FAZER LOGINDahlia
Assim que chegou ao meu trabalho, atrasada novamente, meu chefe manda eu ir ao seu escritório. O local fede a cigarro barato e cerveja. Não posso perder esse trabalho, com tantas contas atrasadas e a ordem de despejo, preciso mais do que nunca me manter nesse lugar insuportável.
“Dahlia, você chegou atrasada novamente,” meu chefe declara com a voz rouca e decepcionada. “Sendo que pedi ontem que precisava de você aqui mais cedo.”
Respiro pela boca para não sentir o cheiro do seu hálito fedido.
“Sinto muito, senhor. Eu tentei chegar mais cedo, mas a escola do Leo…” começo a me explicar com pressa.
Meu chefe nega com a cabeça e faz um estalo com a língua, impedindo que eu continue a falar.
“Dahlia, você só arruma desculpas para sua incompetência. Aqui é uma empresa séria, correta”, ele responde com ar de superioridade. “Não posso manter uma funcionária que não consegue cumprir com o básico.”
O desespero começa a dominar o meu corpo. Não posso perder esse trabalho.
“Por favor, senhor, eu prometo que vou melhorar. Se o senhor puder mudar um pouco o meu horário de entrada, eu juro que irei fazer valer a pena,” argumento desesperada.
Meu chefe se levanta da sua cadeira e anda na minha direção. A sua presença grotesca me causa enjoo, mas me mantenho firme. Ele fica parado na minha frente, com uma postura de dominador. Ele pega o meu queixo e me obriga a olhá-lo como uma submissa.
“Para eu poder dar o que você quer, Dahlia, você precisa dar algo que eu quero também,” ele sugere com a voz rouca e nojenta.
Os dedos ásperos dele passam pelo meu rosto, ele enrola uma mecha do meu cabelo entre os dedos e seus olhos ficam maliciosos em minha direção. Coloco-me de pé em um salto, afastando-me do seu toque como se fosse veneno.
“Só posso oferecer minha competência como funcionária, nada mais além disso", respondo decidida.
Meu chefe me lança um olhar duro e feio. Ele se afasta e volta a se sentar em sua poltrona.
“Então sua competência terá que servir em outro lugar, Dahlia,” ele rebate com a voz fria. “Você está demitida.”
O pronunciamento me atinge como um soco no estômago, porém não me permito ficar abalada visivelmente. Não quero dar o gostinho para o meu chefe. Ex-chefe.
Saio do escritório com passos decididos e com o desespero contido.
***
Enquanto Leo janta, eu procuro atualizar meu currículo e começo a ver novas vagas de trabalho. Não posso ficar um dia sem trabalhar.
“Você foi mandada embora do seu trabalho por minha causa, mamãe?” Leo pergunta com a voz triste.
Abro um sorriso reconfortante para ele e nego com a cabeça.
“Claro que não, meu anjinho. Era um local bem feio, não gostava de lá,” explico com tranquilidade.
Antes que Leo pudesse me perguntar mais alguma coisa, uma batida na porta quebra a nossa conversa. Tenho um sobressalto com o som e Leo também. Coloco-me de pé e sinto o meu coração martelar dentro de mim.
A batida na porta fica mais forte e mais alta também, me trazendo ainda mais apreensão.
“Leo, fique aí,” ordeno, séria.
Sinto um medo percorrer meu corpo e a sensação de perigo latente, pego uma faca afiada de cozinha. Vou até a porta e vejo pelo vidro embaçado o contorno de um homem.
Abro um pouco a porta, o coração saltando do meu peito com a sensação de tensão. Do outro lado surge a figura de um homem alto, imponente, de cabelos castanhos lisos penteados para trás. Os olhos castanhos frios dele me atravessam como uma lança afiada. A semelhança entre ele e Leo é gritante.
Atrás dele, há dois outros homens enormes e intimidadores. Um deles possui cabelos pretos ondulados e os olhos castanhos claros puxados, o olhar dele cruza com o meu e sinto um enorme arrepio.
“Onde está o meu filho?” O primeiro homem indaga com a voz rouca e firme.
Ele invade o meu espaço pessoal, me empurrando junto com a porta para entrar em minha casa. O choque me atinge como um raio e eu seguro com mais firmeza a faca em minha mão.
