INICIAR SESIÓNLara acordou com o corpo ainda marcado pelo fantasma do beijo da noite anterior. O calor da boca de Enzo, a pressão firme de sua mão na nuca, o modo como ela havia se derretido contra ele... Por um segundo traiçoeiro, um arrepio de desejo percorreu sua espinha.
Então o celular vibrou. E vibrou. E vibrou.
Centenas de notificações. Milhares.
Ela abriu o primeiro link com os dedos gelados. O vídeo estava em todos os lugares. Nítido. Íntimo. Indecente. O ângulo era perfeito, capturado como se alguém soubesse exatamente onde se posicionar. Via-se claramente a mão de Enzo segurando sua nuca como se fosse dona dela, o modo como seu corpo traidor se moldava ao dele, o gemido abafado que escapara de sua garganta.
O título da matéria mais compartilhada do país estampava em letras garrafais:
“Herdeira falida se vende para bilionário Enzo Ravelli em troca de proteção e dinheiro”
O celular escorregou de sua mão e caiu no tapete. Lara mal conseguia respirar. Os comentários eram um massacre:
“Coitada? Kkkk oportunista barata.”
“Pobretona abriu as pernas e resolveu a vida.”
“Primeiro a família, agora o bilionário. Clássico.”
“Alguém salva o Enzo dessa vadia interesseira.”
A náusea subiu violenta. Lara correu para o banheiro e vomitou até não restar nada. Quando voltou, cambaleante, o telefone fixo do apartamento tocou.
Era a secretária de Enzo.
— Senhorita Ventura, o senhor Ravelli pediu que não saia do quarto por enquanto. Ele está resolvendo tudo.
Resolvendo tudo.
A frase tinha gosto de cinzas. Como se fosse possível apagar o que o Brasil inteiro já havia consumido.
Lara ligou a televisão com as mãos trêmulas e lá estava ela.
Helena Ventura, maquiada impecavelmente, olhos marejados, sentada no sofá de um famoso programa matinal. A legenda dizia: “Mãe de Lara Ventura quebra o silêncio”.
— Eu criei minha filha com valores cristãos — soluçava Helena, limpando uma lágrima que Lara sabia ser completamente falsa. — Mas depois da morte do pai dela, ela se perdeu. Se vendeu para aquele homem poderoso. Eu implorei para ela não fazer isso... mas Lara sempre escolheu o caminho mais fácil. Vender o próprio corpo para pagar as dívidas da família... é uma vergonha que eu vou carregar para sempre.
O apresentador balançava a cabeça com falsa compaixão. O chat do programa explodia em emojis de corações partidos e “coitada da mãe”.
Lara sentiu o chão sumir.
A traição era tão profunda, tão perfeita, tão cruel, que ela nem conseguiu chorar. Apenas ficou parada no centro do quarto, abraçando o próprio corpo como se tentasse impedir que ele se desmanchasse ali mesmo.
A porta se abriu com um estrondo e Enzo entrou como uma tempestade negra. O terno impecável contrastava violentamente com a fúria que irradiava dele. Seus olhos encontraram os dela e, por um milésimo de segundo, a máscara caiu. O que Lara viu foi puro instinto assassino misturado com algo ainda mais perigoso: possessividade absoluta.
— Eu vou destruir todos eles — rosnou, a voz baixa e letal. — Cada jornalista. Cada site. Cada verme que ousou te humilhar. E sua mãe... — Ele deu um passo à frente, o maxilar travado. — Sua mãe vai implorar por misericórdia quando eu terminar com ela.
Lara ergueu o olhar. Sua voz saiu rouca, quase quebrada:
— Ela disse na televisão nacional que eu me vendi, Enzo. Que eu sou uma puta que abriu as pernas para pagar dívida. O país inteiro está assistindo.
Enzo atravessou o quarto em três passadas e segurou o rosto dela com as duas mãos. Seus polegares limparam as lágrimas que Lara nem havia percebido que caíam. O toque era firme. Quase doloroso. Deliciosamente possessivo.
— Olhe para mim. — A voz dele desceu para um tom grave, íntimo, que reverberou no peito dela. — Você não é o que eles dizem. Você não é propriedade deles. Você é minha. E eu protejo o que é meu queimando tudo que o ameaça.
A intensidade daquelas palavras deveria tê-la aterrorizado.
Em vez disso, Lara se agarrou a elas como uma sobrevivente se agarra à única tábua em alto-mar.
Antes que pudesse responder, o celular dela tocou novamente. O nome na tela fez seu estômago revirar. Mateus.
