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Capítulo 3 — O homem que veio me proteger

Author: Eva Belmont
last update publish date: 2026-10-05 21:37:44

Valéria continuou olhando para a mensagem no celular de Lorenzo, tentando convencer a si mesma de que havia entendido errado.

“Ela está com ele.”

Eram apenas quatro palavras, mas foram suficientes para transformar completamente a atmosfera ao redor dela. Até poucos minutos antes, Valéria estava sentada diante de Lorenzo, tentando descobrir se a atração que começava a sentir por ele era apenas uma consequência da dor deixada por Gabriel. Agora, havia homens do lado de fora procurando saber onde ela estava.

O restaurante continuava funcionando normalmente. Os talheres batiam contra os pratos, os clientes conversavam e uma mulher ria perto do bar. Tudo permanecia exatamente como antes, como se nada tivesse acontecido.

Aquilo assustou Valéria mais do que o silêncio.

Como alguém podia estar procurando por ela enquanto o restante do mundo continuava vivendo uma noite comum?

— Eles sabem que estou aqui — murmurou.

Lorenzo não tentou esconder a verdade.

— Sim.

Ela levantou os olhos.

— E sabem que estou com você?

— Agora sabem.

Valéria respirou fundo, mas sentiu o ar prender no peito. Olhou para a porta da sala e, pela primeira vez, percebeu que uma simples porta de madeira não parecia suficiente para separá-la das pessoas que poderiam estar esperando do outro lado.

— Eles podem entrar?

— Podem tentar, mas não vão chegar até você.

— Eu quero ir embora.

Lorenzo segurou sua mão.

— Nós vamos sair daqui assim que minha equipe confirmar que o caminho está seguro.

— Eu quero sair agora.

A voz de Valéria falhou. Ela fechou os olhos e tentou recuperar o controle, mas o medo já havia atravessado a barreira que vinha mantendo desde que recebera a mensagem.

— Eu não consigo fazer isso.

Lorenzo se aproximou.

— Você não precisa fingir que está tudo bem.

Valéria abriu os olhos e encontrou os dele.

— É exatamente isso que você está esperando de mim.

— Não estou.

A resposta veio sem hesitação.

— Então o que espera?

— Que seja sincera sobre o que está sentindo.

Ela soltou uma risada nervosa, sem qualquer humor.

— Estou com medo.

Dizer aquilo em voz alta pareceu tornar tudo mais real.

— Passei anos acreditando que meu maior problema era um casamento que não deu certo. Ontem descobri que meu pai escondeu uma parte inteira da vida dele. Hoje descobri que você está envolvido com pessoas que podem estar atrás de mim e, agora, alguém sabe exatamente onde estou. Não consigo simplesmente sentar aqui e fingir que isso é normal.

Lorenzo permaneceu diante dela, sem tentar interrompê-la.

— Eu não espero que você considere isso normal.

Valéria sentiu os olhos arderem.

— Então por que parece tão tranquilo?

— Porque eu já vivi situações assim antes.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Provavelmente não.

Ela passou a mão pelo rosto, tentando conter as lágrimas.

— Eu odeio não saber quem está atrás de mim. Odeio descobrir que meu pai tinha inimigos que eu nunca conheci e odeio precisar confiar em alguém que conheci há tão pouco tempo.

Lorenzo permaneceu em silêncio até que ela terminasse.

— E o pior é que estou confiando em você mesmo assim.

A expressão dele mudou.

Lorenzo levantou a mão e tocou delicadamente o rosto dela.

— Então não confie em uma promessa. Confie naquilo que consegue ver.

Valéria o encarou.

— E o que eu consigo ver?

— Que eu estou aqui e que não vou tomar nenhuma decisão por você.

A emoção apertou sua garganta.

— Quando meu pai morreu, eu pensei que tinha perdido a única pessoa que realmente me protegeria. Depois descobri que ele havia deixado você responsável por preservar os negócios que herdou. Agora descubro que você também precisa me proteger de pessoas que eu nem conheço.

— Seu pai não me deixou responsável por você — corrigiu Lorenzo com suavidade. — Ele me pediu para preservar seu direito de escolher.

Valéria abaixou os olhos.

— Eu sei.

— E isso inclui a possibilidade de você decidir que não quer permanecer nesse mundo.

Ela voltou a encará-lo.

— Se eu escolher fugir, você realmente vai me ajudar?

— Vou.

— Mesmo que isso signifique perder sua participação na empresa?

— Sim.

— E se eu escolher ficar?

Lorenzo aproximou-se um pouco mais.

— Então vou garantir que ninguém obrigue você a assumir algo contra sua vontade.

