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Capítulo 4 — A noite em que ele me levou para casa

Author: Eva Belmont
last update publish date: 2026-10-05 21:40:32

O carro atravessou as ruas da cidade em silêncio.

Valéria permanecia ao lado de Lorenzo, olhando pela janela enquanto as luzes dos prédios passavam rapidamente pelo vidro. Ela tentava organizar tudo o que havia acontecido naquela noite, mas cada lembrança parecia trazer uma pergunta diferente.

O jantar que deveria ter sido apenas uma conversa havia terminado com homens observando o restaurante, uma mensagem confirmando que ela era o alvo e a certeza de que o mundo do pai era muito mais perigoso do que imaginara.

Ainda assim, o que mais ocupava seus pensamentos era Lorenzo.

A maneira como ele havia permanecido calmo diante da ameaça, a forma como segurara sua mão e, principalmente, a maneira como deixara claro que não pretendia decidir o futuro dela.

— Para onde estamos indo? — perguntou depois de alguns minutos.

— Para minha casa. É o lugar mais seguro que tenho nesta cidade.

Valéria virou o rosto para ele.

— Eu entendo que você queira me proteger, mas não sei se me sinto confortável entrando na sua casa no meio da noite. Nós nos conhecemos há pouco tempo, Lorenzo.

Um sorriso discreto apareceu no rosto dele.

— Essa é uma preocupação bastante sensata. Se eu estivesse no seu lugar, provavelmente pensaria exatamente a mesma coisa.

— Então por que está sorrindo?

— Porque, depois de tudo o que aconteceu hoje, você ainda consegue pensar com clareza. Isso é uma qualidade que eu admiro.

Valéria voltou a olhar pela janela.

— Estou tentando não perder a cabeça.

— E está conseguindo.

O carro deixou as avenidas movimentadas e entrou em uma região mais tranquila da cidade. Poucos minutos depois, os prédios deram lugar a casas grandes, muros altos e ruas quase vazias.

Valéria observava a paisagem quando percebeu que o motorista havia reduzido a velocidade.

Lorenzo também percebeu.

Ele olhou pelo retrovisor.

— Quanto tempo falta para chegarmos? — perguntou.

— Cerca de dois minutos.

Lorenzo não respondeu.

Seus olhos permaneceram no espelho por alguns segundos.

Valéria percebeu a mudança em sua expressão.

— O que aconteceu?

— Ainda não sei.

Ele pegou o telefone.

— Avise o portão para não abrir até eu autorizar.

O motorista imediatamente fez uma ligação.

Valéria se endireitou no banco.

— Você acha que alguém nos seguiu?

— Existe uma possibilidade.

— Como você sabe?

— O mesmo sedã preto que estava próximo ao restaurante apareceu duas vezes no trajeto.

Valéria sentiu o estômago apertar.

— Você tem certeza de que é o mesmo?

— A placa não é igual. O carro também não.

Ela franziu a testa.

— Então por que está preocupado?

Lorenzo voltou os olhos para ela.

— Porque alguém que quer acompanhar um carro sem ser identificado não precisa usar o mesmo veículo.

Valéria ficou em silêncio.

O medo voltou a crescer.

Lorenzo percebeu.

— Não quero que você entre em pânico. Estamos quase chegando e minha segurança já foi avisada.

Ela tentou respirar normalmente.

— Você fala como se isso acontecesse todos os dias.

— Para mim, infelizmente, certas precauções fazem parte da rotina.

— E eu deveria me acostumar com isso?

— Não.

Lorenzo segurou a mão dela.

— Você não deveria precisar se acostumar com perigo nenhum.

O carro virou uma esquina e, finalmente, os portões da propriedade apareceram ao longe.

Valéria esperava sentir alívio.

Não sentiu.

Havia dois homens armados junto à entrada, e outros dois estavam posicionados mais adiante. Assim que o carro se aproximou, um deles levantou a mão.

O portão não abriu.

Lorenzo ficou imediatamente alerta.

— Por que o portão está fechado? — perguntou.

O motorista não respondeu.

Um dos seguranças aproximou-se do carro, mas não abriu a porta.

Inclinou-se diante da janela e falou algumas palavras com o motorista.

Lorenzo baixou o vidro.

— O que aconteceu?

— Encontramos marcas de pneus perto da estrada lateral. Alguém esteve observando a propriedade.

O rosto de Lorenzo endureceu.

— Quando?

— Não sabemos. A equipe percebeu quando voltou da ronda.

Valéria ouviu a conversa e sentiu o corpo ficar rígido.

— Eles estiveram aqui?

O segurança olhou rapidamente para Lorenzo antes de responder.

— Ainda não podemos afirmar isso.

Lorenzo fechou o vidro.

— Mantenha todos os acessos fechados e verifique as câmeras das últimas três horas.

— Sim, senhor.

O homem se afastou.

Valéria olhou para Lorenzo.

— Eles podem ter vindo até sua casa?

— Podem.

— E você ainda acha que aqui é o lugar mais seguro?

Ele segurou o rosto dela com delicadeza.

— Justamente por isso.

Ela ficou olhando para ele.

— Como isso pode ser mais seguro se eles já sabem onde você mora?

— Porque aqui eu sei quem está entrando, quem está saindo e quem está protegendo cada acesso. Na rua, eu não tenho esse controle.

