INICIAR SESIÓN(Um capítulo um pouco maior para vocês, entenderem nossa Lullynha. )
POV – Lully / Heloise)
Presente - recente 17/07
O sábado à noite em Paraisópolis cheira a óleo de fritura e som alto, mas a boate erótica cheira a privilégio, suor e perfume importado. O Clube Erotique é um labirinto de luzes vermelhas e sombras profundas.
Estou fantasiada de bruxa. O vestido preto de renda é justo, com um decote que valoriza meu colo, mas a saia curta me faz querer puxá-la para baixo a cada cinco segundos. Calcei botas pretas de salto alto que estavam guardadas há anos; agora, cada passo é uma batalha contra o equilíbrio. Meu corpo parece gritar que não pertence àquele lugar. Sinto-me como a Free Willy tentando caminhar em terra firme.
— Fica aqui, amor. Vou só cumprimentar uns sócios da fábrica e já volto — Wisley disse, sumindo na multidão antes que eu pudesse protestar.
Fico sozinha e, para tentar disfarçar o deslocamento, começo a olhar ao redor. É quando eu vejo. Há uma vitrine imensa, iluminada por neons roxos, exibindo os lançamentos da fábrica onde o Wis trabalha. Meus olhos quase saltam das órbitas. Eu nunca vi um "pau" na vida, nem de perto, nem de longe, e agora estou diante de uma coleção inteira de todos os formatos possíveis.
Meu Deus, as pessoas realmente usam isso?
Fico paralisada, sentindo meu rosto ferver. Tem um grande, preto, com uma cabeça que parece uma bola esquisita. Outros são coloridos, texturizados, alguns parecem instrumentos de tortura de outro planeta. O choque da minha própria inocência me atinge. Tenho vinte e sete anos e estou encarando uma vitrine de consolo como se fosse uma exposição de arte alienígena.
Morrendo de vergonha de que alguém perceba minha cara de espanto, resolvo sair dali depressa. Mas, claro, o destino e o meu equilíbrio não colaboram. Minha bota trava em um desnível do piso.
— Droga — murmuro, tropeçando para a frente.
Esbarro em alguém. Não é um esbarrão qualquer; é como se eu tivesse batido contra uma parede de concreto revestida de seda cara. E o cheiro... ele exala bebida cara e um perfume que fixou na minha memória como um carimbo.
Os olhos dele, aquele castanho singular que parecia âmbar sob as luzes, me encaravam através da máscara. Ele foi gentil. Eu sempre pensei que gente rica fosse alérgica a pobres especialmente a pobres, gordas e vestidas de forma barata, mas ele sorriu. Ele me ofereceu o lugar ao seu lado e começou a conversar comigo como se eu fosse alguém importante.
Quando ele disse que meus olhos eram lindos, senti minha pele arrepiar de um jeito que os doze anos de convivência com o Wis nunca conseguiram fazer.
Ele levou a mão ao meu rosto para afastar uma mecha de cabelo e, no momento em que seus dedos roçaram na minha pele, foi como um choque estático de alta voltagem. O susto foi tão grande que o copo escorregou da minha mão, explodindo no chão.
Tudo aconteceu em câmera lenta. O som da boate sumiu. Antes que eu pudesse descer para limpar a bagunça que fiz, as mãos dele já estavam na minha cintura. Em um movimento rápido e forte, ele me ergueu e me sentou no balcão de mármore, me prendendo entre seus braços.
Meu coração disparou. Tum-tum. Tum-tum. Eu só conseguia olhar para ele.
— Você está bem? — Ele perguntou, e havia uma diversão contida no rosto dele que me deixou morta de vergonha.
Eu mal tive tempo de responder. O olhar dele escureceu, transformando-se em algo faminto que eu nunca tinha visto antes. Ele avançou.
Quando os lábios dele tocaram os meus, o mundo explodiu. Não foi como os beijos calmos do Wisley, que pareciam um aperto de mãos carinhoso. O beijo dele foi um incêndio. Senti uma eletricidade violenta percorrer meu corpo, descendo até o meio das minhas pernas. Uma sensação líquida e quente que me fez soltar um gemido abafado contra a boca dele. O que é isso? O Wisley nunca me fez sentir esse tipo de urgência.
O susto me fez reagir o mordi, mas ele não se afastou mesmo com o gosto de sangue em nossos lábios. Apoiei as mãos no peito de aço dele e o empurrei com toda a força que conseguir reunir.
— Você não pode sair beijando as pessoas assim! — exclamei, tentando recuperar o ar e a noção do que estava acontecendo.
