MasukAtravessar aquele salão ao lado de Joseph deveria parecer natural. E, de certa forma, parecia. O problema não era o que os outros viam. Era o que eu sentia.
Cada passo na direção de Andrew fazia meu corpo lembrar de coisas que minha mente estava tentando manter sob controle. Não era medo — eu me recuso a dar esse nome —, mas havia algo ali, uma tensão fina, quase elétrica, como se o meu próprio instinto estivesse em alerta máximo. — Devagar — Joseph murmura, quase sem mexer os lábios, enquanto cumprimenta alguém à nossa direita. — Eu sei andar — respondo, no mesmo tom. — Não é sobre isso. Eu não olho para ele, porque eu sei exatamente sobre o que é. Controle, respiração e presença. Tudo o que nós treinamos por meses. Eu ajusto a postura, relaxo os ombros, deslizo a mão pelo braço dele com naturalidade. O tipo de gesto que parece íntimo o suficiente para convencer, mas ensaiado o bastante para não trair nada além do que queremos mostrar. E então, chegamos perto o suficiente. Andrew levanta o olhar, primeiro, vê Joseph e sorri. Surpreso. — Sr. Peretti. — ele diz, estendendo a mão. — Não esperava te ver aqui. — Hale — Joseph responde, firme, controlado, apertando a mão dele. — O mundo é mesmo pequeno. Eles trocam aquelas frases vazias que homens usam para medir território sem parecerem óbvios. Eu apenas observo, silenciosa, calculando tudo. E então, os olhos dele chegam em mim, devagar. Dos pés à cabeça. O tipo de olhar que não tem pressa, nem vergonha. E um sorriso surge no canto dos lábios dele. Do lado dele, Estelle, grávida e bonita. Mas claramente incomodada com a falta de noção do marido. Eu não posso culpá-la. O olhar dela pesa em mim como uma pergunta que ela ainda não sabe formular. E, por dentro… Eu sorrio. — Hale — Joseph diz, dando um leve passo para o lado. — Essa é a minha esposa. Esposa. A palavra paira no ar por um segundo a mais do que deveria. — Carol Ann. Eu sorrio. Daqueles sorrisos treinados. Elegantes e seguros. — Prazer — digo, estendendo a mão primeiro para Estelle. — É um prazer conhecer vocês dois. Minha voz sai perfeita, estável. Como se não tivesse atravessado um inferno para chegar até ali. Andrew aperta minha mão em seguida. — O prazer é meu — ele responde, me olhando com mais atenção. Eu sustento o olhar dele, sem piscar, sem recuar. Mas por dentro, cada célula do meu corpo quer reagir, gritar, empurrar. Fazer com ele exatamente o que ele fez comigo. Então, eu apenas engulo a raiva. — Parabéns — digo, virando levemente o corpo para Estelle. — Vocês formam um casal lindo. Ela força um sorriso, mas Andrew não tira os olhos de mim. — Obrigado — ele responde. Joseph continua a conversa por mais alguns segundos, conduzindo tudo com uma naturalidade que me impressiona. Eu participo o mínimo necessário, sorrio quando preciso, respondo quando perguntam. E então, como combinado, nos afastamos sem pressa e sem drama. — Tudo saiu como esperado — Joseph murmura no meu ouvido assim que nos distanciamos o suficiente. — Ele não me reconheceu — respondo, mantendo o sorriso para quem passa. — Você está irreconhecível. Eu dou um gole no champanhe que peguei de uma bandeja qualquer. — Eu sei. — Mas isso não é suficiente — ele continua. — Você precisa entrar no personagem por completo. Eu inclino a cabeça. — Eu estou entrando. — Não — ele corrige, baixo. — Você ainda está pensando como Melinda. Eu paro por um segundo. Não fisicamente, mas por dentro. Ele está certo, e eu odeio isso. — Então me lembra quem eu sou agora — murmuro. — Alguém que não tem nada a perder — ele responde. Eu