FAZER LOGINEros Kane
Eu não planejava marcar ninguém hoje.
Fui ao leilão por uma única razão, me aproximar de Brian Hart. Observar. Encontrar a brecha que eu precisava para destruir tudo que ele construiu sobre os ossos da minha família. Eu precisava de acesso, de informação, de paciência. Tinha esperado anos. Podia esperar mais.
Mas então ela segurou o pingente e eu vi o brilho.
E tudo mudou.
Dez milhões.
As palavras saíram antes que eu decidisse. O martelo bateu. E agora eu estava no estacionamento com a filha bastarda de Brian Hart ao meu lado, acorrentada, o tecido rasgado, os olhos âmbar cheios de uma teimosia que ela provavelmente não sabia que tinha.
A corrente ainda estava presa nos pulsos dela. Puxei a ponta com uma força calculada, trazendo-a para frente sem cerimônia.
Ela tropeçou, mas não caiu, levantando os olhos para me encarar.
Fiz um sinal para Cristian, meu beta, que estava parado dois metros atrás. Ele se adiantou sem precisar de instrução, tirou o casaco e jogou sobre os ombros dela, cobrindo o que o pai tinha exposto lá dentro.
Ela olhou para o casaco. Depois para mim.
Não agradeceu. Só apertou o tecido contra o corpo com as mãos presas.
Bem. Gratidão era perigosa. Criava expectativas.
"Já perdi tempo demais aqui. Vamos embora logo."
Caminhei em direção ao carro, mas ela não me seguiu.
"Eu não vou com você." A voz saiu firme. Surpreendentemente firme para alguém que tinha acabado de desmoronar no chão de um leilão.
Parei, sem me virar, e sorri, colocando as mãos no bolso.
"Não vai." Repeti, deixando o silêncio trabalhar por um segundo antes de me virar devagar. "Então me explica para onde vai. Sem dinheiro, sem roupa, sem alcateia, no meio do território de lobos que não ligam muito para lobas como você."
Ela abriu a boca, mas a fechou em seguida.
"Eu paguei dez milhões por você." Dei um passo na direção dela. "Marquei você na frente de todo mundo." Esperei por uma resposta que não veio. "Você pode sair daqui comigo, ou não sair de jeito nenhum. Tenho certeza de meia dúzia de lobos ali dentro loucos para te fazer de brinquedo. Começando por aquele que me ofereceu 2 milhões pela sua virgindade. Acha que devo reconsiderar?" Os olhos dela se arregalaram.
"Não..."
"Então escolha loba."
Os olhos dela foram para o carro. Para mim. Para o carro de novo.
Ela estava calculando as chances de fugir. Vi isso acontecer, a avaliação rápida, o momento em que concluiu que não tinha saída. Inteligente o suficiente para não tentar o impossível.
Foi quando um assistente do leiloeiro apareceu pela porta lateral do estacionamento, andando rápido na minha direção.
"Alfa." Falou baixo, chegando perto. "Teve uma oferta pelo pingente. Um dos homens de Hart. Diz que devolve o seu dinheiro se entregar o pingente."
Senti a menina endurecer ao meu lado antes de ouvir a voz dela.
"Não." Saiu imediato, quase em pânico. "Não podem. Isso é meu, é da minha mãe, eu não..."
Ri.
Foi um som curto, sem humor, mas genuíno. Ela se virou para mim com aquela expressão de quem não entende se deve ficar aliviada ou com mais medo.
"Diga a ele que não tenho interesse." Falei para lobo sem tirar os olhos dela. "E que, se mandar mais alguém falar sobre o que é meu, vou interpretar como uma declaração de guerra. E banhos de sangue com a alcateia do Norte costumam ser... peculiares...
Ele assentiu e foi embora.
A menina soltou o ar devagar. Os ombros baixaram um milímetro ... só um.
"Entra no carro." Falei novamente, sem perder mais tempo.
Ela me encarou.
Havia algo naquele olhar que eu não esperava. Não era só medo. Era raiva. Uma raiva pequena, contida, que ela estava segurando com as duas mãos porque sabia que não tinha como usá-la agora.
Meu lobo se endireitou em minha mente, mas eu o ignorei.
