FAZER LOGINLORENZO
Abri a porta do meu escritório e me deparei com Dante, meu irmão mais novo, como se ele já me esperasse. Trajava uma camisa social clara, dobrada até os cotovelos, sem gravata, com um desses suspensórios da moda, nada de suspensórios táticos. Ele rolava a tela de um tablet, concentrado.
— Você chegou a ver isso? — perguntou, sem levantar os olhos.
— Sobre o cliente da mesa 12? O Lucca me alertou sobre a suspeita de lavagem de cinquenta mil em fichas falsas. E ainda teve a audácia de pedir nosso melhor champanhe. Cagando no prato que comeu...
— Não é isso. É sobre as movimentações suspeitas dos Calderón no porto. Nessa semana, estão mais... como eu poderia dizer? Ousados que o habitual.
Não comentei nada. Limitei-me a tomar o tablet e analisar os dados com calma. Quanto ao cara da mesa 12, quer que eu o processe ou que o Thiago dê uma sumida nele? — meu irmão quis saber, com aquele tom de quem preferia a primeira opção.
— Nem um, nem outro. Só expulse ele da lista VIP. E avise que, da próxima vez, faremos dados com os dentes dele.
— Você, sempre tão poético — sorriu de canto de boca.
— Apenas prático. Daqui umas semanas, ele pagará cinco vezes mais para voltar a ser VIP.
Antes que ele falasse algo, um dos meus homens bateu à porta. Quando lhe dei permissão para entrar, se aproximou. Vestia-se todo de preto e trazia a expressão aliviada de quem realizou bem o serviço que lhe fora confiado.
— Don Maranzano, pegamos o suspeito. Tá na Caverna.
Assenti, fazendo um gesto para que ele se retirasse. Eu estava esperando por esse encontro, ansioso.
— Vou deixar você com seus serviços. Não quero quebrar minhas unhas — se aproximou para pegar o aparelho.
Julguei ser um bom momento para agir. Afastei-me o mesmo tanto, jogando o dispositivo sobre a mesa, que rodou sobre si mesmo. Dante, que estendia a mão, nada entendeu.
— O que foi isso? Está com medo de mim? — riu, como se meu gesto não passasse de uma piada de mau gosto.
— Medo de um viado como você? — cocei a sobrancelha direita. — Aceitar que você gosta de homem não te dá o direito de vir com essas viadagens pra cima de mim.
— Que merda é essa agora? — espantou-se, ainda descrente.
Mantive o olhar frio e firme nos olhos dele. A mágoa em suas íris castanhas me cortava por dentro. Eu sabia que minhas palavras afiadas o feriam — e esse era o objetivo. Mesmo que ambos sangrassem.
— "Não quero quebrar minhas unhas" — repeti, olhando para os calos que eu carregava nas mãos. — Te concedi o direito de dar a bunda pro Thiago, mas só vou te dizer uma vez: ser fodido por ele é uma coisa... agir como uma bonequinha de porcelana é outra.
Ele engoliu seco, só não abaixou a vista.
Meu desejo era que ele fosse embora. Queria que saísse correndo, batendo a porta, como fazia quando éramos crianças, e nosso pai nos forçava a vermos o assassinato de um rival. Então, eu lembrei.
Lembrei do nosso pai, Don Ettore, segurando Dante pelo colarinho e gritando: "Ensina teu irmão a ser homem, Lorenzo!" Lembrei de mim mesmo, com onze anos, sendo forçado a bater no meu caçula. Minha mão já tremia naquela época. Como não acatei a ordem, Don Ettore tirou o cinturão e bateu em nós dois. Lembrei da cintada que levei no rosto; do sangue escorrendo por meus olhos. Uma cena que minha cicatriz na sobrancelha nunca me deixou esquecer.
— Foi assim que você afastou a Chiara? Falando merdas só pra machucá-la? — Dante questionou, me trazendo de volta ao presente. — Olha pra mim quando eu falar com você!
Outra pessoa teria a pele arrancada por me dar ordens, porém apenas virei o rosto, buscando a garrafa de uísque na prateleira.
— Chiara não suportou a ideia de ser irmã de um parricida — expliquei, seco. — Quanto a você, só fale como uma princesinha de unhas coloridas entre quatro paredes, se empinando pro seu macho... não na minha frente.
Por que ele simplesmente não ia embora?
