Home / Romance / Diário de Um Chef Safado / O Ponto de Ebulição

Share

O Ponto de Ebulição

Author: Mitha Souza
last update publish date: 2026-05-01 10:24:32

"Vegas é o playground do pecado, mas nada ali era tão letal quanto Luccas Ashford. Eu jurava ser o mestre do controle, o homem que nunca dobrava. Mas, em dez minutos, ele reduziu minha heterossexualidade a cinzas. O banquete estava servido, e eu estava faminto como nunca estive na vida."

— Enzo Romano

Vegas à noite é um labirinto de promessas pecaminosas, desenhado para fazer homens esquecerem seus nomes e seus princípios.

Nenhuma daquelas luzes de neon, no entanto, era tão perigosa quanto o que estava prestes a explodir na suíte VIP da Empire Nights.

O ar-condicionado trabalhava no máximo, mas eu sentia meu corpo queimar em uma febre que nenhuma medicina poderia curar.

O uísque caro já não era mais o responsável pela minha desorientação; era a consciência absoluta de Luccas Ashford.

Ele estava ali, a poucos metros, e o universo parecia ter conspirado para que o resto do mundo simplesmente evaporasse.

Chris e Victoria estavam mergulhados em seu próprio casulo, ignorando a tensão que eletrizava o ar ao redor.

Alex tinha desaparecido com uma herdeira qualquer, deixando o campo livre para o que eu mais temia — e desejava.

O barulho da boate chegava até nós apenas como uma vibração abafada no chão, um batimento cardíaco mecânico e distante.

O silêncio entre mim e Luccas era denso, carregado de uma eletricidade estática que fazia cada poro do meu corpo gritar.

Eu estava parado na varanda privativa, observando o salão, tentando recuperar o oxigênio que ele me roubava.

Ouvi o deslizar suave da porta de vidro. 

Não precisei me virar para saber que meu destino acabara de entrar.

O perfume cítrico e fresco dele cortou o cheiro de álcool e tabaco como uma lâmina de gelo afiada no meio do deserto.

— Fugindo de novo, Chef? — a voz dele veio baixa, rouca, encostando na minha nuca sem precisar de um toque físico.

Fechei os olhos por um segundo, sentindo o impacto daquela provocação vibrar direto na base da minha espinha.

— Eu não fujo, Luccas. Eu apenas escolho quais batalhas valem o meu sangue — respondi, virando-me com lentidão.

Ele tinha tirado o paletó. A camisa branca estava com os botões abertos, revelando a linha impecável da sua clavícula.

A pele pálida dele parecia brilhar sob as luzes da Empire, um contraste obsceno com a escuridão que eu sempre carreguei.

Ele parecia vulnerável, mas havia uma audácia no seu olhar que me dizia que ele sabia exatamente o que estava despertando.

Era um cervo que decidira, por vontade própria, desafiar o lobo no coração da floresta escura e silenciosa.

— E que batalha é essa? — ele perguntou, dando um passo à frente. O espaço entre nós encurtou drasticamente.

Eu conseguia ver o tremor leve nos seus lábios e a batida frenética na base do seu pescoço. Ele estava aterrorizado.

— A batalha para não decepcionar o meu irmão se eu fizer o que estou pensando agora — disparei, a voz rouca.

Meu tom era ácido, uma defesa desesperada para mascarar o desejo primitivo que pulsava em cada uma das minhas veias.

Luccas soltou um riso anasalado, mas seus olhos continuavam fixos nos meus, famintos e perigosamente abertos.

— Chris não é meu dono. E eu cansei de ter medo do que as pessoas pensam — ele desafiou, a voz ganhando força.

— Principalmente do que meus pais pensam. Eu já perdi tudo, Enzo. Não tenho mais nada a temer.

Ele deu mais um passo. Agora, eu conseguia sentir o calor irradiando do seu peito, invadindo o meu espaço pessoal.

Minha mente gritava que eu era hétero, que aquilo era uma loucura sem volta, que eu tinha uma reputação a zelar.

Mas o meu corpo estava traindo cada uma das minhas convicções, cada década de certezas construídas com gelo e aço.

