Share

Capítulo 7

Author: Luana
last update publish date: 2026-07-17 20:12:30

– Carlos narrando

Acordei antes do despertador.

Cinco e meia.

Nem precisei abrir os olhos pra saber.

Meu corpo já sabia.

Fiquei olhando pro teto.

A Amanda ainda dormia.

Ou fingia.

Vai saber.

Ontem ela falou da Espanha.

Um mês.

Talvez dois.

Porra...

Dois meses.

Passei a mão no rosto.

Continuei deitado.

Normalmente eu levantava na hora.

Naquele dia fiquei ali.

Pensando.

Na verdade...

Tentando pensar.

Porque minha cabeça parecia um rádio velho.

Um monte de barulho.

E porra nenhuma fazia sentido.

Será que eu devia ter pedido pra ela ficar?

Será que eu devia ter prometido mudar?

Mas mudar o quê?

Como é que um filho da puta muda uma coisa que nem entende?

Bufei.

— Caralho...

Levantei.

Fui pro banheiro.

Joguei água no rosto.

Olhei pro espelho.

A mesma cara de sempre.

Cansado.

Olheira.

Barba por fazer.

Quarenta e dois anos nas costas.

E uma vontade do caralho de largar tudo.

Ri sozinho.

Largar?

Nem fodendo.

Quem ia segurar aquele morro?

Djalma?

Rodrigo?

Neguinho?

Os caras eram bons.

Mas nenhum deles carregava aquilo nas costas.

A responsabilidade era minha.

Sempre foi.

...

Quando desci, Amanda já tava na cozinha.

Café passado.

Pão na mesa.

Frutas cortadas.

Ela levantou os olhos quando eu entrei.

Sorriu de leve.

Sorri de volta.

Pequeno.

Quase nada.

— Dormiu?

— Mais ou menos.

Ela assentiu.

Também parecia cansada.

Não falamos da viagem.

Nem do casamento.

Nem de porra nenhuma.

Só tomamos café.

Em silêncio.

Engraçado...

Anos atrás aquele silêncio era confortável.

Hoje parecia que tinha alguém sentado entre nós.

Alguém que ninguém conseguia enxergar.

...

Saí de casa.

O ar da manhã tava fresco.

Rodrigo já esperava encostado no carro.

— Bom dia, patrão.

— Bom dia.

Entramos.

O carro começou a descer o morro.

Fiquei olhando pela janela.

Uma senhora abria o mercadinho.

Um menino corria com uma mochila maior que ele.

Dois cachorros brigavam no meio da rua.

Vida normal.

Todo mundo começando mais um dia.

Só eu que parecia preso no mesmo.

...

Passei a manhã inteira resolvendo problema.

Um comerciante querendo ajuda.

Dois moleques brigando por causa de dívida.

Um fornecedor atrasado.

Um cara novo querendo trabalhar pra mim.

— Não.

Foi a única resposta que dei.

Djalma olhou.

— Nem vai pensar?

— Já pensei.

— O cara parece bom.

Acendi um cigarro.

— Parece.

— Então?

Soltei a fumaça.

— Os que parecem bons normalmente dão mais trabalho.

Ele riu.

— Você confia em alguém, patrão?

Olhei pra ele.

— Confio.

— Em quem?

Demorei uns segundos.

— Em poucos.

Continuei andando.

Não falei mais nada.

...

Depois do almoço subi sozinho até um dos pontos mais altos do morro.

Dava pra ver quase tudo dali.

As casas.

As vielas.

As crianças correndo.

As motos subindo.

As mulheres conversando nas portas.

Vinte anos.

Vinte anos cuidando daquele lugar.

Quando assumi aquilo, prometi pro meu tio que ninguém de fora pisaria ali mandando na gente.

Cumpri.

Mas no meio do caminho fui perdendo um monte de coisa.

Amigo.

Parente.

Noite de sono.

E agora...

Talvez minha mulher.

Passei a mão na nuca.

— Que vida do caralho...

Às vezes eu me perguntava se tinha valido a pena.

A resposta nunca vinha.

Porque, quando eu olhava aquele morro, eu sentia orgulho.

Quando eu olhava pra minha casa...

Só sentia cansaço.

...

No fim da tarde voltei pra casa.