respiro fundo e continuo o meu teatro. *** Depois disso, eu faço exatamente o que qualquer boa atriz faria. Circulo. E deixo ser observada. Andrew não tenta disfarçar. Eu sinto o olhar dele em mim mais de uma vez, mesmo quando estou de costas. É até irritante. Ou satisfatório. Ainda não decidi. Quando entro no banheiro, preciso de alguns segundos. Apoio as mãos na bancada de mármore, olhando para o meu reflexo. — Você consegue — murmuro para mim mesma. Olhar para o meu reflexo, me faz questionar se devo continuar realmente o que estou fazendo. E dá um pouco de medo, porque se eu for descoberta por Andrew, corro um novo risco. Agora, eu sei do que ele é capaz. Quando saio, ajustando o vestido com um gesto automático, quase esbarro em alguém. Mas paro a tempo. Andrew. Claro. Porque o universo tem um senso de humor questionável. Ou talvez fosse a triste ilusão de que ele estava ali por minha causa. Ou, da Carol Ann. — Me desculpa — digo, antes que ele fale, levantando o olhar. Ele sorri. — Não foi nada. — Sabe — ele diz, inclinando levemente a cabeça. — Você me parece… familiar. Lá está o que eu queria. Eu sorrio, leve e despretensiosa. — Talvez a gente tenha se visto em algum evento — respondo. — Mas eu passo bastante tempo fora do país. Ele me observa muito mais atento agora. — Pode ser. Eu inclino levemente a cabeça, como quem considera. — Nova York é cheia de coincidências. — Ou de reencontros. Eu quase rio com a sua falta de respeito pela sua atual esposa. — Pode ser também. Ele dá um passo mais perto. Não o suficiente para invadir, só o bastante para testar. — Seu marido é um homem de sorte. Ah, se você soubesse. Eu cruzo os braços, relaxada. — Eu poderia dizer o mesmo de você. Ele parece satisfeito. Então eu continuo: — Principalmente agora que vai ser pai. O efeito é imediato. Sutil, mas inegável. O sorriso dele perde força, e os olhos desviam por um segundo, depois voltam. — É — ele diz. — Uma nova fase. — Sua esposa está linda — acrescento, doce demais. — A gravidez combina com ela. Ele me olha. — Obrigado — ele responde, mais contido. Eu sorrio vitoriosa. — Bom… — dou um passo para o lado. — Eu deveria voltar para o meu marido antes que ele venha me procurar. Nós não nos desgrudamos um do outro quando estamos juntos. Andrew assente, ainda me observando. — Foi um prazer, Carol Ann. — O prazer foi meu. Eu me afasto, passando por ele sem pressa. Sentindo o olhar dele nas minhas costas. E, quando finalmente me junto novamente ao resto do salão… eu sorrio. Porque o primeiro golpe foi dado, e eu prcisava sentir isso. Precisava saber que era capaz de ser alguma coisa além da mulher traída, e quase morta. Encontro Joseph conversando com alguém. Quando ele me olha, seu olhar vai para atrás de mim. Eu me viro e vejo Andrew nos observando. Dou um sorriso educado e forçado para ele. — Ele foi atrás de mim, no toalete. — revelo. O olhar de Joseph escurece. — Então é de fato um canalha. A esposa grávida e ele persegue outra mulher. — Eu nem imaginava que ele era assim... — comento. Joseph passa a mão no meu rosto, como se quisesse me consolar. — Não pense nisso. Foco no nosso plano. Ele já caiu na nossa armadilha. Eu assinto, com um sorriso. E percebo que Andrew ainda nos observa, agora ao lado de Estelle, que está com a cara amarrada. Mais tarde, antes de irmos embora, encontramos Estelle ao lado do carro, sozinha. Ela procura por Andrew, agitada. — Está tudo bem? — pergunto. — Sim... — responde ela, sem muita convicção. — É só que meu... marido esqueceu algo, mas está demorando. — Posso