Ele não pareceu se importar. Pelo contrário, ele deu um passo à frente, os olhos fixos na minha boca, e me puxou de volta pelo queixo.
— Eu acabei de fazer — ele sussurrou, e me beijou de novo.
Desta vez foi mais profundo, mais possessivo. Fiquei em choque. Minha mente gritava que era errado, que eu tinha um namorado ali perto, mas meu corpo estava traindo cada um dos meus princípios. Em um impulso de defesa contra o que eu mesma estava sentindo, minha mão subiu.
PÁ!
O estalo do tapa ecoou na minha cabeça mais alto que a música do clube. O rosto dele virou para o lado. Eu tremia da cabeça aos pés. Ele voltou a me encarar, e em vez de raiva, ele sorriu. Um sorriso sombrio que me deu calafrios.
— Amor?
Uma voz feminina, carregada de arrogância, cortou o ar. Olhei por cima do ombro dele e vi uma mulher deslumbrante, fantasiada de noiva cadáver.
— Precisamos convencer os acionistas, Killian. Agora. O Conselho está esperando — ela disse, puxando-o pelo braço como se ele fosse uma propriedade dela.
O chão parecia ter sumido sob meus pés. Me senti uma idiota. Uma completa e absoluta idiota.
Eu estou aqui com o meu namorado, que é um homem bom, e acabei de perder o juízo com um desconhecido. Um desconhecido que, além de ser um predador, é comprometido. Aproveitei que a mulher o arrastava e desci do balcão, tropeçando nas minhas próprias pernas enquanto sumia na escuridão da boate. Eu precisava sair dali. Precisava de ar.
Ele é um erro. Um erro lindo, perigoso e que me fez sentir algo que eu nunca deveria ter descoberto.
— Amor?
A voz do Wisley me trousse de volta. Ele se aproxima, mas não está sozinho. Trazia uma mulher com ele. Alta, magra, com um sorriso perfeito.
— Aline, essa aqui é a Heloíse, minha futura noiva. Amor, essa é a Aline, uma colega de trabalho.
Eu sorrio. É o sorriso ensaiado que uso para atender clientes na livraria. Futura noiva? Nos conhecemos há doze anos, mas resolvemos tentar esse namoro há apenas quatro meses. Eu nem conheço a mãe dele ainda, e ele nunca tinha se declarado até pouco tempo atrás. Houve uma época, na adolescência, em que eu achava que o amava, mas agora... agora eu aceitei o pedido dele mais por cordialidade e gratidão do que por paixão.
Sinto que esse rótulo de "noiva" que ele j**a nos outros é uma forma de marcar território antes mesmo de o relacionamento amadurecer.
Wisley me deixou ali, sozinha com a "colega", e saiu para buscar bebida. Sinto a desconfiança rastejar no meu peito, mas a dívida fala mais alto. Ele é melhor amigo do dono do morro. Foi ele quem segurou a mão dos agiotas quando meu pai morreu. Foi ele quem conseguiu os médicos para a minha avó.
Eu devo a vida da minha família a ele. E é por isso que deixo que ele projete planos de casamento que eu ainda não confirmei e nem sabia na verdade.
— Vamos embora daqui Wis? — pedi, horas depois.
No carro, o silêncio é preenchido pela mão dele na minha coxa. Nós somos "bons amigos". Falamos sobre a Maitê, sobre as contas, sobre a vida.
— Vamos dormir lá em casa hoje, Lully — ele diz. Não foi um pedido.
Eu aceito. A gratidão é uma coleira muito curta.
O quarto dele tem teto de gesso com estrelinhas fluorescentes que brilham no escuro. Deito-me na cama ele se aproxima, o hálito cheirando à cerveja da festa, e começa a me beijar de um jeito pesado, desajeitado.
Quando a mão dele sobe pela minha coxa, meu corpo entra em estado de alerta. É um reflexo antigo, uma memória celular que me faz querer sumir para dentro do colchão. Desde que o meu pai transformou o meu próprio corpo em algo que não sei explicar... Lembro que ele subia a mão pelas minhas pernas, explorava meu corpo, usava os dedos e eu sei que doía; depois, ele me trazia presentes. Por causa disso, tenho repulsa ao toque. Imaginar-me fazendo sexo com alguém é complicado; não me sinto bem, nem conformada em querer fazer.
— Wis, agora não... — sussurro, segurando o pulso dele. Minha pele ainda queima onde ele tocou.
