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Capítulo 3

Penulis: Maple
Ponto de vista de Mara

Faltavam três dias para minha partida para o Norte.

Antes do amanhecer, o alarme da fronteira rompeu o silêncio. Um batedor irrompeu na residência do Alfa com a armadura ensopada de sangue.

— Os vampiros estão atravessando o rio Blackwater! Precisamos ativar a barreira da Torre da Lua imediatamente!

Um silêncio pesado caiu sobre todos. Os olhares se voltaram para Lila, envolta no manto da Vigia da Lua. Ela empalideceu e recuou meio passo sem perceber.

Então os olhares do meu pai, da minha mãe e de Kael passaram por ela e se cravaram em mim.

Minha mãe veio às pressas até mim e baixou a voz.

— Mara, vá até a Torre da Lua e ative a barreira.

Ergui uma sobrancelha.

— Lila era a Vigia da Lua. Era ela quem devia ir.

Kael agarrou meu pulso e me puxou para um canto, longe dos olhares. Meu pai, minha mãe e Lila vieram atrás como sombras.

— A alcateia está enfrentando uma crise. Esta não é hora de fazer birra! — Kael disparou. — Só você consegue controlar a barreira!

Meu pai deixou escapar um pouco de sua pressão de Alfa, sutil, porém cortante.

— Você nasceu uma Fenraven. Proteger Blackrock era dever da família Alfa, e isso não estava em discussão.

Olhei para o manto sobre os ombros de Lila. O título era dela. A glória também. Só quando o perigo batia à porta a responsabilidade passava, por algum milagre, a ser minha.

Minha mãe segurou minha mão e suavizou o tom.

— Sabemos que você sofreu uma injustiça. Depois que repelirmos os vampiros, a família vai compensar você.

Ela fez uma pausa, como se precisasse deixar uma coisa bem clara.

— Mas a alcateia Abeto Prateado ficaria como estava. Todo o resto podia ser discutido.

Quase soltei uma risada. Quase.

Compensação. Mais uma vez.

Quando Lila ficou com meu quarto, minha mãe prometeu que eu ganharia uma cabana na floresta no ano seguinte. Quando Kael deu a Lila meu precioso bracelete de obsidiana, ele disse que compraria um novo para mim. E, aos dezesseis anos, quando meu pai me obrigou a assumir o posto de maga de barreiras no lugar dela, jurou que a alcateia Abeto Prateado seria minha ao atingir a maioridade.

Nenhuma daquelas promessas se cumpriu.

— Eu ativaria a barreira.

Retirei minha mão da dela.

— Mas vocês diriam diante de toda a alcateia que eu era a Vigia da Lua.

O rosto da minha mãe se enrijeceu. Antes que meu pai pudesse responder, Lila já soltava o broche que prendia seu manto.

— Se isso importa tanto para você, irmã, eu o devolvo.

As lágrimas surgiram na hora certa. Ela me estendeu o manto e o Selo, bem diante do meu rosto.

— Eu até abriria mão de ser a herdeira do Alfa, contanto que você salvasse a alcateia.

Mas seus dedos continuavam agarrados à borda do tecido.

Kael segurou a mão de Lila.

— Chega!

Ele me olhou como se eu o decepcionasse.

— Lila é uma loba branca, algo que só acontece uma vez a cada século. Se não se tornar Alfa, Blackrock nunca recuperaria seu prestígio. Você realmente queria roubar o título de Vigia da Lua dela? Mara, a honra da família já não significava nada para você?

Soltei uma risada e me virei para ir embora.

Passos apressados ecoaram atrás de mim. Um segundo batedor entrou cambaleando, com três sulcos profundos de garras atravessando o peito. Os ossos ficavam à mostra.

— Os vampiros atravessaram o Blackwater. Se a barreira não fosse erguida agora, perderíamos os vilarejos da fronteira.

Parei.

Eu podia abandonar os Fenraven. Mas os filhotes e as famílias da alcateia não tinham culpa de nada daquilo.

Virei-me para seguir até a Torre da Lua. Nesse instante, um arquejo cortou o ar atrás de mim. Minha mãe cambaleou, pálida, e caiu nos braços de Lila.

Então a pressão de Alfa desabou sobre meus ombros como uma montanha. Meus joelhos bateram no chão, e minha loba interior uivou de dor.

Meu pai me encarou de cima.

— Imobilizem-na. Levem-na à Torre da Lua.

Não tive tempo de dizer uma palavra antes que os guardas me erguessem à força e me arrastassem pelos portões. A porta de pedra se fechou rangendo atrás de mim, me prendendo na base da torre.

Apoiei as palmas das mãos na matriz rúnica central.

Não fiz aquilo por ordem do meu pai. Fiz porque, além daquela barreira, havia lobos inocentes que não tinham nada a ver com nossa disputa.

As runas despertaram uma a uma, sugando sem piedade a força da minha loba interior. Um fogo prateado queimou minhas veias. A cada camada da barreira que eu ativava, era como se rasgassem minha alma.

Cerrei os dentes e despejei o resto das minhas forças na última runa. A barreira irrompeu em luz, e desabei inconsciente no centro da matriz.

Não soube por quanto tempo fiquei desacordada. Nenhum curandeiro apareceu, e ninguém da minha família veio me ver.

Apoiei-me na parede de pedra para me levantar e saí cambaleando da Torre da Lua. Gritos de comemoração me ensurdeceram.

Lila estava no meio da multidão, com o manto da Vigia da Lua e o Selo da Lua brilhando ao luar.

— A Vigia nos salvou!

— Foi a bênção da loba branca que impediu os vampiros de invadir a alcateia!

Meus olhos arderam. Tentei gritar por cima da multidão, mas minha voz saiu rouca:

— Fui eu que ativei a...

Uma mão tapou minha boca e me arrastou para as sombras.

Era minha mãe. Sua voz era tão fria quanto sua expressão.

— Aquele era o momento de Lila ganhar prestígio. Não ouse roubar isso dela.

Meu pai me lançou um olhar inexpressivo de lado.

— Eram só algumas palavras de elogio. Você ainda não entendia o que estava em jogo?

Olhei para os dois. A raiva desapareceu; no lugar dela, só restou um vazio.

Faltavam apenas três dias. Depois, eu iria embora.

Eles não precisavam saber. Não mereciam.
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