Share

Capítulo 6

Author: Luna Valença
A arrogância estampada no rosto de Henrique foi a gota d'água para Cecília.

Sem pensar duas vezes, ela avançou e lhe deu um tapa com toda a força.

— Você é desprezível! Como teve coragem de usar a minha família para me ameaçar?

Henrique ficou imóvel por um instante. A raiva lhe subiu ao peito, violenta, mas ele se conteve.

Depois de tudo o que precisara fazer para obrigá-la a aparecer, não podia perder o controle agora.

— Já terminou o seu escândalo? Já me bateu, já descontou a raiva. Está satisfeita? Então chega. Pegue suas coisas e volte para casa.

Cecília sustentou o olhar dele.

— Eu já disse. Quero me divorciar de você.

A pouca paciência de Henrique desapareceu.

— Não passe dos limites. Eu sei que errei naquele dia, por isso deixei você fazer esse drama todo. Mas até birra tem hora para acabar. Quando passa do ponto, só fica irritante.

Cecília quase riu.

Aquilo era tão absurdo que chegava a ser ridículo.

— Então eu devia agradecer pela sua generosidade? Pela bondade de ainda não ter perdido a paciência comigo?

Henrique ignorou o sarcasmo como se não tivesse ouvido.

— Pelo menos entendeu. Agora arrume suas coisas e volte para casa. Assim que você voltar, eu retomo a parceria com o Grupo Almeida. E o empréstimo do banco também pode ser aprovado imediatamente.

Cecília fechou as mãos com tanta força que as unhas quase feriram as palmas.

Precisou de todo o autocontrole que ainda lhe restava para não acertá-lo de novo.

Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Henrique.

Ele ergueu a mão e acariciou o rosto dela com uma falsa delicadeza que tornava a ameaça ainda mais evidente.

— Você sabe do que eu sou capaz. Seja boazinha e não me obrigue a perder a paciência. Volte para casa comigo.

Cecília o encarou, fervendo de raiva.

Não havia como fingir que aquilo era outra coisa.

Era uma ameaça.

Se ela insistisse em enfrentá-lo, Henrique seria perfeitamente capaz de destruir a família Almeida até não sobrar nada.

E Cecília sabia muito bem que ele faria isso.

Com exceção de Isadora, Henrique nunca aceitara ser contrariado. Era implacável, obstinado e acostumado a conseguir tudo o que queria.

Ele não a amava.

Portanto, também não tinha motivo algum para poupá-la.

Leonardo, que até então observava os dois, finalmente percebeu que havia algo errado.

Ele puxou Cecília para perto e a fitou com seriedade.

— Ceci, fala a verdade pra mim. Ele fez alguma coisa com você? Se fez, vem para casa comigo. Não importa se o Grupo Almeida for à falência, se a gente perder tudo ou até se não puder mais ficar nesta cidade. Eu não vou deixar você sofrer por causa desse homem.

O peito de Cecília se contraiu.

A garganta fechou, e seus olhos começaram a arder.

Naquele instante, só conseguia pensar em uma coisa.

"Eu não posso deixar meu pai e meu irmão pagarem pelo fracasso do meu casamento."

Tinha sido ela quem insistira em se casar com Henrique, apesar da oposição de todos.

Se agora estava destruída por dentro, aquilo dizia respeito às escolhas dela.

Sua família não tinha culpa de nada.

— Mano, eu estou bem! Eu... Eu só tive uma briguinha com ele. Não foi nada demais.

O pai e o irmão sempre a haviam tratado como o bem mais precioso da família.

E era justamente por amá-la tanto que ela não podia arrastá-los para aquela confusão.

Leonardo não acreditou nem por um segundo.

— Para de mentir pra mim. Você amava esse homem mais do que tudo. Se chegou ao ponto de pedir o divórcio, é porque aconteceu alguma coisa. O Grupo Almeida pode não ter o mesmo poder que a família dele, mas, se esse desgraçado fez você sofrer, eu não estou nem aí se vou perder tudo. Mesmo que eu tenha que cair junto, eu enfrento ele por você.

As lágrimas que Cecília vinha segurando finalmente transbordaram.

Ela se jogou nos braços do irmão.