— Não atenda — ordenou Enzo, a voz afiada como lâmina.
Mas Lara, condicionada por anos de medo e culpa, atendeu e colocou no viva-voz.
A voz de Mateus saiu melosa, suja, triunfante:
— E aí, irmãzinha famosa? Eu e a mãe acabamos de ver o vídeo. Parabéns, hein? Finalmente útil pra caralho. Mas a gente precisa de mais. Muito mais. Se não tirar uns cinco milhões dele até amanhã à noite... a gente vai vazar aquelas fotos que você mandou pro seu ex dois anos atrás. Aquelas bem safadinhas. Os Ortega já fizeram uma oferta boa. O público vai pagar ainda mais. Imagina o título: “Herdeira pornô se vendeu pro bilionário”.
Mateus riu baixo, um som podre.
— Você tem até amanhã, Lara. Ou sua carinha de santa vira estrela de site pornô nacional. Escolhe.
A ligação caiu.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Lara ficou imóvel, o celular ainda colado na orelha, o corpo inteiro tremendo como se estivesse prestes a desmoronar.
Enzo não se moveu. Seus olhos haviam se transformado em dois buracos negros sem fundo. A fúria ali era tão densa, tão absoluta, que o ar parecia crepitar. Ele pegou o próprio celular, discou um número e esperou apenas dois toques. Quando a pessoa atendeu, Enzo falou com uma calma gélida que era mil vezes mais assustadora do que qualquer grito:
— É hora. Queime tudo. Família, reputação, empresas... quero os Ortega e os Andrade de joelhos até o fim da semana. E prepare uma mensagem especial para Helena Ventura. Diga a ela que quando eu terminar, ela vai desejar nunca ter parido a filha que eu agora possuo.
Ele desligou.
Então olhou para Lara como se estivesse vendo além da mulher destruída à sua frente e enxergando algo que já considerava irrevogavelmente dele.
— Você ainda pode correr, Princesa. — disse ele, a voz baixa e sombria. — Mas saiba de uma coisa: depois do que eu vou fazer com eles... não vai sobrar nada além de cinzas e sangue.
Enzo se aproximou, segurou seu queixo e selou os lábios nos dela num beijo curto, brutal e possessivo.
— E você vai assistir a tudo ao meu lado.
Lara sentiu o gosto metálico de medo e algo muito mais perigoso: desejo e pela primeira vez, ela entendeu a verdade profunda e aterrorizante. Ela não havia trocado uma prisão por outra. Ela havia entregado sua alma ao diabo e o diabo acabara de declarar guerra total para mantê-la. E o pior de tudo? Uma parte sombria dela queria ver o mundo queimar.
Capítulo 22— Cabelos brancos? Você está pensando longe demais.— Eu estou pensando em para sempre. E para sempre inclui cabelos brancos.Ela se aninhou nele, sentindo-se em paz.— Eu quero tudo isso também. E mais.— O quê?— Quero que a gente continue se desejando como no primeiro dia. Quero que a gente nunca se torne um casal acomodado. Quero que a paixão permaneça, mesmo quando o conforto chegar.Alexander sorriu.— Isso eu posso prometer. Porque eu nunca vou me cansar de te desejar. Nunca.Ele a puxou para o colo, e ela se encaixou perfeitamente, como se tivesse sido feita para aquele lugar.— E sobre o quarto de bebê? — perguntou Helena, a voz suave.— O que tem?— Eu tenho pensado... talvez não seja uma má ideia começar a tentar em breve.Alexander ficou imóvel, os olhos arregalados.— Você está falando sério?— Estou. Não quero apressar nada. Mas também não quero esperar demais. Eu te amo e quero construir uma família com você.O sorriso dele foi tão largo que iluminou todo o
Capítulo 21— Eu quero ter filhos com você, Alexander. Um ou dois. Talvez três. Mas não agora. Quero primeiro construir nossa vida juntos, viajar, dançar na sala, fazer amor sem hora marcada. Depois a gente pensa em fraldas e mamadeiras.— Combinado. O quarto de bebê fica pronto para quando a gente decidir.— Isso é um contrato?— É uma promessa.Ela sorriu.— Então é melhor escrever. Você sabe que eu levo contratos a sério.Alexander riu, rolando sobre ela.— Amanhã. Agora eu quero te mostrar outra coisa que essa cama pode fazer.— Outra coisa?— Tem um controle que ajusta a inclinação. E eu quero te foder de um jeito que a gente nunca tentou.Helena mordeu o lábio, os olhos brilhando.— Surpreende-me.Ele surpreendeu.E quando a noite caiu completamente, os dois estavam exaustos, satisfeitos e profundamente apaixonados.A vida era boa.A vida era deles.***Semanas depois, Helena estava no escritório da agência, assinando documentos, quando o celular vibrou novamente.Mensagem de Al