Amanda tava no quintal.

Regando as plantas.

Ela gostava daquilo.

Dizia que planta respondia ao jeito que a gente cuidava.

Talvez casamento fosse igual.

Se fosse...

O nosso tava seco fazia tempo.

Ela levantou os olhos quando me viu.

Sorriu.

Eu sorri de volta.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, me bateu um medo.

Um medo estranho.

Não de perder a Amanda.

Mas de descobrir que talvez eu já tivesse perdido fazia muito tempo...

...e só agora tivesse coragem de enxergar isso.

Ainda fiquei mais alguns minutos olhando as plantas.

A Amanda já tinha entrado.

O quintal ficou em silêncio.

Só o barulho da água escorrendo pelos vasos.

Passei a mão na barba.

Suspirei.

E subi pro andar de cima.

Fui direto pra varanda.

Precisava de um cigarro.

Acendi.

Me apoiei no parapeito.

Olhei pra baixo.

A piscina tava ocupada.

Fernanda.

E a amiga dela.

Priscila.

Agora lembrei do nome.

A Amanda já tinha falado.

A menina praticamente morava lá em casa.

Sempre que eu chegava ela tava por ali.

Sentada na sala.

Na cozinha.

Ou na piscina com a Fernanda.

As duas tinham crescido juntas.

Pareciam irmãs às vezes.

Fernanda ria de alguma coisa.

Priscila empurrou ela dentro da água.

As duas começaram a brincar igual criança.

Balancei a cabeça.

Um sorriso pequeno escapou.

Coisa rara.

Fernanda sempre teve esse dom.

Ela trazia barulho pra dentro dos lugares.

Vida.

Quando conheci ela era só uma menina magrela correndo pela casa atrás da mãe.

Agora tava ali.

Mulher feita.

Namorando escondido sem imaginar que eu já tinha percebido fazia semanas.

Soltei fumaça pelo nariz.

— Moleque burro...

Murmurei.

Rodrigo achava que enganava alguém.

Ninguém escondia nada por muito tempo de mim.

Voltei a olhar.

Priscila tava sentada na borda da piscina.

Falava pouco.

Sempre foi assim.

Enquanto a Fernanda parecia um rádio ligado vinte e quatro horas por dia, a amiga era quieta.

Observadora.

Escutava mais do que falava.

Estranho como duas pessoas tão diferentes conseguiam ser tão amigas.

Mas eram.

Daquelas amizades que começam na infância e seguem pela vida inteira.

Fiquei olhando por alguns segundos.

Nada demais.

Só observando.

Pensando em como a vida passava rápido.

Ontem mesmo a Fernanda tinha seis anos.

Hoje já falava em faculdade.

Namoro.

Futuro.

E eu continuava preso nos mesmos problemas de sempre.

Cobrança.

Dívida.

Responsabilidade.

Casa.

Casamento.

Porra...

Casamento.

A palavra bateu na cabeça de novo.

Apaguei o cigarro.

Entrei.

Chega de pensar.

...

Desci pro primeiro andar.

A Amanda tava sentada no sofá.

As mãos entrelaçadas.

Nervosa.

Na mesma hora percebi.

Ela ia contar.

— Hoje? — perguntei.

Ela assentiu.

— Hoje.

Fiquei em silêncio.

Ela respirou fundo.

Depois chamou:

— Fernanda!

A voz ecoou pela casa.

Poucos segundos ela apareceu.

Cabelo molhado.

Roupas trocadas às pressas.

— Que foi? — Fernanda perguntou.

Sentou numa poltrona.

Amanda respirou fundo.

— Eu vou viajar amanhã.

Fernanda piscou.

— Viajar?

— Pra Espanha.

— Espanha?!

Amanda confirmou.

— Com a Cláudia, a Regina e a Sônia.

— Do nada?

Fernanda olhou pra mim.

Depois pra mãe.

Depois pra mim de novo.

Era inteligente.

Percebeu na hora.

— Tá acontecendo alguma coisa?

Ninguém respondeu.

O silêncio respondeu por nós.

Fernanda ficou séria.

Muito séria.

— Vocês vão se separar?

A pergunta caiu na sala como uma pedra.

Amanda fechou os olhos por um instante.

— Não sei.

Fernanda engoliu seco.

