sentir. O jantar seguiu seu curso lento e opressivo, cada garfada parecendo mais pesada que a anterior, o que mostrava que a tentativa de Valentina de amenizar o clima fora fracassada. Domenico falava de expansão para Gary, de lucros crescentes nos cassinos do River North, de alianças que precisavam ser reforçadas antes do inverno. Eu respondia com precisão, concordando onde devia, sugerindo ajustes discretos nos portos que eu mesmo havia limpado naquela tarde. Valentina tentava manter o tom leve, voltando ao bolo do casamento, às flores da capela em Lake Michigan, à data de 1º de novembro que pairava como uma sentença inevitável. Alessia permanecia em silêncio quase absoluto, respondendo apenas com monossílabos quando diretamente questionada. O lenço branco que eu lhe dera estava dobrado ao lado do prato dela, agora manchado de vermelho seco no canto. Cada vez que ela levava a taça aos lábios, via-se o leve tremor, a careta contida quando o vinho tocava o corte interno. A bochecha começava a ganhar um tom arroxeado sutil sob a luz do lustre, inchaço que se formava devagar, latejando visivelmente com o pulsar do sangue. Eu fingia não notar, mas meus olhos voltavam para ela em intervalos curtos, calculando o quanto aquilo devia lhe incomodar, sabendo exatamente o tipo de dor que recebi socos na cara nos últimos anos - a ardência constante, o gosto metálico que não saía da boca, a náusea que subia e descia como ondas. Finalmente, o último prato foi recolhido. As empregadas entraram em silêncio para retirar os talheres e servir café. Domenico acendeu mais um de seus charutos cubanos, a fumaça subindo em espirais preguiçosas, preenchendo o ar com o aroma forte e doce que sempre me lembrava reuniões antigas, antes da prisão. Ele parecia satisfeito com a noite - o reencontro do underboss, a filha entregue, a neta adotiva mantida sob controle. Eu me levantei devagar, limpando os lábios com o guardanapo. - Don, se me permite... - comecei, voz firme mas respeitosa. - Sua esposa mencionou mais cedo o terraço. A vista da cidade à noite é uma boa forma de... esclarecer assuntos. Gostaria de passar um tempo a sós com Alessia, se o senhor concordar. Domenico me olhou por cima da chama do maçarico, avaliando. O charuto entre os dedos, a expressão neutra. Valentina ergueu os olhos rapidamente, um brilho de aprovação discreto. Alessia permaneceu imóvel, mas senti o leve endurecimento de sua postura. Ele deu uma tragada longa, soltou a fumaça devagar. - Não tenho objeções. - O tom era magnânimo, mas carregava o aviso implícito: tudo sob minhas regras. - Fique à vontade para conhecer sua noiva. - Obrigado, senhor. Ofereci a mão a Alessia. Ela hesitou por um segundo - apenas um -, depois colocou a mão sob a minha. O toque era leve, mas quente. Caminhamos em silêncio para fora da sala de jantar, passando pelo hall principal onde o lustre ainda jogava prismas dançantes no mármore. Os passos dela ecoavam mais leves que os meus, mas eu percebia o esforço para manter o equilíbrio, o leve mancar disfarçado nos saltos altos. A dor na bochecha devia latejar a cada batida do coração. Saímos pelas portas francesas que davam para o terraço coberto. O ar noturno de Chicago nos envolveu imediatamente - fresco, com um toque de umidade do lago, misturado ao perfume distante de jasmim dos jardins abaixo. A cidade se estendia à nossa frente como um tapete de luzes: os arranha-céus ao longe brilhando em tons de ouro e azul. O terraço era amplo, com piso de pedra clara, móveis de ferro forjado preto e almofadas cor de creme. Uma lareira externa crepitava baixo, lançando sombras quentes nas paredes de tijolo. Não havia ninguém ali além de nós. Alessia soltou minha mão assim que paramos perto da balaustrada. Ficou de lado, olhando a cidade, os braços cruzados sobre o peito como se tentasse se proteger do frio - ou de mim. A luz da lareira iluminava metade de seu rosto, destacando o inchaço na bochecha esquerda, agora mais visível: uma mancha arroxeada que se espalhava da têmpora até o canto da boca. O lábio inferior estava ligeiramente inchado, e quando ela respirava, via-se o esforço para não tocar o local com a língua. Eu me posicionei ao lado dela, mãos nos bolsos da calça, olhando a mesma vista. - Como você está? - perguntei, voz baixa, sem rodeios. Ela demorou a responder. Virou o rosto devagar na minha direção, mas evitou meus olhos, fixando-se em algum ponto distante. - Estou bem - mentiu, a voz rouca, quase um sussurro. O movimento da boca deve ter incomodado o corte interno, porque vi o lampejo de dor cruzar seu olhar antes que ela o controlasse. - Não parece. - Apontei com o queixo para a bochecha. - Está inchando. Deve estar doendo bastante. Ela tocou o local com a ponta dos dedos, de leve, e fez uma careta involuntária. A pele estava quente, sensível; o