Valéria ficou alguns segundos em silêncio.

— Você fala como se tudo fosse simples.

— Não é simples. Eu só não quero que você confunda proteção com controle.

Aquelas palavras fizeram Valéria respirar mais devagar.

Era justamente isso que a assustava. Desde que descobrira a existência daquele mundo, todos pareciam querer decidir o que ela deveria fazer. Lorenzo era o primeiro homem que lhe dizia que ela ainda tinha o direito de escolher.

— E se eu não estiver preparada para nenhuma das duas opções?

— Então não precisa escolher hoje.

Ele segurou a mão dela.

— Meu trabalho é garantir que você tenha tempo suficiente para decidir.

Valéria olhou para os dedos entrelaçados aos dele.

— E se eles vierem atrás de mim?

A expressão de Lorenzo endureceu.

— Então vão descobrir que você não está sozinha.

— Você fala com muita certeza.

— Porque conheço o tipo de homem que está procurando por você.

Valéria sentiu um novo arrepio.

— O que eles podem fazer?

Lorenzo demorou alguns segundos antes de responder.

— Podem tentar assustá-la para conseguir alguma coisa que pertence à sua família. Podem tentar usar sua falta de experiência contra você. E podem tentar convencê-la de que não existe outra alternativa além de entregar o controle.

— E se eu me recusar?

— Eu vou estar ao seu lado.

— E se forem muitos?

— Minha equipe também estará.

Valéria estudou o rosto dele.

Havia uma segurança naquela resposta que ela não conseguia ignorar. Lorenzo não estava tentando convencê-la de que o perigo não existia. Ele estava dizendo que, mesmo existindo, ela não precisaria enfrentá-lo sozinha.

— Você está com medo? — ele perguntou.

Valéria demorou a responder.

— Estou com medo do que pode acontecer com a minha vida.

Ela respirou fundo.

— Mas não de você.

Lorenzo ficou imóvel.

— Isso é importante para mim.

Valéria sentiu o coração apertar.

— Por quê?

Ele segurou o rosto dela com as duas mãos.

— Porque a última coisa que quero é que você permaneça perto de mim por medo.

Ela sustentou o olhar dele.

— Então por que você quer que eu fique?

Lorenzo demorou alguns segundos antes de responder.

— Porque, quando estou com você, não estou pensando na promessa que fiz ao seu pai. Estou pensando no que eu quero.

Valéria sentiu o coração acelerar.

— E o que você quer?

Os olhos dele permaneceram presos aos dela.

— Quero descobrir até onde isso entre nós pode chegar.

O medo não desapareceu, mas algo dentro dela se transformou.

Ela ainda não conhecia o mundo de Lorenzo. Não entendia os homens que estavam procurando por ela e não sabia quanto de sua vida mudaria depois daquela noite. Porém, pela primeira vez, percebeu que havia uma diferença entre estar protegida e estar presa.

Lorenzo estava oferecendo proteção sem exigir que ela entregasse a própria liberdade.

Uma batida soou na porta.

Ele imediatamente voltou a atenção para o corredor.

— A saída está segura.

Lorenzo estendeu a mão.

Valéria olhou para ela por um instante antes de aceitá-la.

— Vamos.

Eles deixaram a sala juntos.

Enquanto caminhavam pelo corredor reservado, Valéria ainda sentia o medo apertando seu peito, mas agora conseguia respirar melhor. Não porque acreditasse que o perigo havia desaparecido, e sim porque começava a acreditar que poderia enfrentá-lo sem perder a própria identidade.

Quando chegaram ao carro, Lorenzo abriu a porta para ela.

Valéria entrou, mas antes que ele fechasse a porta, segurou seu braço.

— Lorenzo.

Ele se inclinou.

— O que foi?

Ela hesitou.

— Se meu pai realmente queria que eu tivesse liberdade para escolher, então não quero que você fique comigo apenas porque prometeu a ele.

O olhar de Lorenzo ficou mais intenso.

— Eu já disse que essa parte não depende mais da promessa.

— Então depende de quê?

Ele aproximou-se o suficiente para que a resposta fosse apenas dela.

— De você.

Valéria soltou o braço dele devagar.

Quando Lorenzo entrou no carro e sentou ao seu lado, ela percebeu que ainda estava assustada.

Mas também percebeu que, pela primeira vez desde a traição de Gabriel, havia alguém ao seu lado que não estava tentando decidir seu destino.

E talvez fosse justamente por isso que, apesar de tudo o que ainda a assustava, Valéria começava a desejar que Lorenzo permanecesse ao seu lado.

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