INICIAR SESIÓNO ambiente ao redor pareceu congelar.
Algumas pessoas trocaram olhares, outras simplesmente ficaram em silêncio.
Até que um funcionário se aproximou, visivelmente nervoso.
— Senhor, posso ajudar?
Ele lançou um olhar rápido ao redor, claramente impaciente.
— Quero falar com a direção. Agora.
Não era um pedido, era uma ordem e até eu, que não tinha absolutamente nada a ver com aquilo, senti um arrepio percorrer minha espinha.
Aquilo não era bom.
Não era bom mesmo.
Afastei-me rapidamente antes que pudesse ouvir mais alguma coisa.
Não queria ser vista.
Não por ele.
Não agora.
Talvez… nunca.
Apressei o passo em direção ao trabalho. Se eu chegasse atrasada, o desconto viria, e eu não podia me dar ao luxo de perder nem um centavo,mas, mesmo caminhando, tentando focar na rotina, na pressa, na realidade a imagem dele continuava voltando.
O rosto, a voz, a presença.
Eu não sabia seu nome, não sabia o que ele fazia da vida, mas, pela postura era evidente que não era qualquer pessoa.
Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos e quase como uma prece silenciosa, torci para que aquele homem nunca cruzasse o caminho do meu filho.
O cheiro doce de perfume floral misturado com hidratantes e maquiagem fazia parte da minha rotina há tanto tempo que, às vezes, eu nem percebia mais. Era como se aquele aroma fosse parte de mim, impregnado na minha pele, nas minhas roupas, nos meus dias.
Depois de cinco anos trabalhando naquela loja de cosméticos, eu conseguia identificar praticamente qualquer fragrância sem nem precisar olhar o rótulo. Baunilha, jasmim, frutas vermelhas, notas amadeiradas… tudo ali era familiar. Confortável. Previsível.
Diferente da minha cabeça naquele dia.
— Anny?
Pisquei algumas vezes, como se estivesse voltando de muito longe.
— Hm?
Juliana estava parada bem na minha frente, com as mãos apoiadas no balcão e uma expressão que misturava curiosidade com desconfiança.
— Eu perguntei se você pode repor os batons da prateleira da frente… — ela fez uma pausa, inclinando levemente a cabeça — ou você pretende continuar encarando o nada pelo resto do dia?
Soltei um pequeno suspiro, tentando disfarçar.
— Claro, já vou.
Peguei a caixa ao meu lado, mas, antes que eu desse o primeiro passo, ela cruzou os braços.
— Tá… o que está acontecendo?
Revirei os olhos, fingindo naturalidade.
— Nada.
— Nada? — ela arqueou uma sobrancelha. — Anny, você está completamente “voando” desde que chegou.
Dei uma risadinha fraca.
— Impressão sua.
— Não é, não — retrucou na mesma hora. — Você errou o troco de uma cliente.
— Eu corrigi.
— Depois que eu avisei.
Suspirei.
Juliana não era o tipo de pessoa que deixava passar. Continuei andando até a prateleira, começando a organizar os batons por cor, como fazia todos os dias, tentando parecer ocupada o suficiente para encerrar aquele assunto.
— É só cansaço — murmurei.
— Anny.
O tom dela mudou, ficando mais sério e atento.
— Você não é assim.
Minha mão parou por um segundo no ar, segurando um batom vermelho aberto. Ela tinha razão. Eu não era.
Eu nunca me distraía daquele jeito. Nunca errava no trabalho. Nunca deixava minha cabeça viajar enquanto atendia alguém.
Porque eu não podia. Porque eu precisava ser responsável.
Por mim… e pelo Enzo.
— Estou bem — respondi, virando-me para ela com um sorriso que nem eu mesma acreditei. — Só dormi mal.
Juliana estreitou os olhos.
— Mentira.
Soltei um riso nasal.
— Nossa, que confiança em mim.
— Cinco anos trabalhando juntas — ela deu de ombros. — Eu sei quando você está escondendo alguma coisa.
