FAZER LOGINISADORA
Me vi sozinha na sala, ainda hipnotizada pelo cheiro que, de tão adocicado e forte, se sobrepujava ao dos óleos. Amélia havia saído com um sorriso vencedor — ou melhor: de quem se acostumou a ter todos os seus desejos realizados. Eu, por outro lado, me sentia como se tivesse perdido alguma coisa; só não tinha ideia do quê. Era como se ainda a massageasse.
Lavei-as com mais força do que o necessário. Apesar da água quente escorrer pelos dedos, não levava consigo a sensação de tê-la tocado. De luva na mão direita, higienizei a maca de novo... e de novo. Porém, o aroma doce dos óleos, misturado ao perfume da cliente, pairava no ar. E o corpo dela ainda se encontrava ali, de algum jeito: sua pele bronzeada, seus olhos fechados, sua entrega sem medo.
"Com final feliz, né?"
Esse sussurro indecente ecoava na minha cabeça. Não era a primeira vez que alguém me pedia, entretanto, foi a primeira vez que eu me senti... violada. Como se, naquela sala, não fosse eu quem estivesse no controle; como se tudo fosse além de uma mera massagem. Guardei os frascos, recolhi as toalhas, desliguei o ar-condicionado. Abri a janela para deixar o ar circular, mas nada disso ajudou. Amélia permanecia ali.
Fui até a copa da clínica, liguei a velha cafeteira e busquei pelo pó. Inspirei o vapor amargo — tinha virado um vício— , tentando me ancorar no presente. Concluí que a visita de Amélia me incomodara tanto porque ela me lembrava de quem eu fui um dia.
"Eu não era assim, frágil", refleti. "Eu era livre. Eu era... eu. Era livre antes de Jonas, do quarto trancado, da cicatriz no pulso."
A cafeteira chiou.
Ao me servir, percebi o tremor em minhas mãos — o que era considerado um crime no trabalho de massagista. Sinal claro de que teria uma crise de pânico. Pelo meu corpo, correu um daqueles arrepios de alerta — "tem algo errado", e me vi incapaz de controlar. Sentei-me e larguei a xícara na mesa, para que ela não se espatifasse no chão.
"Será que um dia vou me entregar a alguém de novo? Como ela se entregou a mim?" A imagem de Amélia — nua, relaxada, confiante — voltou com força. "Não. E nem quero isso. Não quero ser vulnerável de novo. Nunca mais."
— Amiga? — a voz de Camila me trouxe de volta.
De tão perdida em pensamentos, nem me dei conta de quando ela entrou na copa. Minha amiga se ajoelhou à minha frente, pousando as mãos nas minhas coxas.
— Tô aqui, tá? Respira comigo.
Me permiti chorar. E não foi um choro contido, de quem está triste. Foi um choro de quem se entregou ao pânico de vez: com direito a soluços, gritos abafados, fungadas e a garganta arranhando. Ela não disse nada, apenas permaneceu ali, até que murmurei:
— Quase joguei a cafeteira no chão — ri, naquele estado entre lágrimas e humor bobo.
— Ouchi! Se fizer isso, vamos ter que coar café em meia furada!
Se ergueu e abriu os braços e, num primeiro momento, recebeu minha hesitação. No entanto, decidi que me entregaria, sim, ao seu abraço. Encostei a cabeça no ombro dela e fechei os olhos.
— Eu sinto saudades de mim mesma — confessei. — Ou melhor, de quem eu achava que era.
Mais uma vez, nada comentou.
— Lembra de quando a gente montou o projeto do spa? Toque, cura, prazer, liberdade... E agora eu tô aqui, fazendo massagem com final feliz só pra pagar as contas. Eu traí a mulher que eu era!
— Você não traiu nada, Isa. Você sobreviveu!
— Mas eu não quero apenas sobreviver...
Camila se afastou, serviu o resto de café em outra xícara. Depois, jogou a cafeteira no chão, para meu espanto.
— Então, vamos começar a viver hoje — decidiu, sentando e me estendendo a caneca. — Começaremos com uma cafeteira nova. Esse café está horrível!
Me pus a rir de maneira espontânea. Sim, aquela era eu: de riso fácil. Livre para sorrir.
— Obrigada... por tudo.
Bebemos em silêncio, e nem foi desconfortável. Era uma cena que gritava: "amiga, você não está sozinha". Só então catamos os cacos pelo chão.
