FAZER LOGINMaya Nogueira
— Seu... seu pervertido! — gritei, empurrando-o com toda a força que consegui reunir. No mesmo instante, uma luz suave escapou do banheiro entreaberto, desenhando apenas parte do rosto dele. O suficiente. Uma mandíbula bem marcada. Os cabelos ainda úmidos. Ombros largos que pareciam ocupar espaço demais naquele quarto. A toalha presa à cintura denunciava que ele acabara de sair do banho. Céus! Onde eu poderia enfiar a minha cara? Tinha acabado de tocar em seu membro sem querer, e nem sabia como pedir desculpas. O homem vendo meu desespero, me deu um sorriso lento. Perigosamente calmo. Deu um passo à frente, obrigando-me a recuar até sentir as costas encontrarem a porta. — Interessante... — disse em voz baixa. — Você invade o meu quarto, tropeça nos meus braços... encosta onde não deveria... e eu sou o pervertido? Meu rosto queimou de vergonha. Olhei rapidamente ao redor, e percebi o óbvio. Aquele não era o quarto destinado a mim. Procurava desesperadamente uma rota de fuga. O perfume masculino impregna o ambiente, meu estômago afundou. Aquele não era o meu quarto. — Eu... desculpe. Entrei no quarto errado. Estiquei a mão para a maçaneta, mas meus dedos tremiam tanto que não consegui encontrá-la de imediato. Sem querer, meus olhos voltaram para ele. Dessa vez, permaneci tempo demais. Ele percebeu. O canto de sua boca se ergueu em um sorriso carregado de confiança. — Engraçado... nenhuma mulher que olha para mim desse jeito vai embora tão depressa. Prendi a respiração. — O seu olhar... e até o jeito que você prendeu a respiração já entregaram você. Vai mesmo embora... ou só está fingindo? As palavras me atingiram de um jeito inesperado. Na mesma hora, a voz do meu ex-namorado ecoou na minha memória. "Olha para ela, e olha pra você, Maya." Talvez aquele desconhecido fosse apenas um acidente. Ou talvez fosse exatamente o presente inesperado que o destino resolvera colocar no meu caminho. Talvez eu precisasse provar, antes de tudo, para mim mesma, que ele estava errado. Eu não era sem graça. Eu não era incapaz de despertar o interesse de alguém. Respirei fundo. Em vez de fugir, fui eu quem diminuiu a distância entre nós. Ergui o olhar até encontrar aqueles olhos intensos. Ele era tão bonito. — Só me faça esquecer... — pedi, quase num sussurro. — Eu sei que você consegue. Por um instante, o sorriso convencido desapareceu. No lugar dele surgiu uma expressão diferente, como se aquele pedido tivesse despertado uma curiosidade que ele não esperava encontrar naquela noite. O quarto cheirava a sândalo e a uma autoridade que eu não sabia descrever. Ele tinha um olhar que não sabia denominar, mas que eu não conseguia parar de focar. Havia uma presença predatória que me magnetizou. Olhei para a toalha querendo saber se iria me arrepender dessas palavras ditas no calor da emoção. Ele não era um homem de negar, sabia no exato momento que sua áurea mudou. Pelo brilho nos olhos dele, notei o mesmo que senti: ele estava faminto, ele era perigoso, e ele não recusaria uma proposta tão direta como essa. E, Deus me perdoe, eu também não queria que ele negasse. Deixei claro com meus olhar fixo em seu corpo. - Então temos alguém que quer esquecer o mundo lá fora por um momento. Ele se aproximou como um predador encurralando a presa, mas quando ele tocou minha cintura, eu não fugi. Eu me joguei contra ele. - Não costumo fugir de pedidos assim, princesa. - Não quero que fuja... - Meus olhos ficaram em seus lábios tão próximos aos meus. O beijo foi um atropelamento, algo que não tinha como impedir naquela altura. Ele me puxou para dentro de um furacão, e eu me agarrei a ele como se fosse a única coisa sólida num mundo que desmoronava. Suas mãos apertaram a minha bunda com força medida, me roçando em seu membro que estava duro, e ainda escondido pela toalha grande de hotel. - Você tem uma bunda durinha. - Disse dando um tapa que me fez pular no lugar. - Eu gosto assim... Ele era arrogante, frio, possessivo — cada gesto dele dizia que ele era o dono da situação. Ele tirou o meu uniforme com uma eficiência que me arrepiou. Eu não era mais nada. Eu era apenas sensação e calor. Quando ele me levou para a poltrona, e se ajoelhou entre as minhas pernas... o mundo parou de girar. Eu foquei nele, naquele olhar, e ansiosa para ver o que iria fazer. - Todas que têm o prazer de estar na minha cama querem voltar, mas não repito transa. - Era um aviso que eu não pedi. - Então aproveite esse momento que estou lhe presenteando. - Engoli em seco antes dele me puxar para seu número de mágica particular. Ele rasgou a minha calcinha, cheiro a minha intimidade como se fosse um ato normal, não devasso e puramente selvagem. - A minha cal... Ele não me deixou completar a frase, seu hálito quente b**e na minha intimidade. E a sensação me fez prender o ar. Quando a sua língua me tocou, ali naquele momento eu vi que nada mais seria como antes. A língua dele, a