FAZER LOGINPOV AURORA.
As portas espelhadas do elevador se abriram, e por um instante eu quase hesitei em dar o primeiro passo.
O salto fino ecoou no chão de mármore, chamando a atenção de todos na recepção da Tecnocare. Era como se eu tivesse atravessado um portal: a Aurora simples, de roupas gastas e cabelos sempre soltos ao vento, tinha ficado para trás. A imagem refletida no vidro agora mostrava outra pessoa.
Maria tinha razão: eu estava impecável. O blazer ajustado ao corpo, a saia lápis que moldava minhas curvas discretas, os cabelos presos em um coque elegante. O perfume novo ainda parecia estranho para mim, mas exalava a cada movimento, me envolvendo numa aura diferente.
A secretária sorriu orgulhosa ao meu lado, como se fosse uma obra dela.
— Levante o queixo, Aurora. Hoje você precisa que todos te vejam.
Respirei fundo e caminhei até a sala de reuniões, tentando não tremer.
O Sr. Vescare me recebeu de pé, sorriso acolhedor, como sempre.
— Ora, ora… — ele abriu os braços, avaliando minha aparência com satisfação. — Eu sabia que a Maria ia fazer milagres. Está radiante, minha querida. Exatamente como a Tecnocare merece.
Sorri tímida, sentindo o rubor tomar conta do meu rosto.
— Obrigada, senhor. Só estou tentando dar o meu melhor.
Antes que pudesse me acomodar, senti o peso de um olhar. Frio, intenso, desconfortável. Levantei os olhos devagar e lá estava ele: Kael.
Encostado à mesa, braços cruzados, a gravata afrouxada, como se o ambiente inteiro tivesse que se adaptar ao seu ritmo. Seu olhar percorreu meu corpo de cima a baixo, devagar, sem qualquer disfarce. Mas não havia admiração naquela avaliação; havia julgamento, e uma faísca que ameaçava me queimar por inteira.
A sala parecia ter encolhido, todos aguardando a reação dele.
— Finalmente entendeu que isso aqui não é um mercado de rua — ele disse, a voz grave cortando o ar como uma lâmina.
A sala ficou em silêncio. Até o som dos teclados e telefones da recepção pareceu sumir.
Senti meu rosto queimar. A vontade de desaparecer era enorme, mas engoli em seco e firmei minha voz:
— Estou apenas tentando estar à altura da empresa, senhor Kael.
Ele ergueu uma sobrancelha, como se divertisse com a minha ousadia.
— A altura da empresa exige muito mais do que roupas caras.
Segurei a pasta com tanta força que meus dedos doíam.
— Estou aberta a aprender com o senhor.
O olhar dele brilhou por um segundo, algo entre raiva e… interesse. Mas logo desviou, frio como sempre, enquanto seu pai mudava de assunto, rindo para quebrar o clima pesado.
O restante do dia foi uma guerra silenciosa.
Kael me corrigia de forma seca, quase cruel. Cada palavra dele parecia cuidadosamente escolhida para me diminuir.
— Você é lenta.
— Está desatenta.
— Isso não serve.
Mas cada vez que nossos olhos se encontravam, era como se o mundo perdesse o som por um instante. Havia uma tensão insuportável, algo que queimava por baixo da superfície. E eu não entendia… porque, por mais ríspido que fosse, meu corpo reagia como se já o conhecesse, como se a lembrança dele estivesse gravada em mim.
Eu estava segurando todas as pastas ao mesmo tempo e acabei deixando cair uma única folha da agenda no chão. Me abaixei para pegar, ele também. Nossos rostos ficaram a poucos centímetros. O olhar dele me atravessou, forte, sufocante. Por um momento achei que o tempo tinha parado - mas logo ele se ergueu bruscamente, pegando o papel da minha mão como se fosse algo impuro. Como se eu estivesse suja.
— Seja mais cuidadosa — disse, seco, antes de se afastar.
Fiquei com a respiração presa na garganta. Mais um dia.
“Eu só preciso aguentar” Sussurrei para mim mesma.
Eu precisava daquele emprego, não poderia abrir mão. Não entendia porque ele me tratava daquela forma. Era cruel. Talvez toda a reputação da qual Valentin falava fosse dele. Ele deveria ser o mau da empresa.
Quando o expediente acabou, notei que ao lado de fora uma chuva terrível ameaçava cair. Peguei minhas coisas rapidamente porque acabaria perdendo meu ônibus se não adiantasse.
— Aurora! — Kael chamou de dentro do escritório me fazendo bufar discretamente em resposta.
— Sim!. — Respondi chegando á sua porta.
— Tenho uma última impressão para você fazer. — Ele disse sem ao menos me encarar.
— É que... — Baixei o olhar. — Não posso fazer amanhã? Se eu perder o horário, acabarei perdendo meu ônibus, e...
— Isso não é problema meu. — Ele disse agora suspendendo seu olhar cruel para mim. — Preciso desse projeto agora. E não posso parar aqui.
Lascou de vez... Vou me atrasar, e quem é o culpado? Claro, o meu chefe...
O que posso fazer? Não posso dizer não. Esse é o meu emprego, afinal.
