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Mamãe nunca voltou.
Nunca consegui entender o que leva uma mãe a deixar a própria filha em uma casa de prazer — ou, usando o nome que realmente define aquele lugar, um bordel — e simplesmente ir embora, sem olhar para trás, sem demonstrar um único sinal de arrependimento. Lembro de todas as noites em que chorei até o sono vencer o cansaço. O travesseiro ficava encharcado de lágrimas, enquanto as vozes abafadas que atravessavam as paredes me lembravam constantemente de onde eu estava. Eu me sentia culpada. Na minha inocência, acreditava que devia ter feito alguma coisa terrível para que minha mãe me abandonasse daquela forma. Com o passar dos anos, a verdade se tornou impossível de ignorar. Ela era apenas uma mulher consumida pelo vício, alguém que, em um momento de desespero, escolheu a própria dependência em vez da filha. Entender isso doeu, mas também me libertou de um peso que carreguei por tempo demais: eu nunca tive culpa de nada. A madame Delaflor jamais permitiu que alguém me tocasse. Para ela, eu era seu bem mais valioso, algo que precisava ser protegido e mantido sob seu controle. Ela fazia questão de me colocar diante dos clientes, despertando a curiosidade e a expectativa de todos. Bastava perceber o interesse estampado em seus rostos para abrir um sorriso calculado e lançar sua proposta, sempre da mesma maneira. — Passe uma noite com uma das garotas mais caras da casa e ganhará uma noite comigo pela metade do preço. Mas essa promessa nunca era cumprida. Eu odiava tudo naquele lugar. O cheiro forte de perfume misturado ao álcool, os corredores luxuosos que escondiam tanta tristeza, os risos forçados e a sensação constante de estar presa me sufocavam todos os dias. Ainda assim, eu não tinha para onde ir. Mesmo que encontrasse uma forma de fugir, não possuía dinheiro, família ou qualquer lugar que pudesse chamar de lar. Aquelas paredes eram mais do que os limites de um bordel; eram as grades da única prisão que eu conhecia. Alguém batia à minha porta havia alguns minutos, mas eu simplesmente ignorava. Continuava passando a escova pelos cabelos, observando meu reflexo no espelho enquanto os fios deslizavam lentamente entre as cerdas. Era um dos poucos momentos do dia em que eu podia fingir que aquele quarto era apenas um quarto... e não uma cela disfarçada de luxo. Sem esperar por uma resposta, a porta se abriu. Madame Delaflor entrou com passos firmes, carregando no rosto uma expressão de evidente irritação. — Você ficou surda? Adele está batendo na sua porta há um tempão e você simplesmente resolveu ignorá-la? — perguntou, cruzando os braços. Ergui os olhos para encontrá-la através do espelho. — Foram só três minutos. Eu precisava de um instante. — murmurei, sem me dar ao trabalho de me virar. Madame Delaflor soltou uma breve risada, carregada de sarcasmo. — Um instante para quê, Molly? Seu trabalho é descer, despertar o interesse dos clientes e voltar para este quarto. São as suas irmãs que passam a noite inteira trabalhando. Você tem a vida mais fácil desta casa. Meu maxilar se contraiu. — Elas não são minhas irmãs. — respondi em voz baixa, mas firme. Vi seus olhos revirarem com impaciência. — Deixe de agir como uma garota mimada. Tire esse roupão e vá fazer o que eu mandei. Sem esperar qualquer resposta, ela girou sobre os calcanhares e deixou o quarto, batendo a porta atrás de si. Um suspiro pesado escapou dos meus lábios. Levantei-me da penteadeira e deixei o roupão escorregar lentamente pelos meus ombros, revelando a roupa delicada que eu era obrigada a vestir todas as noites. Aquela não era uma escolha minha; era apenas mais um uniforme da prisão em que eu vivia. Peguei a máscara de renda que escondia parte do meu rosto, cobrindo apenas a região dos olhos. Ajustei-a diante do espelho, encarei meu próprio reflexo por um breve instante e, reunindo a pouca coragem que ainda me restava, abri a porta e saí do quarto.Aquele espaço no elevador parecia ficar pequeno demais para nós dois. Olho para os andares e odiei esse prédio por ser colossal, e odiei ainda mais Dominic por ter colocado no último andar. Olho para ele que dá alguns passos na minha direção, ao mesmo tempo dou dois passos para trás mas colo minhas costas batem no metal frio do elevador. Dominic para de frente comigo, coloca uma mão no elevador ao lado de minha cabeça e a outra, segura minha cintura levemente. — O que está fazendo? — Questiono. — Nada. Não posso tocar na minha noiva? — Ele pergunta. Ele sabe provocar e é muito bom nisso. Seu rosto se aproxima do meu. Sinto meu coração começar a bater freneticamente, ergo o rosto, tentando não demonstrar fraqueza para ele, mas isso só faz com que nossos lábios fiquem próximos. — Não sou sua noiva de verdade! — Murmuro. Sua mão aperta minha cintura, sinto uma corrente elétrica passar pelo meu corpo com o toque. Dominic nesse pouco tempo que conheço, é um homem muito discip