pressão, o jeito como ele me explorava com uma fome que parecia querer devorar a minha própria alma... eu gritei. Eu gritei de prazer, de choque, de uma libertação que eu nunca soube que meu corpo escondia. Sua língua era felina, me dava arrepios que jamais pensei vivenciar. " Ele é um deus" , pensei enquanto cravava as unhas nas costas dele, sentindo a textura da pele sob meus dedos. "Ele é o erro mais maravilhoso da minha vida." - Já está chorando sem receber o tratamento completo? Ainda estou com sede, quero beber mais dessa fonte. - Eu tinha acabado de gozar e chorar em sua boca. Ele era um homem que prometia prazer como se fosse um direito divino, e ele cumpria cada promessa com uma intensidade que me deixava eletrocutada. - Agora vamos para o espetáculo principal. Quando ele me levou para a cama após vários orgasmos, eu já não pensava. Eu só sentia. A cada movimento, ele parecia me refazer, e substituindo tudo pelo prazer avassalador que ele me forçava a sentir. — Você é... deliciosa — murmurou contra minha pele úmida, sua voz vibrando contra ela. — Se estiver com medo, a porta ainda está aberta — disse, e soava como um último aviso. - Mas sei que não quer isso, só aviso para dizer que não sou tão mandão. - Disse com divertimento na voz. — Não pare — implorei, com as pernas se enroscando na sua cintura, o puxando para o abismo que eu não me reconhecia. — Não ouse parar. Seu sorriso não pode esconder a satisfação que estava sentindo agora. Ele era algo confiante para saber que eu não iria desistir. - Boa menina... Abriu e retirou meu sutiã de renda em segundos, abriu as minhas pernas para lhe receber. Jogou a toalha longe olhando dentro dos meus olhos. - Não tem como voltar atrás... - Disse com uma voz de provocação. Não disse nada, somente sorri. Um sorriso cansado de ser aquela que pensava demais. - Está falando demais. Ele penetrou profundamente de uma vez só! Me possuindo com uma agressividade que me assustou. - Oh Deus! - Gritei em um misto de emoções. Dor, susto e uma pontinha de prazer pela dor. - Elas sempre chamam por ele. - Disse. - Mas eu não sou um deus, e não quero te purificar agora. Aquelas palavras eram um sacrilégio, mas ela não parecia se arrepender de ter dito. Ele não me esperou por mais nada, ele me penetrava como se fosse uma dádiva ter sua experiência ao meu favor. Foi uma entrega barulhenta, suada e frenética. Não havia silêncio naquele quarto, longe disso. O barulho dos nossos sexos batendo um no outro era uma melodia intensa. Cada investida dele era recebida com um arquejo meu, um grito de descoberta, uma exclamação que parecia purgar toda a mágoa que trouxe comigo. Não satisfeito, ele me girava como uma boneca na cama, mudava de ângulo, explorava cada centímetro do meu interior como se estivesse mapeando um novo território anatômico, e tentava acompanhar com uma fome insaciável. Pois era bruto, mas me fazia sentir uma onda de prazer jamais sentindo por meu corpo virgem. O calor dele me envolvia de uma forma que nenhum anestésico poderia replicar, uma pressão perfeita que me fazia perder a noção de onde eu terminava e ele começava. O ápice veio como uma explosão de adrenalina no meio de algo que eu não tinha um nome definitivo no momento. Gritei algo desconexo e desmoronei sob a cama, o corpo tremendo em espasmos de libertação. Algo que estava sentindo pela primeira naquela sessão de sexo selvagem. Ele caiu sobre mim, o peito arfando, o cheiro de sândalo e sexo agora impregnado em cada poro do meu corpo. - O que foi isso... - Ouviu o seu sussurro. Eu não era uma profissional, mas, sob o efeito da bebida e daquele homem, eu agi com uma luxúria que me assustou. Eu queria ser dele, queria ser o caos que ele precisava para sua noite perfeita. Antes de dormir exausta, me perguntei. Quem era aquele homem que fez exatamente o que eu pedi?Bia Lacerda Ouvir aquilo verbalizado por Maya — a mesma conclusão que, com certeza, Arthur e Gregório estavam debatendo agora mesmo na varanda — fez o meu estômago dar um nó doloroso.A ideia de que os meus próprios pais pudessem me enxergar apenas como uma ferramenta de extorsão ou um canal para chantagear Gregório me embrulhava o estômago de uma forma indescritível. Era uma violência silenciosa, a repetição de um ciclo de abuso emocional que durou a minha vida inteira. Quando eu era menor, eu era a moeda de troca social; agora, adulta e independente, eu era a apólice de seguro contra a ruína financeira deles.— E o pior de tudo... — sussurrei, sentindo a voz falhar perigosamente, enquanto olhava através do vidro da varanda para a silhueta de Gregório, que gesticulava de forma tensa enquanto conversava com Arthur. — É o Gregório. Ele não tem culpa das origens podres da minha família. Ele já está carregando uma carga emocional pesadíssima com os escombros da própria vida, tentando se
