LOGIN– Priscila narrando
Fiquei sentada na espreguiçadeira olhando para a água da piscina. A superfície balançava devagar por causa do vento. Fazia poucos minutos que eu e a Fernanda tínhamos saído dali. Ela entrou em casa quando a mãe chamou. Disse que já voltava. Resolvi esperar. Passei a toalha pelos cabelos ainda molhados. Olhei distraída para a varanda do andar de cima. Estava vazia. Carlos tinha entrado fazia alguns minutos. Mesmo assim, meus olhos continuaram parados ali. Sem querer, lembrei do instante em que ele apareceu. Apoiado no parapeito. Calado. Com aquele jeito sério que parecia fazer parte dele. Por um segundo... Um único segundo... Tive a impressão de que ele olhava para a piscina. Talvez para mim. Balancei a cabeça e ri baixinho. — Você tá ficando maluca, Priscila. Claro que não. Carlos não tinha motivo nenhum para olhar para mim. Eu era apenas a amiga da Fernanda. Uma menina que vivia entrando e saindo daquela casa desde criança. Nada além disso. Mesmo assim... Era impressionante como a presença dele mexia comigo. Eu não sabia explicar. Não era só porque ele era bonito. Conhecia homens bonitos. Nunca tinha perdido o sono por causa de nenhum deles. Com Carlos era diferente. Tinha alguma coisa naquele jeito fechado. Na maneira como falava pouco. Na forma como todos o respeitavam sem que ele precisasse levantar a voz. Parecia que carregava o mundo inteiro nas costas. E, por mais estranho que fosse, eu tinha vontade de descobrir quem ele era quando ninguém estava olhando. Como seria o sorriso dele. Se ele ria de verdade. Se algum dia já tinha sido leve. Ou se sempre viveu preso naquele silêncio. Suspirei. Não adiantava. Eu podia imaginar o quanto quisesse. Aquilo nunca aconteceria. Ele era casado. Muito mais velho do que eu. E, provavelmente, nem imaginava que eu existia fora das conversas da Fernanda. Meu coração escolheu a pessoa mais impossível que podia escolher. E isso era uma droga. Levantei e caminhei até a borda da piscina. Mergulhei a ponta dos dedos na água. Estava morna. Olhei para a porta da casa. Nada. A Fernanda estava demorando. Será que tinha acontecido alguma coisa? Pensei em entrar. Mas desisti. Se a Amanda chamou a filha para conversar, devia ser um assunto de família. Era melhor esperar. Sentei outra vez. Peguei o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma novidade. Os minutos pareciam passar devagar. Até que a porta finalmente abriu. Fernanda saiu. Na mesma hora percebi que tinha alguma coisa errada. Os olhos estavam vermelhos. O sorriso de sempre tinha desaparecido. Levantei depressa. — Fer... aconteceu alguma coisa? Ela respirou fundo antes de responder. — Vamos sentar. Meu coração apertou. Sentamos lado a lado. Por alguns segundos ela ficou olhando para a piscina sem dizer uma palavra. Depois passou a mão no rosto. — Minha mãe vai viajar amanhã. Franzi a testa. — Viajar? — Pra Espanha. — Amanhã? Ela confirmou com a cabeça. — Vai com a Cláudia, a Regina e a Sônia. Esperei. Conhecia a Fernanda bem demais para saber que aquilo não era tudo. — E por que você tá chorando? Ela abaixou a cabeça. — Porque não é só uma viagem. Meu estômago se contraiu. — O casamento deles não tá bem, Pri. Fiquei em silêncio. — Eles disseram que precisam de um tempo. Minha mãe quer pensar. Quer respirar um pouco. Ela acha que... talvez eles estejam chegando ao fim. Engoli seco. Não soube o que responder. Vi o sofrimento estampado no rosto da minha amiga. Ela respirava fundo, tentando