— Poxa, Lully, de novo? — Ele bufa, a voz carregada de uma frustração que me faz sentir a pior mulher do mundo. — Eu faço tudo por você, e eu só quero você. Eu te amo...
— Eu sei. Me desculpe. Eu só... preciso de um pouco mais de tempo.
Ele desiste e vira para o lado, me deixando ali, encarando o teto. Começo a contar as estrelas. Uma. Duas. Treze... E, em um segundo, as estrelas do teto viram o brilho castanho dos olhos do homem da festa.
Adormeço ainda contando estrelas.
O domingo nasce com o cheiro de café e pão na chapa que o Wisley preparou. Ele tenta ser atencioso, tenta preencher os espaços vazios da minha alma com pequenas gentilezas domésticas. Tomamos café na cozinha apertada dele e o silêncio não é desconfortável. É apenas... calmo.
Voltamos para Paraisópolis para o tradicional almoço de domingo. Wisley faz questão de comprar a carne e assumir a churrasqueira improvisada no nosso quintal de cimento. É um momento de família, um daqueles que me fazem esquecer, por algumas horas, que o mundo lá fora está desmoronando.
Maitê aparece na cozinha, o rosto já recuperado da ressaca, mas os olhos ainda guardam a culpa de sexta. Ela se aproxima e me dá um beijo no rosto, um pedido silencioso de desculpas que eu aceito sem precisar de palavras.
— Estou conhecendo um rapaz, Lully — ela sussurra, enquanto me ajuda com a salada.
— Que rapaz, Maitê? — Sinto o alerta de "mãe" ligar imediatamente.
— É segredo — ela abre um sorriso travesso, o rosto brilhando como o de uma modelo. — Mas ele é uma boa pessoa. Prometo que, quando as coisas ficarem mais sérias, eu te conto tudo.
Olho para o Wisley, que está do lado de fora virando os espetos. Ele me lança um olhar cúmplice e sorri. É um momento bom. Ouvimos um rádio de pilha tocando uma música antiga, rimos das histórias da Dona Lully sobre os tempos da feira de artes, e a vida parece, por um segundo, o que deveria ser.
Não é a vida de herdeira que tive em Zurique. Não é a vida que sonhei quando pegava no pincel e desenhava mundos que não existiam. Mas é a vida que eu tenho. É tranquila.
Mas a tranquilidade aqui tem prazo de validade.
Olho para o portão de ferro da entrada. Eu sei que o fim do mês está chegando. Sei que, quando o calendário virar, os agiotas, vão subir o beco. Eles não aceitam desculpas. Eles não aceitam "momentos em família". Eles só aceitam o dinheiro que eu não tenho.
A vaga de secretaria da Moretti Tech vai ser meu bote salva-vidas. E se não der certo, já posso começar a imaginar a quem vou ter que me vender se eu não quiser morrer.
(5-ANOS DEPOIS)POV: HELOÍSEO vento morno da Sicília balançava as folhas das oliveiras, trazendo um cheiro limpo de terra e videiras. Da varanda da nossa fazenda imensa, protegida por muros altos e pela segurança fortificada que cercava toda a vila, eu olhava para o horizonte sem sentir um único rastro do pavor que um dia comandou os meus passos.Cinco anos tinham se passado desde que deixamos o Brasil para trás. Cinco anos desde que a Itália deixou de ser uma promessa de guerra para se transformar no meu verdadeiro refúgio de paz.Longe de toda a desgraça, do sangue e das ameaças que quase nos destruíram, o mundo parecia finalmente ter encontrado o seu equilíbrio.Gritei alto quando o som de risadas infantis ecoou pelo quintal gramado. Três crianças corriam em círculos, ignorando o calor da tarde. Na frente de todas estava a Amara, prestes a completar cinco anos, com seus cabelos escuros voando e uma energia que me fazia lembrar todos os dias da força da mulher que nos salvou no pass
POV: KILLIANEu a peguei no colo com um cuidado que eu nunca achei que meus braços pesados fossem capazes de exercer. A Heloíse não pesava quase nada contra o meu peito, mas o volume redondo de quatro meses da sua barriga contra o meu tronco era o lembrete físico de que o meu mundo tinha mudado de eixo. Subi os degraus em silêncio, sentindo os passos firmes ecoarem pela mansão vazia, e a levei direto para o quarto.Não havia pressa. Pela primeira vez em meses de guerra, cativeiro e sangue, o tempo operava a nosso favor.Deitei o corpo dela no colchão macio com lentidão. Meus dedos abriram o zíper do seu vestido leve, revelando a pele quente que eu passei os últimos sessenta dias salivando para tocar. De ladinho, acomodando o corpo dela de forma que o peso do meu tronco não pressionasse o seu ventre, eu me juntei a ela.Minha mão espalhou-se pela lateral da sua cintura, subindo devagar até acariciar a pele esticada da sua barriga, sentindo a ondulação da vida que nós dois geramos.Fize