procurar por ele, se quiser. — Joseph diz. — Faria isso? — pergunta ela, quase satisfeita. — Estou muito cansada e quero ir para casa. Joseph assente, e vai atrás de Andrew, enquanto Estelle e eu ficamos à sós. É estranho estar ao lado da mulher, que foi amante do meu marido, agora, esposa. Tive muitos sentimentos negativos por ela, mas sempre acreditei que também foi uma vítima de Andrew. — Quantos meses? — pergunto, olhando para a barriga dela. — Seis. — responde, suspirando. — Não sabia que me deixaria tão cansada e com os pés inchados. — Já sabe o sexo? — Menino. Andrew sempre dizia que queria ter um menino, e até escolheu alguns nomes. — Já escolheram o nome? Ela olha para mim, e sorri. Um sorriso leve, cansado, e quem sabe, não muito sincero. — Calvin. Era o nome que eu havia escolhido. O segundo nome do meu pai. Andrew, seu... A raiva sobe, de forma latente. Quase não consigo controlar. — Soube que a primeira esposa de Andrew... morreu. — comento. O olhar de Estelle muda. Ela engole em seco, com as palavras entaladas na garganta. — É... sim, ela... ficou desaparecida. Ninguém sabe o... que aconteceu. Algo me passa pela cabeça no mesmo instante em que ela gagueja: E se ela viu tudo?Joseph Cinco anos. Aprendi que o tempo não faz barulho quando passa. Ele não bate à porta, não avisa que chegou nem pede licença para mudar tudo de lugar. Apenas acontece. Quando percebemos, as crianças já não cabem mais no colo como antes, a casa ganha marcas de lápis de cor nas paredes, brinquedos aparecem nos lugares mais improváveis e o silêncio deixa de ser uma necessidade para se tornar uma raridade. Hoje entendo que o silêncio nunca foi sinônimo de paz. Paz é outra coisa. É Connor e Claire Grace discutindo seriamente sobre quem encontrou primeiro um sapo no jardim. É Melinda rindo da discussão enquanto finge ser uma juíza imparcial. É Moira reclamando porque os dois resolveram entrar em casa com os pés cobertos de terra. É eu desistindo de manter qualquer ordem por mais de quinze minutos. Connor herdou a minha curiosidade. Infelizmente. Faz perguntas difíceis antes mesmo do café da manhã. Quer saber como funcionam aviões, por que o céu muda de cor, quem inventou o d
Melinda Quatro anos. Às vezes penso nisso e dou risada sozinha. Porque, se alguém tivesse me contado tudo o que aconteceria antes de eu assinar aquele contrato, eu teria chamado a pessoa de maluca. Hoje, enquanto observo duas crianças correndo descalças pelo jardim, penso que a vida nunca pediu licença para mudar a minha. Ela simplesmente entrou, bagunçou tudo o que eu acreditava controlar e, no meio do caos, me entregou exatamente aquilo que eu nem sabia que procurava. — Mamãe! Olha! Connor atravessa o gramado correndo atrás da irmã, enquanto Claire Grace ri tão alto que o som parece contagiar até os passarinhos nas árvores. Ela tropeça na própria pressa, cai sentada na grama e começa a rir ainda mais. Antes que eu consiga levantar, Joseph já chegou até ela. Ele a pega no colo com todo o cuidado do mundo. — Machucou? Claire balança a cabeça negativamente e segura o rosto dele com as duas mãozinhas. — De novo! Eu quero de novo. Joseph olha para mim. — Ela
