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Capítulo 6

Autor: DhaSantana
last update Data de publicação: 2026-05-22 10:17:04

Arthur Strauss

O meu pai, Alberto Strauss, é um homem que confunde liderança com posse. Para ele, o Hospital Santa Helena não é um centro de excelência médica; é uma propriedade, um feudo, e eu — seu filho — sou apenas o próximo na linha sucessória para carregar o seu brasão de tirania.

Estava sendo um pouco injusto na minha fala, mas me sentia exatamente assim. Um escravo muito talentoso.

Naquela noite no hotel, o ar estava viciado. O evento beneficente tinha sido uma parada de horrores: investidores gananciosos, filantropos que não sabiam a diferença entre uma sutura e um ponto cruz, e meu pai, no canto da sala, me observando como um predador observa um filhote que se recusa a caçar.

Ou um pai que olhava para o filho teimoso e tão dono de si, que era difícil ter uma conversa saudável.

— Você vai assinar a transição, Arthur — ele sibilou, segurando uma taça de cristal que custava mais do que a cesta básica de uma família média. — A cirurgia é um hobby de luxo. A administração é um legado. Decide de que lado você quer estar. Não posso mais, eu juro que não posso.

Olhei para aquele evento, céus, como eu odiava aquilo. Preferia mil vezes estar sendo exaltado por ser brilhante em uma sala de cirurgia.

- Como se eu tivesse alguma escolha sobre sua nova obsessão. - Disse com amargura evidente. - Você não quer que eu me pareça com ela(minha mãe), você quer que eu seja você.

Ele me olhou, não era um olhar de carinho, longe disso. Era aquele olhar cansado de brigar com um filho que nunca facilitava as coisas.

- Até agora você fez o que quis da sua vida, meu filho. Eu estou somente lhe dizendo que estou velho. Não aguento mais o conselho querendo novas ideias, novas abordagens... Querendo você no seu lugar que lhe é de direito. - Revirei os olhos. - Não se faça de vítima. Você está longe disso, Arthur. - Ri porque ele tinha razão. Sempre fiz o que quis, por isso, ele estava morrendo por dentro por não colocar uma algema em mim.

Eu bebi o uísque puro, sentindo o líquido queimar, mas não o suficiente para anestesiar a raiva. Subi para a suíte 404 querendo apenas uma coisa: destruir qualquer rastro de sanidade que me restasse. Eu precisava de um escape. Eu precisava de algo que não exigisse o meu intelecto, que não me cobrasse decisões financeiras, que não me lembrasse quem eu deveria ser, sem querer.

Liguei para a recepção. Pedi uma acompanhante. Não por carência — eu não sei o que é isso — mas por pura e simples descarga tática. Eu sou um homem de necessidades biológicas diretas, precisas. O prazer, para mim, é uma das poucas constantes no mundo da medicina: eu curto, eu quero, eu tomo. Não nego prazer a mim mesmo, muito menos quando ele entra no meu quarto com aquele cheiro de chuva e baunilha que me desarmou antes mesmo de eu vê-la direito.

Mas eu não estava preparado para Maya.

Na manhã seguinte, a mancha de sangue no lençol quase apagada foi o primeiro aviso de que a minha vida tinha acabado de sair dos trilhos. Quando entrei no Santa Helena, o caos já estava instaurado. Meu pai, em uma demonstração de crueldade digna de um vilão de tragédia grega, tinha decidido o meu castigo: o fechamento da ala gratuita.

- Ele não quer você em nenhuma cirurgia, Arthur. E não sou nada diante de uma ordem dele. - Disse meu superior.

Eu sabia que ele não poderia ir contra meu pai.

Agora era ele mostrando que cansou de brincar, esse era o jeito dele de agir.

A ala gratuita... O meu estômago revirou. Aquela ala era o único projeto que a minha mãe, antes de falecer, tinha mantido com uma determinação feroz. Ela dizia que um hospital que não cura o pobre é apenas um comércio. Eu concordava. E ver meu pai, em represália à minha recusa em me tornar um CEO de mesa, ameaçar o legado dela era o limite.

Eu estava possesso. Atendi um par de pacientes de clínica geral como um robô, minha mente fervendo, até que ela entrou.

Maya Nogueira.