Por um instante, eu quase contei. Quase falei sobre o que tinha acontecido naquela manhã.
Sobre o carro.
Sobre os seguranças.
Sobre ele.
Mas, só de pensar nisso, um frio percorreu meu corpo inteiro.
Aquilo era complicado demais. Grande demais.
— Não é nada importante, Ju — falei, voltando a organizar os produtos. — Sério.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. E aquele silêncio dizia tudo. Ela não acreditava.
Mas, para minha sorte, o som da porta da loja se abrindo nos interrompeu.
— Boa tarde — falei automaticamente, já colocando meu sorriso profissional no rosto.
Uma mulher entrou olhando tudo ao redor, claramente interessada.
— Vocês têm aquele hidratante novo de coco?
— Temos sim — respondi, indo até a prateleira. — Vou te mostrar.
Enquanto eu explicava sobre o produto, falando das fragrâncias, da textura e dos benefícios, minha mente tentou se concentrar no que eu estava dizendo.
Era automático. Palavras decoradas. Gestos repetidos.
Uma rotina que eu dominava.
E, por alguns minutos… funcionou.
Até que a cliente comentou, de forma completamente casual:
— Meu marido odeia cheiro doce.
Foi o suficiente.
Minha mente travou.
“Meu marido.”
Duas palavras simples, mas que abriram uma porta que eu tentava manter fechada há anos.
Eu nunca tive isso. Nunca tive a chance de ter, porque tudo aconteceu rápido demais.
Uma noite.
Um erro… não exatamente um erro.
Uma escolha impulsiva que resultou no meu maior presente.
— Menina?
Piscar. Respirar. Voltar.
— Desculpa — falei, forçando um sorriso. — Me distraí um pouco.
— Sem problema — ela respondeu, tranquila. — Vou levar esse aqui.
Finalizei a venda, agradeci e, assim que ela saiu, apoiei as mãos no balcão por alguns segundos.
Respira, Anny. Só respira.
— Tá vendo? — Juliana apareceu do meu lado novamente. — Você nunca se distrai assim.
Fechei os olhos rapidamente antes de encará-la.
— É só um dia incomum.
— Não — ela insistiu. — É alguma coisa.
Cruzei os braços, tentando me proteger.
— Por que você está tão interessada?
— Porque você é minha amiga.
Aquilo me pegou desprevenida. Juliana podia ser insistente, mas era sincera. E eu sabia que ela estava preocupada de verdade.
Suspirei, passando a mão pelo cabelo.
— Eu… só tive uma manhã meio estranha.
Ela se aproximou um pouco mais.
— Estranha como?
Pensei rápido.
— Vi alguém.
— Alguém?
— Do passado.
Os olhos dela se arregalaram um pouco.
— Ex?
Soltei um riso sem graça.
— Não exatamente.
— Então o quê?
Balancei a cabeça.
— Não importa.
— Anny!
— Sério — interrompi, um pouco mais firme do que queria. — Não é nada que vá mudar alguma coisa.
Mas, no fundo, eu sabia que podia mudar tudo.
Juliana me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se insistia ou não. Por fim, suspirou.
— Tá bom… mas eu vou fingir que acredito.
Sorri de leve.
— Obrigada.
— De nada — respondeu, com um meio sorriso. — Mas, se isso virar fofoca boa, eu quero saber de tudo.
— Pode deixar.
Mas, por dentro, eu torcia para que aquilo nunca virasse nada, o resto do dia passou em um ritmo estranho. Normal por fora. Caótico por dentro.
Clientes entrando e saindo. Produtos sendo organizados. Promoções sendo explicadas. Notas fiscais sendo emitidas. Tudo como sempre.
Fechamos a loja e começamos a fazer o inventário, uma das tarefas mais chatas não só porque saíamos muito tarde, mas também porque não ganhávamos nada a mais por isso.
