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Capítulo 2

Author: Moore
Subi as escadas num estado de torpor completo e larguei o buquê em cima da penteadeira sem cerimônia nenhuma.

Theo sempre foi assim — simples na forma de amar.

Uma folha que ele encontrava pelo caminho. Uma flor colhida às pressas. Um desenho rabiscado numa folha amassada de caderno...

Eu guardava tudo. Cada coisa que ele me dava eu tratava como se fosse ouro — convencida de que aquilo era o presente mais precioso que uma mãe podia receber.

Mas hoje entendi, pela primeira vez, o que significava Theo realmente querer dar tudo a alguém.

E não era a mim.

Segurei as lágrimas com o que restava de força e fui buscar no fundo do armário a caixa onde guardava cada lembrança que ele me dera ao longo dos anos. Trouxe para o meio do quarto.

Eram minhas coisas mais preciosas. Eu tinha planejado guardá-las para sempre.

Agora não queria mais nenhuma.

— Amor, o que você está arrumando?

Rafael empurrou a porta e entrou. Ao ver a bagunça espalhada pelo chão, franziu levemente a testa.

Pausei o que estava fazendo e disse com a voz mais leve que consegui:

— A casa estava desarrumada. Estou organizando.

Ele cruzou o quarto, me puxou pelos ombros e me envolveu por trás, o queixo pousado no meu cabelo.

— Deixa isso para os funcionários, você não precisa se desgastar com isso. Sua saúde nunca foi lá essas coisas — precisa descansar mais.

Olhou ao redor do quarto que estava ficando vazio e de repente sorriu, com aquele brilho no olhar que eu conhecia tão bem:

— Você está esvaziando espaço de propósito... é para os presentes do nosso aniversário?

Apertou levemente meu nariz com dois dedos, os olhos cheios de uma antecipação quase infantil.

— Ainda bem que preparei bastante coisa. Acho que vai encher o quarto inteiro.

— Já estou ansioso para amanhã chegar!

Hesitei por um longo momento. Mas no fim perguntei mesmo:

— Rafael... você vai ficar comigo o dia todo amanhã?

Ele piscou, levemente surpreso. Depois inclinou o rosto e pressionou os lábios na minha testa.

— Que pergunta é essa? Em qual aniversário eu não fiquei do seu lado o tempo todo? Esse dia é importante demais.

Insisti, sem conseguir parar:

— E se surgir alguma coisa urgente? Você vai embora?

Rafael abaixou o rosto até o nível do meu. Os olhos cinza-azulados — aqueles olhos que eu aprendi a ler antes de aprender qualquer outra coisa — estavam completamente tomados pela minha imagem.

— Não existe nada mais importante do que você. Nem meu poder, nem minha posição, nem os negócios da família — nada no mundo me faria te abandonar num dia como esse.

A intensidade no olhar dele era real demais. Tão real que por um segundo eu quase acreditei que havia me enganado em tudo — que talvez eu fosse, de fato, o centro do mundo dele.

Abaixei a cabeça depressa, antes que ele lesse no meu rosto o que eu estava sentindo.

Rafael, essa é a última chance que estou te dando. Não me decepcione.

Ainda estava com o coração meio amolecido pelo que ele havia dito quando, naquela mesma noite, meu celular vibrou.

Era Isabela Voss.

Uma mensagem. E uma foto em anexo.

Na imagem, ela segurava duas caixas com o logo de uma joalheria de luxo — uma pulseira e um colar, reconheci na hora — e sorria para a câmera com Rafael e Theo ao lado, os três comemorando o aniversário dela como se fossem uma família.

A legenda era curta e venenosa:

"Você ainda não saiu? Seu marido e seu filho preferem minha companhia — isso já ficou bem claro. Como você ainda tem coragem de ocupar o lugar que é meu?"

As palavras entraram como uma faca direto no peito. Precisei sentar para não cair.

Isabela e eu sempre mantivemos esse contato sombrio. Cada vez que Rafael escorregava, ela me avisava — não por bondade, mas por prazer. Queria que eu soubesse. Queria que eu sentisse.

O que Rafael nunca imaginou era que tudo que ele escondia com tanto cuidado havia sido exposto pela própria amante, sem pena nenhuma.

Isabela Voss era o primeiro amor de Rafael — cresceram juntos, ela saiu do Brasil anos atrás e foi para a Europa, e durante esse tempo ele se casou comigo. Todo mundo sempre disse que eu me parecia muito com ela. Que eu era uma cópia, uma sombra. Que Rafael havia encontrado uma substituta enquanto esperava.

Até Isabela acreditava nisso. Por isso, quando voltou dois anos atrás com tudo que tinha, ficou certa de que Rafael me deixaria para ficar com ela. Era só uma questão de tempo.

Dois anos trabalhando em silêncio — conquistando Rafael, conquistando Theo, afastando os dois de mim aos poucos, com uma paciência calculada que eu subestimei completamente.

Agora ela não queria mais ficar na sombra. Queria o meu lugar. Queria tudo que era meu — com nome, com título, com a cadeira à cabeceira da mesa.

Normalmente eu ignorava as provocações dela. Era o que eu sempre fazia.

Mas naquela noite, com as palavras de Rafael ainda ecoando na minha cabeça, digitei uma resposta antes mesmo de pensar:

"Amanhã é nosso quinto aniversário. Se você for capaz de tirá-lo do meu lado nesse dia — pode ficar com o meu lugar. Pode ficar com tudo."

Isabela demorou alguns segundos para responder. Imagino que ficou surpresa.

Mas quando respondeu, foi com a confiança de quem nunca duvidou de si mesma:

"Espero que você cumpra o que prometeu. Não importa a hora — um telefonema meu e ele larga tudo para me encontrar. Sempre foi assim."

Coloquei o celular na cama e olhei para o teto por um longo tempo.

Rafael, o relógio começou a correr.

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