Quando vi o prontuário, senti uma estranha descarga elétrica. E quando ela atravessou aquela porta, tudo o resto desapareceu. A arrogância que eu cultivava como uma armadura — aquela sensação de ser um deus da medicina, um homem inalcançável — vacilou. Eu vi o desespero dela, a dor física que "eu" causei, e, acima de tudo, a garra de quem está disposta a enfrentar o diabo para salvar quem ama.

Queria dizer que me arrependo de ter deixado "sensível", mas seria uma mentira deslavada. Ela estava marcada como minha, sem ser, e isso inflamava o meu ego já bem elevado.

Aquela noite foi boa pra cacete! Por isso não saiu da minha cabeça. Mesmo quando meu pai decidiu implodir minha vida no hospital.

Por isso, os próximos minutos foram eu tentando deixar ela vermelha, sem graça e irritada.

Maya ficava linda furiosa.

E mesmo dizendo que me odiava, eu tinha certeza que não. Eu era alto confiante o suficiente para achar que ela não me odiaria a esse ponto.

Depois que ela saiu, eu fiquei parado, encarando o nada. Ela tinha medo nos olhos, não era somente raiva pela minha falta de tato.

Ela tinha razão, eu era um idiota, mas estava certo em dizer que fiz o que ela pediu.

A única coisa que me arrependo é de não ter sido mais delicado, ela era virgem, mas eu tinha sido o primeiro.

Estava tentando focar no trabalho, ainda pensava em Maya Nogueira e seus olhos penetrantes quando a chamada urgente soou.

- Senhor Strauss, o chefe pediu para ir imediatamente para o centro cirúrgico. Aconteceu um acidente grave na rodovia, muitos carros, e muitos feridos. Repórter já estão na porta montando campana. As vítimas estão vindo para cá, a tarde vai ser intensa... e exigem a sua presença.

Eu ri. Não pela fatalidade, mas pelo fato que não conseguia me deixar de fora de uma mesa de cirurgia por muito tempo.

Eu era o melhor, eu sabia fazer milagres.

E era nesses momentos que todos sempre vinham correndo atrás de mim.

E eu adorava essa atenção, esse desespero, essa confiança cega ao meu trabalho.

- Cinco minutos estou lá. - Disse já me preparando para um grande plantão de emergência.

(...)

O som dos monitores no Centro Cirúrgico, para mim, sempre foi a música mais perfeita do mundo. Não era um zumbido qualquer; era o ritmo da existência, o compasso que eu, Arthur Strauss, ditava com a ponta dos meus dedos. Enquanto as luzes cirúrgicas focavam no peito aberto do paciente, o mundo lá fora — a política do conselho, as ameaças do meu pai, as dívidas, o desespero — simplesmente deixava de existir.

Naquela mesa, eu não era o herdeiro pressionado, não era o homem que tinha cometido um erro crasso no quarto 404, não era o filho que vivia em guerra constante com o patriarca. Eu era deus. Eu era a precisão encarnada.

Quando o último ponto foi dado e o monitor estabilizou num ritmo sinusal perfeito, senti aquele arrepio habitual. A descarga de adrenalina que me faz viciado nisso. Retirei as luvas com um estalo seco, sentindo o suor frio escorrer pelas costas — onde, por baixo da máscara cirúrgica, os arranhões de Maya ainda pareciam arder, um lembrete físico de que, fora daquela sala, eu era apenas um homem vulnerável aos próprios instintos.

— Excelente trabalho, Strauss — ouvi a voz de Elano, o anestesista, ecoando no silêncio que se seguia à tensão. — Como sempre, um milagre feito por suas mãos.

Sorri, mas foi um sorriso de quem sabe o valor do próprio nome.

— Não é milagre, Elano. É técnica. É precisão. — Descartei a máscara e fui em direção à área de expurgo, o corpo ainda vibrando com a energia da intervenção bem-sucedida.

Saímos juntos do setor, nossos passos ecoando no corredor estéril. Era madrugada, o horário em que o hospital assume uma faceta mais sombria, quase fantasmagórica. O cheiro de café passado vindo da copa tentava, inutilmente, disfarçar o odor de antisséptico e doença.

— Você ouviu os boatos? — Elano perguntou, o tom baixando enquanto caminhávamos. — Sobre a ala gratuita? O pessoal está em polvorosa. Dizem que a diretoria quer fechar tudo de vez até o final do trimestre.

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