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Capítulo 03. Um golpe imprevisto

Autor: Duda Sá
last update Última actualización: 2025-09-16 23:31:38

Camila me arrastou até o escritório de Heloísa Teixeira, uma advogada especialista em divórcio, que ela tinha encontrado nas redes sociais. A mulher era uma senhora simpática, que me ouviu com atenção e prometeu cuidar de tudo.

Mas dias depois, quando me chamou no escritório para falar sobre o andamento do processo, percebi que o pesadelo não tinha fim.

No levantamento dos bens, Carlos havia enviado todos os documentos: da empresa, da casa, do dinheiro guardado. Mas nada estava no nome dele e nem no meu. Tudo havia sido transferido para o irmão dele mais de um ano antes, a empresa, a casa e até o carro. 

A advogada me disse que eu não tinha nada. Não acreditei. A empresa era da minha família! Como assim agora eu não tinha direito a nada? Como o irmão de Carlos era dono de tudo — da empresa, da minha casa, até do meu carro?

Ela me mostrou toda a papelada, eu mesma havia assinado os papéis, minha assinatura estava em todos os lugares. Tentamos achar uma explicação, mas não havia prova alguma de que as assinaturas eram falsas, eu não tinha como brigar na justiça, porque não tinha pelo que brigar e só me restava assinar o divórcio. 

Carlos me enganou por mais de um ano, me roubando sem que eu percebesse. Agora eu não tinha nada. Apenas minhas roupas que estavam jogadas nas caixas, Karen não satisfeita em ficar com tudo, pegou também algumas joias que eu tinha, até aquelas que nosso pai tinha me dado.  

— Você precisa reagir, sair dessa cama — disse Camila.

— Não tenho por que sair daqui. Reagir como? Eu não tenho nada. Nem tenho uma cama — respondi, deitada no colchão inflável no chão do quarto dela.

— Então vamos comprar uma cama. Depois você decide o que fazer. Tem um quarto nos fundos que usamos como depósito. Podemos limpar e arrumar para você, assim não precisa ficar aqui comigo.

A casa da minha tia era antiga. Eu queria comprar uma casa nova quando a empresa finalmente cresceu, mas ela nunca quis mudar. No máximo, permitiu que eu fizesse uma reforma.

— Quer ir na Lush hoje? Vai ter happy hour e posso fazer uns drinks de graça para você — insistiu Camila, tentando me animar.

Ela trabalhava como bartender em uma balada e nunca quis um emprego tradicional. Mas eu não tinha ânimo para sair da cama. Prometi que iria outro dia.

Não conseguia parar de pensar em Karen, minha irmã sempre foi ambiciosa e eu não acreditava em nenhuma história de amor entre ela e Carlos. Quando viu que estávamos ganhando dinheiro, decidiu tomar a minha vida. Eu sabia que ela gastaria todo o dinheiro dele. Não gostava de trabalhar, mas adorava dinheiro. Era extremamente bonita, sabia ser simpática e sedutora, mas era falsa e eu nunca imaginei que faria isso comigo.

Mas Karen não parecia satisfeita. Queria mais. Ela enviou o convite de casamento para a casa da minha tia, me convidando também, acompanhado de uma carta dizendo que eu, como irmã, deveria querer vê-la feliz.

Rasguei o convite em mil pedaços. Num ato de revolta, apareci na casa da minha sogra no domingo, durante o almoço em família, sabendo que os dois estariam lá.

— Você mandou o convite de casamento? — perguntei assim que Karen se levantou ao me ver entrar pela porta da casa.

— Você é minha irmã, minha única família. Eu queria que estivesse no meu casamento — disse ela, com a voz sonsa de sempre.

Ao redor, minha sogra e meus cunhados agiam normalmente, como se a troca de irmãs fosse natural. Como se, algumas semanas antes, eu não tivesse estado naquela mesma mesa. 

— Você é uma desgraçada! Desejo tudo de ruim para você e para todos vocês, um bando de pilantras!

— Isabela, não admito que fale assim na minha casa — respondeu minha sogra. — Nem com a Karen. Ela está grávida e não pode passar nervoso. Vá embora. Você precisa seguir com a sua vida, já empatou a vida do Carlos mais do que deveria.

— Como você pode compactuar com isso? Semana passada eu estava sentada aqui! — falei indignada. — O seu filho roubou a minha empresa e a minha casa!

— Meu filho não roubou nada, lave essa boca para falar dele. Ele reergueu aquela empresa falida, trabalhando noite e dia. Na verdade, ele tem mais direito do que você, que não fazia nada além de reclamar. Isabela, você nem conseguiu ter um filho, ser uma mulher completa. — disse ela, quase cuspindo as palavras na minha cara.

Carlos estava ali, calado, protegendo Karen com a mão na barriga dela, que, na verdade, ainda nem aparecia. 

Eu também havia trabalhado noite e dia para reerguer a empresa, mas pelo jeito ele contou outra versão para a mãe.

— Você transferiu a empresa e a casa para o nome do seu irmão…

— Era só ler, Isabela. Eu disse que tinha a solução para os problemas. Não sabia que você era burra o suficiente para assinar sem ler — ele me cortou, com frieza.

Eu lia tudo que aparecia na minha mesa e jamais teria concordado em transferir qualquer coisa para o irmão dele. Eu tinha amado aquele homem, mas ali percebi que talvez não conhecesse Carlos tão bem assim, ele fazia cara de inocente, de vitima, protegendo Karen de mim, bem diferente do homem no resturante que me humilhou na frente de outras pessoas.  

— Vocês vão me pagar, um dia eu vou ter de volta tudo que é meu. 

 Aquela família que eu achava que tinha me acolhido, eram um bando de ladrões. 

Tive que sair antes que chamassem a polícia. Andei por horas, sem rumo, sem acreditar no que a minha vida tinha se transformado. 

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