Mais tarde, em casa, tomei um banho demorado. A água quente ajudava a soltar os músculos, mesmo assim, os pensamentos continuavam presos a Amélia. Enxuguei bem os fios do cabelo, vesti um pijama de tecido mais espesso e me joguei na cama com o notebook no colo. "Quem é essa mulher, afinal?"
Abri o navegador e digitei: "Amélia Verticália empresária" — e não encontrei nada significativo. Tentei "Amélia" e sua descrição física. Novamente, nada demais. Então, por impulso, digitei: "Amélia Verticália socialite". E eis que a encontro: Amélia Calderón, vestida num maiô exuberante, ao lado de uma piscina tão azul quanto o céu de verão.
O site dizia que era uma importante influenciadora digital de lifestyle, com quase um milhão de seguidores. Dona de uma linha de cosméticos e sempre postando suas opiniões ácidas sobre moda e celebridades. Casada com Alberto Calderón, empresário do setor de importação e exportação.
E, segundo uma matéria antiga, ele fora indiciado por tráfico de armas — nunca condenado por falta de provas. Senti meu estômago revirar. Calderón — eu já ouvira esse nome. E não foi na TV ou em sites da cidade, como se eu fosse apenas uma cidadã vendo as últimas notícias.
Ouvi aquele nome na boca de Jonas.
"Os Calderón são os reis do porto. Se conseguirmos ser úteis pra eles, conseguiremos armas num preço bem mais em conta.", Jonas comentou certa vez para um amigo, achando que eu não ouvia.
Abri o perfil de Amélia numa rede social: fotos em jantares de gala, viagens internacionais, campanhas publicitárias. E, entre uma selfie e outra, uma legenda que fez gelar meu sangue: "A beleza é uma arma. E, olha só, eu nasci pronta para atirar!" Fechei o notebook com a mesma força com que meu coração batia — rápido, descompassado, fazendo meus tímpanos tremerem. Aquela mulher... ela não era só uma cliente.
Me levantei da cama, fui até a janela, tentando respirar um pouco. No entanto, do outro lado da rua, um carro preto estacionado. Com vidros escuros, permanecia de motor e faróis ligados.
— Ou estou sendo paranoica... ou estou sendo vigiada. — Fechei as cortinas, como se fosse o suficiente para me proteger. — Se Jonas a enviou — sussurrei para mim mesma, — é porque ainda não estou livre de seu amor doentio.
IsadoraCinco anos que pousamos no Brasil.Quatro adultos e uma criança, apenas com a roupa do corpo e os documentos que carregávamos no momento do embarque. Para a surpresa de zero pessoas, Amélia tinha contato com mais gente poderosa no Brasil do que eu tinha amigos me esperando. Pela influência dela, o pedido de refúgio à Polícia Federal foi menos tenso do que eu julguei.Cinco anos que meus pais me receberam aos prantos, mas cujas lágrimas lavaram parte da dor que senti. Receberam Camila e Noah de braços abertos. Receberam até Amélia e Rodrigo, que ficaram conosco até ela reaver parte de sua fortuna. Ela continuou trabalhando com importações e aparecendo na casa dos meus pais sem aviso prévio. Ficou viciada na culinária do Pará.Cinco anos e Belém não é nada como Verticália.É bem mais quente e muito mais úmida, com a chuva caindo sobre nossas cabeças durante todo o dia. E de noite? De noite repete. Belém das águas. E águas curam. Inclusive as que insistiam rolar de meus olhos.Cin
ValentinaMikhail caiu sem nem bambear.Um prazer: matá-lo com a arma mais mafiosa que eu poderia conseguir — a Smith & Wesson de Don Ettore. A mesma que deve ter matado o Sr. Parkov, pai do psicopata. Olhei para a feição de Camila, pálida, aturdida, sem processar o que havia acontecido.Puxei-a.— Mila, você tá bem? Vem, vamos sair daqui!Ela caiu de joelhos no chão.— Caralho, Mila. Anda!Usei toda minha força e ela se ergueu. Parecia que tinha voltado a si. De mãos dadas fomos saindo da sacristia pelos fundos.— Ele tá mesmo morto?— Você não tem ideia do que uma calibre .45 à queima-roupa pode fazer, né? Ou ele tá com o diabo ou tá no elevador pro subsolo.Também, caso não morresse, ia explodir junto àquela igreja — pensei, mas Camila não precisa saber. Não ainda, pelo menos.Fiquei feliz de não ver freiras ou outras pessoas naquele local. Só o Bispo, corrupto que nem ele, deveria morrer. Empurrei a pesada porta de serviço dos fundos com o ombro e saímos no pátio dos fundos da igr
