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Donna: Entre a Vida e a Mentira
Donna: Entre a Vida e a Mentira
Author: Moore

Capítulo 1

Author: Moore
Implorei ao meu amigo de infância, Lucas Ferreira:

— Você vai me ajudar? Hoje em Valcrest, a única pessoa capaz de enfrentar Rafael Monteiro de igual para igual é você. Só com sua ajuda eu consigo sair dessa — fingindo minha própria morte.

Lucas Ferreira comandava a maior família da Máfia de Sintra. Para um homem como ele, forjar um acidente fatal era mais fácil do que assinar um contrato.

Mas ele não respondeu de imediato. Me encarou com aquele olhar pesado e impenetrável que eu conhecia desde criança, e perguntou:

— Mara... você realmente está disposta a abrir mão de tudo? Cinco anos de casamento. Um filho que você criou com as próprias mãos. Se fingir que morreu, perde tudo — sem volta.

Baixei os olhos para a foto que segurava.

Na imagem, Rafael carregava Theo no colo com um braço e me prendia pelo ombro com o outro — firme, possessivo, do jeito que só ele sabia ser. Mas não estava olhando para a câmera. Estava olhando para mim. Com aquele olhar baixo e macio, cheio de uma ternura que parecia não ter fundo.

Todo mundo que via aquela foto dizia a mesma coisa: que ele me amava demais para ser real.

.....

No dia do nosso casamento, ele mandou distribuir envelopes de dinheiro por cada esquina de Valcrest — queria que a cidade inteira celebrasse junto com a gente. Não foi um gesto, foi uma declaração pública. O estilo de quem nunca fez nada pela metade.

Quando Theo nasceu, o parto quase me matou. Rafael ficou dois dias e duas noites na cadeira ao lado da minha cama — sem dormir, sem comer direito, sem largar minha mão. Quando abri os olhos e o encontrei com o rosto destruído de choro, ele prometeu com voz partida que nunca mais me deixaria passar por algo assim. Que Theo seria seu único filho. Que ele não precisaria de mais nada além dele.

E cumpriu. Por mais que os negócios da família consumissem seus dias e suas noites, Rafael nunca deixou o peso de criar Theo cair sobre mim. Acordava cedo, resolvia tudo, aparecia em casa a tempo do jantar. Sempre.

Fomos tão felizes. O tipo de família que as pessoas de fora olhavam e suspiravam de inveja.

Durante cinco anos, ele me blindou do mundo. E Theo cresceu igual ao pai — do jeitinho sério e cuidadoso que só uma criança que cresce dentro de uma família como a nossa desenvolve. Ele me protegia à sua maneira, com abraços e bilhetinhos dobrados embaixo do travesseiro.

Jamais imaginei que os dois — meu marido e meu filho — fossem capazes de esconder alguma coisa de mim. Muito menos isso.

Uma lágrima quente caiu sobre a moldura da foto.

Levantei os olhos. Encarei Lucas com tudo que ainda me restava de firmeza e disse:

— Sim. Estou disposta a abrir mão de tudo. Que Mara Silveira morra diante de Rafael Monteiro — que ele assista com os próprios olhos. E que isso corte de vez qualquer lembrança que ele ainda tiver de mim.

Se não podia ir embora de cabeça erguida — que ele ao menos me visse desaparecer para sempre.

Nessa vida, eu não voltaria a cruzar com nenhum dos dois.

Lucas ficou em silêncio por um tempo que pareceu longo demais. Depois disse, com a voz de quem acabou de tomar uma decisão séria:

— Se é isso que você quer... então que seja feito.

Ele propôs um acidente de carro encenado. A data: dali a três dias — o nosso quinto aniversário de casamento.

— Mara, preciso te avisar de uma coisa — disse ele, franzindo levemente a testa. — Todo ano, nessa data, Rafael não te deixa sair do alcance dele um segundo sequer. Você tem certeza que vai conseguir uma janela para executar o plano?

Até Lucas, distante em Sintra, sabia exatamente como Rafael me cercava. Esse era o tipo de informação que circulava quando se falava de um homem com o peso que Rafael Monteiro carregava no submundo de Valcrest.

— Se ele não se afastar nenhuma vez... o plano fica cancelado — respondi com a voz rouca, estranha aos meus próprios ouvidos. — Essa será a última chance que vou dar a ele.

Com tudo acertado, voltei para a Mansão Verano carregando um cansaço que ia fundo demais para ser só do corpo.

Mal empurrei o portão e Theo veio correndo pelo corredor, segurando com as duas mãos um buquê de flores silvestres — coloridas, tortas, cheias de vida imperfeita.

— Mãe! Onde você foi? Por que demorou tanto?

Ele se jogou nos meus braços do jeito que sempre fez — sem aviso, com tudo — e estendeu as flores com um sorriso que tomou o rosto inteiro:

— Colhi essas flores com as minhas próprias mãos! Gostou?

E antes que eu respondesse, completou, inflando o peito com orgulho:

— O papai quis ajudar, mas eu não deixei. Fui eu sozinho — sou bom demais, né, mãe?

Me olhou esperando aprovação com aquela carinha que nenhuma mãe no mundo consegue resistir.

Meu coração amoleceu todo de uma vez.

Peguei ele no colo, pressionei os lábios na testa quente e disse baixinho:

— Obrigada, meu amor. Mãe adorou.

Theo saiu satisfeito, passo leve, o mundo dele em ordem.

Subi com o buquê na mão, procurando um vaso para deixar na cabeceira. Lembrei que tinha levado o vaso para a cozinha — virei para buscar.

E foi no meio da escada que ouvi, sem querer, a conversa na sala.

A voz de Rafael, séria e baixa:

— Theo, a pulseira de diamantes que você mandou encomendar com todo o seu dinheiro de mesada — onde guardou? Não era um presente para a sua mãe?

E a voz do meu filho, tranquila, natural, como se fosse a coisa mais normal do mundo:

— Não, pai. Aquela é para a tia Isabela. E o colar que você comprou hoje também — guarda pra gente levar pra ela. Foi o que a gente combinou.

Fiquei parada no meio da escada.

Olhei para o buquê torto e barato que segurava nas mãos — flores que uma criança colheu no jardim para a mãe.

Flores que, naquele momento, soaram como a pior das piadas.

Não senti raiva.

Senti apenas o silêncio pesado de quem finalmente entendeu que estava se iludindo sozinha — e que já fazia tempo.
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