— Você não me engana com essas ofensas — insistiu. — Você me protegeu do nosso pai várias vezes. Você matou todos os mafiosos que descobriram. Mandou a cabeça deles como recado.
— Inocente Dante — gargalhei.
Dei dois passos: o suficiente para que ele recuasse até a porta. Precisava ameaçá-lo, até que o medo o fizesse sumir... Ele tinha a capacidade de ser um advogado respeitado noutro lugar, não um mafioso como eu.
— Minha posição me fez ver: nosso pai estava certo em muitas coisas. E uma delas é: como é vergonhoso ter alguém como você na nossa família.
Levei as mãos ao pescoço dele. — Se eu visse as coisas como vejo agora, teria deixado nosso pai te matar. Não teria matado ninguém da máfia pra te proteger. Afinal, eles não eram um maricas que teme quebrar a porra da unha!
Dei dois t***s fracos no rosto dele: não foi para machucar. Só para humilhar.
— Agora decida: ou você começa a se comportar como um homem ou prefere que eu mesmo te vista numa cinta-liga e te faça dançar num pole dance?
— Pode tentar me afastar o quanto quiser, Don. Eu não vou a lugar algum — teimou. — Estar aqui é minha herança, tanto quanto é a sua.
Não demonstrei nenhuma reação. Senti o desejo de abraçá-lo, mas não tinha esse direito. Nem o de demonstrar simpatia ou de me mostrar favorável ao relacionamento deles. Apenas abri a porta para que ele se retirasse.
Quando fiquei sozinho, servi-me de mais uísque, percebendo no gesto que minha mão tremia. Eu odiava quando isso acontecia. O ponto no ouvido chiou. Era Thiago.
— Don Maranzano, posso dar uma surra nele antes da sua chegada?
Inspirei todo o ar que pude, para que minha voz não seguisse o tremor das minhas mãos.
— Negativo. Só amarra ele. Estou descendo.
E, enquanto caminhava para a Caverna, só conseguia pensar em uma coisa: "Dante, você precisa entender que não quero que você se torne eu, muito menos nosso pai. Prefiro te matar a te ver vivendo nesse inferno."
IsadoraCinco anos que pousamos no Brasil.Quatro adultos e uma criança, apenas com a roupa do corpo e os documentos que carregávamos no momento do embarque. Para a surpresa de zero pessoas, Amélia tinha contato com mais gente poderosa no Brasil do que eu tinha amigos me esperando. Pela influência dela, o pedido de refúgio à Polícia Federal foi menos tenso do que eu julguei.Cinco anos que meus pais me receberam aos prantos, mas cujas lágrimas lavaram parte da dor que senti. Receberam Camila e Noah de braços abertos. Receberam até Amélia e Rodrigo, que ficaram conosco até ela reaver parte de sua fortuna. Ela continuou trabalhando com importações e aparecendo na casa dos meus pais sem aviso prévio. Ficou viciada na culinária do Pará.Cinco anos e Belém não é nada como Verticália.É bem mais quente e muito mais úmida, com a chuva caindo sobre nossas cabeças durante todo o dia. E de noite? De noite repete. Belém das águas. E águas curam. Inclusive as que insistiam rolar de meus olhos.Cin
ValentinaMikhail caiu sem nem bambear.Um prazer: matá-lo com a arma mais mafiosa que eu poderia conseguir — a Smith & Wesson de Don Ettore. A mesma que deve ter matado o Sr. Parkov, pai do psicopata. Olhei para a feição de Camila, pálida, aturdida, sem processar o que havia acontecido.Puxei-a.— Mila, você tá bem? Vem, vamos sair daqui!Ela caiu de joelhos no chão.— Caralho, Mila. Anda!Usei toda minha força e ela se ergueu. Parecia que tinha voltado a si. De mãos dadas fomos saindo da sacristia pelos fundos.— Ele tá mesmo morto?— Você não tem ideia do que uma calibre .45 à queima-roupa pode fazer, né? Ou ele tá com o diabo ou tá no elevador pro subsolo.Também, caso não morresse, ia explodir junto àquela igreja — pensei, mas Camila não precisa saber. Não ainda, pelo menos.Fiquei feliz de não ver freiras ou outras pessoas naquele local. Só o Bispo, corrupto que nem ele, deveria morrer. Empurrei a pesada porta de serviço dos fundos com o ombro e saímos no pátio dos fundos da igr
