FAZER LOGINO restante da manhã seguiu sob uma calmaria aparente, mas a tensão na nossa fileira de mesas era quase palpável. Eu tentava manter meus olhos fixos nas planilhas, mas minha mente insistia em repassar o olhar que Frederico havia me direcionado mais cedo.
Por volta das onze horas, o som de saltos altos estalando no piso anunciou a aproximação de Letícia. Ela parou bem ao lado da minha baia, segurando uma caneca de café fumegante. Ao invés de falar sobre trabalho, ela adotou um tom de voz casual, alto o suficiente para que apenas eu ouvisse, mas com aquela falsa simpatia que esconde garras afiadas.
— O ritmo hoje está insano, não é, Antonella? — ela começou, apoiando-se de leve na divisória da minha mesa. — Ver o Frederico assumindo a chefia assim me traz tantas lembranças... Sabe, no ano passado, passamos por uma auditoria parecida. Ficávamos até de madrugada trancados na sala dele, resolvendo tudo sozinhos.
Eu ergui os olhos, tentando manter a expressão neutra, mas senti meu estômago dar um nó.
— Ah, é? — foi tudo o que consegui responder.
— Sim — Letícia sorriu, um sorriso nostálgico e ensaiado, enquanto girava a aliança falsa ou o anel no dedo. — O Frederico tem hábitos muito específicos quando está sob pressão. Ele adora que tragam café sem açúcar depois das duas da tarde e fica extremamente... bom, digamos que a proximidade de tantas noites em claro trabalhando juntos acaba criando uma intimidade que não some fácil. Há coisas que ficam guardadas entre quatro paredes, entende? O Frederico sabe ser muito grato a quem esteve com ele antes de toda essa calmaria atual.
Ela deu um gole no café, sustentando meu olhar por um segundo a mais antes de piscar e dar as costas, caminhando elegantemente em direção à copa.
Aquelas palavras entraram em mim como pequenas farpas. Embora Letícia não tivesse dito com todas as letras, a insinuação de que eles já haviam tido um envolvimento íntimo no passado ficou flutuando no ar. Uma onda de ciúmes, quente e desconfortável, subiu pelo meu peito. Sentir aquilo me assustou. Quem era eu para ter ciúmes dele? Nós tínhamos apenas dividido um almoço e um beijo roubado na bochecha. Mas a simples imagem de Frederico compartilhando olhares, segredos ou qualquer outra coisa com Letícia no passado fez minhas mãos tremerem sobre o teclado. Um aperto incômodo tomou conta de mim, misturando a doçura da noite anterior com um gosto amargo de dúvida.
Do outro lado do andar, atrás da porta de vidro fosco da chefia, Frederico observava a movimentação. Ele havia notado a aproximação de Letícia e a postura defensiva que Antonella adotara logo em seguida.
Aproveitando o horário de almoço, enquanto o escritório esvaziava, ele pegou o celular e discou o número do seu amigo de confiança.
— Cara, você precisava ver o que acabou de acontecer aqui no andar — Frederico disse em voz baixa, encostando-se na cadeira com um sorriso convencido no rosto.
— O que você aprontou agora, Frederico? — a voz do amigo soou preocupada do outro lado da linha.
— Eu não fiz nada, mas a Letícia acabou de ir até a mesa da Antonella e claramente tentou marcar território. Usou aquele papo de intimidade antiga, de quando trabalhávamos até tarde. Dava para ver de longe o desconforto e o ciúme nos olhos da Antonella. Para ser sincero... eu achei bem interessante essa reação. Essa disputa, sabe? Mostra que a Antonella não está tão indiferente quanto tenta fingir.
Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos antes de o amigo soltar um suspiro pesado, o tom de brincadeira sumindo completamente.
— Olha, Frederico, eu não estou achando isso nada legal, cara. De verdade. Você está alimentando uma situação perigosa no seu ambiente de trabalho.
— É só um jogo bobo, qual o problema? Gosto de me sentir desejado — Frederico minimizou.
— O problema é que você está brincando com o sentimento de duas pessoas e com a sua própria reputação profissional — o amigo alertou, firme. — A Letícia acha que tem alguma chance ou direito sobre você, e a Antonella está chegando agora, sem saber o que é real ou não. Você não deveria inflar o seu ego com essa disputa. Se você tem decência e quer algo sério com a Antonella, você precisa cortar essas gracinhas da Letícia de uma vez por todas ou colocar as cartas na mesa com ela. Não deixa essa fofoca crescer, ou você vai acabar perdendo o controle e machucando quem não merece.
Frederico desfez o sorriso aos poucos, as palavras sensatas do amigo pesando em seus ombros. Ele olhou através do vidro, vendo a baia vazia de Antonella, que havia saído para almoçar, e percebeu que o jogo que ele considerava divertido estava prestes a se tornar complicado demais.