Capítulo 20As paredes eram de um tom suave de amarelo-claro, com delicados desenhos de nuvens pintados à mão. Um berço de madeira branca ocupava o centro do cômodo, coberto por um móvel de estrelas douradas. Havia uma poltrona de amamentação ao lado da janela, um trocador elegante, prateleiras com livros infantis e uma luminária em formato de lua que emitia um brilho suave.Helena ficou paralisada.— O que... o que é isso?Alexander estava ao lado dela, os olhos fixos em seu rosto.— É um quarto de bebê.— Eu vejo que é um quarto de bebê. Mas... por quê?Ele respirou fundo.— Porque eu quero ter uma família com você, Helena. Não agora, se você não quiser. Não amanhã. Mas um dia. Eu quero construir algo que vá além de nós dois. Algo que deixe marcas no mundo. E eu quero fazer isso com você.As lágrimas escorriam livremente pelo rosto de Helena.— Eu... eu não sei o que dizer.— Diz que não estou louco.Ela riu, soluçando.— Você é o homem mais surpreendente que eu já conheci.— Isso é
Capítulo 19Na tarde seguinte, Helena estava no escritório da agência, revisando os últimos detalhes da campanha vencedora, quando o celular vibrou.Ela reconheceu o som antes mesmo de olhar para a tela. Era o toque personalizado que ela havia configurado apenas para Alexander — uma versão suave de uma música que dançaram juntos naquela noite no apartamento dela, meses atrás.O coração de Helena deu um salto.Ela abriu a mensagem."Tenho uma surpresa esperando por você."Apenas isso. Nada mais.Helena sorriu, mordeu o lábio, sentindo o frio na barriga que só ele conseguia provocar. Por mais que o relacionamento deles tivesse amadurecido, Alexander ainda tinha o dom de fazê-la sentir-se como uma adolescente apaixonada diante do primeiro amor.Ela pegou a bolsa, avisou a secretária que sairia mais cedo e caminhou até o elevador.— Pode encerrar as reuniões de hoje — disse ela a Marina, que a observava com um sorriso cúmplice. — Algo urgente surgiu.— Claro, chefe. Divirta-se.Helena riu
Capítulo 18Depois da sobremesa, ele pediu um vinho do Porto e ficou em silêncio por um instante, como se escolhesse as palavras.— Tem uma coisa que eu quero te dar — disse ele, a voz baixa.— O quê?Alexander tirou uma pequena caixa do bolso do paletó. Era de veludo azul-marinho, simples e elegante.Helena sentiu o coração parar.— Alexander...— Calma. Não é um pedido de casamento tradicional. — Ele abriu a caixa. Dentro havia um anel de ouro branco com uma safira rodeada por pequenos diamantes. — É um símbolo. Do compromisso que construímos.Ela ficou imóvel, os olhos fixos no anel.— É lindo.— É metade do que você merece.Helena ergueu o rosto, os olhos brilhando.— Por que agora?— Porque eu passei a vida inteira acreditando que contratos serviam para controlar. Mas com você aprendi que existe outro tipo de contrato. Um que não amarra. Não limita. Um que escolhe, todos os dias, ficar.A lágrima escorreu silenciosa.— Nosso primeiro contrato foi um erro — disse ele, sorrindo.He
Capítulo 17O sol da manhã entrou pela janela da cobertura, desenhando padrões dourados sobre os lençóis pretos. Helena acordou devagar, o corpo ainda pesado de prazer e exaustão, a mente flutuando entre o sono e a vigília.Por um instante, ela se perguntou se tudo não passara de um sonho.Então sentiu o braço de Alexander ao redor da sua cintura, a respiração quente no seu pescoço, o cheiro inconfundível de pele masculina misturado ao perfume de cedro. Ele dormia profundamente, o rosto relaxado, os lábios entreabertos, o cabelo preto espalhado no travesseiro.Helena sorriu.Era real. Ele era real.Ela ficou imóvel por longos minutos, apenas observando-o dormir. Havia algo sagrado naquele momento: a ausência de máscaras, a vulnerabilidade exposta, a confiança absoluta de quem se permite descansar ao lado de alguém.Ela amava aquele homem. Amava o CEO implacável e o homem assustado por trás da armadura. Amava as contradições, as cicatrizes, os silêncios. Amava até o medo que ele carreg







