Compartilhar

Capítulo 04. Proposta

Autor: Duda Sá
last update Última atualização: 2025-09-16 23:31:45

O casamento do meu ex-marido com a Karen aconteceu tão rápido que a única explicação era que já vinha sendo planejado há muito tempo; os dois só esperaram até o último momento para contar.

Três meses depois, Karen se casou fazendo uma festa monumental, exatamente do jeito que eu sempre imaginei que seria a minha. Quando me casei com Carlos, passávamos por um momento difícil, sem dinheiro. Casamos no civil, e a “festa” foi, na verdade, um almoço em restaurante. A ideia era renovar os votos depois e fazer a festa que eu queria.

A família toda foi ao casamento, até minha tia, que acreditava no perdão. Só Camila permaneceu ao meu lado. Os amigos que eu tinha enquanto era casada desapareceram, todos estavam do lado do meu ex-marido, todos no casamento dele. 

Eu não tinha nada. O dinheiro tinha acabado, e eu precisava de um emprego, sem dormir direito não conseguia me concentrar e o único trabalho que consegui foi de faxineira na Lush, a boate onde minha prima era bartender.  Não era tão ruim, pelo menos eu não precisava falar com ninguém ou pensar muito.  Ficava no banheiro feminino, tentando manter o lugar limpo.

Mais uma noite me concentrava em limpar o chão. Quanto mais tarde ficava, maior era a chance de alguém vomitar ou passar mal. O lugar estava lotado, mas mesmo assim eu o vi: iluminado pelas luzes piscantes, eu reconheceria aquele rosto em qualquer lugar. Ele chegou abraçado a duas mulheres lindas e foi direto para a pista dançar.

Augusto Salvatore. Playboy, mulherengo, safado. As fofocas diziam que o pai tinha ligações com a máfia — dinheiro e poder rolavam soltos, nem sempre de forma lícita. Eu não sabia o que era verdade e o que era boato. Só lembrava que Augusto estudou comigo no último ano do ensino médio e havia tirado a virgindade de quase todas as minhas colegas, menos a minha, porque eu nunca dei chance. Ele era bonito, conquistador e eu, na adolescência, queria magia, uma história de amor. 

Já fazia mais de dez anos desde a última vez que nos vimos, mas pelo que percebi, ele continuava o mesmo, solteiro e mulherengo.

Deixei para lá e continuei meu trabalho de cabeça baixa. Mais algumas horas e meu turno acabava.

— Isabela, alguém derramou bebida no setor VIP, pode dar um pulo lá? — pediu José, o segurança.

Em geral, eu não limpava nada no salão, mas a sala VIP era sempre prioridade. Peguei o balde e o rodo e me preparei para passar pela multidão, era desafiador, mas em geral as pessoas abriam espaço. Na sala VIP, um grupo de mulheres ria, todas bêbadas e felizes. Tinham quebrado uma garrafa de uísque, do mais caro da casa. 

Ninguém prestou atenção em mim. Precisei redobrar o cuidado para varrer os cacos de vidro e evitar que alguém se machucasse.

Não vi quando ele chegou. Era muito barulho, muita gente. Mas nossos olhos se encontraram. Eu usava uniforme, estava descabelada e provavelmente com uma cara cansada, mas Augusto me reconheceu mesmo assim, eu vi nos olhos dele.

Nada mais humilhante que reencontrar alguém da escola estando no fundo do poço. 

— Isabela? Isabela Fiorentino? — ele perguntou chegando mais perto, talvez para confirmar. 

— Já limpei tudo, não tem mais cacos — falei, saindo sem responder à pergunta.

A garota que ele conheceu na escola era uma filhinha de papai, doce, que acreditava em contos de fadas e amor verdadeiro. Eu não queria ver pena nos olhos de ninguém, muito menos nos de Augusto.

Voltei para o banheiro e fiquei lá dentro até o fim do meu turno. Mas eu podia imaginar que Augusto não desistiria tão fácil, porque estava me esperando na saída, encostado em seu carro de luxo.

— O que você quer? — perguntei, quando ele abriu um sorriso cafajeste.

— Te dar uma carona.

— Não precisa, vou chamar um aplicativo.

— Não vou deixar você entrar no carro de um estranho.

Eu queria discutir, mas não tinha forças. Estava exausta e acabei aceitando a carona.

Augusto parecia pensativo. Eu devia estar um caco, desgrenhada, os olhos fundos, mais magra e pálida do que nunca.

— Meu marido me largou para casar com a minha irmã, que está grávida dele. Além disso, ficou com a casa, a empresa e o carro. E ainda contou para todo mundo que eu sou uma louca que atormentava a vida dele. Estou falida, dormindo no quartinho dos fundos da casa da minha prima. Isso responde a pergunta que você ainda não fez — disparei, antes que ele começasse a especular.

— Pelo jeito sua irmã não mudou nada — ele disse, nem pouco espantado pelo que eu tinha acabado de contar.

— Se quer dizer que continua a mesma vagabunda, sim. — respondi amarga.