Joseph Rosie permaneceu internada por mais alguns dias. Os médicos preferiram observá-la com cuidado por causa do infarto. A febre desapareceu rapidamente, os exames começaram a melhorar e, pouco a pouco, a cor voltou ao rosto dela. Mesmo assim, eu passava no hospital todos os dias, às vezes duas vezes por dia, antes de ir para a SouthLine ou depois de sair de lá. Acabei criando uma pequena tradição. Sempre chegava com flores. No primeiro dia levei lírios. Depois vieram margaridas, tulipas, orquídeas e, quando comecei a ficar sem ideias, deixei que a florista escolhesse por mim. Rosie ria toda vez. — Você vai acabar falindo essa floricultura. — Ainda sai mais barato do que deixá-la sozinha. Ela balançava a cabeça, divertida. — Você exagera tanto... — Eu prefiro exagerar a repetir o susto. Dessa vez ela não respondeu. Seu sorriso diminuía sempre que lembrávamos daquela madrugada. O infarto serviu de alerta para todos nós. Principalmente para mim. Passei tempo
Joseph Acordei antes mesmo de abrir os olhos. Foi uma sensação estranha. Aquele tipo de inquietação que não faz barulho, mas empurra a gente para fora da cama sem qualquer explicação lógica. Permaneci deitado por alguns segundos, encarando a escuridão do quarto enquanto tentava convencer meu cérebro de que era apenas mais uma noite mal dormida. Não consegui. Olhei para o lado. Melinda dormia profundamente, abraçada ao travesseiro de gestante. Os gêmeos já deixavam sua barriga tão grande que ela precisava mudar de posição várias vezes durante a noite. Afastei uma mecha do cabelo dela do rosto e me levantei devagar para não acordá-la. Desci as escadas em silêncio. A casa inteira permanecia mergulhada naquela calma da madrugada. Fui até a cozinha, peguei um copo de água e fiquei alguns instantes encostado na bancada, tentando entender por que meu peito continuava apertado. Nada fazia sentido. Mesmo assim, antes de voltar para o quarto, meus pés mudaram de direção sozinhos.
Joseph Os dias passaram com uma tranquilidade que eu já estava começando a me reacostumar, sem sentir culpa, porque as coisas pareciam estar em seus devidos lugares. Rosie iniciou as consultas com a doutora Olivia Bennett exatamente na semana seguinte. Ao mesmo tempo, continuava frequentando o ortopedista e fazendo fisioterapia algumas vezes durante a semana. A recuperação da perna seguia dentro do esperado, embora ela ainda dependesse da cadeira de rodas na maior parte do tempo e reclamasse discretamente quando precisava da ajuda de alguém para as tarefas mais simples. Ela odiava depender dos outros. Isso ficava evidente em cada pedido de desculpas que fazia antes mesmo de pedir um copo d'água. Melinda, por outro lado, parecia ter encontrado uma nova missão. Sempre que Rosie tinha consulta ou fisioterapia, fazia questão de acompanhá-la. Dizia que ficar trancada em casa a deixava impaciente e que caminhar um pouco — dentro dos limites impostos pela médica — fazia bem para e
Joseph Voltei para casa já no fim da tarde, com o cartão da doutora Olivia Bennett guardado no bolso, e a cabeça pesada pelas conversas daquele dia. Durante todo o trajeto, permaneci em silêncio. O rádio ficou desligado. Eu precisava organizar os próprios pensamentos antes de voltar para casa. Nos últimos meses, minha vida havia se transformado numa sucessão de problemas que exigiam soluções imediatas. Era como tentar impedir que um barco afundasse enquanto novas rachaduras apareciam no casco. Assim que entrei, encontrei a casa mergulhada numa tranquilidade. Subi as escadas devagar e abri a porta do quarto sem fazer barulho. Melinda dormia profundamente. Estava deitada de lado, abraçada a um travesseiro comprido que a ajudava a acomodar a barriga já enorme. Os cabelos claros espalhavam-se pelo travesseiro, e a respiração tranquila fez meu peito aliviar instantaneamente. Aproximei-me apenas para afastar uma mecha que caía sobre seu rosto. Ela nem sequer se mexeu. Sorri sozinho