Amanda continuou:

— Carlos e eu estamos passando por alguns problemas. Problemas de casamento. Acontece.

— Faz tempo?

Amanda soltou uma risada triste.

— Faz.

Fernanda baixou os olhos.

— E você vai embora por causa disso?

— Vou viajar pra pensar. Pra respirar um pouco. Pra gente entender o que quer fazer daqui pra frente.

Silêncio.

Longo.

Pesado.

Eu observava as duas.

Mãe e filha.

Tão parecidas.

Os mesmos olhos.

O mesmo jeito de apertar as mãos quando estavam nervosas.

Fernanda levantou.

Foi até a mãe.

Abraçou forte.

Amanda finalmente chorou.

Pouco.

Mas chorou.

— Vai ficar tudo bem — Fernanda disse.

A voz dela também tremia.

— Eu espero que sim.

Fiquei sentado.

Sem saber o que fazer.

Sem saber o que dizer.

Como quase sempre.

Depois de alguns segundos, Fernanda se afastou da mãe.

Olhou pra mim.

E fez uma coisa que eu não esperava.

Veio até onde eu estava.

Me abraçou.

Forte.

Como fazia quando era criança.

— Vocês vão resolver isso.

Não era uma pergunta.

Era uma ordem.

Olhei por cima do ombro dela.

Amanda enxugava as lágrimas.

E eu fiquei ali.

Com a Fernanda me abraçando.

Pensando que talvez todo mundo naquela sala acreditasse que eu sabia o que fazer.

Mas a porra da verdade era outra.

Eu estava mais perdido do que todos eles.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Desejos e traição     Fim

    Seis meses haviam passado desde o dia em que a vida de Carlos e Priscila mudou para sempre.A barriga de Priscila já estava grande, e Carlos havia desenvolvido um hábito que fazia ela rir todos os dias: antes de dormir, colocava a mão sobre a barriga dela e conversava com o bebê como se os dois já fossem velhos amigos.— Você tá me ouvindo aí, moleque?Priscila, deitada ao lado dele, soltava uma risada.— Você ainda acha que é menino?— Tenho certeza.— E se for menina?Carlos pensava por alguns segundos.— Aí eu vou ter uma filha linda.— Então você não tem certeza de nada.— Tenho certeza de que vai ser lindo.Priscila sorria.Aquela era uma vida completamente diferente da que eles haviam imaginado meses antes.Não havia mais homens armados na porta.Não havia telefone tocando de madrugada com notícias de invasão.Não havia Carlos saindo de casa sem saber se voltaria.Ele ainda mantinha contato com Dante, mas agora as conversas eram diferentes.Dante cuidava do morro.Carlos cuidava

  • Desejos e traição     Capítulo 126

    A notícia ainda parecia grande demais para caber dentro daquele quarto.Priscila estava sentada na cama do hospital, uma das mãos sobre a barriga ainda sem nenhuma mudança visível. Carlos permanecia ao lado dela, olhando para aquele gesto simples como se estivesse diante da coisa mais importante que já tinha visto na vida.Um filho.O filho deles.Depois de tudo o que tinham enfrentado, depois do sequestro, dos tiros, de Caveiro, de Amanda e de todas as vezes em que Carlos teve medo de perder Priscila, descobrir que ela estava grávida parecia quase inacreditável.Ele segurou a mão dela.— Você tá bem?Priscila sorriu de leve.— Tô. Ainda tô tentando acreditar.Carlos respirou fundo.— Eu também.Ela olhou para ele.— Você ficou com medo?Carlos soltou uma risada baixa, sem humor.— Eu fiquei com medo de tanta coisa nessa vida que nem sei mais contar.Ele abaixou os olhos para a barriga dela.— Mas agora é diferente.— Diferente como?Carlos levantou o olhar.— Agora eu tenho alguém al