latejar era visível no pulso acelerado no pescoço. - Estará melhor até o casamento - disse, dando a entender que essa era a minha preocupação. E embora tentasse soar firme, sua voz falhou no final, e ela engoliu em seco, o gosto de sangue ainda devia estar na boca, misturado ao vinho que ardia como fogo. Fiquei em silêncio por um momento, observando-a. O vento bagunçava as mechas soltas de seu cabelo, e a luz da lareira dançava nos olhos azuis, tornando-os mais profundos, mais vulneráveis. - Você se colocou na frente dela - falei, quase para mim mesmo. - Sem hesitar. Alessia ergueu o olhar finalmente, encontrando o meu. Havia surpresa ali, e algo mais - talvez desconfiança. E claramente ela não esperava minha franqueza. - Caterina é como uma irmã para mim. Sempre foi. Eu não ia deixar que meu pai... - Ela parou, mordendo o lábio e uma nova onda de dor cruzou seu rosto. - Eu simplesmente não podia ficar parada. Assenti devagar. A lealdade dela à minha filha mexia comigo de um jeito que eu não esperava. Sua relação com Caterina sendo como um golpe inesperado. E meu sentimento por ela naquele momento se tornara instinto puro, feroz, o mesmo que eu sentia quando pensava em Caterina. - Você aguentou o golpe por ela - continuei. - E agora carrega a marca. Ela deu de ombros, tentando minimizar. - Faz parte. Cresci nessa casa. Sei como as coisas funcionam, Cat sequer deveria estar aqui... - percebendo o que falou, ela ergueu os olhos rápido e sussurrou: - Desculpe. - Não peça desculpas por dizer a verdade. - Respirei fundo, olhando a cidade. - Não deveria ser assim - retruquei, mais baixo do que pretendia. - Não com você. Alessia me olhou por um longo momento, como se tentasse decifrar o que eu queria dizer. O silêncio entre nós era pesado, carregado de tudo que não era dito: o acordo, o casamento forçado, o tapa, a atração que eu sentia e que ela talvez já percebesse. - Por que você me deu o lenço? - perguntou, voz quase inaudível. - Porque ninguém merece engolir sangue na frente de quem a feriu. - Fiz uma pausa. - E porque você é minha noiva agora. O que acontece com você... reflete em mim. Ela baixou os olhos, tocando o lenço dobrado que ainda segurava na mão. - Sinto muito se meu comportamento o ofendeu - sua voz carregava uma raiva contida. O vento soprou mais forte, trazendo o som distante da cidade. Eu me aproximei um passo, sem tocá-la, mas perto o suficiente para que o calor do meu corpo chegasse até ela. - Preste atenção no que vou dizer... - delicadamente segurei seu queixo, obrigando-a a olhar para mim e falei o mais baixo possível para que só ela escutasse. - Não dou a mínima para o que os outros vão pensar, mas seu pai é líder da Outfit. Um mínimo sinal de fraqueza minha e perderei a minha cabeça e pelo que vi essa noite, ele não vai se importar se a sua rolar também. - Percebi por sua expressão que compreendia o que eu queria dizer. A soltei e ela balançou a cabeça devagar, assentindo. Reparei no quanto minhas palavras a afetaram, e ficou evidente que a dor não era só física; era o peso de anos vivendo sob o mesmo teto que aquele homem. - Alessia - chamei, usando o nome dela pela primeira vez sem formalidades. Ela ergueu os olhos. - Isso não vai acontecer de novo. Não enquanto eu estiver aqui. - Ele é o Boss... Como acabou de dizer, o que poderia fazer para impedir isso? - Tem outras maneiras de se conseguir o que quer de um rei. Ela não respondeu. Apenas assentiu, devagar, e voltou a olhar para a cidade. Ficamos ali em silêncio, lado a lado, o fogo crepitando atrás de nós, a noite de Chicago testemunhando o começo de algo que nenhum de nós ainda entendia. Continua...Três anos depoisO sol do fim de tarde sobre os subúrbios de Chicago trazia uma tonalidade dourada que eu, por muito tempo, julguei que nunca mais veria. Caminhei calmamente pelo piso de madeira da varanda, segurando as saias do meu vestido longo e fluido de seda azul, apreciando o perfume suave de jasmim que emanava do meu jardim. Ali, na calmaria da nossa casa, o silêncio não era mais o prelúdio de uma ameaça ou o eco de um cativeiro. Era a mais pura paz.Olhei para o jardim bem cuidado e meu coração se aqueceu com a imagem que vi. Aos quatorze anos, Caterina havia se tornado o verdadeiro orgulho desta casa. Ela era inteligente, carismática, gentil e muito atenciosa. Ela corria pela grama, rindo alto enquanto tentava segurar dois furacões idênticos de apenas dois anos. Meus filhos gêmeos, Matteo e Tomás, seguiam os passos dela com suas pernas gordinhas e aquela energia inesgotável que puxaram do pai, embora toda vez que se olhassem no espelho encontrassem os meus próprios olhos azui
