FAZER LOGINNas três semanas seguintes à prisão de Gustavo, não coloquei os pés na multinacional. Passei os dias e as noites trancada no apartamento de Kensington, vivendo no espaço que pertencera a Frederico. Deitava no lado dele da cama, abraçada aos seus travesseiros, buscando nos tecidos o cheiro suave do seu perfume de sândalo que ainda recusava a desaparecer. Ali, no silêncio daquele quarto onde ele derramara seu último suspiro por mim, eu finalmente me permiti chorar tudo o que havia guardado durante os seis meses de farsa.O escândalo estampara as capas de todos os jornais do Reino Unido e de Portugal. Com as provas físicas que tirei do cofre de Mayfair e a gravação da confissão exibida ao vivo na TV, a farsa de Gustavo ruíra por completo. Todos os seus podres vieram à tona: os esquemas com o cartel do leste europeu, as contas fantasma e a execução encomendada de Frederico. Julgado sem direito a fiança, Gustavo foi condenado a mais de trinta anos de prisão em regime fechado, enterrado viv
A pós-produção do roubo dos arquivos no escritório em Mayfair exigiu de mim um controle cirúrgico. Restaurei o quadro sobre a porta do cofre, ajeitei os papéis na bolsa e desci as escadas de mármore com a pele fria e a respiração ritmada.Ao pisar novamente no salão principal, Gustavo me esperava na base do corrimão com duas taças de champanhe. Ele me mediu de cima a baixo com o olhar inquisidor que cultivara durante toda a semana.— Demorou no toucador — ele comentou, entregando-me a taça e tocando a minha cintura.— Apenas retocando o batom e admirando a arquitetura do andar de cima — respondi, sorrindo com a docilidade estudada que ele tanto apreciava. — A casa é magnífica, amor.Ele relaxou a postura, o ego alimentado pela resposta, e me conduziu até a mesa de jantar. A refeição transcorreu sob a ilusão do controle absoluto. Os acionistas de Lisboa brindavam aos lucros futuros, rindo de piadas arrogantes sobre a facilidade de contornar as regulações britânicas. Gustavo discursava
A mansão em Mayfair respirava a ostentação gélida dos velhos executivos de Lisboa. Sob os lustres de cristal e o som discreto de um quarteto de cordas, seis acionistas majoritários bebiam uísque e riam alto, celebrando os lucros recordes da multinacional. Gustavo desfilava entre eles como o monarca incontestável, segurando uma taça de cristal e mantendo uma das mãos firme sobre a minha cintura.— A Antonella é o verdadeiro cérebro da nossa controladoria em Londres — Gustavo anunciava aos investidores, puxando-me para o centro da roda com um sorriso vaidoso. — Desde que assumiu a gerência, os relatórios fiscais nunca foram tão limpos.— Limpos e lucrativos, espero — brincou um dos acionistas portugueses, erguendo a taça em nossa direção.Sorri, mantendo a postura impecável e a fisionomia dócil que treinei durante meses. Mas, por baixo da maquiagem e do vestido de seda, cada músculo do meu corpo estava tenso. O aplicativo no meu celular transmitia o áudio daquela conversa diretamente pa
— O que foi, Antonella? — Gustavo franziu a testa, o tom de voz baixando para uma ameaça perigosa. — Está hesitando por quê? É apenas uma checagem de rotina da TI. A não ser, é claro, que você tenha algo escondido aí dentro.O meu coração martelava contra as costelas a mil por hora, mas a dor do luto e a memória de Frederico me deram uma calma sobrenatural.Puxei o celular do bolso devagar. Com um movimento rápido do polegar treinado sob a mesa, usei o atalho do botão lateral: três cliques secos que ativavam o bloqueio biométrico de emergência e apagavam a memória cache do aplicativo de gravação, trancando o arquivo direto no servidor em nuvem sob uma senha de dezesseis dígitos.Levantei o rosto, encarei Gustavo nos olhos e entreguei o aparelho na mão dele, sem piscar.— Pode levar para a TI, Gustavo — disse, a voz fria e firme, deixando uma expressão de profunda mágoa transparecer. — Pode mandar revistar meu telefone, meu computador, meu apartamento e a minha bolsa. Se você precisa d
O andar já estava praticamente vazio; quase todos os analistas haviam ido embora para o happy hour de sexta-feira. No silêncio do escritório, o único som perceptível era o clique rhythmico do meu mouse salvando a faixa de áudio no servidor em nuvem.Faltava pouco. Eu já tinha a gravação do Gustavo gabando-se do esquema de lavagem de dinheiro em Zurique. Para fechar o cerco e garantir que a Scotland Yard não tivesse margem para fiança, eu só precisava copiar os arquivos físicos do cofre de Mayfair.Ouvi passos abafados sobre o carpete.Antes que eu pudesse fechar a aba do navegador, uma mão forte pousou pesadamente sobre o meu ombro. Congelei. Fechei o monitor em um atalho de teclado antes de me virar devagar.Gustavo estava em pé ao lado da minha baia. Ele não usava o paletó, e as mangas da sua camisa social estavam dobradas até os cotovelos. O olhar dele não tinha a benevolência arrogante dos últimos dias; era um olhar gélido, analítico e perigosamente atento.— Trabalhando até tarde
O imponente edifício de vidro na City de Londres continuava exatamente o mesmo. O mesmo vai e vém de executivos de terno, o mesmo aroma de café caro no saguão e o mesmo zumbido frio do ar-condicionado. Mas a mulher que cruzou as catracas de vidro naquela manhã de segunda-feira já não era a analista ingênua de meses atrás.Eu vestia um terno alinhado em tom creme, os cabelos presos em um coque impecável e batom vermelho marcante nos lábios. Ao meu lado, de cabeça erguida e postura triunfante, caminhava Gustavo. Para toda a empresa, ele era o auditor injustiçado que retornava de Manchester com honras; para mim, era o assassino do homem que eu amava.Quando os dois elevadores sociais se abriram no andar da controladoria, o silêncio caiu sobre a sala. Dezenas de pares de olhos se voltaram para nós. A memória da tragédia de Frederico ainda pairava no ar como um fantasma, mas Gustavo deu dois passos à frente, impecável e carismático.— Bom dia a todos — a voz dele ecoou firme pela sala. — É







