INICIAR SESIÓNEva
Abro meus olhos devagar, a dor em minha garganta quando tento engolir me fazendo lembrar aos poucos, os eventos desastrosos.
Eu salvei aquele filho da mãe e ele me apagou? Minha indignação é pausada, quando percebo que o teto revestido em madeira e a escuridão em meu entorno em nada se parece com o hospital. Ele não faria... faria? Me levanto, uma tontura me levando, mas estabilizo, tentando achar o interruptor do abajur ao meu lado. — Acordou. — Ouço uma voz grave, como o puro veludo me dizer, o sotaque russo, me dando uma vaga ideia de quem se trata. A luz se espalha ao meu redor, me mostrando detalhes do quarto sofisticado, a cama macia com um dossel em estilo clássico, me lembrando muito do passado. — O que quer de mim? — indago, sentindo o nervosismo permear minhas palavras. — Saber quem é você, seria um bom começo. — Ele me devolve a pergunta, o tom monótono não combinando com o ardor que vejo em seu olhar. — Não há muito para saber, senhor. — Digo, ouvindo meu timbre tremer e não é fingimento — Me chamo Eva Joice, trabalho como enfermeira no lar para idosos e estava seguindo com minha vida, até chegar naquele quarto. Por favor, me deixe ir embora. O homem passa a mão nos cabelos escuros, bagunçando a perfeição que estava antes, os lábios sensuais se esticando em um rápido e áspero sorriso, enquanto ele se levanta, o corpo alto e as pernas fortes se direcionando até o aparador, enchendo um copo com um líquido ambarino, que arrisco ser uísque. — Quer saber algo interessante... Eva? — ele pergunta, meu nome rolando em sua língua com um toque de dúvida. — Eu só quero ir embora. — Respondo, minha voz soando quase irritada. — Bom, deixe-me lhe dizer mesmo assim. — ele me responde, ignorando por completo o meu pedido — Já vi pessoas sequestradas aos montes, já vi pessoas com medo aos montes e posso dizer com toda certeza que você não está com medo. Nervosa? Sim, mas não com medo, como qualquer um ficaria. E isso combinado ao fato de que nocauteou um executor, com quase o dobro do seu tamanho, me faz acreditar que está mentindo para mim. Quem é você? Estremeço, sentindo na base do meu ventre uma contração indesejada. Que merda é essa? Estou mesmo me sentindo atraída por ele? — Eu já lhe disse, sou enfermeira e não quero problemas. — Insisto, sem sequer considerar a possibilidade de lhe dizer a verdade. Seria um caos. O homem leva o copo aos lábios, bebendo sem pressa, os olhos passeando primeiro por meu rosto e depois descendo pelo uniforme modesto, mas que está claramente apertado em meu busto, algo que eu já havia reclamado meses atrás com o hospital. Sento-me o melhor que consigo, minha vontade de cruzar os braços impedida pela certeza de que isso só atrairia ainda mais a atenção para mim. — Ainda que eu quisesse fazer isso e eu não quero... ainda assim, está presa comigo pelo simples fato de estar envolvida naquele incidente. — Ele me responde, após beber de uma só vez, o restante do uísque. Incidente? Ele chama a sua tentativa de assassinato de incidente? — E aí, qual é a sua grande ideia? Me arrastar com você como se eu fosse uma mala? — Estalo com ele, mostrando um pouco do meu lado irritado, algo que eu me arrependo de imediato. — É isso... ou eu posso te deixar para ser interrogada pelos homens que vieram atrás de mim. — Ele me responde, a frieza voltando a imperar em seu olhar. — Deixe que eu mesma me preocupo com minha segurança... só me deixe ir embora. — Peço, sabendo que me restam poucos recursos, mas disposta a arriscar outra fuga. O homem se aproxima, cada passo dado com displicência, a presença masculina poderosa, combinada ao olhar intimidante, enviando ao meu corpo uma hiper consciência