— Mano, eu estou falando sério. Não aconteceu nada! Eu vou conversar com o Henrique e resolver isso com ele. O que acontece entre marido e mulher, a gente resolve entre a gente.

Leonardo a abraçou, ainda desconfiado.

— Está falando sério mesmo?

Cecília assentiu.

— Estou. Você me conhece. Eu nunca minto.

Só então ele pareceu relaxar um pouco.

Depois de se despedir do irmão, Cecília decidiu que precisava resolver aquilo de uma vez com Henrique.

— Henrique, por que você se recusa tanto a aceitar o divórcio? Se a gente se separar, você finalmente vai poder ficar com a Isadora às claras, sem precisar esconder nada.

Henrique abriu a boca para responder, mas não teve tempo.

Samuel, seu assistente, entrou às pressas.

— Sr. Henrique, o senhor Bruno acabou de ligar. Mandou o senhor e a Sra. Cecília irem imediatamente para a mansão da família.

Henrique estreitou os olhos.

— Ele disse o que aconteceu?

Samuel foi direto ao ponto.

— Perguntou sobre o divórcio do senhor e da Sra. Cecília. Imagino que seja por causa disso.

Henrique fez um gesto curto com a mão.

— Entendi.

Cecília apertou os dedos, tensa. Em poucos segundos, as palmas de suas mãos já estavam úmidas de suor.

A mansão da família Ferraz era um verdadeiro pesadelo para ela.

Os Ferraz nunca a haviam considerado boa o bastante para Henrique. Na visão deles, sua origem e até sua aparência estavam muito abaixo do que ele merecia.

Por isso, sempre encontravam algum defeito, alguma desculpa para humilhá-la ou dificultar sua vida.

Cada visita àquela casa era um tormento.

Se não saía de lá morta, saía em pedaços.

Ainda assim, não tinha como se recusar a ir.

Cecília voltou à mansão com Henrique.

Antes mesmo de atravessar a entrada, aquela velha sensação de sufocamento já lhe apertava o peito.

Por um instante, teve vontade de dar meia-volta e fugir.

Não teve chance.

O mordomo da família Ferraz já vinha em sua direção.

Com a mesma expressão fria de sempre, anunciou:

— Sra. Cecília. O Sr. Bruno, o Sr. André e a Sra. Lorena estão esperando lá dentro.

O estômago de Cecília se revirou.

Todos estavam ali.

Aquilo mais parecia um tribunal montado especialmente para julgá-la.

Sem alternativa, ela acompanhou o mordomo pelo jardim de pedras ornamentais até o salão principal.

Bruno, avô de Henrique, ocupava o lugar de honra. Ao lado dele estava André, pai de Henrique. Um pouco abaixo, sentava-se Lorena, sua mãe.

Do outro lado de Bruno estava Isadora.

Bastou vê-la para Cecília entender tudo.

"Então era isso."

Isadora tinha se metido no assunto outra vez.

Cecília já achara estranho que, menos de vinte e quatro horas depois de falar em divórcio com Henrique, a notícia tivesse chegado à mansão.

Ao longo dos anos, Isadora nunca perdera uma oportunidade de colocar lenha na fogueira. Se ela não passasse tanto tempo alimentando intrigas, talvez os Ferraz não tivessem desenvolvido uma antipatia tão grande por Cecília.

Assim que a viu entrar, Isadora assumiu uma expressão inocente.

— Cecília, me desculpa. Eu não queria contar para o vovô e para os outros que você queria se divorciar do Rique! Foi a tia que me perguntou, do nada, por que ele estava indo contra o Grupo Almeida. Eu acabei deixando escapar sem querer.

Cecília ficou olhando para ela, sem saber se ria ou se sentia ainda mais irritada.

Henrique demonstrou impaciência, mas Isadora se antecipou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

— Rique, me desculpa também. Você sabe como eu sou. Falo o que penso e não sei guardar segredo. E a tia é tão esperta que bastaram duas ou três perguntas para arrancar tudo de mim.

Henrique engoliu o que estava prestes a dizer.

Quando respondeu, o tom já havia mudado.

— Tudo bem. Você não fez por mal.

Um sorriso irônico surgiu nos lábios de Cecília.

