INICIAR SESIÓNA manhã seguinte chegou sem pedir licença.Rafaela acordou antes do despertador, como acontecia na maior parte dos dias, mas demorou alguns segundos para lembrar onde estava. O teto claro acima dela não era o teto do quarto que conhecia desde a infância, nem o barulho distante da rua era o mesmo que havia acompanhado suas manhãs durante anos. Ali, tudo era silencioso demais. Ela permaneceu deitada por alguns instantes, olhando para cima.Então a lembrança voltou. O café. A mesa preparada pela mãe. O bolo. Seu pai usando uma camisa que quase nunca vestia. As duas horas de espera. E, principalmente, a cadeira vazia. Rafaela fechou os olhos. Não queria pensar naquilo, mas a memória insistia, ela decide etão seriam seis meses de contrato, e ela não precisava ser humilhada assim, ela toma uma decisão e se levanta decidida ela já havia entendido uma coisa sobre Caíque Albuquerque: esperar que ele se comportasse bem e como um marido, não era algo que ela tivesse que esperar de braços cruzado
Caíque estava olhando para a janela que não tinha vista — para aquela parede cinza do prédio ao lado, aquela ausência de paisagem que era ela própria uma espécie de paisagem. Havia alguns minutos que permanecia parado diante dela, com as mãos apoiadas nos bolsos da calça e a expressão fechada, xingando internamente seu velho pai, agora falecido.Antônio Albuquerque havia conseguido fazer aquilo mesmo depois de morto. Continuava controlando sua vida. Continuava colocando regras.Continuava decidindo com quem ele deveria se casar, como deveria administrar os negócios e até mesmo quem deveria ocupar um lugar ao seu lado.Caíque soltou uma respiração pesada.— Maldito velho...A porta do escritório se abriu sem que ele tivesse sido avisado.Ele não se virou imediatamente.Rafaela entrou carregando alguns documentos contra o peito. Desde o casamento, sua posição dentro da empresa havia se tornado ainda mais estranha. Continuava sendo secretária, mas agora também era esposa do dono daquela
Horas depoisQuando o evento havia terminado e a mansão começava a esvaziar com aquela lentidão dos lugares que guardam o silêncio dos acontecimentos recentes — Marcelo entrou no escritório onde Caíque estava sozinho, de pé diante da janela com um copo de uísque que não havia tocado.— Encontraram — disse Marcelo, fechando a porta atrás de si.Caíque virou.— O rubi. Estava com um homem. Fotógrafo contratado para o evento. Preso discretamente na saída, há uma hora.O silêncio que se seguiu tinha aquela qualidade específica dos silêncios que existem porque a pessoa está processando não apenas a informação mas o peso do que ela significa em relação ao que foi feito antes dela chegar.— Ele foi pago — continuou Marcelo, com a voz do profissional que apresenta fatos e deixa as conclusões para o outro. — Rastreamos o pagamento. É recente. É de uma conta que conheço.Caíque fechou os olhos por um segundo.— Verônica.Não era pergunta Marcelo não respondeu. Não precisava.Caíque colocou o co
O silêncio se tornou mais denso. Rafaela sentiu o calor subir pelo pescoço antes de conseguir conter. Não de vergonha — Verônica a amante chegou na sala incomodada, a sala que foi reservada para assinar os papeis naquele dia, não era um casamento padrão, Verônica fala:— Foi ela!Verônica apontava para Rafaela com um olhar intenso e acusador. Mas uma raiva desconhecida, tomou conta da mente de Rafaela que nem sabia que tinha essa raiva, memorias do que ela viu naquela sala onde Caíque estava com aquela loira linda, um casamento sem uma festa de verdade onde nem mesmo a familia dela poderia estar presente, sem uma veste ornamentada, apenas um vestido social, ela estava apenas ali, mas o pior era o julgamento em silêncio do juiz sobre essa união. ela respira fundo e fala:— O que exatamente foi eu? — disse Rafela, e a voz saiu mais firme do que ela havia esperado, o que era um alívio que ela não tinha tempo de sentir completamente.— Você roubou — disse Verônica, com aquela concordân
A sala dois não tinha nada de especial.Era exatamente isso — nada de especial, projetada com aquela funcionalidade deliberada de ambientes que existem para que as coisas aconteçam dentro deles e não para que as pessoas se lembrem de como eram. Uma mesa de madeira escura que havia absorvido anos de cotovelos e canetas e mãos nervosas e mãos firmes e mãos de pessoas que não saberiam dizer depois se haviam sido uma ou outra. Seis cadeiras — mais do que o necessário para aquele dia, o que tornava o excesso uma presença incômoda, aquelas cadeiras vazias que existiam como testemunhas mudas de algo que não havia sido convidado. Uma janela que dava para o lado do edifício onde a vista era a parede do prédio ao lado, cinza, sem qualquer pretensão de ser outra coisa.E o juiz de paz.De cabelos grisalhos cortados com aquela precisão de quem ainda se cuida por hábito mais do que por vaidade. A expressão — ela notou assim que entrou — havia sido construída ao longo de cerimônias suficientes para
O nome da amante chegou antes da certeza completa e a certeza chegou confirmando o nome com aquela crueldade específica das confirmações que chegam quando você ainda estava na fase em que podia ter sido engano, Rafaela sentiu furia no olhar de Verônica quando mirou nela, agora, ela sabia o porque.O ar pareceu sair dos pulmões de Rafaela. Não dramaticamente — não aquele gaspar audível que revelaria presença. Foi interno. Aquela sensação física que existe quando o corpo recebe uma informação que é grande demais para ser absorvida imediatamente e que precisa de um segundo de suspensão antes de continuar funcionando.Caíque não havia percebido.Em silêncio Rafaela queria seus pais com ela, para consolar e confortar ela, mas eles foram poribidos de estar ali naquele dia, entre tanta gente importante.Estava completamente entregue — aquela qualidade de presença total que ela havia notado nele em outras situações, aquela capacidade de estar completamente dentro do que estava fazendo, que em