“Ei! Você não pode invadir a casa das pessoas dessa maneira!” informo, incrédula.
Coloco-me na frente dele, impedindo que ele avance pela minha sala e vá em direção ao Leo. Levanto a faca e tento manter minha mão firme.
“Eu vou chamar a polícia se vocês não saírem imediatamente da minha casa!” Ameaço.
O homem solta uma risada curta, seca e zombeteira para mim. Ele avança mais na minha direção e segura a faca pela lâmina. Ele gira minha mão através da faca, meu pulso torce e sinto uma dor. Isso me obriga a largar a faca rapidamente.
“Chame a polícia, fêmea. Quero ver você explicar para eles que você ameaçou a vida do pai biológico dele,” o homem declara com a voz cheia de autoridade.
Meu coração acelera ainda mais com as palavras ameaçadoras dele.
Leo surge correndo e empurra o rapaz pela cintura. A sua atitude é inusitada e pega todos nós desprevenidos.
“Sai de perto da minha mãe, seu monstro!” Leo grita decidido.
Sei que a força do meu filho é nada comparada ao tamanho do rapaz, mesmo assim, o homem cambaleia para trás, surpreso. Seguro Leo pelo ombro, afastando-o do sujeito.
Leo está com o olhar zangado e se agarra à minha cintura como se fosse possível me proteger dos três homens que nos encaram sérios.
O homem se agacha na frente do Leo e abre um sorriso de canto. Leo agarra ainda mais firme minha cintura.
“Você é um rapazinho muito corajoso”, o homem diz com orgulho na voz. “Você vai se dar bem lá na alcateia.”
Olho para ele, incrédula e confusa. Alcateia? O pai de Leo é um louco?
“Ele não vai a lugar nenhum com vocês!” afirmo com firmeza na voz e afasto Leo do sujeito.
O homem levanta o olhar frio em minha direção e um rosnado escapa por entre os seus lábios cerrados.
“Alfa Lakan, eles chegaram,” diz o rapaz de cabelos castanhos. “Precisamos ir antes que eles avancem.”
Dahlia“Eu sou sua alma gêmea?” murmuro a questão um pouco confusa, ainda tentando me acostumar com o peso e a delicadeza dessa ideia. As palavras saem baixas, quase tímidas, porque mesmo sentindo tudo o que sinto, ainda parece impossível acreditar que algo tão grandioso possa realmente estar acontecendo comigo.Mikaelson sorri e afirma com a cabeça. Suas mãos estão em minha cintura, me mantendo próxima a ele.O toque dele é firme e carinhoso ao mesmo tempo, como se quisesse me lembrar, sem precisar dizer, que eu pertenço ali, perto dele.Estamos no jardim da casa dele, aproveitando a tarde ensolarada. A luz dourada do sol banha as flores, aquece a grama e atravessa as folhas das árvores, desenhando sombras suaves ao nosso redor.O ar está agradável, perfumado pelo cheiro das plantas e pela tranquilidade rara daquele momento. Tudo parece calmo demais, bonito demais, quase como se o mundo inteiro tivesse decidido nos dar uma pausa.“Nós chamamos de vínculo lunar. É extremamente raro, n
DahliaAcordo com a sensação de alguém apertando a minha mão e acariciando a minha bochecha, como se tentasse me puxar de volta de um lugar muito distante. Em seguida, o cheiro vem. Um cheiro familiar, só que mais intensificado, mais vivo, mais nítido, como se estivesse entranhado no ar ao meu redor. Junto, eu ouço os batimentos de um coração, fortes, constantes, próximos demais, como se ecoassem dentro de mim.Isso tudo é tão estranho, tão confuso. Minha mente desperta aos poucos, pesada, lenta, tentando se agarrar a alguma lógica. Tudo parece real demais e, ao mesmo tempo, distante demais. Há sons, cheiros e sensações me alcançando de uma vez, como se o mundo tivesse ficado mais intenso enquanto eu dormia.“Dahlia? Meu moranguinho, está me ouvindo?” Mikaelson me chama com a voz tão dócil e baixa que isso me traz uma onda de calmaria.O jeito como ele fala comigo corta um pouco da névoa na minha cabeça, como se aquela voz fosse algo seguro em meio à estranheza.Abro meus olhos e busc
