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Lar doce lar

作者: Monalisa
last update 公開日: 2026-01-20 22:40:07

O relógio já passava das 14h quando Eduarda estacionou em frente à casa. O portão mal teve tempo de se abrir e Norma apareceu, como sempre exagerada, quase teatral — e ainda assim irresistível.

A primeira coisa que fez foi agarrar os netos.

— Meus amores! Achei que a tia Eduarda tinha fugido com vocês! — disse, lançando um olhar repreensivo para a filha.

Olhando para Letícia, Eduarda balbuciou, em tom de brincadeira:

— Eu avisei… lá se vai a minha herança.

As duas riram.

Ao ver a avó, Luísa abriu um sorriso largo e correu para dentro da casa à procura do avô. Amava Norma, mas era evidente: os avós eram completamente apaixonados um pelo outro, e Luísa era o xodó dos dois.

Dudu, sonolento, se aconchegou ainda mais no colo de Eduarda.

Quando viu Letícia, Norma não economizou no afeto. Abraçou, beijou, apertou.

— Minha filha, como você está magra! Tem que se alimentar melhor, não come direito e vive nessa academia… onde vai parar assim?

Falava como uma mãe fala com uma criança de cinco anos. Letícia não se incomodou. Sabia que a preocupação de Norma era genuína.

Para quebrar o clima, brincou:

— Tenho que ir pra academia, tia Norma. Correr, lutar… tudo pra não enlouquecer.

Riu sem graça, mas as duas sabiam que aquilo era verdade. Os últimos três anos tinham sido difíceis para todos, mas, sem dúvida, muito mais para Letícia. Os dois primeiros, marcados pelo tratamento; depois, a perda de Heitor.

Nesse último ano de luto, Letícia passara por muitas fases. Mas os filhos, sempre, acabavam sendo sua força.

Norma não deu tempo para mais nada. Segurou Letícia pelo braço com carinho e já foi puxando para dentro de casa.

— Entra, entra… estão todos doidos pra ver vocês.

A sala estava viva. No tapete, o avô já rolava no chão, rindo alto enquanto brincava com Luísa.

— De novo, vô! — pediu Luísa, entre risadas.

Do outro lado da sala, Pedro — o filho do meio de Norma e Carlos — estava sentado na poltrona, o notebook aberto sobre as pernas. Trabalhando. Levantou o olhar ao perceber a chegada de Letícia.

— Oi — disse, educado, mas distante.

Letícia respondeu com um aceno discreto e seguiu adiante. Nossa… isso porque todos estavam doidos pra me ver, pensou, contendo o riso para não piorar o clima.

Luísa fez questão de chamar a atenção de todos quando anunciou, animada, que havia conhecido uma amiga da mamãe, a tia Sílvia. Empolgou-se contando o quanto ela era bonita. Os avós se entreolharam, surpresos, e depois olharam para Letícia e Eduarda, como quem aguardava o fim da história.

Eduarda fez uma careta clara de tópico sensível e tratou de cortar:

— Melhor conversar sobre isso outra hora. Agora eu preciso colocar meu afilhado preferido pra dormir.

Pedro sorriu, provocando a irmã, que nem tentou esconder a predileção entre os sobrinhos.

— Duda? Onde fica o meu filho nessa história? — perguntou, arrancando risos de todos.

Era tudo em tom de brincadeira. Todos sabiam o quanto Eduarda e o afilhado eram apegados.

Eduarda respondeu sem rodeios:

— Pê, você sabe que eu amo seu filho. Mas fazer o quê? Esse neném tem o nome em homenagem a mim e ainda é meu afilhado. Você que escolheu a Helena pra ser madrinha do Joca.

Ao ouvir o nome, o clima voltou a ficar estranho.

Norma, percebendo o peso que se instalara, quebrou o silêncio ao se virar para a neta:

— Mas, Lulu, você estava dizendo que a tia Sílvia é bonita… ela é mais bonita que a vovó?

Luísa, esperta como só ela, respondeu na lata:

— Olha, vô… a vovó tá com ciúme!

A sala inteira caiu na risada.

Letícia observou todos ali, naquele momento simples e barulhento, e sentiu algo se acomodar no peito.

Ela estava em casa.

E aquilo era bom.

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