FAZER LOGINEu mal consegui pregar os olhos naquela noite. Sempre que eu fechava as pálpebras, o calor do toque de Frederico na minha mão e a pressão suave dos lábios dele na minha bochecha pareciam se repetir em câmera lenta na minha mente. Minha pele ainda parecia queimar naquele ponto exato. Aquela sensação avassaladora de borboletas no estômago, que eu julgava ter esquecido como era sentir, insistia em me lembrar de que eu estava viva — e perigosamente vulnerável.
Quando a manhã de sexta-feira finalmente chegou, caminhei até o prédio da empresa com o coração ligeiramente acelerado. Cruzei as portas giratórias do saguão tentando vestir minha melhor armadura de profissionalismo. Eu precisava focar no trabalho. Afinal, estávamos no meio de uma auditoria e qualquer distração poderia ser fatal para a minha carreira ali.
Assim que o elevador abriu no nosso andar, o burburinho habitual de telefones e teclados me envolveu. Respirei fundo e caminhei até a minha baia. No entanto, antes mesmo de ligar o computador, senti um par de olhos cravados em mim.
Olhei de relance para o lado. Letícia já estava em sua mesa. Ela usava um terninho cinza impecável, os cabelos presos em um coque tenso e a postura rigidamente ereta. Quando nossos olhares se cruzaram, ela não se deu ao trabalho de disfarçar. Seus olhos castanhos estavam gelados, estreitados em uma linha de pura desconfiança. O descontentamento da noite anterior claramente não havia passado; pelo contrário, parecia ter amadurecido.
— Bom dia, Letícia — cumprimentei de forma polida, tentando quebrar o gelo.
Ela apenas deu um aceno de cabeça milimétrico, os lábios colados em uma linha fina, antes de voltar a folhear uma pasta de relatórios com uma força desnecessária. A mensagem estava dada: ela estava de olho em mim.
Tentei ignorar o clima pesado e comecei a digitar. Mas a verdadeira prova de fogo veio cerca de uma hora depois, quando a silhueta alta e imponente de Frederico surgiu no corredor.
Ele vestia uma camisa social azul-clara com as mangas dobradas até os antebraços, caminhando com aquela confiança natural que descrevi no meu gravador. Meu peito deu um solavanco involuntário. Ele vinha em direção às nossas mesas, segurando um tablet e algumas anotações da auditoria.
— Bom dia, equipe — a voz profunda dele ecoou, pausada e calma, preenchendo o espaço de um jeito que sempre me desconcertava.
— Bom dia, Frederico — Letícia adiantou-se imediatamente, levantando-se com um sorriso que parecia ensaiado e caminhando até ele. — Já separei os balancetes que o diretor pediu antes de viajar. Estão todos na sua mesa. Se precisar que eu revise os dados com você... com calma... estou totalmente disponível.
Ela enfatizou as palavras de um jeito cortante, lançando um olhar de soslaio na minha direção para garantir que eu estivesse ouvindo.
Frederico ofereceu a ela um sorriso profissional, mas educado.
— Obrigado, Letícia. Vai ajudar muito. Vou dar uma olhada nisso agora mesmo.
Em seguida, os olhos dele finalmente se moveram e encontraram os meus. Por um segundo que pareceu durar uma eternidade, o escritório ao redor pareceu sumir. Não houve palavras, mas a intensidade no olhar dele — o mesmo olhar escuro da noite anterior — fez meu estômago revirar novamente em um misto de nervosismo e expectativa. Ele deu um leve aceno de cabeça específico para mim, um cumprimento quase imperceptível para os outros, mas cheio de significado para nós dois.
— Bom dia, Antonella. Tudo bem por aqui? — ele perguntou, mantendo o tom de voz profissional, mas com uma suavidade que Letícia certamente notou.
— Tudo bem, Frederico. Os relatórios de ontem já estão arquivados no sistema — respondi, lutando para manter a voz firme e mansa, sem deixar transparecer o caos que estava o meu peito.
— Excelente trabalho — ele elogiou, demorando o olhar no meu rosto por mais um instante antes de se virar e caminhar em direção à sua sala.
Assim que a porta dele se fechou, o silêncio na nossa área ficou sufocante. Voltei meus olhos para a tela, mas pelo reflexo do vidro do monitor, eu conseguia ver Letícia parada no meio do corredor, de braços cruzados, encarando a minha baia com uma expressão que misturava ciúme e uma promessa silenciosa de que ela não facilitaria as coisas para mim.
O jogo no escritório estava mudando de nível, e eu estava bem no centro do tabuleiro.