Sem pressa, ela caminhou até Isadora.

— Cecília, me desculpa, eu...

Isadora falava com falsa culpa, quase como se fosse a ofendida da história.

Mas o olhar que lançava a Cecília deixava clara a provocação.

Ela não conseguiu terminar.

Cecília pegou a xícara de chá ainda fumegante sobre a mesa e jogou o conteúdo diretamente em seu rosto.

— Ah!

Isadora soltou um grito.

O chá escaldante avermelhou sua pele no mesmo instante. Ela recuou em pânico, levando as mãos ao rosto.

Henrique e Bruno explodiram ao mesmo tempo:

— Cecília, o que você está fazendo?

Cecília nem piscou.

— Vocês estão cegos? Não estão vendo?

O salão mergulhou em silêncio.

Henrique e o avô a encararam, incrédulos.

Cecília sempre fora cuidadosa, obediente e comedida diante daquela família. Nenhum dos dois imaginava que ela ousaria enfrentá-los daquela forma.

Henrique endureceu a expressão.

— Cecília, você tem noção do que está dizendo?

Ela não demonstrou o menor sinal de intimidação.

— Já que a Isadora não sabe controlar essa língua venenosa, resolvi dar uma ajudinha. Talvez assim aprenda a pensar antes de falar.

Isadora se virou para ela, furiosa.

— Cecília, sua vadia! Você teve coragem de jogar chá quente em mim?

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Dormi com o Herdeiro no Meu Aniversário de Casamento   Capítulo 100

    Cecília e Henrique passaram um mês convivendo daquela forma, sem grandes conflitos.Dante, porém, continuava sem dar qualquer notícia.Cecília chegou a ligar algumas vezes, mas a chamada sempre caía numa mensagem automática informando que ele estava ocupado e não podia atender.Valentina se recusava a acreditar que Dante fosse tão irresponsável assim.Por isso, foi pessoalmente até a Universidade de Vale Sereno procurar informações.Assim que descobriu o que havia acontecido, correu para contar tudo a Cecília.Valentina tomou um grande gole de água. O rosto estava vermelho de tanta raiva.— Eu estou furiosa! Acabei de ir até a Universidade de Vale Sereno perguntar por ele. O Dante já voltou para a faculdade! Voltou há meio mês! Agora está acompanhando o professor numa banca de defesa em outra universidade.Cecília ficou surpresa.— Tem certeza de que não confundiram a pessoa?Valentina assentiu com força.— Certeza absoluta. Eu perguntei direitinho: Dante, calouro de Ciência da Computa

  • Dormi com o Herdeiro no Meu Aniversário de Casamento   Capítulo 99

    Cecília percebeu que não havia saída fácil.Se insistisse em resistir, poderia arrastar toda a família Almeida para uma guerra contra os Ferraz.Mas voltar significava entrar novamente no lugar de onde tinha lutado tanto para sair.E, pior de tudo, ela não podia contar a verdade.Bruno talvez até aceitasse que Henrique tivesse traído Cecília.Mas jamais aceitaria descobrir que ela, ainda casada, havia engravidado de outro homem.Se isso viesse à tona, os Almeida inevitavelmente seriam envolvidos nas consequências.A presença de Bruno era sufocante, mas Leonardo não recuou nem um centímetro.Ergueu o queixo e sustentou o olhar do velho.— Então o senhor pretende usar o poder da família Ferraz para nos obrigar?Bruno deu um sorriso indiferente.— Se é assim que você quer entender, fique à vontade.Leonardo respirou fundo, contendo a irritação.— A família Almeida realmente não pode ser comparada à família Ferraz. Mas isso não significa que vamos abaixar a cabeça só porque vocês têm mais

