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Capítulo 07

last update Data de publicação: 2026-06-19 22:59:00

Assim que Frederico desligou o telefone, as palavras do amigo ainda ecoavam em sua mente. Ele olhou pelo vidro da sala e viu que Antonella havia acabado de voltar para a baia dela. O semblante dela estava sério, focado demais na tela, uma barreira clara que ela tentava erguer contra o mundo. Decidido a não deixar aquele mal-entendido crescer, ele pegou o paletó e caminhou até a mesa dela.

— Antonella? — chamou em voz baixa, fazendo-me dar um leve sobressalto. — O pessoal saiu para almoçar. Vamos também? Tem um restaurante ótimo aqui perto.

Eu engoli em seco. O ciúme que Letícia havia plantado no meu peito ainda queimava, misturado com uma pitada de orgulho ferido. Minha primeira reação foi querer recusar, inventar uma desculpa qualquer e me esconder no meu casulo. Mas a curiosidade e o incômodo falaram mais alto. Eu precisava de respostas.

— Tudo bem. Vamos — respondi, mantendo a voz o mais neutra possível enquanto recolhia meus pertences.

Caminhamos em silêncio até o restaurante. O clima entre nós estava denso, bem diferente da leveza do nosso almoço anterior. Sentamos em uma mesa mais reservada ao fundo e, antes mesmo de os pratos chegarem, decidi que não conseguiria engolir a comida com aquele nó na garganta. Olhei bem nos olhos dele, cruzando os braços.

— Frederico, preciso te fazer uma pergunta — comecei, sem rodeios.

Ele me encarou, atento, percebendo a seriedade no meu tom.

— Pode fazer, Antonella.

— Qual é o seu relacionamento com a Letícia? — joguei as cartas na mesa, observando cada microexpressão do seu rosto. — E... desculpe a intromissão, mas eu preciso saber. Você é casado? Solteiro? Divorciado? O que você é?

Frederico pareceu surpreso com a minha franqueza, mas não se esquivou. Pelo contrário, vi um vislumbre de compreensão — e talvez um pouco de alívio — em seus olhos castanhos.

— Eu não tenho absolutamente nada com a Letícia, Antonella. Nunca tive — ele garantiu, inclinando-se para frente e mantendo o olhar fixo no meu para me dar certeza. — Trabalhamos muito tempo juntos, sim, mas nunca passou de profissionalismo. Se ela deu a entender outra coisa, foi por conta própria.

Ele fez uma pausa breve, respirando fundo antes de responder à segunda parte da minha pergunta.

— E sobre o meu status... eu sou divorciado. Já faz um tempo. Moro sozinho e hoje a minha vida é totalmente voltada para o meu trabalho e para reconstruir a minha história.

Ouvir aquilo foi como se uma lona pesada saísse de cima do meu peito. Saber que ele era divorciado e que a história de Letícia não passava de uma marcação de território infundada me fez relaxar os ombros. Senti uma onda de tranquilidade me invadir. O almoço fluiu muito melhor depois disso; conversamos de forma leve, rimos e o clima tenso da manhã se dissipou por completo.

O restante do dia no escritório correu na mais perfeita normalidade. Trabalhamos focados, a auditoria exigiu bastante de nós e Letícia passou a tarde imersa em suas próprias planilhas, sem espaço para novas alfinetadas.

Quando o expediente finalmente terminou, por volta das dezoito horas, despedi-me de Frederico com um sorriso discreto e passei em um supermercado próximo da minha casa para comprar algumas coisas que faltavam na despensa.

Eu empurrava o carrinho distraidamente pelo corredor de laticínios quando, para a minha surpresa, avistei uma silhueta alta e familiar de costas. Era Frederico.

Sorri e ensaiei dar um passo à frente para cumprimentá-lo, mas parei abruptamente ao olhar para o carrinho dele. Fiquei paralisada, observando a cena.

O carrinho de Frederico estava absurdamente cheio. Havia caixas e caixas de leite integral, pacotes grandes de frango, cortes volumosos de carne bovina, cartelas enormes de ovos, iogurtes infantis e pacotes de biscoito. Era uma quantidade imensa de comida, um estoque que claramente servia para abastecer uma família grande ou uma casa cheia de crianças.

Uma distorção enorme se formou na minha mente, quebrando toda a tranquilidade que eu havia sentido no almoço. Ele acabou de me dizer que mora sozinho. Por que um homem que mora só estaria comprando um volume tão grande de carne, leite e coisas infantis?

Fiquei escondida atrás da gôndola, sentindo um novo aperto no peito enquanto o observava empurrar aquele carrinho pesado em direção aos caixas. A dúvida, que eu achava ter enterrado no restaurante, voltou com uma força avassaladora, desenhando mil interrogações na minha mente. Quem era, afinal, o Frederico fora daquele escritório?

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