Nas três semanas seguintes à prisão de Gustavo, não coloquei os pés na multinacional. Passei os dias e as noites trancada no apartamento de Kensington, vivendo no espaço que pertencera a Frederico. Deitava no lado dele da cama, abraçada aos seus travesseiros, buscando nos tecidos o cheiro suave do seu perfume de sândalo que ainda recusava a desaparecer. Ali, no silêncio daquele quarto onde ele derramara seu último suspiro por mim, eu finalmente me permiti chorar tudo o que havia guardado durante os seis meses de farsa.O escândalo estampara as capas de todos os jornais do Reino Unido e de Portugal. Com as provas físicas que tirei do cofre de Mayfair e a gravação da confissão exibida ao vivo na TV, a farsa de Gustavo ruíra por completo. Todos os seus podres vieram à tona: os esquemas com o cartel do leste europeu, as contas fantasma e a execução encomendada de Frederico. Julgado sem direito a fiança, Gustavo foi condenado a mais de trinta anos de prisão em regime fechado, enterrado viv
A pós-produção do roubo dos arquivos no escritório em Mayfair exigiu de mim um controle cirúrgico. Restaurei o quadro sobre a porta do cofre, ajeitei os papéis na bolsa e desci as escadas de mármore com a pele fria e a respiração ritmada.Ao pisar novamente no salão principal, Gustavo me esperava na base do corrimão com duas taças de champanhe. Ele me mediu de cima a baixo com o olhar inquisidor que cultivara durante toda a semana.— Demorou no toucador — ele comentou, entregando-me a taça e tocando a minha cintura.— Apenas retocando o batom e admirando a arquitetura do andar de cima — respondi, sorrindo com a docilidade estudada que ele tanto apreciava. — A casa é magnífica, amor.Ele relaxou a postura, o ego alimentado pela resposta, e me conduziu até a mesa de jantar. A refeição transcorreu sob a ilusão do controle absoluto. Os acionistas de Lisboa brindavam aos lucros futuros, rindo de piadas arrogantes sobre a facilidade de contornar as regulações britânicas. Gustavo discursava
A mansão em Mayfair respirava a ostentação gélida dos velhos executivos de Lisboa. Sob os lustres de cristal e o som discreto de um quarteto de cordas, seis acionistas majoritários bebiam uísque e riam alto, celebrando os lucros recordes da multinacional. Gustavo desfilava entre eles como o monarca incontestável, segurando uma taça de cristal e mantendo uma das mãos firme sobre a minha cintura.— A Antonella é o verdadeiro cérebro da nossa controladoria em Londres — Gustavo anunciava aos investidores, puxando-me para o centro da roda com um sorriso vaidoso. — Desde que assumiu a gerência, os relatórios fiscais nunca foram tão limpos.— Limpos e lucrativos, espero — brincou um dos acionistas portugueses, erguendo a taça em nossa direção.Sorri, mantendo a postura impecável e a fisionomia dócil que treinei durante meses. Mas, por baixo da maquiagem e do vestido de seda, cada músculo do meu corpo estava tenso. O aplicativo no meu celular transmitia o áudio daquela conversa diretamente pa
— O que foi, Antonella? — Gustavo franziu a testa, o tom de voz baixando para uma ameaça perigosa. — Está hesitando por quê? É apenas uma checagem de rotina da TI. A não ser, é claro, que você tenha algo escondido aí dentro.O meu coração martelava contra as costelas a mil por hora, mas a dor do luto e a memória de Frederico me deram uma calma sobrenatural.Puxei o celular do bolso devagar. Com um movimento rápido do polegar treinado sob a mesa, usei o atalho do botão lateral: três cliques secos que ativavam o bloqueio biométrico de emergência e apagavam a memória cache do aplicativo de gravação, trancando o arquivo direto no servidor em nuvem sob uma senha de dezesseis dígitos.Levantei o rosto, encarei Gustavo nos olhos e entreguei o aparelho na mão dele, sem piscar.— Pode levar para a TI, Gustavo — disse, a voz fria e firme, deixando uma expressão de profunda mágoa transparecer. — Pode mandar revistar meu telefone, meu computador, meu apartamento e a minha bolsa. Se você precisa d
O andar já estava praticamente vazio; quase todos os analistas haviam ido embora para o happy hour de sexta-feira. No silêncio do escritório, o único som perceptível era o clique rhythmico do meu mouse salvando a faixa de áudio no servidor em nuvem.Faltava pouco. Eu já tinha a gravação do Gustavo gabando-se do esquema de lavagem de dinheiro em Zurique. Para fechar o cerco e garantir que a Scotland Yard não tivesse margem para fiança, eu só precisava copiar os arquivos físicos do cofre de Mayfair.Ouvi passos abafados sobre o carpete.Antes que eu pudesse fechar a aba do navegador, uma mão forte pousou pesadamente sobre o meu ombro. Congelei. Fechei o monitor em um atalho de teclado antes de me virar devagar.Gustavo estava em pé ao lado da minha baia. Ele não usava o paletó, e as mangas da sua camisa social estavam dobradas até os cotovelos. O olhar dele não tinha a benevolência arrogante dos últimos dias; era um olhar gélido, analítico e perigosamente atento.— Trabalhando até tarde
O imponente edifício de vidro na City de Londres continuava exatamente o mesmo. O mesmo vai e vém de executivos de terno, o mesmo aroma de café caro no saguão e o mesmo zumbido frio do ar-condicionado. Mas a mulher que cruzou as catracas de vidro naquela manhã de segunda-feira já não era a analista ingênua de meses atrás.Eu vestia um terno alinhado em tom creme, os cabelos presos em um coque impecável e batom vermelho marcante nos lábios. Ao meu lado, de cabeça erguida e postura triunfante, caminhava Gustavo. Para toda a empresa, ele era o auditor injustiçado que retornava de Manchester com honras; para mim, era o assassino do homem que eu amava.Quando os dois elevadores sociais se abriram no andar da controladoria, o silêncio caiu sobre a sala. Dezenas de pares de olhos se voltaram para nós. A memória da tragédia de Frederico ainda pairava no ar como um fantasma, mas Gustavo deu dois passos à frente, impecável e carismático.— Bom dia a todos — a voz dele ecoou firme pela sala. — É