não chorar outra vez. — Eu não queria isso. A voz dela saiu baixa. — Gosto muito do Carlos. Ele sempre cuidou da gente. Nunca foi um homem de falar muito. Mas sempre esteve ali. Nunca deixou faltar nada. Segurei a mão dela. — Tenho certeza de que vocês vão passar por isso. Ela deu um sorriso fraco. — Eu queria acreditar. Fiquei olhando para a água. Minha cabeça parecia girar. Carlos... Talvez ficasse sozinho naquela casa. O pensamento surgiu sem pedir licença. E, no mesmo instante, senti vergonha. Que tipo de amiga eu era? A Fernanda estava sofrendo. A Amanda também. E eu... Eu tinha deixado uma esperança nascer dentro de mim. Não. Aquilo estava errado. Mesmo que eles se separassem... Mesmo que ele ficasse sozinho... Nada mudaria. Ele continuaria sendo o Carlos. O homem que mal falava comigo. Que nunca tinha demonstrado qualquer interesse. Provavelmente nem desconfiava do efeito que causava em mim. Respirei fundo. Eu precisava esquecer aquilo. Precisava. Mas, quanto mais eu dizia isso para mim mesma... Mais difícil parecia arrancar Carlos dos meus pensamentos.Seis meses haviam passado desde o dia em que a vida de Carlos e Priscila mudou para sempre.A barriga de Priscila já estava grande, e Carlos havia desenvolvido um hábito que fazia ela rir todos os dias: antes de dormir, colocava a mão sobre a barriga dela e conversava com o bebê como se os dois já fossem velhos amigos.— Você tá me ouvindo aí, moleque?Priscila, deitada ao lado dele, soltava uma risada.— Você ainda acha que é menino?— Tenho certeza.— E se for menina?Carlos pensava por alguns segundos.— Aí eu vou ter uma filha linda.— Então você não tem certeza de nada.— Tenho certeza de que vai ser lindo.Priscila sorria.Aquela era uma vida completamente diferente da que eles haviam imaginado meses antes.Não havia mais homens armados na porta.Não havia telefone tocando de madrugada com notícias de invasão.Não havia Carlos saindo de casa sem saber se voltaria.Ele ainda mantinha contato com Dante, mas agora as conversas eram diferentes.Dante cuidava do morro.Carlos cuidava
A notícia ainda parecia grande demais para caber dentro daquele quarto.Priscila estava sentada na cama do hospital, uma das mãos sobre a barriga ainda sem nenhuma mudança visível. Carlos permanecia ao lado dela, olhando para aquele gesto simples como se estivesse diante da coisa mais importante que já tinha visto na vida.Um filho.O filho deles.Depois de tudo o que tinham enfrentado, depois do sequestro, dos tiros, de Caveiro, de Amanda e de todas as vezes em que Carlos teve medo de perder Priscila, descobrir que ela estava grávida parecia quase inacreditável.Ele segurou a mão dela.— Você tá bem?Priscila sorriu de leve.— Tô. Ainda tô tentando acreditar.Carlos respirou fundo.— Eu também.Ela olhou para ele.— Você ficou com medo?Carlos soltou uma risada baixa, sem humor.— Eu fiquei com medo de tanta coisa nessa vida que nem sei mais contar.Ele abaixou os olhos para a barriga dela.— Mas agora é diferente.— Diferente como?Carlos levantou o olhar.— Agora eu tenho alguém al
