LOGINMal Don DeLuca saiu do escritório, o meu marido riu-se.
Um riso aberto demais para aquele espaço fechado, como se a presença dele tivesse sido apenas um detalhe burocrático — e não a sentença que acabara de cair sobre a minha vida. O riso ecoou pelas paredes como algo deslocado, quase obsceno naquele contexto, e tive a sensação estranha de que ele não estava apenas a celebrar o fim do nosso casamento, mas a libertar-se de um peso antigo que nunca tivera coragem de nomear em voz alta. O silêncio calculado de Don DeLuca ainda parecia suspenso no ar quando Ricardo se levantou sem me olhar e foi até ao bar encostado à parede. Serviu-se de uma bebida com a tranquilidade de quem tinha acabado de resolver um problema antigo. Aquela tranquilidade não era nova. Eu conhecia-a bem. Era a mesma que surgia sempre que ele tomava decisões sem me consultar, sempre que algo saía exatamente como ele queria. — Ivy… você nem imagina o quanto fiquei contente. Fiquei sentada, imóvel, sentindo o peso daquelas palavras se acomodar dentro de mim antes mesmo de conseguir reagir. Conhecia aquele tom. E sabia que nada de bom vinha depois dele. Era o tom que antecedia comparações, cobranças, pequenas crueldades disfarçadas de sinceridade. — Contente? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que pretendia. Ele bebeu um gole longo, apoiando-se no balcão como se o assunto não exigisse mais do que isso. — Achei que isso nunca mais ia acontecer. Mas aconteceu. Finalmente. O escritório pareceu encolher. As paredes aproximaram-se num silêncio espesso, sufocante, como se não houvesse para onde fugir. Senti o mesmo aperto que tantas vezes me acompanhara naquele espaço, a sensação constante de estar encurralada, avaliada, reduzida a algo que precisava sempre de justificar a própria existência. — Ricardo… — comecei, tentando organizar os pensamentos. — O que foi que aconteceu, exatamente? Ele virou-se então para mim, recostado ao bar, relaxado demais para alguém que tinha acabado de pedir a anulação de um casamento de cinco anos. — Nosso erro foi corrigido. Erro. Foi assim que resumiu tudo. A palavra caiu entre nós como algo definitivo, apagando qualquer resquício de história, de convivência, de tempo partilhado. Não tinha sido um casamento por amor, eu sempre soube disso. No nosso mundo, amor raramente entra na equação. Tinha sido um acordo. Uma escolha funcional. Uma escolha feita entre homens, discutida em salas como aquela, longe de mim, longe da minha vontade. E eu aceitei porque não havia muitas alternativas para alguém que perdera os pais cedo demais e crescera sob o olhar cansado de tios que nunca esconderam o alívio quando deixei de ser responsabilidade deles. Quando Ricardo me escolheu, todos sorriram. Como se tivesse sido uma solução prática, conveniente, algo a celebrar. E eu acreditei — de forma quase vergonhosa — que talvez pudesse aprender a ser amada. Acreditei porque queria acreditar. Porque precisava que aquilo significasse mais do que sobrevivência. — E agora? — perguntei, sentindo a garganta apertar. — O que vai ser feito de mim? Ele soltou um suspiro curto, impaciente, e caminhou até à secretária. Abriu uma gaveta e retirou alguns documentos. — Vai ficar com roupas, algumas joias, certos bens. Nada fora do razoável. Falava como se estivesse a listar objetos sem importância. Como se estivesse a esvaziar uma gaveta. Talvez fosse exatamente isso que eu representava naquele momento. — O nosso casamento foi anulado — disse, ainda tentando acompanhar a lógica fria daquilo. — Como se… nunca tivesse existido? Ricardo ergueu uma sobrancelha, claramente cansado da conversa. — Ivy, você sabia desde o início que isso podia acontecer. Sempre. A palavra ecoou. Sempre fora usada como arma. Sempre fora a resposta para qualquer tentativa minha de questionar, de pedir, de esperar algo diferente. Vieram-me à memória as perguntas mensais, o olhar atento demais ao meu corpo, a contagem silenciosa dos dias. Como se eu fosse um relógio