  • Desejos e traição     Capítulo 125

    Priscila ainda estava abraçada a Carlos quando a ambulância que levaria Amanda começou a se afastar.Ela continuava tremendo.Carlos percebeu.— Você está bem?Priscila assentiu, mas seus olhos ainda estavam assustados.— Estou... só quero ir embora daqui.Carlos passou o braço ao redor dela.— Vamos.Ele olhou para Dante.— Você fica para resolver tudo por aqui?Dante assentiu.— Fica tranquilo. Eu cuido disso.Carlos olhou mais uma vez para a estrada por onde a ambulância havia desaparecido.Amanda estava sendo levada para receber atendimento e depois responderia pelo que havia feito.Caveiro estava morto.Os homens dele haviam sido derrotados.Aquela parte da guerra tinha terminado.Agora só havia uma coisa que importava.Priscila.Carlos segurou a mão dela e a conduziu até o carro.Antes de entrar, parou.— Espera.Priscila olhou para ele.Carlos segurou seu rosto.— Você tem certeza que não está machucada?— Tenho.— Está sentindo dor?— Meu corpo está doendo um pouco. Acho que p

  • Desejos e traição     Capítulo 124

    Carlos e Dante entraram na construção atrás de Caveiro.O lugar estava escuro, cheio de portas e corredores estreitos.— Caveiro! — gritou Carlos. — Acabou!Nenhuma resposta.Dante olhou para os lados.— Ele está tentando fugir.Um barulho veio do fundo.Carlos apontou para o corredor.— Ali.Os dois avançaram.Do lado de fora, os homens de Carlos mantinham os outros criminosos sob controle. Alguns tinham fugido. Outros haviam largado as armas e se rendido.Priscila permanecia protegida atrás de um dos veículos.Amanda, porém, continuava ali.Ela olhava para Carlos desaparecer dentro da construção.Seu rosto estava tomado pela raiva.— Não pode acabar assim...Priscila ouviu.Virou-se para ela.— Amanda...Amanda olhou para Priscila.— Tudo isso aconteceu por sua causa.Priscila ficou assustada.— Não. Tudo isso aconteceu porque você escolheu ficar do lado de Caveiro.Amanda colocou a mão dentro da bolsa.Priscila arregalou os olhos quando percebeu o que ela estava fazendo.— Amanda,

  • Desejos e traição     Capítulo 123

    Carlos colocou o celular sobre a mesa.A mensagem para Caveiro já tinha sido enviada.“Eu aceito.”Dante ficou olhando para ele.— Você realmente vai entregar o morro?Carlos levantou os olhos.— Não.Dante soltou um pequeno sorriso.— Eu sabia.— Eu só preciso que Caveiro acredite que venceu.França entrou na sala.— E como vamos fazer isso?Carlos olhou para Dante.— Ele sabe.Dante cruzou os braços.— Primeiro precisamos fazer Caveiro acreditar que Carlos está desesperado demais para pensar.Carlos assentiu.— É exatamente isso.Dante pegou um papel e colocou sobre a mesa.— A gente deixa ele escolher o lugar da troca.— Certo.— Você vai sozinho, como ele pediu.Carlos imediatamente negou.— Nem pensar.— Não sozinho de verdade — explicou Dante. — Caveiro precisa acreditar que você está sozinho.Carlos entendeu.— E vocês ficam escondidos.— Exatamente.França perguntou:— E Priscila?Dante respondeu:— Primeiro precisamos confirmar que ela está viva e onde está. Depois fazemos a

  • Desejos e traição     Capítulo 122

    Carlos continuava observando o galpão de longe.O lugar estava quase completamente escuro.Apenas algumas luzes fracas escapavam pelas frestas das janelas.Dante permanecia ao lado dele, atento a cada movimento.França estava alguns metros atrás, acompanhando tudo.— Tem gente entrando e saindo — murmurou Dante.Carlos não tirava os olhos do galpão.— Priscila está lá.— Pode estar.— Eu sinto.Dante olhou para ele.Sabia que Carlos estava tentando controlar a própria ansiedade.Mas não era fácil.A mulher que ele amava estava presa naquele lugar.E cada segundo parecia uma eternidade.Um dos homens de Caveiro saiu do galpão e olhou ao redor.Carlos imediatamente se abaixou.— Espera.O homem entrou novamente.Alguns minutos passaram.Então o telefone de Carlos vibrou.Ele olhou para a tela.Número desconhecido.Seu coração acelerou.— É ele.Dante se aproximou.— Atende.Carlos apertou o botão.— Fala.Do outro lado, uma voz masculina respondeu.— Carlos.Ele reconheceu.Caveiro.Car

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status