Priscila ainda estava abraçada a Carlos quando a ambulância que levaria Amanda começou a se afastar.Ela continuava tremendo.Carlos percebeu.— Você está bem?Priscila assentiu, mas seus olhos ainda estavam assustados.— Estou... só quero ir embora daqui.Carlos passou o braço ao redor dela.— Vamos.Ele olhou para Dante.— Você fica para resolver tudo por aqui?Dante assentiu.— Fica tranquilo. Eu cuido disso.Carlos olhou mais uma vez para a estrada por onde a ambulância havia desaparecido.Amanda estava sendo levada para receber atendimento e depois responderia pelo que havia feito.Caveiro estava morto.Os homens dele haviam sido derrotados.Aquela parte da guerra tinha terminado.Agora só havia uma coisa que importava.Priscila.Carlos segurou a mão dela e a conduziu até o carro.Antes de entrar, parou.— Espera.Priscila olhou para ele.Carlos segurou seu rosto.— Você tem certeza que não está machucada?— Tenho.— Está sentindo dor?— Meu corpo está doendo um pouco. Acho que p
Carlos e Dante entraram na construção atrás de Caveiro.O lugar estava escuro, cheio de portas e corredores estreitos.— Caveiro! — gritou Carlos. — Acabou!Nenhuma resposta.Dante olhou para os lados.— Ele está tentando fugir.Um barulho veio do fundo.Carlos apontou para o corredor.— Ali.Os dois avançaram.Do lado de fora, os homens de Carlos mantinham os outros criminosos sob controle. Alguns tinham fugido. Outros haviam largado as armas e se rendido.Priscila permanecia protegida atrás de um dos veículos.Amanda, porém, continuava ali.Ela olhava para Carlos desaparecer dentro da construção.Seu rosto estava tomado pela raiva.— Não pode acabar assim...Priscila ouviu.Virou-se para ela.— Amanda...Amanda olhou para Priscila.— Tudo isso aconteceu por sua causa.Priscila ficou assustada.— Não. Tudo isso aconteceu porque você escolheu ficar do lado de Caveiro.Amanda colocou a mão dentro da bolsa.Priscila arregalou os olhos quando percebeu o que ela estava fazendo.— Amanda,
Carlos colocou o celular sobre a mesa.A mensagem para Caveiro já tinha sido enviada.“Eu aceito.”Dante ficou olhando para ele.— Você realmente vai entregar o morro?Carlos levantou os olhos.— Não.Dante soltou um pequeno sorriso.— Eu sabia.— Eu só preciso que Caveiro acredite que venceu.França entrou na sala.— E como vamos fazer isso?Carlos olhou para Dante.— Ele sabe.Dante cruzou os braços.— Primeiro precisamos fazer Caveiro acreditar que Carlos está desesperado demais para pensar.Carlos assentiu.— É exatamente isso.Dante pegou um papel e colocou sobre a mesa.— A gente deixa ele escolher o lugar da troca.— Certo.— Você vai sozinho, como ele pediu.Carlos imediatamente negou.— Nem pensar.— Não sozinho de verdade — explicou Dante. — Caveiro precisa acreditar que você está sozinho.Carlos entendeu.— E vocês ficam escondidos.— Exatamente.França perguntou:— E Priscila?Dante respondeu:— Primeiro precisamos confirmar que ela está viva e onde está. Depois fazemos a
Carlos continuava observando o galpão de longe.O lugar estava quase completamente escuro.Apenas algumas luzes fracas escapavam pelas frestas das janelas.Dante permanecia ao lado dele, atento a cada movimento.França estava alguns metros atrás, acompanhando tudo.— Tem gente entrando e saindo — murmurou Dante.Carlos não tirava os olhos do galpão.— Priscila está lá.— Pode estar.— Eu sinto.Dante olhou para ele.Sabia que Carlos estava tentando controlar a própria ansiedade.Mas não era fácil.A mulher que ele amava estava presa naquele lugar.E cada segundo parecia uma eternidade.Um dos homens de Caveiro saiu do galpão e olhou ao redor.Carlos imediatamente se abaixou.— Espera.O homem entrou novamente.Alguns minutos passaram.Então o telefone de Carlos vibrou.Ele olhou para a tela.Número desconhecido.Seu coração acelerou.— É ele.Dante se aproximou.— Atende.Carlos apertou o botão.— Fala.Do outro lado, uma voz masculina respondeu.— Carlos.Ele reconheceu.Caveiro.Car