IsadoraNunca pensei em virar uma dose de uísque antes de entrar numa igreja. Ela desceu queimando a minha garganta, mas não foi o suficiente para me fazer engolir minha impotência junto com ela: Lorenzo ia casar-se.Falhei.Eu ainda segurava a garrafa e o copo, mas Valentina puxou-as da minha mão para deixá-los no jipe. Resmunguei algo que nem eu mesma entendi e ela me estendeu seu braço. Vestia-se como se fosse um dos padrinhos. Ri. Queria perguntar que ideia foi essa de estar num terno de três peças e gravata. Mas sua expressão estava séria demais.Ela tava com medo.— Por que grupos de cadeiras estão divididas entre canteiros? E o altar está no meio?— Ninguém quer dar as costas a ninguém, gazela.Eu tava muito bêbada para ter medo.Nos assentos, quase não se viam vestidos e saltos. Nem havia crianças correndo pelo jardim com mães gritando para não sujarem as camisas e vestidinhos na grama.Me toquei que não havia inocentes ali.Havia apenas homens de ternos e sobretudos pesados de
CAMILANaquele sábado, Mikhail jogou a tipoia fora.Fizemos um café da manhã russo. Ao menos, pude comer junto a Isadora e vi que ela se encontrava menos depressiva. Ginevra apareceu para se despedir em definitivo: a última empregada juntava seus pertences e nos deixava. Mikhail havia dito que Verticália seria dada a ele, isso incluía a mansão? Me perguntei e a resposta "não" foi entregue num gesto: ele disse a Ginevra que o procurasse, caso necessário. Caso a mansão fosse ficar com ele, ele diria "fique".Ou, eu acho que diria.Lavamos os pratos. Varremos o nosso quarto e o de Noah. Mikhail vestia a máscara do meu amigo perfeito; e seria uma máscara tão perfeita quanto, se não fosse suas retinas dilatadas. Quem não o conhecesse, diria que era o remédio que o deixava frio e distante — quem dera! O remédio fazia com que ele não performasse a normalidade para me manipular. Frieza era sua essência.Não a minha. Eu o odiava. E o temia.No período da tarde, ele não mudou sua decisão de per
ISADORAA gravata de Lorenzo apertava tanto o rosto de Jonas que escorria um tanto de sangue pelo canto da boca. Se a tal Simplesmente Chiara estivesse presente, certamente eternizaria aquela face contorcida de dor e desespero em um quadro. Um novo "O Grito".Um grito mudo. Daquela vez, não era o meu.Como Lorenzo havia deixado uma cadeira próxima, a virei — não iria me sentar com o encosto entre as pernas — e me acomodei. Cruzei minhas pernas, com as mãos se encontrando na curva do meu joelho. Tive cuidado para não pisar na poça de mijo.Noutro dia, eu vomitaria. Naquele, o odor combinava com a ambientação — concedia certa dramaticidade, junto à parca luz amarelada que incidia nas paredes mofadas.— De metido a valente a mijão. Quem diria que você só era perigoso porque me considerava frágil. Foi apenas encontrar um homem de verdade como Lorenzo para voltar a rastejar como o verme que você é!Ele se contorceu, a cadeira bambeou — talvez fosse uma cena interessante de um filme: vê-lo
LORENZO“Vem comigo”, me pediu a mulher que, dias antes, me chamou de filho da puta. Pior: a que me disse “você é igual a Jonas”. Na verdade, sou muito diferente dele — ele é um covarde, um zé-ninguém que achou que podia se meter na máfia. Eu? Eu sou o mal encarnado; o herdeiro de Don Ettore. Mas, por outro lado, sou um homem que eu não reconhecia quando me via com Isadora: não era a face de Don Ettore no espelho. Era a de astronauta que falava demais.Pedi que ela esperasse a duas celas de distância. Não queria que ele a visse antes de fazer o que precisava ser feito.Ali embaixo, o mofo havia ganhado as paredes e a sala cheirava a concreto molhado. Valentina estava encostada no fundo, com sua cara entediada, mascando um chiclete. Sua palidez entregava que ela ainda não estava bem — e que não se tratava de uma infecção sexualmente transmissível; não ao menos daquela com a qual ela jurou que eu não precisava me preocupar. Thiago aguardava as cenas por vir sentado — era visível que seu