dele. Seu rosto para a poucos centímetros do meu, os lábios presos em uma sombra de um sorriso que nunca vem. — Outra atitude interessante, Eva. Começo a te considerar um quebra-cabeças digno de uma segunda olhada. — Ele murmura, os olhos parando devagar em meus lábios, fazendo com que minha respiração fique presa na garganta. Seus olhos sobem para os meus, uma mistura de interesse com cautela ali, que me desconcerta. Ele se afasta, me fazendo respirar aliviada novamente, mas algo martela em minha mente. — Qual o seu nome? — Indago, sabendo que ele não vai me deixar ir tão cedo. Ele se vira um pouco, a mão já posta em cima da maçaneta. — Anton. — ele me responde, já se virando novamente. Anton... onde eu já ouvi isso? — Sobrenome? — Arrisco a pergunta ousada, vendo que ele se vira para mim, a desconfiança muito presente na expressão. — Acho que alguém aqui, quer uma vantagem que eu não tenho.... — Ele comenta, me fazendo suar frio com a expectativa — Anton Volkov. Obtenha isso como um gesto de boa vontade, pois não sou idiota o suficiente para crer que seu sobrenome real é Joice. Vejo-o se virar, saindo do quarto e trancando a porta, a ameaça em seu tom pouco fazendo perto do que a percepção do seu nome fez. Anton Volkov... puta merda... Não existe a menor chance de eu lhe dizer quem sou de verdade.... quais eram as probabilidades de eu ter me envolvido com o homem mais perigoso da máfia russa?EvaEu mal tinha fechado os olhos quando fui despertada pela luz fraca que atravessava a janela alta. A mansão parecia ainda mais silenciosa naquele início de manhã, como se o mundo lá fora ainda estivesse adormecido — ou observando. A sensação de estar sendo vigiada nunca me abandonava completamente, mesmo com o calor de Anton ainda presente no lençol ao meu lado. Ele já havia saído.Levantei devagar, pés descalços tocando o chão de madeira polida. Vesti um dos robes de seda pendurados ao lado da porta do closet — caro demais para ser confortável, mas agradável ao toque. Desci as escadas em silêncio, guiada apenas pelo aroma de café que invadia o corredor. Foi fácil encontrá-lo na cozinha — o homem que comanda com violência uma parte da Europa Oriental, ali, misturando açúcar na xícara como se não tivesse sangue nas mãos.— Dormiu bem? — perguntou ele, sem se virar.— O suficiente para esquecer onde estou por cinco minutos — respondi, apoiando-me na bancada fria.Ele sorriu de lado e
EvaAcordei antes do sol nascer, envolta em lençóis de algodão tão macios que pareciam me prender ali. O silêncio da casa era denso, e a ausência de janelas no quarto me fazia perder a noção de tempo. A única iluminação vinha de uma lâmpada âmbar no canto, lançando sombras suaves pelas paredes.Me sentei na cama, ainda atordoada pela confusão de sentimentos da noite anterior. Havia algo em Anton que me desafiava a cada segundo. Seu jeito de me encarar como se pudesse ler meus pensamentos, seu domínio silencioso do ambiente. Ainda não havíamos cruzado nenhuma linha, mas a tensão estava se acumulando como uma tempestade no horizonte.Levantei e procurei por roupas, e ali, dobrada sobre uma cadeira no canto, havia uma muda simples: uma calça de moletom e uma camiseta. Era confortável demais para vir dele, pensei, mas o tecido era novo, ainda com o cheiro de loja. Me vesti devagar, observando cada detalhe do quarto que ele havia me destinado.A porta destrancou com facilidade dessa vez. S
