ANMELDENA noite sempre era a pior parte do dia. Enquanto o sol permanecia no céu, Valentina conseguia se esconder atrás da Dama da Itália. Reuniões, decisões, ordens… tudo isso mantinha sua mente ocupada. Mas, quando a noite chegava, só restava o silêncio. Naquela noite, fez algo que não fazia desde o funeral. Pegou uma pistola da gaveta do escritório, colocou-a na cintura e saiu da mansão sem avisar ninguém. Entrou no carro e dirigiu sozinha pelas ruas iluminadas de Roma. Não precisou colocar o endereço no GPS. Sabia o caminho de cor. Alguns minutos depois, estacionou diante do apartamento. O apartamento deles. Subiu sem pressa, abriu a porta e entrou naquele lugar. Nada havia mudado. O perfume dele ainda parecia impregnado no ambiente. Os livros continuavam na estante, o relógio permanecia sobre a mesa e até a xícara esquecida na cozinha continuava onde Dominic a deixara. Valentina caminhou lentamente até o quarto. Abriu o guarda-roupa, passou a mão pelas roupas, escolheu uma camisa so
Cinco longas horas se passaram.Para qualquer outra pessoa, aquele tempo poderia parecer insignificante.Para Valentina, cada minuto pesava como uma eternidade.Ela permanecia no escritório desde o início da manhã. Nenhum documento havia sido assinado. Nenhuma reunião fora marcada. Pela primeira vez em dias, tudo o que fazia era esperar.Esperar que Marcelo cometesse o primeiro erro.Sobre a mesa, o copo de whisky permanecia praticamente intocado. Do outro lado da sala, a televisão ligada transmitia a programação jornalística enquanto Gisele permanecia em silêncio, respeitando a concentração da chefe.Então, a voz do apresentador interrompeu a tranquilidade do ambiente.— Entramos agora com uma notícia de última hora.Valentina ergueu lentamente os olhos.A imagem mudou para um galpão cercado por dezenas de viaturas. Policiais fortemente armados circulavam pelo local enquanto agentes retiravam caixas lacradas e pacotes de entorpecentes.O repórter continuou:— Na manhã de hoje, uma op
Valentina não conseguiu dormir. Mais uma vez, passou a noite inteira entre relatórios espalhados pela cama, lembranças insistentes e um silêncio que parecia pesar sobre seus ombros. Por volta das cinco da manhã, desistiu de lutar contra a insônia e caminhou até a varanda do quarto. O quarto que um dia pertencera a Dominic agora também era dela. Ainda assim, cada detalhe parecia se recusar a aceitar sua ausência. A disposição dos móveis permanecia exatamente a mesma, algumas roupas continuavam organizadas no closet como ele havia deixado, e um perfume suave ainda parecia impregnado no ambiente, tornando impossível esquecer quem costumava viver ali. O céu começava a ganhar os primeiros tons dourados do amanhecer quando um movimento no jardim chamou sua atenção. Valentina apoiou os braços no corrimão e voltou o olhar para a pequena casa construída um pouco afastada da mansão, onde Victor morava. A porta se abriu. Mariana saiu alguns segundos depois. Os cabelos estavam levemen
A reunião havia terminado há algumas horas, mas o clima na mansão continuava pesado. Homens circulavam pelos corredores. Ordens eram dadas. Planos eram traçados. E, pela primeira vez desde a morte de Dominic, Valentina parecia ter assumido completamente o comando. Mariana observava tudo da varanda do segundo andar. A vista era bonita. Mas não era aquilo que prendia sua atenção. Era o homem parado no jardim. Victor. Ele conversava com alguns seguranças enquanto analisava documentos em um tablet. Sempre sério. Sempre atento. Sempre trabalhando. Mariana suspirou. — Você está encarando ele de novo. A voz de Gisele surgiu atrás dela. Mariana quase se assustou. — Eu não estava encarando. — Estava sim. Gisele sorriu. — E ele também olha. Mariana revirou os olhos. — Impossível. — Claro. — Ele nem gosta de mim. — Isso explica porque quase arrancou a cabeça de um segurança ontem quando você saiu sem avisar. Mariana ficou em silêncio. Gisele apenas sorriu e foi embor
Valentina entrou no carro sem dizer uma palavra. O silêncio dentro do veículo era pesado, quase sufocante. Rafael entrou logo atrás, ocupando o banco ao lado dela, enquanto Gisele assumia o lugar da frente.Por alguns segundos, ninguém falou.A cidade passava pela janela, mas Valentina mal percebia.A dor continuava ali.Presente.Viva.Mas agora ela tinha um lugar diferente dentro dela.Não era mais luto.Era combustível.— Marque uma reunião. — disse por fim.Rafael virou o rosto.— Com quem?— Todos os chefes dos territórios.O olhar dela permaneceu fixo à frente.— Algumas coisas vão mudar a partir de agora.Rafael assentiu imediatamente.— Será feito.Os dois dias seguintes passaram como um borrão.Valentina quase não dormiu.Passava horas trancada no escritório, cercada por documentos, mapas, relatórios e nomes. A cada informação recebida, uma nova peça era encaixada naquele tabuleiro que agora pertencia a ela.Na segunda noite, o escritório permanecia iluminado apenas pelas luz
O carro atravessava a cidade em silêncio enquanto as luzes noturnas refletiam nos vidros escuros. Do lado de fora, a Itália continuava viva — pessoas andando pelas ruas, bares abertos, buzinas ao longe — como se o mundo não tivesse acabado algumas horas antes. Mas, para Valentina… tinha acabado. Ela permanecia no banco traseiro ao lado de Gisele, o olhar perdido pela janela enquanto o corpo finalmente começava a sentir o peso de tudo que tinha acontecido naquela noite. Daniel. A explosão. O sangue. Dominic. O nome dele parecia ecoar dentro dela sem parar. Então, depois de longos minutos em silêncio, Valentina finalmente falou: — Me leva pra cobertura dele. Gisele virou imediatamente o rosto. — Senhora… talvez seja melhor voltar pra mansão. — Não foi um pedido. A voz saiu baixa. Cansada. Mas firme o suficiente para encerrar qualquer discussão. Gisele permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de assentir para o motorista. O carro mudou de direção. Durante o res







