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Capítulo 4

Author: Liliana Souza
Liliana estancou na entrada do camarote, sentindo-se como se um raio a tivesse atingido. A familiaridade com que Renata ria e conversava com o círculo de amigos de Pedro deixava claro que aquela não era a primeira vez que se reuniam.

Desde quando Pedro a introduzira em seu círculo íntimo sem que ela soubesse de absolutamente nada? Quando aqueles mesmos amigos a chamavam de "Sra. Costa" com sorrisos maliciosos, estariam zombando dela em segredo? Rindo do fato de ela ser a única ingênua que ignorava a traição do homem com quem dividia a cama?

Suas unhas se cravaram na palma da mão enquanto ela fixava o olhar na cena dentro do ambiente privado. O grupo jogava "Verdade ou Desafio", e a garrafa de bebida girou até parar, apontando inequivocamente para Renata.

O desafio parecia constrangedor, pois todos começaram a gritar para que ela bebesse a prenda.

Com seus grandes olhos marejados, Renata lançou um olhar suplicante para Pedro. Sem hesitar por um segundo, ele pegou o copo da mesa, virou o conteúdo de um só gole e, ao pousá-lo com força, varreu o grupo com um olhar de advertência protetora.

— Já chega. — Avisou Pedro, com firmeza. — A Renata tem a saúde frágil, parem de pressioná-la.

Suas palavras foram recebidas com risadas sugestivas e maliciosas. Após algumas rodadas, a sorte, ou o azar, fez a garrafa apontar novamente para Renata. Ela escolheu o "Desafio" mais uma vez, e a tarefa consistia em pedir um objeto à pessoa ao seu lado.

Renata lançou um olhar tímido para Pedro e ergueu o dedo fino, apontando para a pulseira de contas de madeira no pulso dele.

— Pedro, você poderia me dar isso? — Pediu ela, com voz doce.

O olhar de Liliana se fixou naquela pulseira como se fosse um prego sendo martelado na madeira. Aquele era um presente dela, a única relíquia deixada por sua falecida mãe. Ela assistiu, impotente, enquanto Pedro acariciava as contas e, sem o menor sinal de hesitação, retirava o acessório para entregá-lo a Renata.

Um frio gélido subiu dos pés à cabeça de Liliana, fazendo seu corpo tremer incontrolavelmente. A memória do momento em que colocara aquela corrente no pulso dele voltou com clareza dolorosa.

— Esta é a coisa mais preciosa que tenho, Pedro. — Disse ela na ocasião.

Naquele dia, Pedro sorrira e afagara seus cabelos, prometendo que usaria o presente para sempre, justamente porque era dado por ela. Na vida passada, quando Liliana notou a ausência da pulseira, ele alegava ter guardado para não estragar. Por causa daquela mentira, ela nunca mais perguntou sobre o objeto, sem imaginar que ele já o havia entregado à pessoa que ela mais detestava.

Sua tolerância chegou ao fim. Liliana empurrou a porta do camarote com violência, os olhos vermelhos de fúria e mágoa, e confrontou o marido diante de todos.

— Pedro, se você não valoriza a relíquia da minha mãe, devolva para mim! — Exigiu ela, a voz embargada. — Com que direito você a entrega para a Renata?

O barulho na sala cessou num instante. Todos ficaram paralisados com a invasão repentina. As pupilas de Pedro se contraíram e um lampejo de pânico cruzou seu rosto. Ele caminhou rapidamente até ela.

— Liliana, não é o que você está pensando! — Exclamou Pedro, tentando acalmá-la.

— E o que é, então? — Rebateu Liliana, recusando-se a ouvir qualquer desculpa.

Ela contornou o marido e avançou para arrancar a pulseira das mãos da outra mulher. Renata, porém, foi mais rápida e se escondeu atrás de Pedro, puxando a camisa dele com ar de vítima.

— Pedro... — Choramingou Renata, buscando proteção.

Pedro hesitou por uma fração de segundo, mas seu instinto foi bloquear o caminho, colocando-se entre as duas. O coração de Liliana pareceu ser esmagado por um peso insuportável. Ela encarou o marido, a voz trêmula de incredulidade.

— Você está protegendo ela? — Questionou Liliana, sentindo o gosto amargo da traição. — Pedro, você sabe muito bem de quem ela é filha, e mesmo assim a defende contra mim?

Pedro apertou os lábios, buscando as palavras certas, e explicou em tom baixo:

— Liliana, eu não te contei antes justamente para evitar mal-entendidos. A Renata salvou a minha vida e ficou com sequelas por causa disso. Eu sei que você odeia a mãe dela, mas a Renata... ela é diferente da mãe.

— O que ela é ou deixa de ser não é problema meu! — Interrompeu Liliana, gritando. — Se quer pagar uma dívida de gratidão, faça isso com o que é seu. Que direito você tem de usar os meus pertences para fazer favores? Devolva o que é meu!

Renata encolheu os ombros, a voz embargada pelo choro, e puxou a manga de Pedro mais uma vez.

— Mas foi o Pedro quem me deu, e eu gostei tanto... É a primeira vez que gosto tanto de algo. Não se pede de volta um presente que já foi dado, não é? — Disse ela, antes de cobrir o peito e começar a tossir de forma delicada, mas audível.

O silêncio no camarote se tornou absoluto. Pedro franziu a testa, estendeu a mão para afagar as costas de Renata e ajudá-la a respirar melhor. Em seguida, voltou-se para a esposa e falou devagar:

— Liliana, deixe isso com ela.

Aquelas poucas palavras, ditas com tanta leveza, perfuraram o peito de Liliana como lâminas afiadas. Ela se manteve firme, sem recuar um passo, com os olhos tão vermelhos que pareciam prestes a sangrar.

— Pedro, você sabe o que aquela pulseira significa. É a única lembrança que tenho da minha mãe! — Gritou ela, desesperada. — Você quer dar isso logo para a filha da mulher que a matou? Quer que minha mãe não tenha paz nem no túmulo?

O pomo de adão de Pedro oscilou; ele parecia querer argumentar, mas foi interrompido pela tosse fraca de Renata. Apoiando-se no braço dele, ela caminhou em direção a Liliana com os olhos inundados de lágrimas e estendeu a pulseira.

— Liliana, se você quer tanto assim, eu devolvo... — Murmurou Renata.

No instante em que Liliana estendeu a mão para pegar o objeto, Renata agarrou seu pulso repentinamente e jogou o próprio corpo para trás com violência. A pulseira escapou, descreveu uma parábola no ar e chocou-se contra o chão com um estalo seco.
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