EvaA Rússia parecia um lugar onde até a esperança congelava.Observei pela janela do carro o mundo coberto de branco. Árvores nuas, o céu pálido e as pessoas apressadas com os rostos enterrados em casacos grossos. Tudo parecia calado. Controlado. Como Anton.Desde que saímos do aeroporto, ele não disse nada. Apenas manteve as mãos firmes no volante, a expressão imóvel. Ainda assim, sua presença preenchia o carro inteiro. Era um silêncio que queimava.Lá fora, a cidade era tão fria quanto o clima. Mas havia algo curioso nos prédios antigos, nas placas em cirílico, na forma como tudo parecia observar em vez de acolher.A sensação de ser estrangeira voltava a cada instante.Acho que nunca fui de lugar nenhum.— Vai me ignorar até quando? — perguntei, cansada daquele vazio.Ele apenas desviou o olhar por um segundo para mim. — Até eu saber que você não vai fugir na primeira oportunidade.— E se eu não quiser fugir?Ele não respondeu. Mas apertou o volante com mais força.A casa parecia
EvaAcordar de um sono induzido nunca é uma experiência gentil. Há sempre uma névoa espessa entre o inconsciente e a realidade, e no meu caso, essa transição parece sempre vir acompanhada de pânico e violência.As pernas são as primeiras a reagir, um tranco seco que choca meus pés contra uma superfície macia. O carpete sob mim absorve o impacto, mas não suaviza o desconforto. Em seguida, meu tronco se ergue com brutalidade, os braços se lançam para frente, e a bile amarga sobe pela minha garganta. O coração martela contra o peito, bombeando sangue em disparada para o cérebro, rápido o bastante para me manter consciente, mas não lúcida.O quarto está em penumbra. Uma lareira crepita à minha frente, lançando sombras dançantes nas paredes. O calor que emana dela é quase reconfortante, mas o medo lateja mais alto que qualquer sensação agradável.— Mas o que… — Tento articular algo, mas minha língua está pesada, os pensamentos desordenados, atropelando-se dentro da cabeça. E então percebo:
EvaIsso vai ser mais difícil do que imaginei.Tento mover o ombro, mas o corpo do segurança gigante, que agora sei se chamar Brann, prensa todo o meu lado esquerdo contra o estofado do carro. O espaço é mínimo, sufocante. Olho para o outro homem, Nick, que mexe no celular com as sobrancelhas franzidas. Ele me dá uma distância considerável, mas não me iludo, cada movimento meu está sendo monitorado.O carro freia um pouco mais bruscamente, e aproveito o balanço para me afastar de Brann o mais discretamente possível. Encosto a cabeça no banco, tentando acalmar os pensamentos. Sair daquele quarto depois de dias foi um alívio, mas a euforia se dissipou rápido quando percebi que já era noite.O pouco que vi me mostrou uma mansão luxuosa, isolada em meio a uma área florestal densa. Um frio percorre minha espinha.Eu nem sei se ainda estou no Rio de Janeiro.Pelo retrovisor, vejo pelo menos três carros saindo conosco, mas uma sensação amarga me preenche ao notar que Anton não está entre nós
EvaIsso não pode estar acontecendo. De novo, não.Levou muito tempo para me afastar desse tipo de gente, desse tipo de vida. Não posso estar sendo imersa nisso tão profundamente.Meu olhar se desvia para a senhora atarracada, porém com uma estrutura óssea larga o suficiente para que eu tenha certeza do motivo de ter sido escolhida para me ajudar a arrumar a mala. Uma única mala.Ela separa algumas peças de roupa, deixando-as ao lado da cama, depois fecha a mala pequena.Seu olhar escuro e firme se concentra em mim.— A senhora pode tomar banho e se trocar. Se precisar de ajuda com o cabelo, também posso providenciar. — Ela diz, sem sutileza alguma sobre o estado caótico dos meus fios.Olho para as roupas na cama, sentindo a vontade de tomar um banho me dominar, mas não gosto do tom de ordem na voz dela. Minha teimosia vence quando respondo:— Estou bem, obrigada.Há um silêncio pesado no quarto. A mulher me olha primeiro como se eu fosse um inseto irritante, mas, depois de alguns seg