Então meus olhos foram para o pingente, a pedra escura pulsando levemente contra a pele clara dela. O Coração da Lua. O símbolo que minha mãe me ensinou a reconhecer antes que eu soubesse ler. Que ficava gravado na entrada da alcateia, bordado nos mantos dos anciãos, desenhado no altar onde rezávamos.
Antes de tudo virar cinza e sangue. Antes do Hart aparecer em nossas vidas.
Minha mão se moveu antes que eu terminasse de pensar.
Os dedos fecharam na corrente e puxaram com uma firmeza que não deixava espaço para negociação. A corrente cedeu com um estalo fino.
Ela ficou em choque. Os olhos foram para o próprio pescoço, para a mão dela que subiu instintivamente e não encontrou nada.
"Você não pode..." Avançou para mim, os dedos tentando alcançar o pingente, mas eu era muito mais rápido que ela.
O casaco do Cristian escorregou do ombro dela no mesmo instante em que ela se desequilibrou e o corpo dela bateu no meu antes que qualquer um dos dois pudesse evitar. Meus braços fecharam por instinto, prendendo-a ali, completamente colada contra meu peito sem nenhum espaço entre nós.
O casaco tinha aberto completamente.
Eu olhei para baixo.
Não devia ter olhado para baixo.
As curvas dela eram impossíveis de ignorar naquele ângulo, a pele clara, os ombros expostos, o tecido rasgado que não escondia nada que deveria esconder. Meu lobo se levantou antes que eu conseguisse afastá-lo, e a reação do meu corpo foi imediata e involuntária e completamente inoportuna.
Ela levantou os olhos para mim, assustada e ao mesmo tempo voraz. Com uma intensidade que eu ainda não tinha visto antes.
Por um segundo nenhum dos dois se moveu.
Eu senti o cheiro dela chegar com força,algo que minha mente ainda estava recusando categoricamente a nomear. Algo que o lobo já tinha nomeado há muito tempo e estava esperando eu admitir.
Eu não ia admitir Não ia falar que ela era minha companheira destinada.
Não ia, porque não acreditava nessas coisas.
Afastei-a com as mãos nos ombros. Firme. Rápido. Sem deixar que o gesto dissesse mais do que precisava dizer.
"Isso fica comigo." Coloquei o pingente no bolso sem olhar para ela de novo.
"Isso é meu. É minha única lembrança da minha mãe. Você não tem o direito..."
"Eu comprei você." Falei com calma. "E tudo que vem com você. Minha marca no seu pescoço deixa isso bem claro."
"Isso não é uma coisa. Isso é uma lembrança. Você não pode simplesmente..."
"Eu posso, lobinha. Assim como posso te usar do jeito que eu quiser."
Peguei-a pelo braço, abri a porta do carro, e a coloquei dentro com um movimento que não deixou espaço para resistência. Entrei em seguida, fechei a porta.
O carro arrancou.
Eu olhei para frente.
Mas o cheiro dela ainda estava no ar do lado de dentro do carro, e meu lobo estava quieto do jeito errado, satisfeito e isso era um problema que eu ia precisar resolver antes que se tornasse algo maior.
Filha de Brian Hart, lembrei a mim mesmo.
O lobo não se importou.
O carro arrancou.
Ela ficou encostada na porta oposta, os olhos queimando na minha direção, a mão fechada sobre o próprio pescoço onde o pingente tinha estado.
Eu olhei para frente, ainda sentindo o peso da pedra em meu bolso.
O Coração da Lua. Minha mãe dizia que esse pingente era a alma da alcateia guardada em pedra. Que enquanto ele existisse, a alcateia nunca morreria de verdade.
Eu tinha achado que era história para criança.
Depois da praga, tinha achado que estava perdido para sempre.
E agora estava no meu bolso.
Trazido por ela. Pela filha do homem que destruiu tudo.