Nas três semanas seguintes à prisão de Gustavo, não coloquei os pés na multinacional. Passei os dias e as noites trancada no apartamento de Kensington, vivendo no espaço que pertencera a Frederico. Deitava no lado dele da cama, abraçada aos seus travesseiros, buscando nos tecidos o cheiro suave do seu perfume de sândalo que ainda recusava a desaparecer. Ali, no silêncio daquele quarto onde ele derramara seu último suspiro por mim, eu finalmente me permiti chorar tudo o que havia guardado durante os seis meses de farsa.O escândalo estampara as capas de todos os jornais do Reino Unido e de Portugal. Com as provas físicas que tirei do cofre de Mayfair e a gravação da confissão exibida ao vivo na TV, a farsa de Gustavo ruíra por completo. Todos os seus podres vieram à tona: os esquemas com o cartel do leste europeu, as contas fantasma e a execução encomendada de Frederico. Julgado sem direito a fiança, Gustavo foi condenado a mais de trinta anos de prisão em regime fechado, enterrado viv
A pós-produção do roubo dos arquivos no escritório em Mayfair exigiu de mim um controle cirúrgico. Restaurei o quadro sobre a porta do cofre, ajeitei os papéis na bolsa e desci as escadas de mármore com a pele fria e a respiração ritmada.Ao pisar novamente no salão principal, Gustavo me esperava na base do corrimão com duas taças de champanhe. Ele me mediu de cima a baixo com o olhar inquisidor que cultivara durante toda a semana.— Demorou no toucador — ele comentou, entregando-me a taça e tocando a minha cintura.— Apenas retocando o batom e admirando a arquitetura do andar de cima — respondi, sorrindo com a docilidade estudada que ele tanto apreciava. — A casa é magnífica, amor.Ele relaxou a postura, o ego alimentado pela resposta, e me conduziu até a mesa de jantar. A refeição transcorreu sob a ilusão do controle absoluto. Os acionistas de Lisboa brindavam aos lucros futuros, rindo de piadas arrogantes sobre a facilidade de contornar as regulações britânicas. Gustavo discursava
A mansão em Mayfair respirava a ostentação gélida dos velhos executivos de Lisboa. Sob os lustres de cristal e o som discreto de um quarteto de cordas, seis acionistas majoritários bebiam uísque e riam alto, celebrando os lucros recordes da multinacional. Gustavo desfilava entre eles como o monarca incontestável, segurando uma taça de cristal e mantendo uma das mãos firme sobre a minha cintura.— A Antonella é o verdadeiro cérebro da nossa controladoria em Londres — Gustavo anunciava aos investidores, puxando-me para o centro da roda com um sorriso vaidoso. — Desde que assumiu a gerência, os relatórios fiscais nunca foram tão limpos.— Limpos e lucrativos, espero — brincou um dos acionistas portugueses, erguendo a taça em nossa direção.Sorri, mantendo a postura impecável e a fisionomia dócil que treinei durante meses. Mas, por baixo da maquiagem e do vestido de seda, cada músculo do meu corpo estava tenso. O aplicativo no meu celular transmitia o áudio daquela conversa diretamente pa
— O que foi, Antonella? — Gustavo franziu a testa, o tom de voz baixando para uma ameaça perigosa. — Está hesitando por quê? É apenas uma checagem de rotina da TI. A não ser, é claro, que você tenha algo escondido aí dentro.O meu coração martelava contra as costelas a mil por hora, mas a dor do luto e a memória de Frederico me deram uma calma sobrenatural.Puxei o celular do bolso devagar. Com um movimento rápido do polegar treinado sob a mesa, usei o atalho do botão lateral: três cliques secos que ativavam o bloqueio biométrico de emergência e apagavam a memória cache do aplicativo de gravação, trancando o arquivo direto no servidor em nuvem sob uma senha de dezesseis dígitos.Levantei o rosto, encarei Gustavo nos olhos e entreguei o aparelho na mão dele, sem piscar.— Pode levar para a TI, Gustavo — disse, a voz fria e firme, deixando uma expressão de profunda mágoa transparecer. — Pode mandar revistar meu telefone, meu computador, meu apartamento e a minha bolsa. Se você precisa d
O andar já estava praticamente vazio; quase todos os analistas haviam ido embora para o happy hour de sexta-feira. No silêncio do escritório, o único som perceptível era o clique rhythmico do meu mouse salvando a faixa de áudio no servidor em nuvem.Faltava pouco. Eu já tinha a gravação do Gustavo gabando-se do esquema de lavagem de dinheiro em Zurique. Para fechar o cerco e garantir que a Scotland Yard não tivesse margem para fiança, eu só precisava copiar os arquivos físicos do cofre de Mayfair.Ouvi passos abafados sobre o carpete.Antes que eu pudesse fechar a aba do navegador, uma mão forte pousou pesadamente sobre o meu ombro. Congelei. Fechei o monitor em um atalho de teclado antes de me virar devagar.Gustavo estava em pé ao lado da minha baia. Ele não usava o paletó, e as mangas da sua camisa social estavam dobradas até os cotovelos. O olhar dele não tinha a benevolência arrogante dos últimos dias; era um olhar gélido, analítico e perigosamente atento.— Trabalhando até tarde
O imponente edifício de vidro na City de Londres continuava exatamente o mesmo. O mesmo vai e vém de executivos de terno, o mesmo aroma de café caro no saguão e o mesmo zumbido frio do ar-condicionado. Mas a mulher que cruzou as catracas de vidro naquela manhã de segunda-feira já não era a analista ingênua de meses atrás.Eu vestia um terno alinhado em tom creme, os cabelos presos em um coque impecável e batom vermelho marcante nos lábios. Ao meu lado, de cabeça erguida e postura triunfante, caminhava Gustavo. Para toda a empresa, ele era o auditor injustiçado que retornava de Manchester com honras; para mim, era o assassino do homem que eu amava.Quando os dois elevadores sociais se abriram no andar da controladoria, o silêncio caiu sobre a sala. Dezenas de pares de olhos se voltaram para nós. A memória da tragédia de Frederico ainda pairava no ar como um fantasma, mas Gustavo deu dois passos à frente, impecável e carismático.— Bom dia a todos — a voz dele ecoou firme pela sala. — É