Meus olhos desceram para a boca dele, entreaberta, convidativa, pedindo para ser silenciada por algo mais forte que palavras.

— Você não tem ideia do que está tentando despertar, garoto — sussurrei, sentindo o autocontrole escorregar.

— Eu não sou um homem gentil, Luccas. Eu não sei brincar de romance, nem de mãos dadas sob a luz do luar.

— Na minha cozinha e na minha cama, eu exijo controle total. Eu não aceito nada menos que a entrega absoluta.

— Então me controle — Luccas rebateu, sustentando meu olhar com uma coragem que foi o prego final no meu caixão.

Aquilo foi o fim da minha resistência. 

O ponto de ebulição onde a água transborda e o fogo consome a estrutura.

Avancei como um predador, prendendo-o contra a grade de metal da varanda. 

O som do metal ecoou no silêncio.

Minhas mãos, calejadas por anos de facas e chamas, encontraram a maciez absurda do pescoço dele, apertando com firmeza.

A pele de Luccas era seda pura sob meus dedos rudes, e o som que ele soltou incendiou o que restava da minha sanidade.

Foi um suspiro quebrado, algo entre um gemido de alívio e um soluço de pura descoberta. Ele queria ser dominado.

— Você nunca foi tocado assim, não é? — perguntei, colando meu rosto ao dele até nossas respirações se tornarem uma só.

— Nunca — ele confessou, os olhos fechando-se enquanto eu inclinava sua cabeça para trás, expondo a garganta.

— Eu estive esperando... sem saber pelo quê. Até ver você. Até sentir o peso do seu olhar sobre mim.

Eu não o beijei de imediato. Um Chef sabe que a antecipação é o ingrediente mais potente de qualquer banquete.

Desci meu nariz pela lateral do pescoço dele, inalando o cheiro de juventude, sentindo seu pulso martelar sob meus lábios.

Luccas arqueou o corpo contra o meu, as mãos agarrando meus ombros com uma força desesperada, buscando apoio.

Minha mão desceu pelas suas costas, sentindo a estrutura firme sob a camisa fina, descendo até a curva da cintura.

O contraste entre a minha brutalidade e a delicadeza dele era inebriante, um vinho caro que eu queria beber até cair.

Eu era uma massa de músculos e cicatrizes, e ele era pura luz, entregue ali, à mercê dos meus instintos mais sombrios.

— Enzo... por favor — ele implorou, a voz falhando, as pernas vacilando enquanto eu pressionava meu corpo contra o dele.

Finalmente capturei seus lábios. 

Não foi um beijo; foi uma invasão. 

Foi o encontro de dois famintos em uma terra devastada.

Luccas tinha gosto de mel, inocência e pecado. 

Eu o devorei com a agressividade de quem queria apagar o passado.

A língua dele encontrou a minha de forma desajeitada, mas ele aprendeu com uma rapidez que me assustou.

Ele era uma esponja, absorvendo cada movimento meu, devolvendo o beijo com uma urgência que dizia que ele era meu.

Senti as mãos dele subirem para o meu cabelo, puxando-me para mais perto, querendo eliminar qualquer milímetro de ar.

Empurrei minha perna entre as dele, sentindo a reação rígida de Luccas através do tecido fino das calças.

Ele soltou um gemido agudo contra a minha boca, um som de pura descoberta erótica que fez o meu sangue ferver.

A sensação de ter aquele homem, aquela beleza que eu considerava proibida, sob o meu comando, era a droga mais forte de Vegas.

— Isso é só o começo, Luccas — murmurei contra seus lábios inchados, minha mão descendo para o volume entre as pernas dele.

Senti o calor e a pressão que emanavam dali, a prova física de que eu o tinha arruinado tanto quanto ele me arruinara.

— Se eu continuar, não vai haver volta. Não haverá "apenas amigos" amanhã. Você entende o preço disso?

Ele abriu os olhos, azuis e nublados por uma luxúria que ele nunca soube que possuía. 

Vi ali uma entrega suicida.

— Eu não quero voltar, Enzo. Eu quero que você me mostre tudo o que eu perdi enquanto estava escondido.

— Quero sentir cada centímetro de você. Quero que você me marque de um jeito que ninguém consiga apagar.