Augusto não falou mais nada até pararmos na frente da casa da minha tia. Mandei mensagem para Camila, avisando que já tinha chegado em casa. Sem vontade de bater papo, agradeci e abri a porta para descer do carro. 

— Tenho uma proposta para você — disse de repente.

— Proposta? — Perguntei sem entender que tipo de proposta Augusto teria para alguém como eu. 

— Vou ser direto. Quando te vi, tive certeza de que era um sinal. Eu preciso de uma esposa.

— Como é que é? — perguntei, ainda sem entender o que ele queria. 

— Por várias razões que ainda vou explicar, eu preciso de uma esposa. E acho que você seria perfeita.

— Você está me pedindo em casamento? Ficou maluco? — respondi, incrédula.

— Mais ou menos. Preciso convencer meu pai de que sou responsável. Ele acredita que a gestão da empresa só pode ser entregue a um homem casado, com família. Pensamento retrógrado. E acho que você é perfeita para isso. Acabou de se divorciar, nos conhecemos desde a escola e, no momento… está na merda.

Encarei Augusto sem acreditar. Sim, eu estava na merda, mas não precisava jogar na cara.

— E você acha que vai convencer seu pai aparecendo com uma mulher do nada, dizendo que vai casar? Uma mulher que não vê há dez anos? 

— Por isso você é perfeita. Nos conhecemos na escola, você era a menina certinha, filhinha de papai. Podemos dizer que nos reencontramos, que eu te ajudei em um momento difícil e descobrimos uma paixão latente. Lembra quando nos beijamos na sala de química?

— Você me beijou na sala de química, Augusto. Não existe nada latente entre nós.

— Eu posso pagar bem — ele me interrompeu. — Muito mais do que você tinha com seu marido.

— Eu não estou à venda! — respondi indignada, mesmo claramente precisando de dinheiro.

— Sério? Quer mesmo ficar nessa situação? Limpando vômito? Tudo bem não precisa me olhar assim. Mas vamos lá, todo mundo tem um preço, Isabela. Se o seu não é dinheiro, qual é? — ele perguntou, sério.

Vacilei. Podia ter saído do carro, mas hesitei. Todo mundo tem um preço? Qual era o meu?

Um pensamento me assombrava dia após dia, eu queria destruir Carlos, a família dele e minha irmã. Eu não dizia isso em voz alta, mas era o que ocupava minha cabeça enquanto minha vida afundava.

— Vingança. — respondi.

— Eu posso ajudar com a sua vingança, e você me ajuda. Uma mão lava a outra. Pensa bem. 

Augusto falou como se eu não tivesse pedido nada demais, eu não sabia se ele falava sério ou se era uma brincadeira maldosa.  

Eu não disse nada. Saí do carro, sem acreditar naquela conversa,  mas, no dia seguinte, Augusto ligou.

— Como você conseguiu esse número? Não lembro de ter dado ontem.

— Tenho meus truques. Pensou na minha proposta?

— Achei que fosse um pesadelo.

— Isabela, eu posso te dar exatamente o que você deseja. O que acha? O que você quer?

—  Eu acho que você está desesperado por uma esposa.

— Desesperado a ponto de negociar o que você quiser.

Olhei em volta. Minha vida, no momento, era limpar o vômito de pessoas bêbadas e tomar remédio para dormir.

— Eu topo — falei. Já havia perdido tudo, não tinha mais o que perder. 

Augusto desligou, marcando um encontro para o dia seguinte, para conversar sobre os detalhes.

Não contei nada a ninguém. Se a coisa fosse adiante, eu sabia que Camila seria a única a desconfiar. Seria difícil fazê-la acreditar em uma história de amor entre mim e Augusto.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido   Capítulo 199. Dupla surpresa

    "Isabella"Karen tinha evaporado mais uma vez. Mas, dessa vez, sem o filho. Ainda custava acreditar que ela tivesse sido capaz de fazer aquilo. Durante muito tempo, pensei que a única coisa de humana e boa que ainda existia na minha irmã fosse o Heitor. Pelo visto, eu estava errada. Karen não deixou sequer um bilhete. Se fosse encontrada, seria presa novamente. E, dessa vez, ficaria detida até o julgamento.Enquanto isso, ajudava a minha tia. Em alguns dias, levava Heitor para minha casa, para dar um descanso a ela, já que Camila estava trabalhando sem parar. Eu precisava pensar no meu sobrinho, no bem-estar dele e não perderia mais tempo pensando em Karen. Por isso depois de dois dias procuramos um advogado para regularizar a situação dele e como ficaria a questão da guarda. Augusto também trabalhava direto, agora ao lado da irmã. Era a primeira vez que os dois dividiam um projeto sem competição, sem medir forças. Eu sabia que discutiam, irmãos de temperamento forte sempre discute

  • Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido   Capítulo 198. Nem mais me procure

    "Isabella"Cheguei à casa da minha tia e fiquei alguns segundos parada diante do portão. Pensei seriamente em ir embora. Em fingir que não tinha vindo. Mas havia assuntos que não podiam mais ser adiados, e Karen era um deles.Camila tinha me ligado mais cedo. Disse que Karen pedia para falar comigo, eu não atendia mais ligações, não respondia mensagens dela e aquela tinha sido a única forma que ela encontrara, pedir a intermediação da prima, quase implorando.Respirei fundo e abri o portão. Camila estava trabalhando, minha tia havia saído para levar Heitor ao parque. Seríamos apenas nós duas, de novo em mais uma conversa. Bati à port e Karen atendeu, não a via desde a visita na cadeia. Estava mais abatida, olheiras profundas, o cabelo mais curto, mal cuidado. Ainda assim, o olhar… o olhar continuava o mesmo. Minha irmã não conseguia mais me enganar. Não disse nada. Apenas entrei.— A tia saiu com o Heitor — ela comentou, fechando a porta atrás de mim. — Quer alguma coisa? Uma água?

  • Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido   Capítulo 197. Proposta de venda

    "Augusto"Entrei na empresa pela porta da frente desta vez. Poderia ter esperado mais, deixado a poeira baixar, permitido que o tempo acalmasse os olhares. Mas meu objetivo sempre foi retomar meu lugar e minha rotina o mais rápido possível. Se demorasse demais, tudo aquilo viraria pó e eu não pretendia assistir à queda de longe.Meu espaço, agora, precisava ser reconquistado passo a passo. Eu sentia os olhares cravados em mim, alguns curiosos, outros desconfiados. Ainda assim, abaixar a cabeça nunca foi uma opção, afinal eu era um Salvatore e, depois da minha inocência ter sido comprovada em rede nacional, não devia satisfação a ninguém.O silêncio no elevador era constrangedor. Dois diretores subiram comigo, um pigarreou e o outro comentou algo irrelevante sobre o clima. Não respondi. Fui direto ao andar da presidência. Desta vez, meu retorno não era surpresa, tinha avisado com antecedência e de forma que Tadeu compreendeu que era definitiva, sem margem para negociação. O olhar d

  • Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido   Capítulo 196. Depois da tempestade

    "Augusto"Quando o advogado disse que eu precisava ir mais uma vez à delegacia, senti apenas cansaço. Cada vez que o celular tocava, eu já imaginava que aquele seria o comunicado.Era um desgaste que não se resolvia com descanso. Eu já tinha contado tudo. Já tinha respondido às mesmas perguntas de maneiras diferentes, recontado a mesma história, repetido datas, horários, decisões. Ainda assim, lá estava eu de novo, sendo chamado — a prova de que, para eles, eu continuava sendo o suspeito final.Isabella quis ir comigo, mas não deixei. Não era ambiente para ela e, no fundo, além da proteção, havia vergonha. Eu não queria que ela visse, mais uma vez, o quanto aquilo me diminuía, o quanto destruía a minha reputação.No caminho até a delegacia, o advogado falava sobre estratégia, possibilidades, sobre como a coletiva daquela tarde poderia encerrar tudo. Eu ouvia, mas não absorvia. Já tinha aprendido que palavras bonitas não significavam nada. Existia, sim, a possibilidade — ainda que remo

  • Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido   Capítulo 195. Em estado de espera

    "Isabella"Senti o alívio percorrer meu corpo quando Augusto foi liberado. Enquanto eu ainda era interrogada, só conseguia pensar nas tais provas que Karina dizia ter — especialmente na foto que ela havia enviado, da qual eu tinha certeza de que era falsa. Ainda assim, talvez a polícia não enxergasse daquela forma. Às vezes, uma prova frágil basta quando existe a chance de prender alguém grande.Augusto me abraçou assim que me viu, ainda na delegacia. Só queria ir para casa, descansar e fingir que tudo aquilo não tinha acontecido. Mas era impossível. Ver o filho de Karina ir embora sem a mãe, sabendo que ela ficaria detida, partiu meu coração, era dificil de esquecer. Assim que entramos no carro, falei sentindo algo entalado na garganta, na verdade era culpa. — Me desculpa por isso… acho que não estava pensando direito.— Você acha que eu sou o culpado? — ele perguntou, sem me olhar. — Não havia motivo para eu me encontrar com alguém que dizia ter provas contra mim se acreditasse qu

  • Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido   Capítulo 194. Interrogatório

    "Augusto"A ligação para o meu advogado foi rápida. Expliquei, de forma superficial, que uma informação nova tinha surgido. Se achou estranho, não comentou. Apenas disse que o melhor a fazer era sairmos todos dali. Não adiantava disfarçar, havia câmeras por toda parte, e era óbvio que o momento em que entramos no prédio tinha sido registrado.Karina conseguiu acalmar o filho e colocá-lo no carrinho. Pegou uma bolsa às pressas, e descemos todos juntos. Foi preciso tirar a cadeirinha do carro dela e colocá-la no meu. Eu não permitiria que dirigisse — a possibilidade de fuga ainda era grande, e qualquer tentativa nesse sentido só agravaria ainda mais a situação dela e poderia colocar o bebê em risco.Isabella ajudava em silêncio. Não disse uma palavra, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que estava apavorada com o que poderia acontecer com aquela criança. Confesso que também senti um aperto no peito quando vi os olhos grandes do bebê me encarando com curiosidade. Ele podia ser

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status