defeituoso que insistia em falhar. Cada atraso, cada silêncio, cada mês sem resposta transformava-se numa acusação velada. Vieram também as comparações, sempre ditas com um sorriso que não chegava aos olhos. — As mulheres das boates não são frias como você — dizia. — Pelo menos sabem servir para alguma coisa. Você nem para transar serve. Ele nunca gritava quando dizia isso. Nunca precisava. A crueldade vinha exatamente da naturalidade com que as palavras eram lançadas. — Eu tentei — murmurei, mais para mim do que para ele. Ricardo deu de ombros, indiferente. — Tentativa não gera herdeiro. A frase caiu pesada, definitiva. Como uma sentença técnica, sem espaço para debate ou emoção. Senti algo dentro de mim se partir com uma clareza que doeu mais do que qualquer grito teria doído. — Então é isso? — perguntei. — Cinco anos… e acabou assim? Ele terminou a bebida e pousou o copo sobre o balcão com cuidado excessivo. — Acabou quando ficou claro que você não servia para o que era necessário. Servia. A palavra ficou. Porque nunca se tratara de amor. Nunca de parceria. Apenas de utilidade. Foi ali que compreendi, com uma lucidez quase cruel, que nunca tinha sido esposa. Nem companheira. Nem sequer alguém a ser preservada. Eu tinha sido uma função. E agora, uma função descartada. Levantei-me devagar. Alisei o tecido do vestido por reflexo, um gesto aprendido para momentos em que não se pode demonstrar fraqueza. Um gesto que eu repetira inúmeras vezes diante dele, como se a postura pudesse compensar tudo o que me faltava aos olhos dele. A mão procurou a aliança. Ainda estava lá. Pesada. Inútil. Um símbolo que perdera o significado no exato momento em que deixara de cumprir o propósito que lhe tinham atribuído. Olhei para a porta por onde Don DeLuca tinha saído. Algo dentro do meu peito mudou de forma, ajustando-se a uma realidade ainda mais perigosa do que a solidão. Porque perder o casamento talvez não fosse o pior destino. O pior tinha sido chamar a atenção de um homem que não descartava o que considerava útil.O trânsito avançava devagar, mas eu mal prestava atenção ao que acontecia do outro lado da janela.Desde que saíra da suíte de Salvatore, não tinha trocado uma palavra com Matteo. Ele também não insistira. Depois de entrar no carro ao meu lado, atendera uma ligação curta e guardara o celular, deixando-me entregue aos meus pensamentos.Eu tinha ido ao hotel para conhecer meu avô. Saía de lá com um convite para atravessar o oceano e uma dúvida que não conseguia afastar.Não aceite uma versão dos acontecimentos apenas porque foi a única que lhe contaram.Por que Salvatore havia olhado para Matteo ao dizer aquilo?— Ivy.A voz de Matteo interrompeu meus pensamentos, mas não desviei os olhos da janela.— Hm?— Está tudo bem?— Está.Ele demorou um instante antes de voltar a falar.— Tem certeza? Está se sentindo bem?Virei o rosto para ele.— Porra, Matteo. Agora tudo é sobre o bebê?— O quê?— Você ouviu.Matteo me observou por um momento, como se estivesse tentando entender de onde vinha
Matteo se levantou tão depressa que mal tive tempo de perceber o que estava acontecendo. Em dois passos, atravessou o espaço entre as poltronas, agarrou Salvatore pelas lapelas do paletó e o arrancou do assento. — Você mandou alguém entrar no quarto da minha mulher? — Matteo! — Levantei-me imediatamente. Ele nem sequer olhou para mim. Mantinha Salvatore preso pelo paletó, com o rosto tão próximo do dele que, por um instante, tive medo de que fosse acertá-lo ali mesmo. — Sabe o que eu faço com homens que chegam perto dela sem minha autorização? Salvatore segurou os pulsos de Matteo, tentando afastá-los. Não conseguiu. — Tire as mãos de mim, DeLuca. — Matteo, solte ele! Aproximei-me e segurei seu braço, sentindo os músculos rígidos sob meus dedos. Ele não cedeu nem um centímetro. — Matteo, por favor. — Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. — Olha para mim. Só então ele virou a cabeça. Seus olhos ainda estavam carregados de uma raiva que me fez apertar o braço dele com