Quando finalmente terminamos, já passava das onze horas da noite. Fui a primeira a começar a guardar minhas coisas.
— Hoje você saiu voando mesmo — comentou Juliana.
— Mas fiz o que precisava fazer. Inclusive te ajudei a corrigir um erro na conferência dos produtos — respondi, ajeitando minha bolsa.
Ela fez uma careta.
— Você seria uma ótima gerente geral. É uma pena que aquela vadia da Priscila ficou com a vaga porque dormiu com o Alexsandro.
Revirei os olhos.
Alexsandro era o dono da loja. Um homem de meia-idade, com o ego do tamanho da barriga. Sua esposa era um amor, assim como os filhos. Eu sempre senti pena dela por se dedicar tanto a um homem que já tinha passado por metade das funcionárias.
— Tenho que buscar o Enzo — falei, mudando de assunto.
— Ele ficou com seus pais?
Assenti.
— Poxa, amiga é uma pena você ter largado a faculdade por causa da gravidez.
Respirei fundo.
— É triste, sim. Mas eu não me arrependo de nada. Meu filho é a melhor coisa que eu tenho.
Juliana sorriu.
— Entendo. Minha Valentina também é tudo pra mim. Agora vamos fechar logo essa merda e ir embora, já que a nossa “maravilhosa” gerente resolveu passar mal justo no dia do inventário.
Dei de ombros. — Não sei explicar direito. Talvez porque parecesse antigo, delicado e tivesse uma história. E você é exatamente assim. Ela sorriu. — Isso foi bonito. — Não se acostume. Ela riu enquanto retirava o colar da caixa. — Você mandou polir? — Sim. Pedi para uma pessoa especializada cuidar dele. Queria que estivesse bonito antes de entregar. Azaleia passou os dedos pelo pingente. — É lindo. — É o primeiro presente para o seu casamento. Ela me olhou novamente. — Meu Deus... Antes que eu pudesse reagir, minha irmã levantou-se e me abraçou. Com força. Tanta força que quase perdi o equilíbrio. — Azaleia! Ela não soltou. — Me solta! — Não. — Está esmagando meus pulmões. — Aguenta. — Helena! Ela começou a rir. — Você é impossível. — E você está me sufocando. Finalmente ela me soltou. Azaleia ficou diante de mim com os olhos marejados. — Obrigada. — Não precisa agradecer. — Preciso, sim. Ela segurou o colar com cuidado. — Isso é muito especial para mim
Enzo Rosa Barcellos Bati duas vezes na porta do quarto de Azaleia e esperei alguns segundos antes de ouvir sua voz do outro lado.— Pode entrar.Abri a porta devagar e coloquei apenas a cabeça para dentro.Azaleia estava sentada diante da penteadeira, organizando alguns papéis que, considerando a quantidade de anotações espalhadas sobre a mesa, provavelmente tinham alguma relação com uma de suas pesquisas. Minha irmã tinha essa mania. Conseguia transformar qualquer superfície livre em uma espécie de centro de estudos, e eu já havia desistido de tentar entender como alguém conseguia ler tantos livros ao mesmo tempo sem enlouquecer.Ela levantou os olhos quando percebeu minha presença.— Você ainda está aqui?Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim.— Essa foi uma recepção bastante carinhosa.Ela sorriu.— Não foi isso que quis dizer. Pensei que você e Helena já tivessem ido embora.— Nós também pensamos que iríamos.— Então por que ainda estão aqui?Aproximei-me da cama e sente