Aquelas palavras foram o gatilho final. 

A heterossexualidade que eu defendi por anos ruiu como um castelo de cartas.

Eu o queria. Queria possuí-lo, ouvi-lo gritar meu nome, ver até onde aquela luz que ele carregava poderia brilhar sob o meu toque.

Naquela noite, sob o céu elétrico de Nevada, o Chef Romano descobriu que havia receitas que não podiam ser seguidas.

O ingrediente mais perigoso de todos não era o ódio ou a vingança, mas uma atração que desafiava a própria lógica da vida.

Enquanto eu o guiava para dentro da suíte, trancando a porta com um estalo definitivo, o mundo lá fora deixou de existir.

Empurrei-o contra os lençóis de seda negra, observando o contraste da sua pele clara contra a escuridão da cama.

Luccas Ashford era o prato principal, o desafio definitivo, e eu passaria a noite inteira descobrindo cada um dos seus segredos.

Eu não sabia o que o amanhã traria, nem como olharia para o Chris, mas naquele momento, a única verdade era a pele dele.

Vegas poderia ficar com seus cassinos e suas luzes; eu já tinha ganhado o prêmio mais valioso e perigoso da noite.

— Você é meu agora, Luccas. E eu não costumo compartilhar o que é meu — sussurrei, subindo sobre ele.

A farsa do homem intocável tinha acabado. 

O banquete do desejo estava apenas começando, e eu estava pronto para devorar cada pedaço.

Preparei-me para mostrar a ele que a dor e o prazer caminham na mesma linha tênue quando se trata de Enzo Romano.

E ele, com os olhos fixos nos meus, parecia pronto para queimar no meu inferno.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Diário de Um Chef Safado   Prólogo

    Enzo Romano Eu aprendi tarde demais que a pior prisão não tem grades. Ela se constrói em silêncio, dentro da gente, com cada olhar atravessado, cada palavra atravessando a alma como se fosse uma lâmina fina demais para sangrar no mesmo instante. Meu nome é Enzo Romano, e por muito tempo eu fui apenas aquilo que os outros esperavam que eu fosse — um reflexo polido, aceitável, correto. Nunca eu. Cresci em um mundo que dizia que amar devia seguir regras, que sentir precisava caber em moldes, que existir só era permitido dentro de limites invisíveis, porém rigidamente impostos. E eu tentei. Deus, como eu tentei. Vesti máscaras que não me pertenciam, engoli vontades, calei verdades que gritavam em mim como um incêndio prestes a consumir tudo. Talvez você entenda — talvez você também esteja cansado de sustentar um personagem que não é seu. O problema das máscaras é que, com o tempo, elas grudam na pele. A gente começa a esquecer como é respirar sem elas, como é sentir o vento no ros

  • Diário de Um Chef Safado   O Caos Que Organiza

    Enzo Romano O casamento do Chris e o nascimento do Lian se tornaram um marco histórico em nosso grupo de amigos. E eu me vi no meio daquele caos de felicidade me sentindo um dos homens mais realizados do mundo. Ver os meus amigos felizes e o homem que amo com um sorriso tão lindo quanto ele no rosto não tem preço. Mas uma coisa me chamou a atenção em meio a toda aquela correria: Jazz e Alex estavam muito emotivos e próximos. Será que havia algo ali que nunca percebemos? Nosso grupo sempre foi inseparável e ela sempre foi nossa protegida. O Alex por um tempo era grudado nela, mas pensando agora, eles se afastaram bastante nos últimos meses. — O que tanto passa nessa cabeça? — Luccas se aproxima da espreguiçadeira no nosso terraço no loft com duas xícaras de chocolate quente. — Apenas observando como o mundo gira rápido, Luccas — respondo, puxando-o para sentar entre minhas pernas, sentindo o calor do seu corpo contra o meu. — Você notou o Alex e a Jazz no hospital? — pergunto, enq