Mikaelson“Dahlia, espero que você esteja me ouvindo, meu moranguinho...” digo com um sussurro esperançoso.Seguro a mão dela com cuidado, como se até o menor movimento pudesse afastá-la ainda mais de mim. Sinto que a pele dela está mais quente e isso me traz um pouco mais de conforto, um alívio pequeno, mas suficiente para me manter respirando sem desmoronar.O ferimento em seu pescoço está praticamente fechado. A marca brutal de antes agora parece menos cruel, como se o corpo dela estivesse lutando com toda a força para permanecer aqui. Observar essa melhora, por menor que seja, me dá algo a que me agarrar em meio ao caos.“Eu quero que você saiba que eu te amo muito. Eu devia ter dito isso antes e muito mais vezes. Mas eu amo você, Dahlia.” Confesso com a voz embargada, sentindo cada palavra arranhar a minha garganta antes de sair. “Talvez eu não esteja aqui quando você acordar. Sinto muito se for esse o caso.”As palavras pesam no meu peito assim que saem. Falar desse jeito, como
LakanPego o Leo no colo com cuidado. Mesmo em meio ao caos da batalha, seguro meu filho com toda a firmeza e proteção que posso. Ele continua desacordado, mas seus batimentos estão fortes e firmes. Isso me dá um pouco de alívio em meio a tanta desgraça. Não há nenhum ferimento nele. Nenhum corte, nenhuma marca visível. Liliane ainda não começa o ritual, e só de pensar no que poderia ter acontecido, a minha raiva volta com mais força.“É hora de levá-lo para casa, meu lobinho.” Sussurro ao meu filho antes de beijá-lo no topo da cabeça.Ainda há uma batalha acontecendo, mas assim que os lobisomens renegados me veem com meu filho, eles percebem que perderam e batem em retirada, fugindo como covardes. Eles recuam depressa, sem honra alguma, abandonando os próprios mortos e feridos para trás. O medo vence a selvageria que antes demonstravam.Há uma comemoração animada pelos meus lobisomens pela vitória amarga. Ouço rugidos, vozes exaltadas e a agitação dos meus homens celebrando o fim do
LakanHá muito mais renegados do que eu havia imaginado. A presença deles se espalha por toda parte como uma infestação. Liliane é uma mulher determinada e vai se tornar uma mulher poderosa se eu não a impedir essa noite.Eu consigo sentir isso em cada detalhe ao meu redor, na forma como tudo foi organizado, na ousadia desse ataque, na quantidade de lobisomens dispostos a morrer por ela. Isso não é obra de alguém impulsivo. É o plano de uma mulher ambiciosa o suficiente para incendiar o mundo se isso a colocar acima de todos nós.Me transformar é libertador. O instante em que abandono a pele humana e deixo a fera assumir é como romper correntes invisíveis que me prendem. Por mim, eu vivia mais na minha forma de lobisomem do que de homem.Há muito mais força dentro de mim como lobo do que como humano. Mais verdade também. Como lobo, tudo se torna simples, puro, direto. Atacar. Defender. Proteger. Matar, se for preciso. Não existe o peso da dúvida, apenas o poder bruto vibrando em meus
MikaelsonPreciso encontrar a Dahlia.Esse é o meu único pensamento. Meu único objetivo. Nada mais importa. Nada além disso consegue se manter firme dentro da minha cabeça em meio ao caos. Não penso na batalha, não penso em estratégia, não penso nem mesmo no que pode acontecer comigo. Tudo o que existe, tudo o que me move, é a necessidade urgente e sufocante de encontrá-la antes que seja tarde demais.A batalha se explode na floresta em que estamos. Liliane não é uma humana burra, nem um pouco. E foi burrice nossa subestimá-la de tal maneira. Agora, cercados pelo caos que ela ajudou a criar, isso fica ainda mais evidente. O som dos disparos se mistura aos uivos, aos estalos de galhos se partindo, aos rugidos animalescos que parecem surgir de todos os lados ao mesmo tempo. O ar está pesado, tomado por fumaça, terra revirada e o cheiro metálico de sangue fresco. A floresta, que antes parecia apenas escura e densa, agora se tornou um campo de guerra vivo, feroz, pulsando perigo em cada s