Lucas olhou para mim e seu sorriso foi imediato.— Acho que vai ficar lindo.Meu pai pareceu aliviado.— Pelo menos minha filhinha encontrou alguém que entende a sua cabeça.Lucas continuou:— Se é isso que a Azaleia quer, eu apoio.Enzo arregalou os olhos.— Você está ouvindo isso, pai?Meu pai franziu a testa.— O quê?— O homem nem casou ainda e já está dominado.Lucas riu.— Dominado?— Completamente.Helena olhou para o marido.— Não dê ouvidos ao seu cunhado.— Estou apenas tentando alertá-lo — Enzo respondeu.— Alertar sobre o quê?— Sobre o futuro.Lucas olhou para mim.— Se esse é o futuro, estou tranquilo.Sorri, pois era exatamente por isso que eu queria me casar com ele.Lucas não precisava entender todas as minhas ideias imediatamente. Não precisava gostar de cada detalhe. Bastava respeitar aquilo que fazia sentido para mim.Minha mãe percebeu minha expressão.— Você está feliz, não está?— Muito.— Então faça.Meu pai olhou para ela.— Você vai apoiar?— Claro.— Mesmo c
Azaléia Rosa Barcellos Existe uma diferença muito grande entre ter uma ideia e contar essa ideia para a minha família.A ideia, quando permanece dentro da nossa cabeça, costuma parecer perfeitamente razoável. Ela é organizada, bonita e, principalmente, faz todo sentido.O problema começa quando precisamos colocá-la em voz alta diante de pessoas que nos conhecem desde sempre.No meu caso, o problema se chamava Enzo Rosa Barcellos.Meu irmão tinha uma habilidade impressionante para transformar qualquer pensamento inocente em motivo para piada. Se eu dissesse que queria comprar flores para o casamento, ele perguntaria se eu pretendia abrir uma floricultura. Se falasse que queria escolher uma música especial para a entrada, provavelmente diria que eu estava produzindo um filme.Por isso, naquela tarde, enquanto todos estavam reunidos na sala da casa dos meus pais para conversarmos sobre meu casamento com Lucas, eu já sabia que precisava me preparar psicologicamente.Lucas estava sentado
Passei delicadamente a mão pelo rosto e sorri.— Não estou chorando.Ele estreitou os olhos.— Está sim.Rafael soltou uma risada.— Seu avô também já percebeu que você não acredita em qualquer coisa.— Eu sei.— Convencido.Belício deu de ombros.— Aprendi com vocês.Balancei a cabeça, rindo.Ele se aproximou e segurou minha mão.— Vovó, quando eu crescer, vou cuidar de vocês.Aquelas palavras me atingiram de uma maneira inesperada.Abaixei-me um pouco para ficar mais próxima dele.— Não precisa cuidar de nós, meu amor. Só precisa cuidar de você e ser feliz.— Mas eu quero cuidar.Olhei para Rafael.Ele também estava emocionado.— Então faça uma coisa — falei.— O quê?— Nunca deixe de sonhar.Belício pareceu pensar por alguns segundos.— Mesmo quando for difícil?— Principalmente quando for difícil.Ele sorriu.— Então vou sonhar grande.— Faça isso.Rafael passou a mão pelos cabelos do neto.— E lembre-se de que sonhos grandes também exigem muito trabalho.— Eu sei.— Sabe mesmo?—
Durante anos, acreditei que felicidade significava alcançar determinado objetivo, conquistar alguma coisa ou finalmente deixar para trás os problemas do passado. Hoje compreendo que estava enganada. Felicidade é olhar para uma mesa cheia e perceber que aquelas pessoas estão ali porque querem estar. É ouvir os netos rindo pela casa, ter Rafael ao meu lado depois de tantos anos e acompanhar nossos filhos construindo as próprias vidas sem precisar escolher entre sobreviver e sonhar. São esses momentos aparentemente simples que, com o passar do tempo, acabam se tornando as lembranças mais preciosas.Rafael passou o braço ao redor dos meus ombros, aproximando-me ainda mais dele.Belício veio correndo outra vez.— Vovô!— O que foi agora?— Quando eu for administrador, posso trabalhar na sua empresa?Rafael sorriu.— Pode.— Mesmo se eu não souber nada?— Você vai aprender.— Com o senhor?— Comigo.Belício abriu um sorriso enorme, como se acabasse de receber a confirmação mais importante d







