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Contrato com o Don
Contrato com o Don
Author: Valeria Andrade

Capítulo 1

last update publish date: 2026-01-13 16:47:17

A primeira coisa que notei quando cheguei do almoço com as outras mulheres foi que o carro do meu marido estava em casa.

Geralmente, àquela hora, ele estava em uma das boates das quais tomava conta. Sempre. Sem exceção. O carro estacionado ali, imóvel demais, foi um detalhe pequeno, mas suficiente para apertar algo dentro do meu peito.

Havia regras silenciosas naquela casa, e aquela era uma delas: ele nunca estava ali àquela hora. O horário dele era fixo, rígido, quase militar. Quando algo fugia a esse padrão, nunca era por acaso. Nunca era bom.

Alguma coisa estava errada.

Atravessei a casa em silêncio, sentindo o som dos meus próprios passos ecoar mais do que o normal.

A casa sempre me parecera grande demais quando ele não estava, vazia de um jeito confortável, quase respirável. Naquele dia, porém, o ar estava pesado, como se cada divisão guardasse uma expectativa tensa. Até os móveis pareciam fora do lugar, testemunhas mudas de algo que eu ainda não sabia nomear.

Quando cheguei ao escritório, a porta estava aberta.

Ele estava lá.

E Don DeLuca também.

Meu coração acelerou no instante em que o vi. Sempre acontecia.

Não era medo. Também não era respeito. Era uma reação instintiva, visceral, como se o meu corpo reconhecesse nele um tipo de autoridade diferente da do meu marido. Uma autoridade que não precisava ser exercida para ser sentida.

Eu nunca soube dizer se era por causa do aspecto físico — alto, musculoso, sempre vestido com ternos de três peças impecáveis, as mãos e o pescoço cobertos por tatuagens que ele não se dava ao trabalho de esconder — ou pela forma como ele olhava para mim.

Como se visse mais do que devia.

Como se avaliasse algo que não estava à venda.

Aquele olhar não tinha pressa, nem curiosidade comum. Era atento demais, pesado demais. Um olhar que não pedia explicações, apenas registava.

Don DeLuca não sorriu.

Não se levantou.

Apenas ergueu os olhos quando entrei.

— Boa tarde — murmurei, envergonhada sem saber exatamente por quê.

Meu marido não respondeu ao cumprimento. Limitou-se a apontar para a cadeira à minha frente.

— Senta.

A palavra não veio acompanhada de um tom agressivo, mas não precisava. Cinco anos tinham sido suficientes para eu aprender que naquele escritório não havia espaço para perguntas nem para hesitação.

Obedeci.

O couro da cadeira rangeu sob o meu peso.

Cruzei as mãos no colo para impedir que tremessem.

Aquela cadeira sempre me parecera desconfortável, rígida demais, como se tivesse sido escolhida exatamente para lembrar quem estava ali apenas para ouvir. Nunca me sentei ali para algo bom.

Don DeLuca permanecia em silêncio, recostado na cadeira, um dos anéis grossos batendo de leve na madeira da mesa, num ritmo lento demais para ser casual.

O som repetitivo marcava o tempo da conversa antes mesmo de ela começar, como um aviso silencioso de que tudo já estava decidido.

Meu marido pigarreou.

— Eu pedi ao Don que viesse aqui hoje para tratar de um assunto importante.

O tom era administrativo. Frio. Como se estivesse prestes a discutir números, não a minha vida.

Era sempre assim quando ele queria distância emocional. A voz tornava-se neutra, técnica, como se eu fosse parte de um inventário que precisava ser reorganizado.

— Pedi a anulação do nosso casamento.

As palavras demoraram um segundo a fazer sentido.

Depois afundaram.

— Como é que é? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu esperava.

Não porque eu não tivesse ouvido, mas porque a ideia parecia absurda demais para existir. Cinco anos não se anulam com uma frase. Pessoas não se apagam assim.

Ele deslizou uma pasta sobre a mesa, empurrando-a na minha direção com a ponta dos dedos.

O som seco do couro contra a madeira pareceu alto demais.

— Cinco anos — disse. — Cinco anos de casamento e você não foi capaz de me dar um herdeiro.

Ali estava ele. O argumento que atravessara todos os nossos anos juntos como uma sombra constante. Cada mês sem resposta, cada silêncio prolongado, cada olhar avaliador dirigido ao meu corpo como se eu fosse uma máquina defeituosa.

Abri a pasta com mãos rígidas.

Laudos médicos.

Assinaturas.

Carimbos.

Palavras técnicas que reduziam o meu corpo a um diagnóstico.

Infertilidade.

O papel tremia ligeiramente entre os meus dedos, não de surpresa, mas de exposição. Aquilo que sempre fora dito em privado agora estava ali, oficial, validado, transformado em prova.

— Há relatórios suficientes aqui para comprovar que o problema não é meu — continuou ele, sem me olhar. — O Don precisava ver isso para autorizar a anulação.

Autorizar.

Foi nesse momento que entendi.

Meu marido falava, mas quem decidia era Don DeLuca.

Levantei os olhos devagar.

Ele me observava com atenção absoluta.

Não havia piedade ali.

Nem surpresa.

Apenas interesse.

Um interesse silencioso, calculado, que me fez prender a respiração.

Como se aquele momento não fosse apenas o fim de algo, mas o início de outra coisa que eu ainda não conseguia compreender.

— Você está a pedir para me descartar — consegui dizer, sentindo os dedos se fecharem com força ao redor da borda da pasta.

Meu marido deu de ombros.

— Estou a pedir para corrigir um erro.

A palavra erro doeu mais do que qualquer insulto. Porque não vinha carregada de raiva, apenas de indiferença.

O anel de Don DeLuca bateu mais uma vez na mesa.

Então ele se inclinou para a frente.

Não falou alto.

Não precisou.

— Cinco anos é tempo suficiente — disse, a voz grave, controlada. — Um homem precisa de continuidade.

Olhou diretamente para mim.

— E você falhou em dar isso.

As palavras não vieram como insulto.

Vieram como sentença.

Senti o rosto queimar.

Não chorei.

Não implorei.

Porque naquele mundo, lágrimas não mudavam decisões. Apenas confirmavam fraquezas.

Apenas permaneci ali, sentada, sentindo algo dentro de mim se quebrar com uma clareza quase cirúrgica.

Don DeLuca levantou-se.

O movimento foi lento, deliberado.

A presença dele ocupou o espaço inteiro do escritório quando deu a volta na mesa.

Parou perto demais.

Próximo o suficiente para que eu sentisse o perfume caro, escuro, contrastando com o ar fechado do ambiente.

— O casamento pode ser anulado — disse, por fim.

Meu marido soltou o ar que parecia prender desde o início da conversa.

Mas Don DeLuca não tinha terminado.

— Mas nem todas as dívidas acabam com um papel assinado.

O olhar dele desceu até mim por um breve segundo.

Depois voltou ao meu marido.

— Vamos conversar sobre o que vem a seguir.

Quando ele saiu do escritório, o silêncio que ficou foi diferente.

Mais pesado.

Mais definitivo.

Eu continuei sentada, a pasta ainda aberta sobre o colo, os relatórios médicos expostos como uma prova pública da minha falha.

O meu marido já não me olhava. Para ele, eu já tinha deixado de existir naquele momento.

Mas algo tinha mudado.

Porque, pela primeira vez, eu tive a estranha certeza de que deixar de ser esposa talvez não fosse o pior destino possível.

Talvez fosse apenas o início de algo muito mais perigoso.

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