Ainda não me acostumei com o fato de ser "noiva" de Dominic e creio que nunca vou me acostumar. Sinto que estou no meio de algo, como se eu estivesse vendo apenas a ponta de um colossal iceberg. Dominic parece realmente ser um homem bom, com princípios e claro, ele é um mafioso, mas diferente de todos os criminosos que já ouvi falar, ele parecer um criminoso que segue certas leis, por mais que não todas. Olho para meu reflexo no espelho. Estou vestindo um vestido azul marinho, elegante. Não se compara, nem chega aos pés das roupas que madame Delaflor me fazia usar. A questão não é a qualidade está roupa, mas como este vestido não revela muito meu corpo. Já os vestidos da madame Delaflor eram feitos para mostrar cada fração do meu corpo para aqueles homens nojentos. Duas batidas na porta chamam minha atenção. Eleanor entra com um casaco na mão. — Vai esfriar, criança. Leve isso com você! — Ela diz me entregando o casaco. Abro um leve sorriso a ela. Olho para o espelho novame
Olho fixamente para Dominic, vendo seus olhos passearem pelas minhas pernas descobertas, caminhando até meus seios cobertos pelo vestido e depois seus olhos se encontram com meus olhos. — Muitas mulheres gostariam de ser minhas mulheres! — Ele provoca. Reviro os olhos. — Coloque uma roupa para termos uma conversa civilizada! — Murmuro. Ele abre um leve sorriso, mas vai para seu closet. Solto um suspiro, passo a mão nos cabelos e não deixo de abrir um sorriso escondido, lembrando de seu corpo musculoso.Fico um pouco nervosa, ainda lembrando da expressão no rosto de Dominic quando decidiu me provocar daquela maneira. Por mais que eu tente me concentrar no motivo pelo qual estou ali, minha mente insiste em voltar àquela imagem, como se tivesse decidido me torturar com uma lembrança que eu definitivamente não precisava ter guardado tão bem. Aperto os lábios e respiro fundo, tentando colocar os pensamentos no lugar.Dominic Ackles.O Don da máfia.Um homem que, aparentemente, tinha po
A tarde chegou mais rápido do que eu esperava.Passei boa parte do dia tentando me acostumar com a casa, com os funcionários que me tratavam com uma delicadeza que eu ainda não sabia receber e, principalmente, com a informação absurda que Eleanor havia me dado naquela manhã. Quanto mais eu pensava naquilo, mais perguntas surgiam em minha cabeça.A mulher do Don.Aquelas palavras continuavam ecoando dentro de mim.Eu não era mulher de Dominic. Não podia ser. Nós mal nos conhecíamos. Ele havia me tirado do bordel, me levado para aquela casa e dito que eu estava sob sua proteção. Em nenhum momento mencionara casamento, noivado ou qualquer tipo de relacionamento entre nós. Então por que todos naquela casa pareciam ter certeza de algo que eu desconhecia?No meio da tarde, não consegui mais suportar a dúvida.Encontrei Eleanor no corredor e caminhei até ela.— Eleanor?A governanta se virou imediatamente.— Sim, querida?— O Dominic já voltou?Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.— Sim
Na manhã seguinte, acordei com a sensação estranha de que havia dormido por muito mais tempo do que realmente dormi. Durante alguns segundos, permaneci deitada, encarando o teto, tentando entender onde estava. O quarto silencioso, a cama macia e a luz suave que atravessava as cortinas não combinavam com as lembranças que eu tinha antes de dormir.Então me lembrei.A casa.Dominic.A noite anterior.Meu coração acelerou levemente quando a imagem dele surgiu em minha mente, principalmente aquele último olhar antes de sair da sala de jantar. Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento, e me sentei na cama.Eu ainda precisava descobrir como aquela nova vida funcionava.Depois de tomar banho e me arrumar, saí do quarto e encontrei uma mulher parada no corredor. Ela aparentava ter pouco mais de cinquenta anos, usava um vestido elegante e discreto, os cabelos grisalhos presos cuidadosamente em um coque e carregava uma pequena prancheta junto ao corpo. Assim que me viu, abriu um sorriso
Continuamos jantando em silêncio por alguns minutos. O som dos talheres contra a porcelana era praticamente a única coisa que preenchia a sala, mas, estranhamente, aquele silêncio não me incomodava. Talvez porque fosse diferente dos silêncios que conheci durante toda a minha vida. Não havia ameaça escondida nele. Não havia alguém esperando que eu fizesse alguma coisa. Era apenas... silêncio.Levanto os olhos por acaso e encontro os de Dominic.Ele já estava olhando para mim.Meu coração dá uma pequena batida descompassada.Desvio o olhar imediatamente para o prato, fingindo que estou concentrada na comida, mas consigo sentir o peso daquele olhar ainda sobre mim. Alguns segundos depois, crio coragem para olhar novamente.Dessa vez, ele já não está me observando.Ou talvez estivesse apenas esperando que eu acreditasse nisso.— A comida está boa? — pergunta.— Está. — respondo rapidamente.Um pequeno silêncio se instala novamente.— Você sempre responde tão baixo?Franzo a testa.— Como?