Salvatore Valenti se levantou quando entramos na suíte.Desde que descobrira sua existência, eu havia imaginado aquele encontro tantas vezes que esperava sentir alguma coisa ao vê-lo. Raiva, talvez, ou a emoção que as pessoas costumavam descrever quando encontravam um parente perdido.Mas, diante dele, não senti nenhuma das duas.Vi apenas um homem muito velho, de cabelos brancos e terno cinza impecável, que precisou se apoiar brevemente no braço da poltrona antes de vir em nossa direção. Seus olhos, de um verde acinzentado, permaneceram fixos em mim durante todo o percurso.— Ivy.O sotaque italiano era mais acentuado do que eu esperava.— Senhor Valenti.Ele desviou a atenção para Matteo.— DeLuca.— Valenti.A mão de Matteo continuava pousada na minha cintura. Enquanto Salvatore se aproximava, percebi Matteo examinar discretamente a suíte, os olhos passando pelas portas, pelas janelas e pelo corredor que levava aos outros cômodos. Eu já conhecia aquele hábito.Os dois apertaram as
Dois dias depois, eu estava deitada na cama com um livro aberto sobre as pernas quando Matteo entrou no quarto.Ouvi a porta fechar e continuei lendo, embora já tivesse reconhecido os passos dele no corredor.Matteo tirou o paletó, deixou-o sobre a poltrona e começou a desfazer a gravata.Li a mesma frase outra vez e, quando percebi, uma terceira.Quando o colchão afundou ao meu lado, ainda mantive os olhos na página.— Está bom?— Hum?— O livro.Olhei para ele.— Estava.A boca dele se curvou.— Estava?— Até você sentar aí e me fazer ler a mesma frase três vezes.— Eu nem fiz nada.— Ainda.Voltei os olhos para a página, já sorrindo.Matteo conseguiu ficar em silêncio por menos de cinco segundos.A mão dele pousou sobre meu joelho por cima do lençol e subiu devagar pela minha coxa.Baixei o livro.— Isso conta como fazer alguma coisa.— Não falei nada.— Realmente. Muito discreto.Ele sorriu.Antes que eu pudesse voltar ao livro, Matteo o tirou das minhas mãos e deixou na mesa de c
Alguns dias depois, a médica confirmou na consulta que estava tudo bem. Os exames não mostravam nada que a preocupasse, ela ajustou as vitaminas que eu já tomava e disse que, por enquanto, a gravidez continuava evoluindo como deveria.Antes de sairmos, ouvimos o coração outra vez.O som rápido encheu a sala por alguns segundos, pequeno e insistente, enquanto eu permanecia deitada com a roupa afastada do ventre. Virei o rosto para Matteo. Ele estava ao meu lado, uma das mãos apoiada na lateral da maca, os olhos presos à tela.Ele não disse nada e só desviou o olhar quando a médica desligou o aparelho.Naquela tarde, eu já tinha voltado ao mesmo parágrafo vezes suficientes para começar a odiá-lo quando a voz de Matteo surgiu atrás de mim.— Você está brigando com ele de novo?Levantei os olhos.Ele estava parado junto à porta do quarto, com as mangas da camisa preta dobradas até os antebraços e sem o paletó. Numa das mãos, trazia uma pequena sacola de papel, daquelas de presente. O olha
Nos três dias seguintes, fiz quase tudo o que costumava fazer. Levantei, tomei banho, desci para o café da manhã, respondi quando Elena falava comigo e passei algumas horas com o caderno aberto.Quase não vi Matteo.Depois do que Ricardo tinha revelado e da confirmação de que a informação vinha de dentro, eu sabia que tudo devia estar em rebuliço, mesmo que a casa continuasse funcionando com a mesma calma eficiente de sempre. Na maioria das manhãs, quando acordava, Matteo já não estava. Restavam o cheiro dele nos lençóis e a marca ainda funda no travesseiro ao lado.Para quem me visse pela casa, eu provavelmente só parecia mais cansada. Ricardo continuava aparecendo nos lugares mais idiotas, e já não era apenas o tiro que voltava.Enquanto prendia o cabelo diante do espelho, lembrei de uma consulta em que tinha passado quase uma hora respondendo a perguntas enquanto ele mexia no telefone ao meu lado. Não lembrava do que o médico tinha dito naquele dia. Lembrava da luz da tela no rosto