  • Dormi com o Herdeiro no Meu Aniversário de Casamento   Capítulo 98

    Cecília olhou para Bruno, sentado no sofá, depois para a quantidade impressionante de presentes e compensações espalhados pela sala.Por alguns segundos, nem soube como reagir.— Vovô... O que significa tudo isso?Bruno apontou para a pilha diante dele e respondeu com toda a naturalidade:— Eu já sei de tudo o que o Rique fez. Nesses últimos tempos, a família Ferraz realmente foi injusta com você. Considere isso uma forma de compensação. Uma mansão avaliada em trezentos milhões, cinco por cento das ações do Grupo Ferraz, além de joias e bolsas de luxo.Cecília ficou sem palavras.Helena, Emerson e Leonardo também encararam aquela demonstração de "sinceridade" em absoluto silêncio.Henrique se levantou, foi até Cecília e segurou a mão dela.— Ceci, o vovô disse que, quando o bebê nascer, vai transferir mais dez por cento das ações para ele. Somando tudo, serão quinze por cento.Cecília quase perdeu a fala.Quinze por cento do Grupo Ferraz.Era uma fortuna com a qual incontáveis pessoas

  • Dormi com o Herdeiro no Meu Aniversário de Casamento   Capítulo 97

    A conversa com Dante continuava parada nas últimas mensagens que Cecília havia enviado.[Não espero que você assuma nenhuma responsabilidade. Eu posso criar esse bebê sozinha. Se quiser, até posso te dar algum dinheiro como forma de agradecimento.][Se você preferir não se envolver, podemos encerrar tudo por aqui.]Já fazia vários dias.E, até agora, nenhuma resposta.O que aquele silêncio significava, afinal?Irritada, Cecília colocou o celular no silencioso, apagou a luz e foi dormir.Depois de ser barrado na entrada, ela imaginou que Henrique finalmente entenderia o recado e iria embora.Mas não.Ele passou a noite inteira diante da casa da família Almeida.Ao amanhecer, começou a cair uma chuva torrencial.Ainda assim, Henrique não saiu dali.Ficou parado sob a chuva, em silêncio, como se estivesse disposto a esperar o tempo que fosse preciso.— Senhora, o Sr. Henrique já está debaixo dessa chuva há duas horas! Se continuar assim, vai acabar passando mal!Cecília abriu a cortina.D

  • Dormi com o Herdeiro no Meu Aniversário de Casamento   Capítulo 96

    Henrique entrou no quarto e parou de repente.A cama estava vazia. O uniforme do hospital havia sido largado sobre o colchão, mas Cecília não estava em lugar nenhum.Por um instante, Henrique ficou completamente desorientado.Com as mãos trêmulas, puxou o celular do bolso e ligou para ela.A chamada tocava, mas ninguém atendia.Sequestro?Assassinato?Extorsão?Só quando ouviu a voz de Cecília do outro lado da linha é que conseguiu respirar um pouco melhor.— Onde você está? Por que saiu do hospital?— Voltei para a casa dos meus pais.Henrique ficou sério na mesma hora.— O que você foi fazer lá?— E eu devia ficar no hospital esperando morrer? Henrique, pode ter certeza de uma coisa: a Isadora falhou dessa vez, mas vai tentar de novo. Eu não vou ficar parada num quarto de hospital esperando ela encontrar outra maneira de acabar comigo.Ele se calou por um instante.— Isso não vai acontecer. Eu fui falar com a Isa, ela...Cecília não tinha a menor paciência para ouvi-lo defender Isado

  • Dormi com o Herdeiro no Meu Aniversário de Casamento   Capítulo 95

    Isadora pegou o celular, ainda sem entender.Mas bastou olhar para a tela para perder toda a cor do rosto.Por alguns segundos, ficou paralisada, sem saber como reagir.Ali estavam as conversas entre ela e o homem que havia contratado.E também os registros do rastreamento do IP.Henrique sabia?Observando cada mínima mudança em sua expressão, ele já não precisava de mais nenhuma confirmação.Num movimento brusco, segurou o pulso dela e a encarou com frieza.— Por que você fez isso? Você tem ideia de que a Ceci está grávida do meu filho?Isadora nunca o tinha visto daquela forma.Pela primeira vez, sentiu medo de verdade.— Eu também estou grávida do seu filho!Henrique respondeu sem hesitar:— Não é a mesma coisa! O seu filho foi um acidente. O filho da Ceci é fruto do nosso amor!Isadora ficou imóvel.Por um instante, aquelas palavras a atingiram com mais força do que esperava.Ela o encarou, incrédula, arrancou o pulso de sua mão e o empurrou com força.— Então o que eu sou para voc

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status