Bia Lacerda O silêncio que se instalou na sala de estar após a saída dos rapazes para a varanda não era o tipo de calmaria confortável que costumava habitar os nossos encontros recentes. Era um silêncio denso, carregado de uma eletricidade estática, daquelas que antecedem tempestades devastadoras.Enquanto Gregório e Arthur fecharam a porta de correr de vidro e começaram a conversar com expressões visivelmente tensas do lado de fora, Maya virou para mim com os olhos faiscando de indignação pura, incapaz de conter por mais um segundo o veneno que corria solto em suas veias. Ela cruzou os braços com força, respirando fundo antes de soltar a frase que confirmava os meus piores temores.— Seus pais são umas cobras, Bia. Eles são pessoas horríveis. Que nunca foram pais, e agora querem te procurar como se você quem fosse a irracional. Acho que eles descobriram sobre a empresa... — Maya disparou, a voz trêmula de raiva, enquanto andava de um lado para o outro no tapete claro da sala.Aquela
Gregório Bernoulli O barulho abafado da conversa que vinha da sala de estar parecia pertencer a outro mundo, a outra realidade bem distante dali. Na varanda da cobertura, com a cidade de São Paulo estendendo seu mar de luzes trêmulas sob os nossos pés, o silêncio que Arthur impôs entre nós tinha o peso de uma sentença de morte. Ele fechou a porta de correr de vidro até travar o trinco, garantindo que nem Bia, nem Maya, nem a Senhora Nogueira pudessem ouvir o que estava prestes a ser dito. O rosto de Arthur estava fechado, a mandíbula travada e os olhos escuros carregados de uma urgência sombria. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça, respirou fundo como quem tentou conter um soco e virou para mim.- Quero te avisar de algo, Gregório... - Eu suspirei porque Arthur sempre tentava levar tudo no deboche e na brincadeira.Entretanto, ele estava sério, e parecia arealmente querer me dizer algo que não estava preparado para ouvir. - Nossa, para você fale assim é porque a conversa é séri
Bia Lacerda Arthur encarou ele por mais alguns segundos, medindo a sinceridade naquelas palavras, antes de desarmar a postura rígida e dar um tapinha forte no ombro de Gregório, aprovando o acordo de cavalheiros.— Bom saber — Arthur murmurou, balançando a cabeça com um sorriso de canto de boca. — Agora, pelo amor de Deus, vamos sair deste aeroporto, porque eu cruzei meio mundo com escala em três países diferentes e a única coisa que eu quero na vida é tomar um banho decente e comer qualquer coisa que não venha em uma caixinha plástica de avião.Maya riu, e eu também.- Mentiroso, você estava com saudades de casa, e está inventando histórias. - Arthur deu de ombros.O trajeto até o estacionamento foi pontuado por risadas, com Maya disparando perguntas em metralhadora sobre tudo o que havia acontecido em São Paulo durante as duas semanas em que eles estiveram fora. Ela queria saber dos detalhes da reforma da nova ala do hospital, de como a Senhora Nogueira estava se recuperando do tra
Bia Lacerda O portão de desembarque internacional do aeroporto estava apinhado de pessoas, malas rolando, carrinhos metálicos raspando no piso encerado e o burburinho constante de conversas abafadas pelo anúncio automático dos voos. Eu estava encostada na barra de proteção de metal, segurando uma garrafa de água mineral na mão, enquanto Gregório, ao meu lado, mantinha as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta escura, com o olhar atento varrendo a multidão que começava a emergir da área de controle alfandegário.A viagem de Maya e Arthur havia durado pouco mais de duas semanas, mas, para nós, parecia que uma vida inteira havia se passado desde o dia em que eles embarcaram rumo à lua de mel. Muita coisa havia mudado. As feridas abertas na noite da tempestade tinham começado a cicatrizar, os fantasmas dos meus pais haviam sido sumariamente bloqueados e silenciados, e a rotina ao lado de Gregório, que antes parecia um terreno minado de increscências e desconfianças, agora adquiria o contor
Bia Lacerda As palavras dele foram como um bálsamo derramado sobre uma ferida aberta. Senti o nó no meu peito afrouxar um pouco, cedendo espaço para a certeza reconfortante de que, desta vez, eu não estava desamparada na trincheira. Eu tinha um parceiro. Alguém que conhecia as minhas vulnerabilidades e que estava disposto a segurar a barra comigo, independentemente de quem estivesse do outro lado da linha.Levantei os braços, passei eles ao redor do pescoço de Gregório e enterrei o rosto na curva do seu ombro, me permitindo desabar por alguns segundos nos braços dele, absorvendo o calor da água do chuveiro e a solidez daquele abraço.Ficamos ali sob a água por longs minutos, apenas respirando juntos, deixando que o temporal do mundo exterior batesse inofensivamente contra as paredes do banheiro. Quando finalmente fechamos o registro do chuveiro e o silêncio relativo voltou a reinar, envoltos em toalhas brancas e fofas, a névoa começava a se dissipar.Secundariamente, a realidade bate