IsadoraNunca pensei em virar uma dose de uísque antes de entrar numa igreja. Ela desceu queimando a minha garganta, mas não foi o suficiente para me fazer engolir minha impotência junto com ela: Lorenzo ia casar-se.Falhei.Eu ainda segurava a garrafa e o copo, mas Valentina puxou-as da minha mão para deixá-los no jipe. Resmunguei algo que nem eu mesma entendi e ela me estendeu seu braço. Vestia-se como se fosse um dos padrinhos. Ri. Queria perguntar que ideia foi essa de estar num terno de três peças e gravata. Mas sua expressão estava séria demais.Ela tava com medo.— Por que grupos de cadeiras estão divididas entre canteiros? E o altar está no meio?— Ninguém quer dar as costas a ninguém, gazela.Eu tava muito bêbada para ter medo.Nos assentos, quase não se viam vestidos e saltos. Nem havia crianças correndo pelo jardim com mães gritando para não sujarem as camisas e vestidinhos na grama.Me toquei que não havia inocentes ali.Havia apenas homens de ternos e sobretudos pesados de
CAMILANaquele sábado, Mikhail jogou a tipoia fora.Fizemos um café da manhã russo. Ao menos, pude comer junto a Isadora e vi que ela se encontrava menos depressiva. Ginevra apareceu para se despedir em definitivo: a última empregada juntava seus pertences e nos deixava. Mikhail havia dito que Verticália seria dada a ele, isso incluía a mansão? Me perguntei e a resposta "não" foi entregue num gesto: ele disse a Ginevra que o procurasse, caso necessário. Caso a mansão fosse ficar com ele, ele diria "fique".Ou, eu acho que diria.Lavamos os pratos. Varremos o nosso quarto e o de Noah. Mikhail vestia a máscara do meu amigo perfeito; e seria uma máscara tão perfeita quanto, se não fosse suas retinas dilatadas. Quem não o conhecesse, diria que era o remédio que o deixava frio e distante — quem dera! O remédio fazia com que ele não performasse a normalidade para me manipular. Frieza era sua essência.Não a minha. Eu o odiava. E o temia.No período da tarde, ele não mudou sua decisão de per
ISADORAA gravata de Lorenzo apertava tanto o rosto de Jonas que escorria um tanto de sangue pelo canto da boca. Se a tal Simplesmente Chiara estivesse presente, certamente eternizaria aquela face contorcida de dor e desespero em um quadro. Um novo "O Grito".Um grito mudo. Daquela vez, não era o meu.Como Lorenzo havia deixado uma cadeira próxima, a virei — não iria me sentar com o encosto entre as pernas — e me acomodei. Cruzei minhas pernas, com as mãos se encontrando na curva do meu joelho. Tive cuidado para não pisar na poça de mijo.Noutro dia, eu vomitaria. Naquele, o odor combinava com a ambientação — concedia certa dramaticidade, junto à parca luz amarelada que incidia nas paredes mofadas.— De metido a valente a mijão. Quem diria que você só era perigoso porque me considerava frágil. Foi apenas encontrar um homem de verdade como Lorenzo para voltar a rastejar como o verme que você é!Ele se contorceu, a cadeira bambeou — talvez fosse uma cena interessante de um filme: vê-lo
LORENZO“Vem comigo”, me pediu a mulher que, dias antes, me chamou de filho da puta. Pior: a que me disse “você é igual a Jonas”. Na verdade, sou muito diferente dele — ele é um covarde, um zé-ninguém que achou que podia se meter na máfia. Eu? Eu sou o mal encarnado; o herdeiro de Don Ettore. Mas, por outro lado, sou um homem que eu não reconhecia quando me via com Isadora: não era a face de Don Ettore no espelho. Era a de astronauta que falava demais.Pedi que ela esperasse a duas celas de distância. Não queria que ele a visse antes de fazer o que precisava ser feito.Ali embaixo, o mofo havia ganhado as paredes e a sala cheirava a concreto molhado. Valentina estava encostada no fundo, com sua cara entediada, mascando um chiclete. Sua palidez entregava que ela ainda não estava bem — e que não se tratava de uma infecção sexualmente transmissível; não ao menos daquela com a qual ela jurou que eu não precisava me preocupar. Thiago aguardava as cenas por vir sentado — era visível que seu