POV: HELOÍSEEu mal conseguia respirar. O ar parecia ter sumido do cômodo enquanto as palavras dele ecoavam na minha mente, quebrando qualquer barreira que eu ainda tentava manter erguida. Olhei para aquele homem imenso na minha frente, o Executor da máfia, a máquina lógica que eu achava incapaz de se curvar para o mundo.Mas o Killian mudou de figura diante dos meus olhos.Sem desviar os olhos castanhos-âmbar dos meus por um único segundo, ele desceu lentamente do pedestal de frieza onde passou a vida inteira trancado. O corpo maciço dele cedeu. Os joelhos do Killian — que nunca tinham se dobrado diante de nenhum chefe, de nenhuma ameaça ou de qualquer Conselho — bateram contra o piso de porcelanato frio da cozinha.A cena rasgou o meu peito de um jeito violento. Ele estava no chão, me encarando de baixo para cima, com as feições completamente desarmadas.— Eu sou todo seu, Lully... — a voz dele saiu rascante, crua, vibrando direto na minha medula. — Eu estou completamente à sua merc
POV: HELOÍSEO Killian permaneceu estático. Seus dedos grossos, que antes seguravam a xícara de café, travaram contra o mármore escuro da bancada da cozinha com uma rigidez absurda.Eu vi quando o maxilar dele contraiu com tanta força que os músculos do seu pescoço saltaram por baixo da pele, as linhas do corpo grande endurecendo na hora. Ele tinha sido pego completamente de surpresa pela minha pergunta. Dava para ver no travamento ríspido dele que a farsa tinha desabado.Ele fixou os olhos castanho-âmbar direto nas minhas feições. O silêncio que se instalou na cozinha foi esmagador, e eu sustentei o olhar, vendo as engrenagens da mente daquele homem tentarem recalcular a matemática exata daquela situação. Ele parecia tentar entender como o segredo que tinha guardado na medula dos ossos por mais de uma década tinha caído por terra ali, entre o cheiro de café e as minhas mãos frias apoiadas na mesa.O Killian estreitou as sobrancelhas, soltando o ar lentamente pelo nariz. A máscara fri
POV: HELOÍSEDois meses tinham se passado desde que os meus pés tocaram o solo brasileiro vindos daquele inferno em Cabo Verde. Dois meses de uma calmaria que eu achei que nunca mais experimentaria na vida. A fisioterapia ríspida e diária tinha funcionado; a infecção na minha panturrilha fora totalmente debelada e eu já conseguia andar normalmente pelos corredores da mansão, sem os espasmos de dor que antes me faziam travar o corpo.A rotina da casa agora estava cheia de uma vida que há muito tempo faltava. A filhinha da Maitê tinha nascido há algumas semanas — uma mocinha linda, miúda, que trouxe um rastro de pureza e alegria para todos nós. Minha avó também estava bem, com o semblante descansado e radiante por ver a família finalmente unida e protegida sob as paredes fortificadas da nossa estrutura.Todos estavam bem.Eu tinha voltado do médico no dia anterior. Já estava completando quatro meses de gestação. Minha barriga despontava grande, pesada e redonda, gerando aquele incômodo
POV: HELOÍSEQuase cinquenta dias que passei trancada naquele navio e, depois, naquele porão escuro foram um borrão completo de dor, febre e desespero. Nos últimos dias passava a maior parte do tempo delirando, flutuando entre a realidade e o pesadelo por causa dos antibióticos fortes que jogavam na minha veia para tentar segurar a infecção da minha panturrilha.Mas tudo mudou quando o estrondo aconteceu. Quando a porta de ferro daquele quarto de cimento veio abaixo com um tranco violento, o meu coração bateu na garganta. Eu soube, antes mesmo de enxergar, que o meu homem tinha chegado.O último capanga entrou em pânico, me puxando pelos cabelos com força na marra e colando o cano do revólver na minha têmpora.Mas o Killian surgiu. Ele agiu como um raio, e o estalo da pistola dele ecoou como o som da minha libertação. O sangue do guarda espirrou na parede de tijolos e o corpo dele caiu mole na sujeira. Eu desabei logo em seguida, com as pernas falhando pelo ferimento inflamado, mas os