Valéria respirou fundo.

O portão finalmente começou a abrir.

O carro entrou lentamente.

Mas, antes que fechasse novamente, um dos seguranças levou a mão ao rádio.

— Senhor, temos movimento na estrada.

Lorenzo imediatamente olhou para trás.

Valéria também.

Um veículo escuro estava parado a uma distância considerável da propriedade.

Não se aproximava.

Também não ia embora.

— É aquele carro? — ela perguntou.

Lorenzo estreitou os olhos.

— Não sei.

— O que vamos fazer?

— Entrar.

— E se forem eles?

Lorenzo olhou para ela.

— Então cometeram um erro ao parar onde eu posso vê-los.

O portão começou a fechar.

Valéria segurou o braço dele.

— Você está realmente tranquilo?

Lorenzo cobriu a mão dela com a sua.

— Não estou tranquilo. Estou preparado.

A diferença entre as duas coisas fez Valéria respirar um pouco melhor.

O carro estacionou diante da casa.

Lorenzo saiu primeiro e imediatamente estendeu a mão para ela.

Valéria desceu.

Ao redor deles, os homens de segurança permaneceram atentos. Não havia correria, gritos ou armas apontadas para todos os lados. O controle era silencioso e organizado.

Aquilo dizia muito mais sobre Lorenzo do que qualquer história que ela tivesse ouvido sobre ele.

Ele não precisava demonstrar força.

As pessoas simplesmente obedeciam.

Quando começaram a caminhar para a entrada, Valéria ouviu o som de um telefone.

Um dos homens de Lorenzo atendeu e falou por alguns segundos.

Depois caminhou até ele.

— Senhor, encontramos uma câmera escondida na árvore próxima à estrada lateral.

Lorenzo parou.

Valéria sentiu o sangue gelar.

— Uma câmera?

— Sim. Pequena. Estava apontada para o portão.

Lorenzo ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Está funcionando?

— Estava.

Valéria apertou o braço dele.

— Então eles sabem que eu entrei.

Lorenzo virou-se para ela.

— Provavelmente.

Ela respirou fundo.

— Eu queria poder dizer que isso não me assusta, mas seria mentira.

Lorenzo segurou sua mão.

— Não vou pedir que você finja coragem.

— E o que você vai fazer?

— Garantir que você tenha uma noite tranquila, mesmo que eu precise passar a madrugada inteira acordado.

Valéria sentiu uma emoção inesperada.

— Você não precisa fazer isso sozinho.

Ele a encarou.

— Eu sei.

— Então me conte o que está acontecendo.

Lorenzo ficou alguns segundos em silêncio.

— Alguém queria confirmar se você estava comigo. Agora já sabe.

— E isso muda alguma coisa?

— Muda.

Ele entrelaçou os dedos aos dela.

— Agora eles também sabem que você está sob a minha proteção.

Valéria sustentou o olhar dele.

— Isso significa que estou mais segura ou que me tornei um alvo maior?

Lorenzo respondeu sem hesitar:

— As duas coisas.

Ela soltou uma respiração trêmula.

— Pelo menos você não mente para mim.

— Nunca sobre algo que possa colocar você em perigo.

Eles entraram na casa.

Lorenzo fechou a porta atrás deles, mas não soltou a mão dela.

Valéria percebeu que ainda estava tremendo.

Ele passou o polegar sobre seus dedos.

— Você está gelada.

— Estou tentando não demonstrar.

— Não precisa esconder isso de mim.

Ela ergueu os olhos.

— Eu nunca imaginei que minha vida pudesse mudar tanto em dois dias.

Lorenzo aproximou-se.

— Eu sei.

— E ainda assim, quando estou ao seu lado, parece que consigo respirar melhor.

Ele ficou em silêncio.

Valéria percebeu a intensidade com que ele a observava.

— Isso também é perigoso?

Lorenzo tocou delicadamente seu rosto.

— Provavelmente é a coisa mais perigosa desta noite.

Ela sorriu de leve.

— Porque você não consegue me proteger disso?

— Porque talvez eu não queira.

Valéria sentiu o coração acelerar.

Lorenzo se aproximou, mas parou antes de beijá-la.

— Agora você precisa descansar.

— E você?

— Vou verificar a segurança da casa.

— Você prometeu não decidir por mim.

Ele sorriu.

— Isso não é uma decisão sobre você. É apenas a minha maneira de garantir que amanhã você ainda tenha a liberdade de escolher o que quer fazer.

Valéria segurou a mão dele.

— Então volte.

Lorenzo ficou imóvel.

— O quê?

— Quando terminar, volte. Eu não quero ficar sozinha esta noite.

O olhar dele suavizou.

— Eu volto.

Ela soltou sua mão e subiu as escadas.

No meio do corredor, olhou para trás.

Lorenzo continuava parado na entrada, observando-a.

Naquela noite, Valéria finalmente compreendeu que o perigo havia atravessado a porta junto com ela.

Mas também compreendeu outra coisa.

Pela primeira vez desde a morte do pai, havia alguém ao seu lado que não queria controlar sua vida.

Lorenzo queria apenas garantir que ela tivesse a chance de vivê-la.

E, enquanto fechava a porta do quarto, Valéria percebeu que começava a desejar que ele fizesse parte dessa vida.

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