  • Diário de Um Chef Safado   O Brinde aos Noivos

    "Eu pensava que a Sicília era o destino final da minha jornada de aceitação, mas descobri que o meu verdadeiro 'para sempre' começa onde quer que o Enzo esteja segurando a minha mão." Luccas Ashford O céu de Nova York parecia mais azul pela janela do avião, mas nada se comparava à clareza que eu sentia dentro de mim. Pousamos no JFK trazendo na bagagem muito mais do que ternos italianos e vinhos da Sicília; eu trazia uma alma leve e a certeza de que a sombra da insegurança havia finalmente desaparecido. Assim que entramos no loft, o silêncio durou apenas o tempo de fecharmos a porta, pois a adrenalina da viagem e a vitória sobre o passado de Enzo explodiram em uma necessidade urgente de contato. — Você tem noção do que acabamos de fazer naquelas terras, Luccas? — Enzo perguntou, a voz rouca enquanto me prensava contra a madeira fria da porta. — Eu sei que você recuperou a dignidade de um Romano, Chef — respondi, puxando-o pelo colarinho, sentindo o calor do seu corpo grande con

  • Diário de Um Chef Safado   Em solo italiano...

    "O passado é um fantasma que assombra, mas o futuro é um território que eu acabei de conquistar com o peso do meu ouro e a força do meu desprezo." Enzo Romano Estar em solo italiano me levou a um intenso sentimento de nostalgia. O cheiro da minha terra, das minhas raízes; o lugar onde nasci e ao qual pertenço, independentemente de onde eu esteja. O ar da Sicília tem um perfume único, uma mistura de maresia, limão siciliano e a poeira das oliveiras centenárias que parecem guardar segredos de gerações. Luccas apertou minha mão assim que saímos do aeroporto, sentindo a tensão que emanava de cada poro do meu corpo enquanto o sol do Mediterrâneo nos recebia. — Você está bem? — ele perguntou, a voz suave sendo o único bálsamo capaz de acalmar o monstro que rugia dentro de mim. — Estou voltando para o lugar de onde nunca pensei em sair, Luccas. Mas desta vez, eu não volto como um convidado, eu sou o dono — respondi, com uma frieza que me surpreendeu. Antes de enfrentar os vivos, eu pr

  • Diário de Um Chef Safado   Novos Caminhos e Planos...

    "A justiça é um banquete que se serve frio, mas eu pretendo incendiar a mesa antes que o primeiro prato chegue à Sicília." Enzo Romano Após o circo armado pela ala suja dos Ashford, seguimos nossa rotina com os preparativos para nossa ida à Itália. — Vou me reunir com a Jazz e o Alex agora. Nos vemos no almoço — dou um leve beijo nos lábios do Luccas e sigo para a sala de reuniões da Empire. Era engraçado ver o queixo dos funcionários ali presentes cair ao ver essa cena; quem imaginaria o grande Chef Enzo Romano apaixonado por um homem? — Por que fez isso? — Luccas sussurrou, envergonhado ao perceber os olhares curiosos das pessoas ao redor. — Não era você que me incentivava a sair do armário? — respondo com outra pergunta óbvia e um sorriso de canto. Não tenho mais motivos para esconder quem sou ou o que quero; o medo de decepcionar meus amigos se dissipou e o apoio deles é tudo que importa. Entro na sala de reuniões onde Jazz, minha RP implacável, e Alex, o mestre em tecnolo

  • Diário de Um Chef Safado    Confrontos Inesperados

    "Há parasitas que confundem laços de sangue com um passe livre para a exploração, mas o meu chicote é a lei e o meu escudo é o amor que elas jamais entenderão." Enzo Romano Após o café da manhã, saímos em direção à Empire Night. A casa noturna do meu amigo Christopher é o lugar de maior sucesso no ramo de entretenimento de Nova York. O sucesso é tanto que investidores globais têm se interessado em entrar no negócio, querendo uma fatia do império que Chris construiu com sangue e suor. — O evento de amanhã da Empire será um marco na história desta casa noturna — comentou Luccas, enquanto eu dirigia com confiança. — Esse mistério todo está deixando o Chris ansioso — respondi, observando o perfil determinado do meu garoto pelo canto do olho. — Ah, mas tenha certeza de que valerá a pena. A surpresa vai calar a boca de muita gente — ele garantiu, com um sorriso que iluminava o interior do carro. — A Jazz está organizando nossa ida à Europa. Veja com ela as datas e vamos adiantar as c

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status