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Capítulo 2

Author: Segunda Chuva
A imagem era a foto de um prato de um restaurante sofisticado.

Apesar de não mostrar o rosto, notei no canto superior direito a aliança de casamento que apareceu por acidente.

Era a aliança que eu e Patrick escolhemos quando nos casamos.

Só que ele sempre a usava no dedo mínimo da mão esquerda.

Porque isso significava que ele era solteiro.

Que irônico.

A aliança que simbolizava nosso casamento era o sinal de solteiro de Patrick.

No sexto aniversário do nosso filho, ele estava em um restaurante de luxo, em um jantar à luz de velas com sua amante.

Toda a amargura se transformou em calma naquele momento.

Curti a foto e larguei o celular.

Virei-me e coloquei o chapéu de aniversário no meu filho.

— Felipe, feliz aniversário.

À luz das velas, meu filho fechou os olhos e juntou as mãos.

— Meu desejo de aniversário é ficar para sempre com a mamãe.

Peguei o celular e eternizei aquele momento.

A ideia de partir se tornou, naquele instante, uma árvore frondosa e inabalável.

— Certo, a mamãe promete.

Naquela noite, nenhum de nós mencionou Patrick novamente.

Era como se naquela casa sempre tivéssemos sido apenas nós dois.

Depois que meu filho adormeceu, peguei o pedido de divórcio que já havia preparado na gaveta.

A última ponta de hesitação se dissipou.

Às duas da manhã, Patrick finalmente chegou a casa.

Ao ver o bolo na mesa, um lampejo de remorso passou por seus olhos.

— Desculpe, eu esqueci.

Achei graça. Tantas mensagens de lembrete no celular.

Será que ele realmente não as viu?

Ou será que o ninho de amor era tão inebriante que o fazia esquecer de tudo?

Peguei o pedido de divórcio, abri na última página e, tentando manter a calma, entreguei a ele.

— Assine isto...

Antes que eu terminasse de falar, o celular de Patrick tocou.

A voz de Amanda soou um pouco assustada:

— Diretor Morais, parece que a energia da minha casa acabou. Você pode vir me fazer companhia? Estou com tanto medo.

Patrick se levantou imediatamente, com urgência nos olhos.

— Espere, estou a caminho.

Desligando o telefone, ele assinou o documento sem sequer olhar.

Afastei-me para o lado, observando-o sair em silêncio.

"Patrick, lembre-se sempre disso.

Foi você quem desistiu desta família por vontade própria."

No dia seguinte, voltei à empresa para finalizar minhas pendências.

Patrick veio até mim e me entregou uma caixa de presente bem embalada.

— O presente de aniversário do Felipe. Esqueci de dar a ele ontem.

Parei por um momento, peguei o presente e o abri.

Era um cachorrinho de brinquedo.

Meu filho tinha pavor de cachorros.

Quando ele tinha cinco anos, Patrick o levou ao parque de diversões.

No meio do passeio, ele encontrou um amigo e soltou a mão do nosso filho.

O menino se perdeu na multidão.

Quando o encontramos, ele estava agachado na beira da calçada, tremendo de medo de um cachorro de rua.

Desde então, cachorros se tornaram o maior pesadelo do meu filho.

E o culpado por tudo isso agora lhe dava um de presente.

Não sei se sentia mais raiva ou decepção. Coloquei a caixa de lado, com indiferença.

Meu tom era calmo.

— Obrigada.

Patrick me olhou de forma estranha e então, lembrando-se de algo, acrescentou:

— A energia na casa da Amanda acabou. Pretendo deixá-la ficar em nossa casa.

— Não trabalhe hoje. Volte para casa, arrume suas coisas e leve o Felipe para ficar fora por alguns dias.

Uma frase dita com leveza, mas que atingiu meu coração como uma marreta.

Olhei para ele, incrédula.

— Você está dizendo que vai expulsar a mim e ao nosso filho de casa por causa da Amanda?

Patrick franziu a testa.

— Não fale de forma tão dura. É apenas temporário.

— Já que concordamos com um casamento secreto, é claro que precisamos evitar suspeitas na frente dos colegas.

Eu sorri, sentindo a ironia.

Apenas colegas?

Apenas para evitar suspeitas?

Ou será que ele sentia que eu e nosso filho éramos um empecilho para sua busca pelo amor, algo que não deveria ser visto?

Não querendo mais olhá-lo, voltei para minha mesa e continuei a trabalhar.

— Entendido.

— Vou arrumar minhas coisas o mais rápido possível e levar nosso filho embora. Não vamos incomodar vocês.

De qualquer forma, já estávamos de partida. Um pouco mais cedo ou mais tarde não fazia diferença.

Ao ver minha concordância rápida, Patrick ficou surpreso.

Ele abriu a boca, e seu tom suavizou, algo raro.

— Eu vou compensar vocês.

Não levantei a cabeça, permaneci em silêncio.

O mal já estava feito. Nenhuma compensação poderia apagá-lo.

Ao chegar em casa, arrumei as malas e saí com meu filho.

Ao abrir a porta, dei de cara com Patrick, que chegava com alguém.

Ele empurrava a mala de Amanda com uma mão, exalando masculinidade.

No instante em que nossos olhares se cruzaram, vi claramente um lampejo de pânico em seus olhos.
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