Seis Meses DepoisSeis meses haviam se passado desde a noite em que o cimento do porto engoliu o último vestígio do passado de Alessia. Seis meses desde que assumi a liderança absoluta da nossa organização, enterrando a velha guarda e reescrevendo as regras com o meu próprio sangue. O dia na sede da Família havia sido longo, uma sucessão interminável de reuniões com os chefes de área e os novos street bosses que agora respondiam diretamente a mim. O peso da coroa da Oufit nunca ficava mais leve, mas era o preço que eu pagava de bom grado para manter o império seguro.Estacionei o utilitário na entrada da agora mansão em que morávamos e saí, desatando o nó da gravata escura com uma das mãos. O cansaço pesava em meus ombros, uma tensão acumulada que parecia se dissipar apenas quando eu cruzava os limites daquela propriedade.Ao caminhar em direção à lateral da casa, o som de risadas suaves flutuou pelo ar da tarde. Na varanda dos fundos, o cenário que encontrei me fez parar por um ins
A manhã nasceu cinzenta, com uma névoa espessa cobrindo a cidade de Chicago e filtrando uma luz pálida pelas frestas das cortinas de veludo. Levantei-me antes que o sol estivesse completamente alto, tomando o cuidado de colocar um travesseiro no lugar do meu corpo para que Alessia não despertasse com a minha ausência. Ela ainda dormia um sono profundo e pesado, as marcas arroxeadas sob os olhos denunciando o preço físico do trauma recente.Tomei um banho rápido, vesti um terno sob medida cinza-escuro, uma camisa preta e dispensei a gravata. Abotoei as abotoaduras de ouro com o brasão da família e, antes de sair do quarto, parei ao lado da cama, depositando um beijo suave na testa da minha mulher. Ela murmurou algo incompreensível e se encolheu mais sob os lençóis.Ao descer as escadas, o silêncio da penthouse era diferente do da noite anterior. Havia uma tensão elétrica no ar, uma expectativa palpável dos soldados que faziam a guarda nos corredores. Quando me viam passar, a postura de
O trajeto de volta para a mansão principal foi governado por um silêncio absoluto, denso e cortante como o gume de uma lâmina recém-afiada. Dentro do utilitário blindado, o ar-condicionado trabalhava no máximo, mas o ambiente parecia sufocante, impregnado com o odor metálico que insistia em se desprender das minhas roupas e da minha pele.Ao meu lado, Alessia mantinha os olhos fixos na janela lateral, observando as luzes distantes da cidade passarem como borrões dourados na escuridão da noite. Sua mãe, Valentina, estava no banco de trás, silenciosa e em estado de transe ao que parecia. Alessia insistira em trazê-la junto para que não ficasse sozinha na casa, com todas as memórias desagradáveis. O corpo de minha esposa, antes rígido pelo choque, agora parecia desprovido de qualquer sustentação, como se a gravidade estivesse pesando o dobro sobre seus ombros. Minha mão esquerda, livre das manchas mais grossas de sangue que eu havia limpado rapidamente com um lenço antes de sairmos, rep
O som da carne sendo esmagada já não parecia mais real. Era apenas um eco opaco e abafado nas paredes daquele quarto decrépito, um ritmo mecânico que ditava o compasso exato da minha própria fúria. Meus nós dos dedos colidiam repetidamente contra o osso já desfigurado daquele maldito, mas a dor nas minhas mãos era completamente anestesiada pela descarga brutal e violenta de adrenaline que corria nas minhas veias. Eu queria destruí-lo. Queria arrancar, pedaço por pedaço, a existência do homem que ousara respirar o mesmo ar que a minha mulher e a minha filha. Aquele desgraçado ousara feri-las, ousara tocar no que era sagrado para mim, e na porra do meu mundo, isso era uma sentença de morte,. O som do sangue espirrando a cada novo golpe desferido começou a perder o propósito, misturando-se à poça escura que já se expandia pelo piso.De repente, meus pulmões arderam como se estivessem em chamas. A exaustão física finalmente quebrou a névoa vermelha e densa que nublava minha mente, agindo
O grito da minha mãe foi como um estopim. Antes que eu pudesse pensar, meu pai avançou com a fúria de um animal selvagem. Seus braços se ergueram, prontos para me esmagar, e por um instante o mundo inteiro pareceu se reduzir ao espaço entre nós dois.A arma pesava nas minhas mãos, mas não tanto quanto o peso da decisão. Eu não podia hesitar. Não dessa vez.— PARE! — gritei, o som rasgando minha garganta.Ele não parou.O disparo ecoou no quarto como um trovão. O recuo da pistola me sacudiu, o cheiro de pólvora invadiu minhas narinas, e por um segundo eu não soube se havia acertado ou não.Meu pai cambaleou, os olhos arregalados, e levou a mão ao ombro. O sangue escorreu rápido, manchando a camisa branca. Mas o olhar dele... não era de dor. Era de ódio puro.— Você... — ele rosnou, a voz grave e carregada de incredulidade. — Você realmente atirou em mim?Atrás da porta, ouvi minha mãe soltar um soluço de alívio misturado ao terror.Eu mantive a arma firme, mesmo com os braços tremendo.