CAPÍTULO EXTRAVALENTINEu sempre achei que conhecia todos os contornos da noite, cada sombra que se movia, cada murmúrio que surgia entre as árvores, cada segredo que o vento tentava carregar sem sucesso, mas naquela época, quando tudo começou, eu era apenas um garoto aprendendo a sobreviver em um mundo que não seguia as regras dos homens; seguia as regras do sangue. As histórias que me contaram sobre a queda das bruxas pareciam lendas antigas, narrativas distantes demais para serem reais, mas minha mãe sempre dizia que o passado nunca dormia — ele se arrastava, silencioso, esperando a hora certa de acordar. A guerra nunca começou com espadas, começou com amor. Começou com um erro. Começou com um lobo que acreditou poder desafiar o destino. Salvatore Vescari. O braço direito do alfa, o mais promissor guerreiro da alcateia, o único que carregava no corpo inteiro a marca da noite eterna, aquela que prometia força, disciplina e obediência. Mas ele não nasceu para obedecer. Ele nasceu
KAELO chamado atravessou minha mente como uma lâmina. Todos congelaram por um segundo — até que o instinto tomou o controle. Corremos pela trilha estreita no meio da floresta, os passos pesados ecoando no chão úmido, cada respiração vibrando como se algo nos arrastasse para a beira de um precipício.Quando chegamos à clareira, o mundo parou.O Alfa estava caído no chão, o corpo enorme estirado sobre as raízes, os olhos opacos mirando o nada. Não havia sangue. Não havia luta. Apenas… o fim. O fim inevitável que todos sabiam que viria, mas não agora, não assim, não antes da lua que selaria tudo.Um murmúrio de horror percorreu a alcateia.Eu senti o chão tremer.Vitória caiu de joelhos ao lado do pai, as mãos trêmulas sobre o peito dele. — Pai… pai!Salvatore avançou imediatamente, verificando respiração, pulso — mas era inútil.Ele apenas fechou os olhos do Alfa com um gesto lento.— Ele se foi — disse, a voz grave, sufocada.As palavras bateram no meu peito como um golpe.O Alfa mor
AURORAA copa da Tecnocare sempre teve aquele cheiro familiar de café forte misturado ao ar metálico do ar-condicionado, mas naquele dia tudo parecia mais distante, como se eu estivesse sentada dentro de um vidro grosso. O mundo continuava seguindo, funcionando, respirando, falar alto, digitar, rir — mas nada me alcançava. Eu estava ali, sentada no balcão, as pernas balançando distraidamente, mas a mente vagando por lugares que não pertenciam ao presente. Pela primeira vez em dias, eu estava sozinha comigo mesma, sem ninguém tentando me arrancar respostas que eu ainda não tinha.Fechei os olhos por alguns segundos e a lembrança veio com força, como se estivesse presa debaixo da minha pele esperando o momento certo para emergir. A conversa com Valentin na noite anterior. Eu me lembrava de cada palavra, cada expressão, cada silêncio.Estávamos sentados na sala, aninhados um ao outro como sempre fazíamos. Conversavamos pela primeira vez em muito tempo sobre coisas aleatórias, programas
AURORAEu acordei como quem retorna de um mergulho profundo demais, a respiração presa no peito, o coração batendo num ritmo que não parecia meu. A claridade suave da manhã atravessava a cortina fina do meu quarto, mas o tecido tremulava como se fosse uma sombra, como se algo no ar estivesse mais pesado do que deveria. Eu piscava devagar, tentando reconstruir o que tinha acontecido, mas tudo vinha em flashes desconexos: a floresta, o cheiro úmido do musgo, o brilho suave de algo que parecia luar mesmo sem ter lua, uma voz chamando meu nome, e Kael… queimando. Mas não podia ter sido real. Era impossível. Era bom demais, assustador demais, intenso demais para ser apenas sonho — e ao mesmo tempo, impossível demais para ser lembrança.Tentei me sentar, mas meu corpo protestou com uma exaustão que não fazia sentido. Era como se eu tivesse corrido quilômetros, como se tivesse drenado energia por horas e horas. Cada músculo parecia vibrar em uma tensão baixa que não doía, mas avisava. Algo d
VITÓRIA — E então? — Salvatore me pergunta, enquanto está encarando o labirinto abaixo de sua janela. — Ela está segura, foi entregue a Valentin. — Me jogo na cadeira de frente a sua mesa, exausta.— E ele? — Pergunta, se sentando em sua poltrona. — Está lá em cima, dormindo. Ainda está febril. — Hum... — Ele resmunga, parece pensativo. Exausto. Assim como eu. — O que o senhor achava que aconteceria quando contou “a verdade” para ele? — Perguntei, não consegui me conter. — Para ser sincero, eu sabia que ele sofreria, mas não achei que se destruiria. — Ele disse, parecia estar disposto a colocar as cartas na mesa. — Ele é o meu filho, não há nada que mude isso para mim... Você pode achar que eu sou um homem sem coração, mas eu sofro duas vezes mais que ele. E ninguém entenderia. — Eu não acho que o senhor é um homem sem coração. — Disse, por fim. — Acho que o senhor está sendo punido duas vezes, porque fez de tudo para corrigir as coisas e no final, ainda perdeu todo mundo que a
AURORAEu sonhei com fogo.Com labaredas que se erguiam do chão como serpentes douradas, dançando ao meu redor enquanto o céu se desfazia em vermelho e laranja. Sonhei com vozes — sussurros femininos, profundos, ecoando como se viessem de dentro da terra. Sonhei com a floresta viva, respirando, pulsando, chamando meu nome como se eu fosse parte dela.Mas o pior de tudo foi a sensação.A sensação de que alguém precisava de mim.Que alguém estava queimando.E que eu era a única capaz de chegar até ele.Acordei com o coração acelerado, o suor frio colando meu cabelo à testa e a respiração presa no peito. Por um instante, pensei que estava tendo outra febre como a da semana passada. Mas não. Aquilo era diferente.Era um chamado.Um puxão visceral vindo de algum ponto da floresta, como se um fio invisível estivesse amarrado ao meu peito e me arrastasse para longe da minha cama.Sentei-me devagar, tentando recuperar o fôlego, mas a sensação só piorou.Vem.Era como se uma palavra sem som se