VênusDois anos depois.Eu estava ajoelhada na grama macia em frente aos dois túmulos, o vento da tarde mexendo leve no meu cabelo e fazendo as folhas das árvores ao redor sussurrarem como se também quisessem ouvir. O túmulo de Melinda, mãe de Eros, estava impecável, com flores frescas que eu mesma tinha trocado naquele dia. Ao lado, o memorial que o Eros tinha insistido em erguer para a minha mãe, Raquel. Não havia corpo ali. Nunca encontramos. Mas o nome estava gravado na pedra cinza, profundo e definitivo, e isso bastava para eu sentir que ela também tinha um lugar. Um lugar ao lado da mulher que, de alguma forma misteriosa, tinha compartilhado um destino entrelaçado com o dela.Os dois pingentes, o da minha mãe e o de Melinda, descansavam juntos no meu pescoço, quentes contra a pele. Eu os apertava entre os dedos todas as vezes que vinha aqui. Era como segurar as duas mãos delas ao mesmo tempo.Eu passei os dedos na lápide de minha mãe e comecei a falar, como fazia sempre que cons
BenEu voltei para casa com a sacola da farmácia apertada na mão e o coração batendo tão forte que quase doía.Camila estava sentada no sofá da sala quando eu entrei, as pernas recolhidas, os braços ao redor dos joelhos. O rosto ainda estava um pouco pálido, mas ela tentou sorrir ao me ver. O sorriso saiu tenso.“Você realmente foi”, comentou, a voz baixa.“Eu falei que ia.” Deixei a sacola sobre a mesa de centro e me sentei do lado dela. O laço entre nós estava inquieto, vibrando com a ansiedade dos dois. “Como você está se sentindo agora?”“Melhor. A náusea passou. Foi só um momento.” Ela olhou para a sacola como se ela pudesse morder. “Ben… eu acho que não é isso. Eu tomo o remédio certinho. Há anos. Não faz sentido.”“Às vezes o corpo não liga para o que a gente acha que faz sentido.”Ela soltou o ar e pegou a caixa com dedos um pouco trêmulos. Leu as instruções duas vezes, mesmo já sabendo de cor. Eu fiquei em silêncio, só observando. Quando ela se levantou para ir ao banheiro, e
Ben3 meses depoisO tempo tinha passado de um jeito que eu quase não reconhecia a própria vida.Eu não ficava mais tanto tempo nos postos de ronda. Depois de meses de trabalho constante, de resultados e da confiança que o Eros e o Christian depositaram em mim, eu tinha sido colocado como encarregado da segurança. Agora eu coordenava turnos, treinava os novos lobos que entravam para a guarda e, junto com o Cristian e o próprio Alfa, desenvolvia estratégias para manter as fronteiras fechadas e o território seguro. Ainda saía em patrulha de vez em quando, eu gostava de sentir o chão sob as patas e o cheiro da mata, mas a maior parte do meu dia era liderança. Planejamento. Decisões.E, para minha surpresa, eu era bom nisso.A alcateia também estava diferente
VênusEu acordei com o sol já alto e o barulho familiar dos trigêmeos no berçário ao lado.Eros ainda dormia de bruços, um braço estendido na minha direção. Eu estava prestes a me levantar quando o celular dele vibrou na mesa de cabeceira. Ele resmungou, pegou o aparelho sem abrir os olhos e depois se sentou de uma vez, o sono evaporando."Minha Deusa..."“O que foi?” Parei assustada.“Mensagem do Cristian.” A voz dele saiu rouca, mas já alerta. “A Miriam entrou em trabalho de parto de madrugada. O Savier nasceu às cinco e vinte da manhã. Os dois estão bem.”Eu pisquei, processando.“De madrugada? E ele só avisou agora?” Eu estava indignada.
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MiriamEu acordei com uma dor profunda na lombar.Não era a dor comum dos últimos dias, aquela pressão chata que vinha e ia. Essa era diferente. Mais baixa, mais intensa, como se alguém estivesse apertando por dentro com as duas mãos. Eu me sentei na cama com cuidado, respirando pela boca, e esperei passar. Não passou. Só diminuiu um pouco e voltou mais forte.Levantei devagar. O chão frio sob os pés me ajudou a focar. Comecei a andar de um lado para o outro no quarto, uma mão na barriga, a outra na cintura. Os passos eram curtos. Cada vez que a dor vinha, eu parava, segurava a beira da cômoda e contava até ela ceder.Christian se mexeu na cama.“Miriam?” A voz dele saiu rouca de sono. “Que horas são?”“N







